segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Papai Noel é para sempre

Há cerca de um ano o Antônio fez a pergunta que, cedo ou tarde, toda criança faz.
- Mãe, Papai Noel existe?
- Não, Antônio. Papai Noel é uma lenda - respondi, seguindo minha convicção de que não se mente para crianças.
- E o Coelhinho da Páscoa?
- Também não, meu filho.
A reação do Antônio me surpreendeu. Em vez de estar pronto para a decepção, como sua curiosidade sugeria, ele ficou muito revoltado com a realidade. Tão revoltado que o aconselhei a ignorar minha resposta.
- Antônio, você ainda quer acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa?
- Sim - disse ele, com os olhos vermelhos.
- Então, filho, Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa continuam a existir para você. É só você querer e acreditar que eles vão existir - disse, certa de que era o que ele precisava ouvir para se apaziguar com a vida e suas fantasias.
Seu desejo era tamanho que, imediatamente, se reconciliou com a fantasia. Voltou a tratar Papai Noel e o Coelhinho como personagens reais e, agora, às vésperas de mais um Natal, ele, já com quase sete anos, faz planos que incluem a generosidade do bom velinho. Planos que dão como certa sua existência, tão certa que pressupõem uma comunicação direta com o Polo Norte, que dispensa intermediários, como os correios ou, mesmo, os pais para fazer chegar a Papai Noel seu pedido de Natal.
Assim teria sido, não fosse a intervenção salvadora do Pedro, o irmão, que com quase 12 anos, enterneceu-se com a ingenuidade do pequeno. Ao saber do pedido, quase secreto, ao Papai Noel, resolveu me contar para, assim, garantir a chegada do presente do irmão.
- Mãe, o Antônio disse que pediu um presente para você e o papai e um para o Papai  Noel. Ele não sabe que são vocês que compram o presente do Papai Noel - disse, entre divertido e preocupado com o que aconteceria com os pedidos do irmão.
Avisada, orientei o Pedro a escrever com o Antônio uma cartinha para o Papai Noel e, depois, me entregá-la para que eu soubesse o que ele queria de presente. Assim que a carta me chegou, prometi colocá-la ao lado da árvore de Natal para que um duende pudesse pegá-la, durante a madrugada, e levá-la para o Polo Norte.
A estratégia deu tão certo que Papai Noel já entregou o presente dos dois, para que eu os esconda até a noite de Natal. E o que é melhor, garantiu a crença de meu pequeno na magia do Papai Noel.
Uma experiência tão encantadora para o Antônio, quanto a do menino criado por Chris van Allsburg, em O Expresso Polar, editado pela Editora Nova Fronteira. O personagem de Allsburg, que sonhava em ganhar um dos guizos de prata das renas de Papai Noel, quando tem seu pedido atendido, percebe que só ele e seus amigos eram capazes de ouvir o tilintar  do guizo. Tilintar que ressoa em seus ouvidos até hoje e "nos de todos aqueles que realmente acreditam". O Antônio, que ouviu atento a história, é um dos que pode ouvi-lo. Que possa fazer parte deste grupo privilegiado, até quando seu coração quiser.

sábado, 23 de novembro de 2013

Uma floresta com as cores do imaginário popular

Eu amo a delicadeza das aquarelas de Cárcamo. Amo tanto que não pensei duas vezes em levar para casa A contagem dos sacis, de Monteiro Lobato, editado pela Globinho, para ler para os meninos. Nós já tínhamos lido O Saci e a história foi um sucesso, deixando aquele gostinho de quero mais, comum quando terminamos um livro que amamos. O mesmo gostinho, tenho certeza, que as crianças que leram o livro na época de sua publicação, em 1921, experimentaram e que animou Monteiro Lobato a escrever uma continuação da história. As séries que dão continuidade a uma história de sucesso não são uma invenção da indústria do cinema. Os escritores, aqueles que viviam de escrever, antes mesmo de Hollywood, já haviam sacado esta possibilidade. Pois bem, Lobato que, além de escritor, era um editor em busca de boas possibilidades, fez a sua continuação com a história do encontro de Pedrinho e o Saci para uma coleção que seria publicada, em 1947, em Buenos Aires, onde seus livros eram um sucesso. A professora Marisa Lajolo, especialista em Lobato, nos explica no prefácio, que a história que faz parte desta coleção e que ela ficou de fora das obras completas do autor, publicada no Brasil. Uma história que narra o início da amizade entre Pedrinho e o Saci e - como bem gostava Lobato - nos incita a um debate sobre o que é mais eficaz para garantir a obediência: a violência ou os valores morais. O debate ganhou o Pedro. Na hora, ele retrucou zombando da conclusão de Lobato de que "as cordas morais amarram mais do que todas as cordas físicas", mas a dúvida se instalou em sua cabeça. No dia seguinte, perguntou ao pai, como que para reunir mais argumentos: "Pai, o que tem mais poder: o medo ou a lealdade?". O Cadoca explicou que a lealdade é mais forte, já que não busca brechas, como o medo, para derrotar o outro. "Quem conquista pela lealdade, conquista. Quem conquista pelo medo, subjuga. E esta pessoa espera a primeira oportunidade para trair seu opressor." Ficou uma lição para o Pedro, mas mais do que tudo ficou uma boa história para seu repertório. Uma história que se enriqueceu ainda mais com as belíssimas ilustrações de Cárcamo, que fez do universo de Pedrinho e do Saci um ambiente sombrio e ao mesmo tempo colorido. Uma floresta dúbia, como criou Lobato, que ao mesmo tempo que assusta, guarda as cores vivas do imaginário popular. Quem ganha com o encontro de Lobato com Cárcamo são nossos filhos, que podem ler e ver a magia do folclore brasileiro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O lobo não quer só comida e a gente quer diversão e arte

O Pedro sabe bem que não há nada melhor do que uma história bem resolvida. Não basta uma bela narrativa ou um bom personagem. É preciso, antes de tudo, um enredo engenhoso, que se desdobre com coerência e originalidade. É isso que garante que a peteca - que o leitor vai equilibrando desde o início da história  - não vai cair em seu final. Um bom final cria aquela sensação mágica que faz tudo parecer possível nesta vida, até mesmo o maravilhoso. Esse encantamento é, com certeza, uma das graças da literatura para crianças e, por isso, não é fácil de ser alcançado. Muitos livros tentam e não chegam lá. Não é o caso de A fome do lobo, de Cláudia Maria de Vasconcellos, editado pela Iluminuras. A história bebe na tradição da oralidade, com um enredo que se desenrola aos poucos, abusando das repetições e de pequenos avanços até que, de uma hora para outra, tudo se encaixa para um desfecho surpreendente. Uma fórmula que prendeu a atenção do Pedro, encantado também com as belíssimas ilustrações de Odilon Moraes que só fazem engrandecer a história de Cláudia. Ele ouviu atento a todas as tentativas do lobo de comer um dos animais que encontrava pelo caminho. As saídas das vítimas, criativas, levavam a história novamente para seu início, adiando o final e deixando o Pedro ainda mais curioso. Uma curiosidade que só foi saciada no fim da narrativa e que não  fez sofrer o Antônio, que, antes mesmo da leitura, folheou o livro e se divertiu fingindo adivinhar o resultado de cada embate do lobo com suas presas. No início, eu até acreditei que ele estava desvendando o desenrolar da história, mas, ao fim, percebi a artimanha de meu pequeno leitor que, com a cara mais lavada do mundo, antecipava as derrotas do lobo. Derrotas que só faziam a fome do lobo e a nossa curiosidade aumentar. Ao fim, de barriga cheia o lobo nos deixou com a certeza de que sua fome não era só de comida e que a nossa, sem dúvida, era de diversão e arte.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Os encantos e as encrencas de uma princesa unissex

A vida anda corrida e cheia de novidades tanto em casa, como na rua - com empregada e trabalho novos, o que me têm exigido muito jogo de cintura para dar conta de tudo. O dia começa cedo, por volta de 6h30, com o despertador me tirando da cama, e se faz cumprir com soluções nem sempre desejadas, como ficar sem almoço, faltar a hidroginástica ou deixar para lá coisas de que gosto, como ler e escrever. Ao fim, por volta das 22h, ele termina na cabeceira da cama dos meninos, onde leio diariamente histórias por eles ou por mim escolhidas. Confesso que nem sempre faço isso porque quero. Já pensei muitas vezes em deixá-los dormir sozinhos, mas, como filho não desiste da gente, sento-me à cabeceira da cama e começo a contar histórias. As vezes, faço isso sem prazer, mas quase sempre a magia das narrativas me leva para um mundo em que eles, só eles, podem me guiar. Um mundo de delicadeza, de humor, de imaginação, de amor e de crença na vida e em suas possibilidades. São livros como Encantos e encrencas com a Branca de Neve, de Glaucia Lewiki, editado pela Gryphus e ilustrado por Sandra Ronca, que me fazem ter a certeza de que, mesmo cansada, doida para dar fim ao dia, vale a pena contar, contar e contar histórias para meus filhos. Nesta, três fadinhas são desafiadas por seu professor de magia a dizer o que aconteceria com a Branca de Neve se uma das personagens do conto clássico fosse uma fada.  Clara, Alegra e Bela são cheias de ideias, como qualquer criança, e dotadas de poderes maravilhosos, que as levam para o bosque dos Sete Anões onde vão interferir na história da princesa de pele branca como a neve. A narrativa de Glaucia garante mais do que originalidade em seu reconto de um conto clássico, garante a possibilidade de a criança sentir-se protagonista de uma história em que nada está previamente arrumado. Uma história em que surpresas aguardam os leitores, acostumados com a previsibilidade dos contos clássicos. Por outro lado, as soluções dadas pelas fadinhas continuam no universo do maravilhoso e, assim, diferenciam-se de muitos recontos contemporâneos que pretendem desconstruir o original. A Branca de Neve de Glaucia Lewiki continua sendo uma princesa em busca de um bom príncipe, mesmo que este príncipe seja um sapo. O humor e a imaginação da narrativa garantiram que o Antônio se mantivesse atento à história, esperando para saber que fim as fadas iriam dar à princesa. Uma princesa, é bom dizer, unissex. Glaucia se mantém fiel ao universo maravilho dos contos clássicos e, assim, foge da tentação do mercado de transformar sua Branca de Neve em protagonista dos sonhos românticos das meninas. Afinal, a imaginação não tem sexo e tão pouco idade.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Liberdade é escolher sem a pressão do vendedor

Estou há muito tempo planejando escrever sobre minha adesão à campanha a favor do Projeto de Lei 5921, que visa regular a publicidade infantil no país, que está em tramitação na Câmara dos Deputados, e o combate ao consumismo infantil. Vocês já devem ter notado, aí ao lado, o selo da campanha Infância livre de consumismo e o link para o importante documentário Criança, a alma do negócio. Essa é uma questão que de fato me preocupa. Tenho dois filhos, um quase adolescente e outro ainda pequeno, que, como todas as crianças brasileiras, estão muito expostos aos apelos do consumo. Eu e meu marido lutamos diariamente contra esses apelos e nos questionamos sobre o que é de fato necessário para o bem estar deles. Este exercício nos leva a algumas regras, que vamos buscar na nossa infância. Sapatos têm um número limitado em nossa casa. Cada um deles têm apenas uma chuteira, um tênis e um chinelo que só são trocados quando acabam ou quando o pé cresce. O mesmo critério vale para a calça e a bermuda jeans. Já a soma das outras peças de roupa - do que ganham, do que compramos e do que as avós fazem para eles, confesso, acaba extrapolando o necessário. Mas também não há nenhuma extravagância, como peças de grifes ou inadequadas para a idade deles. Os brinquedos foram aos poucos sendo eliminados de nossas listas de compras. Os eletrônicos, sempre desejados, são os presentes especiais, ganhos nos aniversários ou no Natal, quando servem aos dois. Mas só cedemos a estes pedidos, depois de muito desejados - para evitar um pedido novo a cada lançamento da versão mais moderna, e se estiverem de acordo com a idade deles. As exceções ficam por conta daqueles que eles compram com o dinheiro deles, que economizam no dia a dia. Mesmo assim nem tudo lhes é permitido com esse dinheiro, afinal, eles devem entender que ele foi fruto de muito esforço e, portanto, não deve ser gasto com qualquer coisa. Os livros são um capítulo a parte. Ficam na conta do consumo da mãe e do pai. Todos os que eles desejam e pedem eu compro, com exceção daqueles livros-brinquedo produzidos apenas para acender o desejo das crianças. Nego sem culpa, já que acho que eles devem entender que nem tudo vale a pena ser comprado, mesmo que seja um consumo cultural. Sobre esses, eu os convenço a não levar, argumentando que são bacanas só de olhar e tocar e que, rapidamente, serão deixados de lado. As histórias não. Elas estão sempre lá, nos esperando para uma nova leitura ou um novo olhar. Histórias que, na maioria das vezes, são escolhidas por mim e apresentadas a eles em nossas leituras noturnas. Não é hábito aqui em casa sair com as crianças para compras. Sejam elas da natureza que for. Isso evita que eu e o Cadoca sejamos bombardeados com pedidos, que vão desde o chocolate no supermercado, à bola de futebol do torneio da hora, passando pelos livros com música e dobraduras, sempre os mais expostos nas seções infantis das livrarias. Estas restrições, estou certa, não  impedem que eles tenham liberdade para escolher suas leituras. Eles têm acesso a uma bela biblioteca na escola, onde podem pegar emprestado o livro que escolherem, além de muitos aqui em casa, o que é mais do que suficiente para apresentar a criança à literatura. Até porque não era diferente disso em um tempo que as pessoas que viviam em ambientes letrados, liam muito mais do que hoje, mesmo comprando menos. Eu, por exemplo, me tornei leitora, lendo apenas o que havia na minha casa, na casa dos meus avós ou nas bibliotecas a que tinha acesso. Quantos são os relatos de escritores que contam ter descoberto a magia da literatura no contato com o acervo de uma pessoa próxima. Não é preciso ter acesso a tudo para descobrir a porta a ser aberta pela literatura. É preciso apenas estar sempre tentando e as livrarias, como são hoje, pouco colaboram neste esforço. A maioria delas, vende livro para crianças como se fosse bala, apelando para cores e sabores artificiais que, poucas vezes, trazem histórias que valem ser contadas. Assim, mesmo contrariando o senso comum de que devemos levar nossos filhos a livrarias para eles próprios escolherem seus livros, continuo investindo em ter um acervo de qualidade em casa para que eles possam escolher suas leituras livres das estratégias de venda. Tenho certeza de que um dia, como aconteceu comigo, eles poderão frequentar livrarias e comprar seus livros, com seu próprio dinheiro e livres da pressão do vendedor. Até lá, continuamos a ler todas as noites aqui em casa, tentando, acertando e errando neste difícil desafio que é consumir sem consumismo.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Uma ponte capaz de transpor grandes distâncias

Eu adorava as tirinhas do Henfil quando era adolescente. Se vivo, ele teria hoje quase a idade da minha mãe, dando-nos uma distância de pouco mais de 20 anos. Um distância que seu humor transpõe sem dificuldades. Um humor inteligente, ancorado em um traço expressivo que cria formas e emoções variadas, em desenhos que são pouco mais que rabiscos. A força dessa criatividade fez de Henfil um sucesso, nos anos 70 e 80, e um símbolo da resistência democrática em nosso país, imortalizado na canção de João Bosco e Aldir Blanc. Lembro bem do dia em que comprei a minha camiseta das Diretas Já!. Escolhi uma branca, estampada com a Graúna, de Henfil, pedindo eleições diretas. Eu tinha apenas 18 anos e estava cheia de planos para o Brasil. Foi a minha primeira derrota e a camiseta foi parar no armário, onde está até hoje. Talvez tenha sido a última derrota de Henfil, que se foi, em 1988, antes de elegermos o primeiro presidente da República. Ele se foi, mas sua obra ficou, como ficam as que valem a pena. Seu humor ainda é capaz de transpor a distância que separa a época de sua morte das crianças de hoje, como o Pedro e o Antônio, que, até há dias atrás, nem sonhavam com sua existência. Essa é a beleza da arte. Comunicar-se com muitos, por muito tempo e de diversas formas. A ponte que uniu os dois meninos do século XXI ao artista do século XX foi construída com a leitura de quatro dos nove livros do cartunista, escritos para o filho Ivan e editados recentemente. Senti que a leitura era um sucesso já na primeira oração do texto. "Um sapo na beira do mar?!" perguntou o Antônio, com um misto de surpresa e deboche. Mas foi só avançarmos um pouco na leitura, que ele abriu-se ao nonsense da história de um sapo ameaçado por um tubarão e salvo por um canguru. O sucesso, eu já sabia, estava garantido pela presença de um tubarão, o animal mais temido pelo Antônio. Mas nunca imaginei que ele passaria preciosos minutos admirando os desenhos de Hefil. Pois foi assim. Depois de ouvir e rir com o Sapo Ivan e Olavo foi a vez de Sapo Ivan e Ananias, O Sapo que queria beber leite e  Sapo Ivan e o Bolo, todos editados pela Nova Fronteira. Ao fim, sentou-se para examinar os livros e elegeu O sapo que queria beber leite, como a sua história favorita. Também, pudera, ela é a mais nonsense de todas. Nonsense como a imaginação das crianças. O Sapo Ivan pensa como uma criança e não alguém criado para falar para ela. Essa verdade do personagem convence. Convenceu o Antônio e depois o Pedro, que, no dia seguinte, em uma segunda leitura, se juntou ao irmão para rir das maluquices do Sapo Ivan e sua turma. Pedro, já com 11 anos, quis saber mais do Henfil. Eu lhe contei que conheci sua obra por intermédio de minha mãe e meu pai, que eram seus fãs, e da importância que ele tem na história do cartum brasileiro. Interessado, prometi mostrar-lhe um pouco das tirinhas da turma do Bode Orelana e dos Fradins. Falei que eram tirinhas publicadas para adultos, mas que podem falar para crianças, como o Sapo Ivan foi criado para uma criança e também encanta os adultos. O melhor de tudo foi perceber, depois destas duas noites de leitura, que o Sapo Ivan foi mais do que uma história para mim e para os meus filhos. Foi a possibilidade de eu fazer, em um breve instante, uma ponte para transpor a distância que separa o meu tempo do tempo deles. Um poder que só a literatura e o afeto têm.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Texto e ilustração a serviço da imaginação

Os modismos e as razões do mercado, muitas vezes, fazem grandes autores saírem das vitrines das livrarias para dar lugar a obras mais recentes e editadas ao gosto da hora. Obras nem sempre melhores, nem sempre mais instigantes, mas com certeza mais oportunas. As sazonalidades do mercado de livros para crianças não são capazes, no entanto, de fazer morrer uma grande obra, como a de Sylvia Orthof, sempre presente nas poucas prateleiras reservadas a autores consagrados. Lá podemos encontrar uma coisa ou outra dos 120 títulos infantis ou juvenis publicados pela autora, que, se viva, estaria completando hoje 81 anos. Quando isso acontece, está garantida uma boa leitura. Uma leitura que nos abre as portas para novos mundos ou velhas e despercebidas emoções. Com Quincas Plim, pois foi assim. O livro, editado pela Paulinas, em 1995, é um belo exemplo do que pode a prosa de Sylvia. Um poder que não traz prestígio, fama ou riqueza. Um poder que, na melhor versão do bem, dialoga com o leitor para criar um mundo novo, em que tudo possa. Quincas Plim é um duende que encontra um ovo, com um bebê dentro e o leva "para casa de três tias aloucadas,/ que eram tias e bruxas,/ com um tiquinho de fadas." O bebê cresce e seu crescimento é mais uma das novidades de Sylvia, que conta com a ajuda das ilustrações de Tato, então seu marido, para criar um mundo mágico para a história. Quincas Plim, pois foi assim é um daqueles livros em que a ilustração está tão intimamente ligada ao texto que parece que o autor foi também ilustrador. A parceria de Sylvia com Tato foi profícua e trouxe para as crianças mundos desconhecidos, como é o caso de Quincas Plim, ilustrado sob a inspiração de Hieronymus Bosh, artista flamengo do século 15, que pintava o mundo da fantasia tão caro à dupla. Ler a história desvendando as ilustrações é mais uma possibilidade do livro, que cria uma realidade surreal e divertida para os pequenos leitores. Eu, apesar de longe da minha infância, adorei. Adorei tanto que desconfio que ainda tenha poderes para ver a Fada Cisco, outra personagem maravilhosa da autora. Já o Antônio percebeu logo as rimas da poesia de Sylvia e se divertiu acompanhando a narrativa nas surpreendentes ilustrações de Tato. O prazer do Antônio, no entanto, não veio sem um estranhamento em relação à atmosfera da história. Foi uma leitura lenta, em que ele tudo perguntava e queria ver. Mais um ponto para Quincas Plim. Em tempos de narrativas tão fáceis, como as propostas pela cultura do áudio-visual, as dificuldades de um bom texto, se enfrentadas com tranquilidade pelas crianças e adultos, são enriquecedoras, na medida em que mostram para as crianças que a imaginação, no campo da linguagem, não tem limites e que não é preciso um bom computador e seus programas para criar um mundo virtual.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Um anjo torto contra a caretice

Meu caro, Helme Heine,
Sei que você está longe, na Nova Zelândia, escrevendo e cuidando de um lindo jardim à beira-mar, e que eu, com o meu português, provavelmente não poderei fazer-me escutar por ti. Mas, mesmo assim, te escrevo para contar do amor de meu filho Antônio por um de seus livros, o Diabolim, que, por aqui, foi editado pela Martins Fontes. O Antônio tem apenas seis anos e uma bruta imaginação. Ele ama belas histórias e desenhos, como há nos seus livros. Já lemos juntos e amamos alguns - é bom registrar, mas nenhum deles ganhou lugar tão privilegiado no imaginário do meu filho, como foi o caso de Diabolim. Seu diabinho, com cara de cãozinho de estimação e seu ameaçador tridente, já nos é íntimo. Há quase um mês, lemos todas as noites a história de afirmação deste anjo caído, que sonha em ser amado pelas pessoas que o rejeitam por ser peralta, implicante, atrapalhado e amalucado. Nós, lhe garanto, o amamos mesmo torto. Seria até mais honesto dizer que o amamos por ser torto. Torto como o Antônio e seu irmão, Pedro. Torto e do bem, como toda criança livre. Jogue a primeira pedra quem nunca foi, um dia apenas, um Diabolim na vida de alguém.  Como disse uma professora do colégio dos meus filhos, as crianças tortas são fascinantes, como o seu Diabolim o é. Seu personagem nos permite voos para além de sua história, voos que nos acendem lembranças de outros tempos, em que também podíamos ser tortos, e de outros diabinhos que esbarramos na vida. A implicância de Diabolim com o padre e os anjinhos me fez lembrar ainda uma deliciosa história de Giovanni Guareschi, que li há anos atrás, por influência de minha mãe, sobre a tumultuada relação entre Don Camillo, um padre de uma pequena comuna italiana, e Peppone, o prefeito comunista, dois arqui-inimigos que haviam sido super-amigos na infância. Confesso que amo este humor europeu, que humaniza deus e o diabo, e nos garante boas risada. Nada pior do que a caretice e o preconceito que nos fazem calar. Seu Diabolim é uma palavra e desenho contra a caretice. Nos faz crer que a vida pode ser policromática, como suas ilustrações, e que podemos ter mil possibilidades, como seu diabinho. Ele é torto, mas é do bem. Por isso, o amamos. Obrigado por mais este livro. De seus fãs, Luciana e Antônio.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Os 12 trabalhos de Hércules e os desafios de Pedro

O Pedro já começa a dar sinais de que a adolescência está próxima. Ele tem 11 anos, muita disposição para a vida e uma enorme vontade de ganhar o mundo. Uma vontade que vai levá-lo, cada vez mais, para fora de casa. Imaginar a vida de adolescente e, quiçá de adulto, tenho certeza, o anima a querer sempre mais uma experiência. Passar o dia sozinho com os amigos e ir ao cinema sem a família são algumas das coisas que ele já faz sem medo. Mas garanto que imagina muito mais. Imagina tanto, que foi assaltado pelo medo de ficar longe de nós, pais e irmão. O desejo de crescer não está sozinho. Ele divide o coração e a mente do Pedro com a consciência de que alguma coisa vai ficar para trás. A infância tão querida, acolhida e protegida, vai ficar para trás para dar lugar a uma adolescência cheia de dúvidas e conflitos e, ao mesmo tempo, cheia de possibilidades. São estas possibilidades que empurram o Pedro para a rua. Mas ele ainda quer a casa. Quer a mãe, o pai, o irmão e o aconchego que, em sua pouca vivência, acredita ser direito apenas de crianças. O medo de perder o amor da família neste processo de adolescer o assaltou na forma do ciúme e fez com que ele passasse o dia a infernizar a vida do irmão, que ele sabe que, com seus seis anos, ficará ainda muito tempo sob nossos cuidados. Assim que percebemos este inferno particular que o ciúme havia criado para o Pedro, conversamos com ele e a panela de pressão se abriu. Ele foi capaz de falar de seu medo de perder seu lugar  em nossa vida e de ver o Antônio reinando sozinho, entre os pais, e de ouvir que, em cada fase da vida, há uma relação possível com a família. A dele, na adolescência, com certeza, será diferente da vivida pelo Antônio, ainda na infância, mas, ainda assim, poderá ser boa e acolhedora. Falamos, eu e seu pai, da importância de acompanharmos seu adolescer, fase de tantas dúvidas e angústias, e de nosso desejo de estar sempre perto dele. Falamos dos ganhos que terá, das transformações que a família viverá à medida que ele for crescendo e de nossa alegria de vê-lo tão feliz neste encontro com a vida. Falamos também que ele poderá sempre contar com nossa presença e amor, sendo criança, adolescente ou adulto. Por fim, contei-lhe das experiência a mim relatadas pelas escritoras Nilma Lacerda, minha professora, e Yolanda Reyes, que leram histórias para os filhos, hoje adultos e leitores, por toda a adolescência. "Só pare de contar histórias para os seus filhos no dia em que eles não a quiserem mais ao lado deles na cama", me aconselhou Yolanda. Repeti para o Pedro essas palavras, prometendo a ele que estarei sempre disposta a contar-lhe histórias se assim ele quiser. Baseada em recente afirmação dele, de que adora as mitologias, sejam elas de qualquer nacionalidade, resolvi lhe oferecer a leitura de Os 12 trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato. O livro é conveniente, neste momento, por várias razões. Tem mais de 200 páginas, o que nos garante dias a fio de leitura noturna, e junta os personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo com passagens heroicas da mitologia grega. A fórmula de Lobato, em que Pedrinho, Emília e o Visconde se transportam para a Grécia Antiga com a ajuda do pó de pirlimpimpim, permite à criança a delícia de imaginar-se em uma viagem ao tempo, onde torna-se mais do que testemunha de fatos históricos, torna-se personagem. Lembro que, quando era criança, adorava me imaginar na Grécia, usando togas brancas e vivendo aventuras maravilhosas. Lobato consegue mais do que isso. Desmistifica os heróis, fazendo as crianças se sentirem ainda melhores que eles, se não fisicamente, ao  menos na inteligência. O protagonismo de Pedrinho, da Emília e do Visconde, nas aventuras de Hércules e de outros heróis gregos, dá ao pequeno leitor a certeza de que é ele a razão da história de superação de obstáculos impostos a Hércules, como penitencia por ter matado sua família. Uma certeza importante para o Pedro, neste momento, em que ele também depara-se com obstáculos a serem superados, para que possa crescer seguro de que sempre terá um lugar muito especial no coração de quem aprendeu a amá-lo, antes mesmo de chegar neste mundo. Enquanto isso, espero que eu e o Cadoca sempre possamos estar a seu lado, para que este caminho, assim como o de Hércules de Lobato, não seja solitário.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Entre o tchau e o adeus há muita vida pela frente

A morte sempre foi um assunto deste blog, talvez por ser um assunto da vida. Um assunto que crianças e adultos não conseguem ignorar, mesmo que lidem bem com ele. Eu, confesso, estive, quase por toda a vida, do lado daqueles que sofrem todas as vezes que são assaltados pela ideia da morte. Sofrem tanto que sentem calafrios ou deixam vazar em lágrimas infantis, como é o caso dos meus filhos. Meninos amados, meninos queridos, mas, apesar disso, meninos assustados com a ideia da perda. "Mãe, quem vai cuidar de mim e do Pedro, quando você e o papai morrerem?", tem me perguntado o Antônio, angustiado com a consciência de que nós, seus pais, um dia vamos deixá-los. Lembro da primeira vez em que o Pedro me falou de seu medo de me perder e da angústia que senti, ao lembrar que, um dia, eu o deixaria e à vida. O acalentei com palavras que serviram também para apaziguar meu mal estar e, nestes anos, tanto as tenho repetido, para ele ou para o Antônio, que me convenci de que a morte é inevitável e, se tardia, aceitável. O difícil é dizer adeus, mesmo quando a razão não é a morte. Difícil para mim e mais ainda para meus filhos, ainda presos aos pais e assombrados a perspectiva de qualquer despedida, mesmo aquelas temporárias, em que o mais certo seria dizer tchau. O que os assombra é o abandono, seja ele eterno ou temporário. Afastar-se de nós, neste momento, lhes causa muita dor, não tenho dúvidas. Uma dor que ficou estampada na leitura que o Pedro fez do conto Tchau, de Lygia Bojunga. O conto foi recomendado pela escola e, sendo assim, lido pelo seu grupo de amigos mais chegados. Em uníssono, eles recriminaram a mãe, personagem que abandona o marido e os filhos para viver com o namorado, na Grécia, e expressaram sua raiva, cada um a seu jeito, na redação que fizeram para criar um continuidade para a história. No final do Pedro, não mais cruel do que o proposto por seus amigos, a mãe se arrepende e tenta o perdão da filha, que a rejeita. Punida, a mulher encontra acolhida, apenas, na casa da irmã. A irmã, que não existe na história de Lygia, aparece na do Pedro, não tenho dúvidas, porque para ele os irmãos nunca faltam. Mas sua raiva em relação à mãe do conto me fez pensar em como o abandono é um assunto delicado para as crianças e em quanto Lygia Bojunga é corajosa ao encará-lo de frente, em sua literatura. Esta coragem faz com que eu admire ainda mais sua literatura e lembre que, há alguns poucos anos, me perguntava como Pedro leria Lygia. Juro, que nunca pensei que com este envolvimento. Pedro leu com todo o sentimento e, com certeza, a leitura o ajudou a pensar sobre o abandono que tanto assusta as crianças. Abandono que a autora apresenta com outra roupagem no conto O bife e a pipoca, do mesmo livro, editado pela Casa Lygia Bojunga. Desta vez não é uma mãe abandonando os filhos por um amor. Mas uma mãe incapaz de cuidar dos filhos por causa de sua pobreza extrema. Uma realidade estranha a meninos de classe média, como o Pedro, mas que calam fundo em quem tem os olhos abertos para o mundo. Ele ouviu atento a descrição da casa de favela e da família do menino Tuca. Seu olhar de espanto para o abandono a que o menino está submetido é, com certeza, mediado pelo sentimento de amizade que ele vê nascer entre Tuca e Rodrigo, o colega da escola particular onde é bolsista. As dificuldades e possibilidades dadas a esta amizade, tão bem composta pela autora, foram todas compreendidas pelo meu filho, que ao fim do conto disse para o irmão pequeno, que perguntou se o menino existia: "Não, Antônio, mas tem gente como ele que existe na vida real." Vida que Lygia, com coragem e verdade, sabe reproduzir em sua literatura, que fala do lugar da criança, e oferecer para nossos filhos, assombrados pela ideia do abandono. O melhor foi saber que apesar de toda crueza, Lygia fez meu filho amar seus contos e viver as histórias como se fossem dele. Que lhe venham outros.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Trocando de lugar com o filho

Cheguei em casa ontem à noite super cansada e nada a fim de ler para as crianças. Quando dei esta notícia, esperando o choro convulso do Antônio, tive uma surpresa. "Mãe, o meu dever de casa de hoje é ler para a família". "Oba!", pensei duas vezes. A primeira de preguiça e alívio de não ter que ler. A segunda, por um motivo mais nobre, o amor de mãe orgulhosa do filho, que está aprendendo a ler. Troquei de roupa, escovei os dentes e fui para minha cama para o Antônio ler para mim. O livro - Você troca, da Eva Furnari - já foi lido aqui em casa mil vezes. Por mim, pelo Pedro, mas nunca pelo Antônio. Ontem, era a vez do nosso caçula, que orgulhosamente iniciou a leitura. E foi a minha vez de curtir as perguntas da Eva e decidir por minhas escolhas. Amei mais uma vez este livro, que já foi comentado aqui mais de uma vez e merece todos os aplausos, e amei mais ainda a leitura do meu menino. Ainda claudicante, muito baseada na memória de quem já leu ou ouvir a história inúmeras vezes, mas, acima de tudo, brava. Admiro a coragem das crianças que, sem medo de errar, se expõem a tudo e a todos os julgamentos. Não sei se nós adultos teríamos esta coragem, haja visto o constrangimento comum de quem tenta se comunicar em uma língua estrangeira. Mas as crianças enfrentam esse desafio com a maior alegria e nós, do lado de quem já automatizou a leitura, rimos baixinho e com ternura de todos esses erros. Erros que não nos deixam esquecer que a vida é uma eterna luta para conquistar o novo. Novo para meu filho, velho para mim. Mas, com certeza, a emoção que isso me causou é nova e tem cheirinho de bumbum de bebê. Aninhada ao lado do meu filho, não pude deixar de pensar em dar vivas às trocas de lugar, que nos permitem, mesmo que por uma noite, ouvir uma história de quem sempre está atendo às nossas.
PS: Posto aqui meu agradecimento à Karina, à Beth e à Júlia, que estão ajudando o Antônio nesta aventura, e a foto da capa da nova edição do livro. Para quem quiser conhecer os outros comentários sobre o livro, basta clicar aqui ou aqui.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

De vilão a herói, o Curupira Pirapora

Alguns livros tem capas tão boas que é impossível ignorá-los nas livrarias. Assim é com Curupira Pirabora, o primeiro livro de Tatiana Salem Levy para crianças. Em uma primeira mirada, vemos logo o curupira, que, na versão de Tatiana, ganhou pelos verdes, cabelos vermelhos e olhos amarelos, escondido em uma densa floresta. É de lá que vem o curupira, ser mítico das florestas brasileiras, que usa de ardis para se vingar de caçadores que importunam os animais. Ele sempre foi  um terror para o homem branco, inseguro em suas incursões pela floresta, e por isso, estava inscrito no rol de quem flertava com o mal, como o Saci-Pererê. Mas, hoje, com a nova consciência ecológica, o curupira passou a ser visto como herói por proteger a fauna da floresta. E é como herói, mesmo que com pouco caráter, que Tatiana nos apresenta o seu curupira, filho de Pira com Pora e, por isso, Pirapora. Apesar de brasileiríssima, a história acabou sendo editada em Lisboa, cidade em que Tatiana nasceu, durante o exílio de seus pais brasileiros, e viveu poucos meses. Pois foi lá, com o selo da editora Tinta da China, que o Pirapora de Tatiana ganhou vida nas cores de Vera Tavares. O encontro luso-brasileiro, mais uma vez, produziu bons frutos. A ilustradora lisboeta  nunca tinha ouvido falar no ser que anda com os pés para trás, mas, como não podia deixar de ser, encantou-se com seu aspecto mágico. O resultado foi um belo trabalho de ilustração, super colorido como a fauna e flora da floresta, que lembra folhetos de cordel, e valoriza e muito a história do encontro do Pirapora com a mameluca Juliana. A história do curupira de Tatiana é encantadora. Nela, a floresta é apenas o cenário. O principal mesmo é a amizade de Pirapora com Janaína, que, neste encontro improvável, transforma os dois personagens e ensina a Pirapora uma nova e lusa emoção - a saudade. Uma história que encantou a todos aqui em casa e entrou para nossa coleção de folclore. Uma história que deu a Tatiana, jovem e já consagrada autora, o prêmio de escritora revelação, promovido pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, pela sua estreia na prosa para crianças. Confesso que gostei e, junto com o Pedro e o Antônio, torci pelo Curupira Pirapora. Que o livro possa apresentar nosso herói das matas aos quatro cantos do mundo! 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma conversa tête-à-tête com Clarice


A resistência do Antônio em aceitar novas histórias para seu repertório, já citada aqui algumas vezes, está sendo quebrada pelas visitas semanais de sua turma à biblioteca da escola. Até o ano passado, na educação infantil, ele frequentava uma aconchegante sala de leitura, em que livros dividem espaço com bonecos. Agora, no fundamental, sua turma frequenta uma biblioteca em uma torre, com estantes repletas de livros que cobrem as paredes da sala até o teto. Das janelas, vê-se uma bela vista. Mas o Antônio, ainda baixinho, só tem olhos para os livros. São tantos e com tantas histórias que ele faz planos de trazê-los para casa. Toda semana vem com um livro novo para lermos juntos. A leitura é sempre um prazer, que nas últimas semanas ganhou mais uma alegria, com a aventura da decodificação das primeiras letras. Uma graça sua leitura. Ela vem esbarrando em dois erres, dois esses, cês, agás, cedilhas e outras trapaças do nosso português, mas não desiste de tentar. O dia todo lê o que lhe passa pela frente e nos chama para comunicar sua mais nova conquista. Deitado na cama, ouvindo histórias, a vontade de ler cresce, mas vida de iniciante não é fácil. A letra cursiva, a opção editorial da maior parte dos livros, acrescenta um novo desafio às crianças em fase de alfabetização, que ainda estão lidando com a letra de forma, ou bastão. Mas o Antônio não desiste nunca e consegue ler algumas poucas palavras, em meio a leituras incompreensíveis. Assim foi com A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, editado pela Rocco Jovens Leitores, e ilustrado por Flor Opazo, que tiramos da nossa estante mesmo. Antônio adiantou-se para ler ele mesmo e, com a maior segurança, saiu falando uma série de fonemas desconexos. Em meio a uma língua estranha, emplacou algumas palavras  em português. Satisfeito com sua performance, entregou-me o livro e passou a acompanhar com interesse minha leitura. O Pedro, que já conhecia a história, juntou-se a nós para ouvi-la mais uma vez. Deitada ao lado do Antônio, comecei a ler: "A mulher que matou os peixes, infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer". Logo nas primeiras frases do conto, Clarice mostra que vai travar um diálogo franco com seus leitores. As crianças são as suas interlocutoras e é elas que Clarice quer convencer de que não é uma pessoa má e que matou os peixes sem querer. Para isso, vai buscar em suas memórias as histórias dos bichos que teve. São vários causos, contados com crueza, sem metáforas, para mostrar para seus pequenos leitores que ela sempre gostou de animais. Seu diálogo com as crianças é tão verdadeiro que o Antônio respondia a todas as perguntas que faz no texto, criticava suas atitudes e até lamentava pela sorte dos bichos sobre os quais Clarice escreve. A história que mais o tocou foi a de Max e Bruno, dois cães amigos que lutam até a morte por causa de um ser humano. Antônio ficou triste, como Clarice disse que ele ficaria, e não perdoou Bruno, apesar de ela pedir compreensão com o cão. Nesta altura, o Pedro que acorda com a alvorada, já tinha sucumbido ao sono. Eu e o Antônio seguimos, então, adiante para o fim da história, que não guarda mistério algum, a não ser aquele escondido atrás de um belo texto. Mistério que o Antônio decifra com sua alma de leitor-ouvinte, que anda fazendo um esforço sobre-humano para ler as palavras que lhe trazem tantas histórias. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Monstros malvados, noites insones e histórias verdadeiras

O assunto não é novo. Já falei aqui que sofro há anos com invasões bárbaras, na calada da noite, à minha cama. Primeiro era o Pedro, que chegava e,sem pedir, se aboletava entre mim e o Cadoca para fugir do escuro ou de sonhos ruins. Depois chegou a vez do Antônio, que chega pelo lado da cama, de mansinho, pedindo socorro para espantar seus medos. Sei que eu não sou a única mãe que passa por isso, mas, tenho certeza, que saber disso não me alivia a alma: cansada, insone e atormentada por monstros e bruxas que aparecem no quarto vizinho e eu nem os vejo. Por isso, entendo o mal humor dos pais de André, o herói amedrontado do livro Uma cama para três, de Yolanda Reyes, da Edições SM, belissimamente ilustrado por Ivar da Coll. O menino, como todos, resiste em dormir e faz  súbitas aparições no meio da noite. Nós pais sabemos o mal-estar do outro, mas sabemos também o nosso, no dia seguinte, em que palitinhos de fósforo não serão capazes de manter nossos olhos abertos. Mas vá lá, os monstros que assustam as crianças não têm piedade de nós. Yolanda Reyes sabe bem disso. Sabe também contar esta história sem paternalismos, expondo a dor de cada um e, digamos assim, a insensibilidade dos monstros. Não me interessa livros para espantar os medos das crianças, me interessa histórias que falem deles com verdade. Monstros, bruxas e fantasmas não assustam ninguém quando a luz está acessa e, a hora da leitura com os pais na cabeceira da cama, é um belo momento para as crianças encará-los com os olhos bem abertos. Assim fez o Antônio. Ele acompanhou a longa história calado e ao fim dela, assim ficou. Seus olhos de criança não se enganam com soluções fáceis e palavras encorajadoras. São olhos que estão dispostos a olhar para dentro, se alguém lhes convencer que este é o melhor caminho. Caminho que só é possível trilhar com verdade. E quem tem medo, não acredita em qualquer história. Muito menos naquelas que teimam em dizer que monstros não existem. Por isso, às vésperas do Dia das Mães, peço apenas um presente. Uma noite bem dormida.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Uma aventura em versos de cordel

O cordel sempre me encantou com seu ritmo, suas rimas e o caráter maravilhoso de seus relatos. São histórias que nos pegam pelo pé e nos fazem ficar quietinhos ouvindo e ouvindo, até chegar seu final. Um gênero que tem tudo a ver com crianças, como se fosse o similar nacional dos contos de fadas europeus, e que, aos poucos, está invadindo as estantes das seções infantis de nossas livrarias. O recém-chegado No Reino do Vai não Vem, uma viagem ao reino do cordel, de Fábio Sombra, editado pela Scipione, é um belo exemplo da riqueza do cordel e do encantamento que ele pode causar em crianças e em adultos. Fábio Sombra é ele mesmo o herói da história, que tem como desafio recuperar sua rabeca Veridiana, levada por Pedro Malazartes para o Reino do Vai não Vem, onde moram os personagens da literatura de cordel. Lá, Fábio Sombra tem que cumprir sete provas para recuperar sua Viridiana, que lhe dá inspiração para escrever. As aventuras do cordelista envolvem tanto o leitor que, quando a gente vê, já leu mais de 40 páginas e está no fim da história. O cordel encantou o Pedro, que ouviu com a maior atenção a leitura de cada uma das provação de Fábio Sombra em busca de sua amada Viridiana. Ouviu e viu as belíssimas ilustrações de Flavio Morais, que, sem trair o traço comum das xilogravuras dos folhetos de cordel, dá vida em cores a cada um dos personagens ou dos cenários descritos na história. Seu interesse era tanto, que me implorou para não interromper a leitura e ir até o fim naquela mesma noite. Assim fiz, deixando-o feliz para dormir. "Mãe, a história é muito legal", disse-me, coberto de razões e de seu edredom quentinho. Razões encontradas nas boas histórias populares. Muita ação, situações fantásticas e esperteza para vencer os desafios e os fortes. Para arrematar, uma linguagem poética que nos convida a brincar com a língua. E para melhorar, ao fim, Fábio Sombra nos dá um pequeno painel do mundo do cordel, com um glossário com os personagens citados na história. Uma pena que o Antônio ainda não está pronto para esta experiência. Mas o livro vai ficar guardadinho, esperando a sua vez para dar novamente vida aos personagens do cordel e à aventura de Fábio Sombra. Enquanto isso: "Fecha o pano o menestrel/ silencia o seu cantar./ O final foi fascinante/ mas preciso confessar:/ bem cansado de aventuras,/reis, princesas e criaturas./ afinal vou descansar..."

terça-feira, 7 de maio de 2013

Misturando experiências e criando o novo

A dica foi da Karina, uma das professoras do Antônio, e o livro é realmente um barato. Misturichos, de Beatriz Carvalho e Renata Bueno, é, segundo as próprias autoras, o resultado de um reencontro de amigas, que curtiram brincar de desenhar e misturar bichos. O resultado foi uma série de desenhos e textos super criativos e bem humorados, que divertem e, por que não dizer, incentivam nossos pequenos a arriscar suas misturas. O Antônio, em sala de aula, juntou-se ao Vinícius e à Lis e os três - mistura de cá, mistura de lá - fizeram nascer o Lecochorro, uma mistura de leão, cobra e cachorro. Eu e o Pedro, antes mesmo de ler o texto produzido pela trinca para explicar tamanha aberração, chegamos à conclusão de que um Lecochorro é feroz como um leão, venenoso como uma cobra e fofinho como um cachorro. Será que pode? Tenho certeza de que Beatriz e Renata iam aprovar uma mistura dessas. A mistura delas usou cola, tinta e papel picado para dar cara aos misturichos. O Lecochorro do meu filho e amigos foi parido com sucata e tinta e fez a alegria das famílias de seus criadores. Um sucesso! Mas sucesso maior ainda é encontrar, em meio a tantos lançamentos, um que nos inspire a criar, ou melhor, a misturar experiências para parir o novo. Que meu Antônio possa criar outros lecochorros pela vida.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Quando a Chapeuzinho Vermelho enfrenta o lobo


A Chapeuzinho Vermelho foi passear na manhã de segunda-feira na Creche Cantinho Feliz, do Instituto Marquês de Salamanca, em Santa Teresa. Em vez do malvado lobo, ela encontrou uma turminha de crianças curiosas e atentas às suas aventuras. E o que não faltaram foram aventuras. Em meio a caretas, muxoxos ou até mesmo gritos de medo, as crianças ouviram as versões de Perrault, em que o lobo come a menina e sua avó, dos irmãos Grimm, em que o caçador as salva da barriga do animal, e mais duas - Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, e Uma chapeuzinho vermelha, de Marjolaine Leray, em que ela enfrenta seu algoz. Entre mortos e feridos, a menina acabou a sessão de histórias sã e salva e ainda comeu uns bolinhos com a vovozinha. As crianças que, por sua vez, haviam reafirmado seu medo do lobo, descobriram que é possível enfrentá-lo cara a cara e, o melhor, que há maneiras de enganar a fera. As meninas de Chico e Marjolaine lhes deram belas ideias para se vingar do predador, desde perder o medo dele, até enganá-lo com uma bala para tirar mau-hálito. Mas, como há lobos em todos os lados e eles sempre dão bons causos, elas pediram mais histórias em que ele apareça. Ah, são várias. Só agora lembro de Os Três Porquinhos, O lobo e os sete cabritinhos e  Pedro e o Lobo. Mas elas ficam para próxima semana. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tim Maia, Pessoa, Andersen e as tristezas da vida

Mal dormi hoje por conta de uma crise de tosse que tirou o sono do Antônio às quatro da manhã. Ele foi me pedir socorro e implorar para que eu tirasse aquela doença dele, mas nem todo o meu carinho, xarope e spray de própolis foram capazes de acalmar sua tosse. Ficamos insones, ele e eu e, assim que amanheceu, seguimos para nossa rotina. No rádio do carro, ainda bem cedo, ouvi Tim Maia cantar Bom senso, de seu álbum místico, Racional, e fiquei pensando em como muita coisa mudou nestes 47 anos em que estou no mundo. Quem hoje falaria assim, de cara tão limpa - nesta época o Tim estava limpo, que fez muita coisa errada, dormiu na rua e pediu ajuda? Hoje, vivemos tempos em que todos nascem limpos, bem-sucedidos e felizes. Um tempo em que o Tim seria mais outsider do que foi em sua breve vida. Um tempo que, na verdade, apesar de todo o discurso da diversidade, há lugar para cada vez menos pessoas. Entendo por lugar, um lugar qualificado, que garanta as oportunidades e a mobilidade que a modernidade promete a todos e oferece a apenas alguns. O desabafo de Tim me fez pensar em como nós, da classe média, temos criado nossos filhos. Nas estratégias que adotamos para evitar que eles vivam a dor, a vergonha, a tristeza, a dureza, entre tantas agruras, e no resultado desta proteção. Pensei em Fernando Pessoa e seu Poema sujo, em que o poeta português diz nunca ter conhecido quem tivesse levado porrada e que todos os seus amigos têm sido campeões em tudo. Pensei na máxima das redes sociais de que ninguém é tão feito quanto na identidade, tão bonito como no Orkut, tão feliz como no Facebook, tão simpático quanto no Twitter, tão ausente como no Skype, tão ocupado quanto no MSM e tão bom como diz seu currículo. Talvez por falta de coisa melhor para fazer, estava pensando em tudo isso quando abri meu Facebook e me deparei com dois comentários que engrossaram o caldo de minhas reflexões. Um deles estava no perfil de um jornalista da minha idade, que questionava a supervalorização da juventude. O outro, era de uma jornalista já avó, na dúvida se deveria ler os contos de Hans Christian Andersen para seus netos. Nesta hora, tudo se encaixou. Tim Maia, Fernando Pessoa, redes sociais, Andersen e os jovens da classe média de hoje, que formam uma geração poupada das tristezas e durezas da vida e que ocupam cada vez um lugar maior no mundo. Um mundo, que, por outro lado, nega lugar a outros tantos jovens menos privilegiados. Uma geração que chegou ao poder cedo demais, sem antes ter experimentado privações. Os jovens, que hoje estão no poder, são bem nascidos e bem adaptados a um mundo individualista, marcado pelo consumo e pela busca de status. São filhos de uma camada da sociedade que, cada vez mais, tem garantido lugar nos postos de mando, posto que, cada vez menos, jovens pobres têm condições de ascender. Digo ascensão social de verdade, não esta inclusão que tira os pobres da faixa de miséria e os condena a serem trabalhadores sem instrução, em empregos e moradias precárias e uma realidade de consumo de segunda classe, garantida pelo amplo crédito e subsídios do governo. Aquelas histórias de meninos que começam como boys de bancos e décadas depois estão sentados nas cadeiras da diretoria serão cada vez mais raras, em um mercado que supervaloriza a formação profissional, em uma sociedade que não garante nem mesmo ensino básico de qualidade. Não estou dizendo que só o sofrimento construa, mas, com certeza, sem ele não podemos nos tornar humanos. A riqueza dos contos de Andersen, dizem os historiadores e seus críticos, está intimamente ligada à vida pobre de sua família em Odelsa, na Dinamarca. Andersen foi um menino pobre, que soube transformar sua dor em histórias verdadeiras que, há dois séculos, falam da condição humana com tanta clareza que encanta crianças e adultos de vários cantos do mundo. Seus contos são sofridos, assim como sua infância, mas nos permitem saídas. Saídas construídas pela imaginação, acalentada quando criança pelo seu pai, um humilde sapateiro, que lhe ensinou o prazer de se envolver com boas histórias. Saídas simbólicas, que permitem a seus personagens transformar sua condição no mundo. A pequena vendedora de fósforos, talvez a mais triste de todas as suas histórias, é uma menina pobre, que morre de frio e fome sendo ignorada por todas na véspera do Ano Novo. Sua morte, apesar de trágica, a liberta da tirania do pai, que a joga na rua para esmolar, do frio, da fome, da indiferença e a joga no colo da avó que lhe dá acolhida, em sua última alucinação de quase morte. Uma morte que mexe com sentimentos, que em doses homeopáticas, todo ser humano sente. Uma história que pode servir para as crianças elaborarem seus medos e ressentimentos. A tristeza da menina vendedora de fósforos faz parte da vida, por mais que não queiramos aceitar isso. Que bem poderá fazer a nossos filhos, ignorá-la? Saber que meninas como ela existem até hoje, só pode tornar nossos filhos mais humanos e generosos. Lidar com as provações, só pode torná-los mais fortes. As adaptações das obras de Andersen que escondem a carga dramática de seus personagens - como é o caso de A Sereiazinha e seu destino trágico diluído nas tintas coloridas dos estúdios Disney, na minha opinião, subestimam a capacidade das crianças de entender a vida. Isso não as impede de se revoltarem com o final, como foi o caso do meu filho Pedro, que aos 9 para 10 anos, assistiu a uma bela montagem do grupo Pequod, que preserva a história original. Ele saiu revoltado com a morte da menina, como ficaríamos todos se ela fosse real. Mas esta revolta não roubou dele a experiência de acompanhar a luta da menina para ter uma alma, conseguida mesmo que a custa da morte. Assim como as trágicas e muitas vezes violentas histórias da mitologia grega encantam nossas crianças. Claro que não defendo que estas histórias sejam contadas para crianças que mal saíram das fraldas. Mas, a medida que elas forem adquirindo maturidade para ouvir histórias mais longas, o que coincide com um tempo em que descobrem a existência da maior de todas as tristezas, a morte, acho, sim, que podem ser apresentadas ao universo de Andersen. Para nossa surpresa, na maior parte das vezes, as crianças se atêm mais no maravilhoso da história do que na morte dos personagens, como é o caso de O Soldadinho de Chumbo. Infantilizá-las no campo das emoções é um contra-senso, em uma sociedade que se gaba de ter filhos com cada vez mais habilidades precoces. Eles podem usar computadores aos três anos, mas não podem conhecer a morte aos seis. Eles podem aprender uma segunda língua antes mesmo de serem alfabetizados, mas não podem saber da miséria aos seis anos. Os fracassos da Sereiazinha, os obstáculos do Soldadinho de Chumbo e as privações da Pequena Vendedora de Fósforos só podem preparar melhor nossos filhos para as suas próprias dificuldades. Afinal, um dia todo mundo vai virar calçada maltratada, como o Tim já virou.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Isol é mais uma autora em nossa estante

Confesso que nunca tinha ouvido falar em Isol até a escritora/ilustradora argentina ganhar o Prêmio Astrid Lindgren Memorial (Alma), o mais valioso concedido à literatura infantil no mundo. Fiquei curiosa em conhecê-la menos por ela ter ganho o prêmio da Coroa Sueca do que pelas distinções feitas a ela pelos jurados, que destacaram sua capacidade de tomar "a visão clara da criança sobre o mundo como seu ponto de partida" e de expor os absurdos do mundo adulto para os pequenos leitores. O comentário pode até parecer óbvio, considerando-se que ela produz literatura infantil, mas não é. Muito pouca gente consegue escrever como criança, deixando de lado o vício de escrever para as crianças e, assim, trazer em seu universo narrativo lições sobre o mundo. Esta distinção me fez ir logo ver o que havia traduzido de Isol para o português. Achei dois livros - Intercâmbio cultural e Segredo de Família, ambos editados pelo Fondo de Cultura Economica - e resolvi comprá-los. No mesmo dia em que chegaram à minha casa, li para o Pedro e o Antônio, que ultimamente têm compartilhado as leituras e o horário de dormir. Eles escolheram primeiro o Intercâmbio cultural, talvez pelo fato de ele ter um elefante na capa, e avançamos em direção ao universo de Isol. A história de um menino viciado em TV e de um elefante africano que trocam de lugar não é surpreendente, mas é contada com humor e originalidade que impedem a autora de cair na armadilha do politicamente correto e falar para a criança o que é melhor para ela. O Antônio, que adora uma TV, se interessou pela história e fez graça com o final. Felizmente não lhe passou despercebido o olhar hipnotizado do elefante diante da TV. Mas foi  com Segredo de família que Isol ganhou meus filhos. A história da menina que se espanta ao descobrir que, ao acordar, a mãe é um porco-espinho é uma delícia que mostra com humor, como disse o juri do Prêmio Alma, os absurdos do mundo adulto para as crianças. A mãe da menina-protagonista não é nenhum porco-espinho, mas, como qualquer mortal, acorda descabelada e bem diferente da imagem que cada um produz para si mesmo. Isol brinca com esta dicotomia e nos faz pensar nos limites desta produção ao apresentar o espanto da menina. Meus filhos, dois cabeludos descabelados, adoraram as possibilidades apresentada por Isol para diversas famílias. Ao fim, ela convida o jovem leitor a expressar a imagem que tem de sua família. Em casa de cabeludo, ganhou o leão. E, nós, apenas com esta provinha de dois livros entre os 10 de Isol, ganhamos mais uma autora com boas histórias para animar nossas leituras noturnas.

sábado, 30 de março de 2013

A fantasia para burlar o não

Acho que não há pai e mãe que não se pergunte quais são os limites que devem impor a seus filhos. Dizer não quase sempre nos parece cruel e uma maneira de massacrar nossas crianças. Nos lembramos de nossas frustrações e de mães, pais e professores que, com seus nãos, nos impediram de viver milhões de coisas. Mas quase nunca nos lembramos de como encontramos na imaginação manhas e maneiras de lidarmos com esses nãos e de que, assim, eles não nos impediram de viver. É isso que a escritora colombiana Yolanda Reyes parece nos dizer em É terminantemente proibido!, editado pela FTD, com expressivas ilustrações de sua compatriota Olga Cuéllar. Uma menina da quinta série nos conta uma extraordinária história de uma árvore de chicletes que nasce nos fundos da escola, depois que os os alunos, proibidos de comê-los, jogam seus restos pela janela. As gomas mascadas frutificam e fazem crescer uma árvore frondosa e pesada de chicletes, que acabariam por cair sobre a escola como um pequeno dilúvio. Uma história engenhosa que divertiu o Pedro e o Antônio, também proibidos de chupar chicletes na escola, com a existência uma enorme árvore que transforme o não em um universo rico de possibilidades. A fantasia na história de Yolanda aparece como forma de a criança apoderar-se da realidade para, assim, elaborar o desejo negado. Fantasia que não nega a realidade, repleta de nãos e que se impõe no fim da história, mas que cria um mecanismo que transforma a frustração em novas possibilidades. A fantasia, nos ensina Yolanda, escritora que trouxe da sala de aula muitas de suas temáticas, é uma bela burla do interdito. Burla que nos permite reelaborar nos limites da realidade os nãos que ouvimos na vida. Yolanda fala para as crianças, mas faz com que nós adultos nos lembremos de como fazíamos isso e o quão divertido era burlar o não com a fantasia. A felicidade dos meus filhos diante da árvore de chicletes me fez ter certeza de que este mecanismo é essencial para nos impedir de cultivar rancores, diante de todos os nãos que, mesmo sem a gente perceber, nos ajudam a traçar nosso Norte e os limites em que nos movemos na vida. Ao fim do livro de Yolanda, só posso desejar que muitas árvores de chicletes floresceram no quintal dos meus filhos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Para gostar de ler

Lembro bem do primeiro livro que li sozinha. Eu devia ter uns oito anos e decidi ler a trilogia da Condessa de Ségur, que reúne As Férias, As meninas exemplares e Os Desastres de Sofia. Decidi não sei se é bem o verbo. Acho que minha mãe me ofereceu estes livros, da mesma forma que a  mãe dela havia feito cerca de 20 anos antes. Li os livros com o vagar dos recém-alfabetizados e com o compromisso de quem sabia que esperavam que eu os terminasse. O intervalo entre a primeira e a última página acho que foi maior do que um ano, mas eu cheguei lá. Até hoje lembro da minha animação com Sofia, que, apesar de ser a menos exemplar das três meninas, não devia ser nenhuma subversiva a se contar com a origem aristocrática da autora russa. Depois deles, já um pouco mais velha, li Pollyanna e Pollyanna Moça, da americana Eleanor H. Porter, com seu jogo do contente que faz a protagonista se resignar com todas as agruras da vida. Literatura para moças que mais tarde seriam boas esposas. boas mães e boas senhoras da sociedade. Parece velho isso, né? Mas foi  a literatura que me foi apresentada ainda criança. Minha mãe, filha de uma família da aristocracia carioca, que vinha perdendo posições com o aburguesamento do país e da cidade, me educava na virada dos anos 60 para o 70 com valores da elite do início do século. Mas era o raiar dos anos 70 e na minha casa, por razões outras, estes raios de sol também brilhavam. A mulher, dizia meu pai, mais no discurso do que na prática, tinha que ser independente, intelectualizada e livre. Apesar disso, minha educação seguia tradicional, com algumas brechas que me davam novas possibilidades e faziam com que meus pais tivessem certeza de que estavam educando uma mulher moderna. Eu me aproveitava dessas brechas e, sem saber direito a razão, me negava a usar as roupas comportadas, brincava como uma moleca e seguia adiante para uma adolescência mais do que conturbada. Foi a hora de me estranhar com aquele mundo. Esmalte colorido? Nem pensar. Pentear o cabelo? Pra quê? Sandália de salto? Muito desconfortável. Conversa de salão? O que eu falo? Foi então que caiu nas minhas mãos, quando a biblioteca do meu avô foi desmontada, uma coleção de livros do Érico Veríssimo. Eu os havia pedido para meu avó, talvez por eles serem os mais atraentes das estantes repletas de títulos em francês e coleções de autores clássicos que, naqueles dias, me lembravam a chatice dos livros adotados pela escola. A escola que frequentei é um capítulo a parte. O que havia de mais interessante nela era a coleção Para gostar de ler, da Editora Ática, que reunia deliciosas crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade. Eu adorava as histórias, que me repunham o ar na travessia de narrativas rococós de José de Alencar e companhia, adotadas nas aulas de Português. Quase 40 anos depois, fico feliz em ver o Pedro lendo, na escola, estas crônicas e encontrando encanto nelas. Mas voltando à estante do meu avô, Érico Veríssimo me deu, naqueles dias de sofrimento de adolescente, liga com o mundo. Comecei por Clarissa e li num só fôlego os seis romances em que o autor narra as aventuras e desventuras de um grupo de personagens que se cruzam nestas narrativas. Mas foi em Vasco, o primo por quem Clarissa se apaixona, que encontrei alguém que falasse a minha língua. Vasco, um gaúcho comunista, que vai lutar como voluntário na Guerra Civil Espanhola, animou minha imaginação romântica naqueles dias dos primeiros namorados. Eu queria um Vasco na minha vida, assim como Clarissa o tinha. O universo humanista de Veríssimo me mostrou um mundo maior e mais arriscado do que o das Meninas Exemplares, mas muito mais interessante. Cresci junto com Veríssimo, explorando as muitas possibilidades de sua literatura e de seus personagens. Cresci longe dos infanto-juvenis que encheram as livrarias naqueles anos 70 e formaram tantas gerações mais novas do que a minha, com uma literatura que falava a língua das crianças e dos adolescentes. Eu não tive isso, mas encontrei a minha língua em gente mais velha do que eu, como Vasco. Uma língua universal que não é indiferente a nada do que é humano, a literatura.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma história em círculos

Le petit Chaperon Rouge me impressionou no momento que o vi, ainda nas mãos da Sônia Monnerat, minha professora na especialização da UFF. Nunca tinha ouvido falar nele ou em seu autor, o suíço Warja Lavater, nascido em 1913 e falecido em 2007, três anos antes de eu conhecer sua mais popular obra. A obra é impressionante e mostra como é ilimitada a criatividade humana e sua capacidade de recriar a linguagem, além de ser um livro-objeto belíssimo.
Lavater conta a história de Charles Perrault, incorporando o caçador da versão dos irmãos Grimm,  com apenas 16 palavras, usadas nas legendas dos círculos coloridos que representam as personagens e o cenário da história. No mais, apenas grafismos. Grafismos que nos permitem acompanhar a trajetória de Chapeuzinho, seu encontro com o lobo e o desfecho da história em uma bela narrativa não verbal. Ele é o primeiro de uma série de cinco contos tradicionais recontados pelo artista em livros de imagens. Além de Chapeuzinho, Lavater recontou com suas tintas A Branca de Neve, Cinderela, O Pequeno Polegar e A Bela Adormecida. Infelizmente só conheço o primeiro. Mesmo assim foi um encontro fortuito. O vi naquele dia e nunca mais. Mas foi um encontro que me marcou. Marcou tanto, que, hoje, quase três anos depois de vê-lo ainda sou capaz de descrever meu espanto ao ver aberto diante de mim uma tira de papel de 4,74 metros, plissada e gravada com litografias. Como uma menina apaixonada no primeiro encontro, procurei o objeto de meu desejo por muito tempo sem encontrá-lo.
Editado inicialmente pelo Moma, ganhou edição popular na francesa Galerie Maeght, e nunca chegou ao Brasil. Popular não é bem o termo. Cada um deles custa 45,00 €. Já sei o que vou pedir para a minha prima trazer de Paris. Au revoir les enfants.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O maravilhoso amor de irmão

A maravilhosa ponte do meu rimão/irmão, de Ana Maria Machado, editado pela Objetiva, é um velho conhecido meu e do Pedro. Ganhei o livro de uma amiga querida, a Leni, que não está mais entre nós, quando o Antônio ainda era um bebezinho e nenhuma ponte o cativava. O Pedro adorava a história, talvez antevendo o amor e admiração que o irmão teria por ele anos mais tarde. Lemos várias vezes até que um dia, sem razão aparente, o livro ficou de lado na estante enquanto meus filhos cresciam. Pedro, nestes anos, foi deixando de ser criança para começar a se arriscar em um mundo em que as pontes só o ligam a meninas, ao rock e ao futebol. Antônio também cresceu, mas não o suficiente para descrer no maravilhoso. Para ele o mundo ainda é maravilhoso e senhor de mistérios que alimentam sua imaginação. Foi então que, ontem, em busca de uma novidade para ler para ele, lembrei da história e a busquei na estante. A ponte que me levou até o livro de Ana Maria Machado sobre o amor encantado de um irmão mais novo pelo mais velho, que o ensina as manhas da vida, foi o amor e o ódio que meus dois meninos vivem diariamente. O companheirismo é o combustível do amor que os une e o ciúme alimenta sem pudores o ódio experimentado pelos dois. Tanto que outro dia, flagrei no caderno do Pedro uma linha do tempo que indicava 2002 como o ano de seu nascimento e 2007, como o pior ano de sua vida, por causa do nascimento do irmão. Não foi nenhum choque, apenas ri. Conviver com um irmão nem sempre é fácil. Mas tenho certeza é uma das experiências mais ricas na vida de uma criança. Aprender a dividir, a compartilhar, a disputar, a brigar, a se defender, a azucrinar, a lidar com o ciúme, a amar e, sobretudo, a amar um tão próximo. Nada fácil, sei bem, eu que sou a do meio em uma família de três filhos, mas, diria, quase fundamental para a formação de um adulto disposto a partilhar sua vida com alguém. Essa experiência, acredito, fica ainda melhor quando os pais atuam para evitar os abusos cometido pelos mais fortes ou mais manipuladores, mas não impedem os irmãos de viverem seus conflitos. Aqui em casa, recentemente, tivemos que intervir para fazer o Pedro parar de se divertir em falar para o irmão que eu sumiria ou morreria, deixando-os sozinhos. Um dia o Antônio teve um ataque histérico na casa da avó, com medo de eu não voltar, que revelou o mal que o irmão estava fazendo a ele. O Pedro, assim que soube do efeito de sua brincadeira de péssimo gosto, chorou, dizendo que amava o irmão e que não fizera por mal. Sabemos que foi inconsequentemente por mal. Que ele é inevitável na relação de dois irmãos e que nem mesmo os pais podem evitar estas agruras. Querer irmãos sempre amáveis é plantar conflitos para o futuro. Na vida é preciso poder amar e odiar ao mesmo tempo. É da vida amar o irmão mais velho, que é exemplo e protetor, e odiá-lo por sempre levar a pior. Assim com amar o irmão mais novo, seu companheiro fiel, e odiá-lo por roubar seu espaço é um enredo clássico. Ana Maria Machado construiu uma bela relação entre os irmãos de sua história, onde não cabe nem mesmo a mãe, sempre alheia às razões deste amor. O que é maravilhoso no livro não é a ponte, mas o poder do amor entre irmãos tornar tudo maravilhoso, até mesmo um pedaço de madeira. Os dois meninos de A maravilhosa ponte de meu rimão/ irmão, amam acima de tudo, como o Pedro e o Antônio amam. Que assim possa ser para sempre.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ri melhor quem ri por último

Não há como ficar indiferente a uma boa história de macaco. Eles são inteligentes como nós humanos, maliciosos como os piores de nós e engraçados como os melhores. Essa identificação quase que imediata que temos com os macacos faz com que sempre torçamos por eles. Estejam eles certos ou errados, como é o caso do macaco do conto O macaco e o bolo, que faz parte do livro Histórias da Onça e do Macaco, da premiada Vera do Val, editado pela Martins Fontes. O macaco é um tremendo 171 e, além disso, entrega para a morte sem dó, nem piedade cada um dos bichos que engambela. Enfim, um ser desprezível. Mas não há como não admirar sua inteligência, que o leva a vitória em todos os embates em que se mete. A onça é mais forte, mas, nas histórias brasileiras, ela nunca leva a melhor. O macaco sempre a vence para alegria do leitor. Vera do Val, a contista paulista que radicou-se na Amazônia, reuniu várias destas histórias, que têm origem no folclore africano ou indígena e que se tornaram brasileiríssimas. Ela, que dedica o livro aos netos, narra cada um dos contos como se estivesse frente a frente com seu leitor. Não há criança que não se encante com Histórias da Onça e do Macaco, mesmo que já conheça alguns dos contos reunidos por Vera. O livro não corre o risco de parecer dégà vu, já que cada um que conta um conto aumenta um ponto. O Pedro, mais velho, foi capaz de reconhecer as diferenças entre as várias versões que ele conhece do Bicho Folharal e do Macaco e a Velha e curti-las. O Antônio, que está descobrindo os contos tradicionais, gostou mesmo foi das macacadas em torno do bolo e dos bichos que comem uns aos outros. Eu, por minha vez, adorei, além dos contos é claro, as ilustrações de Geraldo Valério, um brasileiro radicado no Canadá que com suas colagens reproduziu o esplendor das cores da floresta. Floresta que nós brasileiros fomos invadindo aos poucos com nossas cidades. As onças, que estão ameaçadas até nas matas, se foram. Mas os macacos estão em toda a parte - andando pelos fios saídos dos postes, nas janelas mais próximas do verde e em nossos parques urbanos - tentando com poucos recursos tomar de volta o território que um dia foi deles.  Nós, com nossa força, estamos vencendo este embate, mas a vitória, tenho certeza, não nos será doce. Ri por último quem ri melhor. E o macaco sabe disso.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um mistério que passa de geração em geração

Hoje estou voltando das férias. Não das minhas, mas dos meus filhos. Férias que me sugaram, que me tiraram qualquer tempinho que pudesse ser só meu. Tempo livre para fazer o que eu quisesse, inclusive, passar por aqui, onde não venho há pouco mais de um mês. Um mês em que pensei várias vezes em falar de O gênio do crime, de João Carlos Marinho, um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, que está nas livrarias há quase 40 anos encantando as crianças de várias gerações que topam compartilhar das aventuras da Turma do Gordo. Já são 60 edições e, pela vitalidade da história, estes números não vão parar por aí. O mistério de tanta longevidade, com certeza, está em uma narrativa bem amarrada da investigação acerca da falsificação de figurinhas de um álbum de futebol. Logo nas primeiras linhas vi que o Pedro, um aficionado por futebol que recentemente descobriu-se um amante de livros de mistério, tinha sido ganho para a história, que o fez retardar por alguns dias a hora de dormir. Bolachão é um menino gordo dotado de uma fina inteligência, que o leva a ser contratado pelo dono de uma fábrica de figurinhas para descobrir um falsário responsável por uma derrama de figurinhas premiadas no mercado. A partir daí desenrola-se uma excitante investigação que coloca em risco o menino e seus amigos. A narrativa de Marinho não se amesquinha para conquistar leitores mais preguiçosos. Pelo contrário, é rica em detalhes para delinear os personagens e criar o ambiente onde a história se desenrola. Além disso, ela não tem pena das crianças e as provoca a experimentar os mais terríveis sentimentos, como o medo da tortura e da morte, com a passagem em que Bolachão está em poder dos bandidos. Meu filho suou frio em vários momentos da narrativa, aumentando ainda mais seu interesse pelo livro. Marinho vai até o limite, fazendo o leitor crer que tudo é possível em sua trama. A trama policial é bem construída, nos dando pistas do desvendar do mistério, e convive com traços de humor na narrativa para aliviar a tensão do leitor ainda criança. Com certeza, Marinho não escreve para agradar, mas sim para inquietar. Tanto que o Pedro já está no terceiro livro da série, o premiado Sangue Fresco, em que a turma do Bolachão enfrenta um sequestrador de crianças e traficante de sangue humano. Que venham os outros livros com as aventuras da Turma do Gordo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O mundo encantado de Monteiro Lobato

Ler para um filho é como plantar uma árvore na esperança de usufruir de sombra no futuro. Uma sombra que recairá sobre outro, mas que, mesmo assim, nos refrescará. Uma sombra formada pelos anos passados ao lado dos filhos. Anos em que curtimos cada dia como se fosse o único e em que sonhamos com o futuro, com nossos meninos crescidos, valorosos e felizes. Anos em que cada minuto dessa convivência deixa alguma coisa para ser vivida depois, memórias, valores e afetos. Os livros, acredito, nos ajudam neste caminho desbravado ano a ano e que não sabemos ao certo onde vai dar. Como as pedrinhas de João, irmão de Maria, os livros nos dão o norte e a sorte de olhar para o mundo por uma janela muito maior do que nossos olhos poderiam abrir. Ver nos olhos dos nossos filhos o espanto com a descoberta, a curiosidade que os leva adiante e o prazer com uma bela história é uma experiência que nos une ainda mais a eles. Participar destes momentos de desabrochar para o mundo é um privilégio dado apenas aqueles que se dedicam a falar com as crianças. Monteiro Lobato, com certeza, sabia disso. Tanto que em suas histórias, recheadas do fantástico, nunca esquece de falar sobre as coisas da vida. Em O saci, de 1921, Lobato aproveita o encontro de Pedrinho com o Saci para questionar a crença da superioridade do homem sobre os outros seres vivos e fazer um pequeno inventário dos seres mitológicos do interior do Brasil. Pedrinho e o Saci travam longos debates sobre o que é mais valoroso, a inteligência humana ou os instintos animais e vão explorando a floresta e conhecendo seus seres reais e mitológicos. Pedrinho fica embatucado com tanta informação, mas mantém-se firme em sua posição de homem-branco-sempre-no-comando. Saci, com sua irreverência, vai fincando claves nas convicções de Pedrinho e fazendo nossas crianças pensarem sobre como o ser humano é pequeno diante da natureza. "Mãe, o que o Saci disse é verdade", quis saber o meu Pedro. A história está encantando noite a noite meus dois filhos. Na verdade, a escolha de O saci foi uma forma de dar ao Antônio, com seus cinco anos, a oportunidade de ler um livro em capítulos, como tenho feito com o Pedro, prestes a completar 11. No fim, o que aconteceu é que o Pedro passou a acompanhar com uma enorme atenção o livro e a abrir mão de ler o seu para ouvir mais capítulos de O saci. O Antônio, um apaixonado pelo Saci e outros seres mitológicos, está acompanhando com a maior atenção a história e aguardando com paciência a hora de degustar uma das lindas e poucas ilustrações que há na edição da Brasiliense, que estou lendo para eles. "Mãe, estou ouvindo a história, tá?! Quando tiver uma figura, me avisa", me pede, se aninhando no travesseiro, temendo perder as ilustrações de Manoel Victor Filho que retratam o encontro de Pedrinho com o Saci, a onça, a Iara, etc. Apesar de haver nova edição no mercado, com projeto gráfico moderno, preferi usar no blog a antiga por gostar mais da cara dos habitantes do Sítio do Pica-Pau Amarelo idealizada por Victor Filho e por tê-la como referência da minha infância. Assim, vamos seguindo lendo O Saci para finalmente entrarmos no mundo encantado de Monteiro Lobato, rejeitado pelo Pedro quando pequeno por seus volumes não serem livros ilustrados. Nossa sorte é que o Antônio topou de cara ouvir a história do Saci apenas com a imaginação. Ganhamos todos. Meus filhos, que descobrem um Brasil encantado nas histórias de Lobato, e eu, que, adulta, reaprendo a olhar o mundo com o espanto das crianças.