terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Sobre o paraíso prometido a todas as mães

Mexendo na estante dos meninos, encontrei Bililico, um livro que eu e o Antônio curtimos muito, quando ele era bebê. Escrito a três mãos por Denize Carvalho, Sonia Dreyfus e Eva Furnari, que também assina a ilustração, ele conta a história de Bi e Bililico, que, como todas as mães e filhos, se amam e, em vários momentos, se perdem. Bi é uma mãe grandona, nariguda e generosa e seu filho Bililico, um bebê pequenino, fofo e desprotegido. Os  dois vivem uma aventura que mexe com suas emoções. Bililico, pulando na cama, acaba sendo capturado por uma ave. Lá do alto, ele despenca na copa de uma flor e, assustado, sem saber como sair dali, cai no sono depois de muito chorar. A mãe, por sua vez, está nervosa procurando o filho. Procura de cá, procura de lá e nada. Ela chora, chora muito o desaparecimento de seu filho. Mas é a tristeza dela que o salva. Bi navega pelo rio de lágrimas que sua mãe verte e na foz a encontra, grande e generosa, para acolhe-lo. Um reencontro cheio de alegrias e ansiedades, assim como é a relação de uma mãe e com seus filhos. A história é contada com a beleza e o humor das ilustrações de Eva Furnari e a delicadeza de um texto de quem sabe das emoções de mãe e filho e do medo de ambos de perderem-se um do outro. Uma narrativa envolvente e encantadora que faz aumentar a crença das crianças no poder de acolhimento de seus cuidadores e dos adultos, nos ganhos que a relação com elas lhes dá. Com certeza, é uma bela leitura para aproximar mães e filhos. Mas, confesso que nesse momento, só me fez lembrar da polêmica nascida de uma brincadeira no facebook sobre o prazer de ser mãe. Mulheres de todas as idades e com número variado de filhos foram convidadas a postar três fotos que descrevessem o seu prazer de ser mãe. Do desafio resultou uma série de lindas fotos, em que mulheres sozinhas ou acompanhadas desfrutavam da companhia dos filhos, mas também no desabafo de uma jovem de 25 anos, recém-mãe, que expôs seu mal estar com maternidade: "Quero deixar bem claro que amo meu filho, mas odeio ser mãe." A declaração, vamos combinar, não é usual na nossa cultura católica e machista, em que os casais devem ter filhos e as mulheres cuidarem deles. Mas é legítima. Gostar de ser mãe e amar a criança são realmente coisas diferentes, mas que não deveriam coexistir. Deveriam ter filhos apenas mulheres e homens que gostassem de ser mães e pais e acreditassem nos ganhos de uma relação com uma criança. Mas isso acaba não acontecendo em uma cultura que praticamente impõe aos adultos essa experiência, como se fizesse parte do ciclo da vida ou fosse mais um troféu narcísico. Se ter filhos fosse uma opção apenas de quem quer de fato tê-los - com todas as perdas e ganhos decorrentes deles -, não estaríamos discutindo se é um prazer criá-los, mas, sim, como cuidar deles em uma sociedade que empurra mulheres e homens para a rua em busca de oportunidades de trabalhado, lazer, sexo e amor. A maternidade não deveria estar em xeque, mas, sim, a convenção social que faz das mulheres as únicas responsáveis pelas crianças. Deveríamos, em vez de engrossarmos a mais nova modinha dos círculos de classe média - de que é duro ser mãe e o que nos salva é o amor - cobrar que os homens assumam a paternidade, se sentindo responsáveis pela educação dos filhos, como as mulheres historicamente o são, e o Estado crie condições para que pais e mães possam criar seus filhos e se manterem produtivos. Uma responsabilidade que deve ser abraçada pelos dois e que, no dia a dia, é muito desgastante e faz muitas mulheres, assim como a maioria dos homens, rejeitar o papel de cuidar e orientar suas crianças e adolescentes e dar-se por satisfeitas com o amor que sentem pelos eles. Amor inquestionável, certo, mas sempre restará uma pergunta: quem vai criar nossos filhos? Empregadas, babás, avós, vizinhas?  Há quem diga que tem sido assim, desde que o Brasil é Brasil. Quantas mães da elite e da classe média se encarregam de cuidar pessoalmente de seus filhos? É verdade também que esta omissão nem sempre é uma opção delas. Escolher dedicar-se mais a eles nos primeiros anos de vida - deixando temporariamente o mercado ou reduzindo sua jornada de trabalho - é um luxo que poucas mulheres podem ter. Um luxo que não sai de graça, em uma sociedade que desqualifica a maternidade diante do trabalho. Mulher que tem seu lugar no mundo o encontra fora de casa, no mercado e nunca entre fraldas e mamadeiras. Filhos, infelizmente, viraram âncoras que tiram mulheres talentosas e promissoras do mercado de trabalho, de consumo e do sexo e da, cada vez mais, frenética vida social.  É quase consenso por aqui que filhos limitam a vida das mulheres e dos homens que os assumem. Pois é deste sentimento que se originam os conflitos, as dívidas, enfim, a certeza de perda que está fazendo mulheres de várias idades reeditarem a máxima “ser mãe é padecer no paraíso”. A diferença agora é que as mulheres modernas, moderníssimas, que foram educadas não apenas para trabalhar, mas, sobretudo, para ter atitude, não têm mais paraíso a conquistar. O amor que os filhos têm a oferecer lhes parece pouco. A contabilidade que faz a maternidade e a paternidade ser um mau negócio é lembrada a todos pela vida interessante de quem não tem filho nas redes sociais. Do paraíso que consolava nossas mães e avós, como a mãe de Bililico - o prazer de criar filhos, orientá-los e vê-los crescer - sobrou pouco ou quase nada. Não são poucas as pessoas que duvidam que a maternidade - sobre a paternidade nem se fala - pode ser uma realização pessoal. O mundo promete às mulheres muito mais e as empurra para gastar seu tempo cuidando de si e do corpo, investindo em sua formação profissional, divertindo-se, viajando e muito mais. Não há porque abrir mão disso tudo por crianças que um dia as deixarão mais gordas e frustradas do que aquelas que recusaram esse papel. O resultado desse conflito, que martiriza mulheres e homens que se vêm diante do verdadeiro desafio da maternidade e da paternidade, tem sido perverso com todos: pais e filhos. Por isso, Bi e Bililico mexeram tanto comigo nesses dias. Lembrar da certeza de meus filhos de que eu e o pai deles somos um porto seguro em suas vidas e apostar que um dia partirão para a vida sem nós, me faz ficar mais perto do paraíso que foi prometido a tantas e tantas mulheres antes de mim. Desta esperança é que me alimento todos os dias. Afinal, eu amo ser mãe.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A arte é uma coisa de tripa

Eu amei a Espanha. Passei pouco tempo em Madri e Barcelona, mas o suficiente para me fazer lembrar com frequência daquela terra, que, como descreve João Cabral de Melo Neto, "é coisa de tripa". Uma das coisas que mais me encantou por lá foram os vários museus que guardam a memória de pintores modernos espanhóis que assombraram o século XX, com seu talento e ousadia. Em Madri, o Prado é um esplendor com os clássicos que provocaram os modernos a tomarem outro caminho. O Reina Sofia um escândalo, com Guernica e outras obras que remontam a primeira metade do espetacular século XX. E Barcelona? Nos dá o Museu Picasso e o Museu Miró para não nos deixar esquecer da inquietude com que os modernos viam o mundo. Eles, nos museus da Espanha, ganham novo corpo, ao termos diante de nós o ambiente histórico e artístico em que eles se formaram. As tensões de um capitalismo ainda frágil com o mundo da tradição, as guerras, o fascismo, as vanguardas artísticas e o triunfo da heresia do modernismo sobre o conservadorismo do classicismo. Toda essa tensão foi o caldo de cultura para o surgimento da beleza que a virada do século XIX para o XX nos deixou, o que reforça a minha crença de que o desconforto é mesmo necessário à criação artística e me faz arriscar a dizer, parafraseando João Cabral, que a arte é uma coisa de tripa. É esse desconforto que fica claro no livro O pássaro na gaiola, do premiado ilustrador espanhol Javier Zabala, editado pela Pequena Zahar, que reproduz uma das cartas do pintor holandês Vincent Van Gogh para seu irmão Théo. Van Gogh morreu pobre, sem o reconhecimento de sua genialidade, e atormentado. Ele se suicidou aos 37 anos depois de uma série de surtos psicóticos, que o fizeram até cortar uma de suas orelhas. Sua vida trágica, em que conseguiu vender apenas uma das 800 obras que produziu, alimenta a mística em torno das relações entre genialidade artística e loucura e faz dele um personagem fascinante que falou muito de si em “Cartas para Théo”. Van Gogh fala, como em uma parábola, sobre seus sentimentos através da história de um pássaro preso em uma gaiola que implora por liberdade e autonomia. Ele se lamenta de não vencer as dificuldades de sua vida e de ser sustentado pelo irmão. No fim, liricamente, fala do amor que os une. O sentimento de impotência que atormenta o pintor é captado com sensibilidade pelo ilustrador espanhol, que trabalhou quatro anos nesse projeto, e expresso com o requinte de uma sofisticada ilustração que consegue refletir o mundo interior em que Van Gogh se sentia preso. As ilustrações são tão bonitas que mereceram, em 2014, uma exposição no Museu de Desenho e Ilustração de Madri, que, por desconhecê-lo não o visitei. Lá o público pode apreciar, além dos originais, todo o processo de criação do livro. Zabala usou técnicas como colagem, aquarela, tintas, acrílicos e monotipias para traduzir a angústia de Van Gogh. O resultado é uma obra delicada que, além de nos educar o olhar, nos apresenta um pouco mais de um dos mais importantes pintores modernistas. A edição é um presente para jovens leitores, que tem tudo para agradar também a leitores maduros e mais uma mostra de que a Espanha é mesmo "uma coisa de tripa". "A Espanha está nessa cintura/que o toureiro oferece ao touro,/e que é de donde o andaluz sabe/fazer subir seu cantar tenso,/a expressão, explosão, de tudo/que se faz na beira do extremo." Zabala, com seu livro, nos faz lembrar que é da ausência desse extremo que nosso tempo se ressente. Só me resta pedir, que a história tenha piedade de nós!