quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um leão feito de medo e de coragem

Millôr Fernandes e Flavia Maria Lobo se encontraram muitas vezes em vida. Eram amigos e tornaram-se  parceiros com o livro Maurício, o leão de menino, editado pela primeira vez em 1969. Quarenta anos depois, a história do menino assustado com o leão que dormia em seu armário ganhou nova e caprichada edição, com o selo da Cosac Naify. O formato do livro, como diz o catálogo da editora, faz jus a grandeza de um leão e, eu diria, da história. A nova edição, exibida como biscoito fino nas prateleiras das melhores livrarias, deu às novas gerações a oportunidade de conhecer Maurício e a amizade da autora e do ilustrador. Amizade que foi marcada por uma final coincidência, que fez a morte bater na porta dos dois com um intervalo menor do que uma semana, entre o fim de março e o início de abril deste ano. A morte, no entanto, não foi capaz de levar o que eles produziram juntos. Maurício é um pouco do frescor do Rio do início do desbunde e de suas improváveis e deliciosas histórias. Flavia Maria e Millôr são gente que fala de medo, com o humor dos transgressores e sem as delicadezas do politicamente correto, que, infelizmente, infectou muitos livros destinados às crianças nesta virada de século. Maurício é mais um dos fantasmas que as crianças criam para expressar o mal estar com a descoberta de que o mundo é um lugar imprevisível e inseguro para se viver. Um mundo que pode ser escuro, como a noite e o papel usado na impressão do livro,e, ao mesmo tempo, ser aos poucos desvendado pelo surgir do amarelo e do amadurecimento do menino que, à medida que vai crescendo, aprende a enfrentar seus fantasmas. Fantasmas que incluem seus pais quando ficam bravos. Afinal, que menino não tem medo dos berros dos pais. Os meus, Pedro e Antônio, se tremem quando percebem que nossos gritos são de verdade. Talvez por isso tenham adorado a hora em que o leão do menino enfrenta seus pais. A vingança é um prato que se come frio ou, na pior das hipóteses, se saboreia com a imaginação. Flavia sabe disso e teve a coragem de cutucar pais e filhos em uma narrativa que fala com verdade e de verdades para as crianças. O traço de Millôr, que todos nós conhecemos, engrandece a história de Maurício ao nos dar a possibilidade de viver esta catarse com humor. Afinal, não temos saída fora do humor ou da ternura para falar das verdades da vida para as crianças. O mundo é de fato imprevisível e inseguro, mas, se explorado com humor e ternura, pode ser uma experiência deliciosa.

Um comentário:

A Veroneze disse...

Eu sou jornalista, tenho tambpem duas filhas e gostaria muito de fazer essa especialização. O que está achando?