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sexta-feira, 9 de junho de 2017

A beleza das pequenas coisas e os rumores do mundo

Ando meio sumida daqui. Quase não tenho falado sobre minhas leituras com os filhos, na verdade, com o Antônio, já que o Pedro, com 15 anos, não compartilha mais comigo suas poucas aventuras literárias. O Antônio, sim, ainda quer dividir com a mãe os livros que lê ou tenta ler. Nos últimos tempos, temos nos aventurado por histórias longas, em várias sessões de leitura. A melhor delas, com certeza, foi Bambi, uma novela belíssima do austríaco Felix Salten, que me surpreendeu por sua riqueza, infinitamente maior do que a apresentada no também belo filme da Disney. O livro levou Antônio a ver o filme, que adorou, e a concluir que a história que estávamos lendo era muito mais legal que sua adaptação para o cinema. Uma bela lição que o fez ver que ler o livro e ver o filme são experiências muitos distantes e que ambas podem ser boas. O Bambi de Salten é muito mais do que o fofo filhote de cervo, apresentado no filme. Ele é um animal atento a seu meio, aos outros animais, enfim, à riqueza da natureza e à presença intrusa e ameaçadora do homem. O título original do livro, A vida na floresta, me parece mais acertado do que Bambi, que, certamente, se impôs na tradução brasileira da Cosac Naify pela notoriedade que o filme lhe conferiu. Mas não é Bambi o assunto do livro, é a vida na floresta contada sob a ótica do personagem. É sobre Bambi que o olhar do narrador se fixa para nos levar para um passeio surpreendente pela floresta habitada por uma infinidade de animais, pequenos e grandes, que reconhecem majestade no grande e elegante porte dos cervos. Mas, apesar de referências ao mundo dos humanos, como a importância da linhagem de Bambi, os animais de Salten não são humanizados e, por isso, não se prestam a um tradicional recurso da literatura infantil, o antropomorfismo. Eles são animais descritos na linguagem dos homens, que se contorce para reproduzir sua relação com o ambiente em que vivem. Os leitores mais atentos serão capazes de sentir o inicial estranhamento de Bambi com tudo o que lhe cerca, de ouvir o canto e a revoada de pássaros ou farfalhar de folhas, de se surpreender com o verde da floresta e a beleza dos animais e de sentir a fome e o frio impostos pelo inverno. Sentimentos que nos chegam, sem alarde, pela prosa de Salten que está colada com o universo da floresta e nos revela as luzes, os sons e as sensações vividas pelos personagens do livro. Essa simbiose entre objeto e palavra, conseguida pelo autor, é a grande beleza da narrativa, que nos fala de um tempo que a cidade matou e direciona nosso olhar para pequenos detalhes, que a vida corrida não nos deixa ver. Em Bambi o que importa é perceber aquela experiência pequena e rica do vento no corpo, da fome na barriga, da luz nos olhos, da voz nos ouvidos, enfim, dos rumores do mundo e de nosso corpo. Uma harmonia quebrada apenas pela presença dele, o homem, na floresta, com seus cães e máquinas de morte. Não há aproximação possível do mundo da floresta com o homem. Ceder ao homem é perder-se, desproteger-se, anular-se. É isso que Bambi nos ensina, nada mais. Não há tentativas de usar Bambi para falar de um menino que está aprendendo a moral da vida. Bambi é um cervo e move-se na floresta como um cervo e é isso que encanta o leitor. Eu e o Antônio adoramos seguir os passos de Bambi na floresta. A cada pequena emoção de Bambi, a fome, o frio, a perda da mãe, do amigo, a descoberta do amor, o encontro com o pai, enfim, suas experiências, o Antônio reagiu de forma diferente, mas sempre se emocionou com a história. O melhor foi ele ter sido capaz de acompanhar o ritmo lento da narrativa, em oposição à velocidade de nosso tempo, para acompanhar com paciência e encantamento a trajetória de Bambi e poder compartilhar com o personagem suas alegrias e tristezas. Bambi não quis nos ensinar nada, mas nos revelou que há beleza nas pequenas coisas e que, para vê-la, é preciso ouvir os rumores do mundo e de nosso corpo. Isso se o barulho da cidade nos deixar percebê-los.

PS: A má notícia é que a edição brasileira, com a primeira tradução da novela para o português a cargo de Christine Röhring, está fora de mercado. O livro editado com capricho pela Cosac Naify, que fechou as portas no final de 2015, só é encontrado em sebos ou na Amazon. A procura vale a pena. A belíssima história nos é apresentada em um livro de capa dura, encapado com tecido, e traz belas ilustrações de Nino Cais, que trabalhou com colagens de silhueta dos bichos sobre recortes de livros de botânica. Um luxo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As grandes questões da existência e o ano novo

O ano de fato começa hoje, dia 2 de janeiro. Passada a ressaca da festa, nos vemos novamente diante da vida: nua e crua, sem fogos, purpurinas e borbulhas. Seca e franca. E eu, novamente diante do branco desta página do word, nem tão limpa assim, tentando criar minhas alternativas. Não é fácil. Sei disso. Mas não estou sozinha. Logo aqui pertinho o Pedro e o Antônio dormem aquele sono longo de férias, cheios de ideias para uma vida que mal se iniciou. É deste combustível que me encho de esperanças no porvir. É deste corpo a corpo com um futuro que não é meu, que vou criando minhas saídas. Saídas que não podem nunca abandonar o que já construí. O novo só me enche os olhos se prenhe de passado e, por isso, preciso preservar pontes, mesmo nas rupturas. Não me pergunte nada. Ainda não sei  para onde vou. Mas navegar, como já nos disse o poeta, é preciso, mesmo que em rio seco. E assim sigo em meu desafio, buscando sentido nessa vida tão louca, a quem somos tão apegados, apesar de tudo. Fora dela não há saída, não há existência. A vida é uma existência que nos intriga e já fez muitos filósofos passarem a sua em busca da palavra exata para descrevê-la. Mas ela, ao que parece, não existe e, enquanto a procuramos, vamos vivendo, experimentando, criando e nos espantando com as inúmeras possibilidades de tradução da vida. Cada um, neste tempo múltiplo de que somos contemporâneos, vai encontrando a sua, escolhendo a que melhor lhe cabe. Mas para chegarmos lá, não podemos nunca nos esquecer daquelas velhas  perguntas que há milênios fazem os homens abandonarem seus lugares de conforto: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. As respostas são difíceis, talvez inalcançáveis, mas persegui-las deverá sempre ser nosso esporte. Um esporte que deve ser iniciado nos primeiros anos de nossa existência, muito antes das aulas de inglês, de empreendedorismo e de administração de sonhos. Para aprendê-lo não há cartilhas, nem técnicas ou táticas, há apenas liberdade para perguntar. Perguntar muito e sempre. Consultar a experiência alheia também é boa receita e há muitas delas disponíveis em belas narrativas. A arte é uma boa conselheira nesse exercício de pertencimento ao mundo e à vida. E as crianças amam fazê-lo. Aqui em casa, meus filhos o fazem de várias maneiras, mas não posso deixar de citar o livro A grande questão, de Wolf Erlbruch, uma espécie de introdução à filosofia, despretensiosa e lúdica como devem ser as obras para crianças, que encanta a todos, de qualquer idade. No livro, editado por aqui pela Cosac Naify, o ilustrador e escritor alemão cria um belo diálogo sobre a existência entre um menino que faz aniversário e vários outros personagens. Erlbruch, ao fim, convida seu leitor a responder a essa grande questão que há milênios nos inquieta. É perseguindo essa resposta que inicio mais um ano de minha vida. No mais, só me resta torcer para que 2017 seja um tempo feliz para mim e para toda a humanidade. Desejo talvez mais difícil ainda de se realizar do que encontrar a resposta para a grande questão. Mas são das impossibilidades que encontramos nossas saídas. E elas, com certeza, existem.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Um livro, como a vida, sempre tem dois lados

Ninguém duvida de que os fatos da vida sempre têm mais de uma versão. Infinitas versões, dependendo da situação, mas, podemos garantir, que, no mínimo, duas. E nem sempre é fácil compatibilizá-las e harmonizá-las. A vida é como ela nos parece ser. Não há vacina contra a má interpretação dos fatos. Não há garantias de que o que vemos de fato existe. Não há, nem mesmo, certezas sobre como são as coisas. Pois é, a visão dupla, o ponto de vista, a interpretação é a matéria prima de Ter um patinho é útil, da autora e ilustradora Isol, a argentina que ganhou, em 2013, o Alma, um dos mais prestigiados prêmios da literatura para crianças e jovens do planeta. O patinho de Isol, editado por aqui pela Cosac Naify, é na verdade a maneira de a autora brincar com esta verdade ou com a constatação da ausência dela. De um lado o patinho é o objeto útil para o menino. Do outro, o menino é o objeto útil para o patinho. Eles se alternam graças a um artifício do projeto gráfico do livro, que é uma sanfona com dois lados. A criança desenrola a sanfona de um lado, para ler a história do menino e quando chega do outro lado, começa a história do patinho. Uma brincadeira que parece simples e destinada apenas a entreter o pequeno leitor, mas tem a capacidade de ludicamente traduzir literariamente um axioma da vida. Não há dúvidas de que, quando um autor consegue esta façanha, a alegria fica por conta do leitor. Aqui em casa foi assim. O Pedro, mesmo já quase um adolescente, com seus 12 anos, se divertiu ao desvendar a brincadeira proposta por Isol. Riu ao fim, com o riso de quem percebe a trapaça da autora. Um livro para ler, tocar, abrir e pensar. Pensar em como a vida tem sempre, pelo menos, dois lados. Feliz de quem logo percebe isso.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um leão feito de medo e de coragem

Millôr Fernandes e Flavia Maria Lobo se encontraram muitas vezes em vida. Eram amigos e tornaram-se  parceiros com o livro Maurício, o leão de menino, editado pela primeira vez em 1969. Quarenta anos depois, a história do menino assustado com o leão que dormia em seu armário ganhou nova e caprichada edição, com o selo da Cosac Naify. O formato do livro, como diz o catálogo da editora, faz jus a grandeza de um leão e, eu diria, da história. A nova edição, exibida como biscoito fino nas prateleiras das melhores livrarias, deu às novas gerações a oportunidade de conhecer Maurício e a amizade da autora e do ilustrador. Amizade que foi marcada por uma final coincidência, que fez a morte bater na porta dos dois com um intervalo menor do que uma semana, entre o fim de março e o início de abril deste ano. A morte, no entanto, não foi capaz de levar o que eles produziram juntos. Maurício é um pouco do frescor do Rio do início do desbunde e de suas improváveis e deliciosas histórias. Flavia Maria e Millôr são gente que fala de medo, com o humor dos transgressores e sem as delicadezas do politicamente correto, que, infelizmente, infectou muitos livros destinados às crianças nesta virada de século. Maurício é mais um dos fantasmas que as crianças criam para expressar o mal estar com a descoberta de que o mundo é um lugar imprevisível e inseguro para se viver. Um mundo que pode ser escuro, como a noite e o papel usado na impressão do livro,e, ao mesmo tempo, ser aos poucos desvendado pelo surgir do amarelo e do amadurecimento do menino que, à medida que vai crescendo, aprende a enfrentar seus fantasmas. Fantasmas que incluem seus pais quando ficam bravos. Afinal, que menino não tem medo dos berros dos pais. Os meus, Pedro e Antônio, se tremem quando percebem que nossos gritos são de verdade. Talvez por isso tenham adorado a hora em que o leão do menino enfrenta seus pais. A vingança é um prato que se come frio ou, na pior das hipóteses, se saboreia com a imaginação. Flavia sabe disso e teve a coragem de cutucar pais e filhos em uma narrativa que fala com verdade e de verdades para as crianças. O traço de Millôr, que todos nós conhecemos, engrandece a história de Maurício ao nos dar a possibilidade de viver esta catarse com humor. Afinal, não temos saída fora do humor ou da ternura para falar das verdades da vida para as crianças. O mundo é de fato imprevisível e inseguro, mas, se explorado com humor e ternura, pode ser uma experiência deliciosa.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Minha homenagem a Maurice Sendak

Acabo de ler no jornal que o escritor e ilustrador americano Maurice Sendak morreu ontem, aos 83 anos, em decorrência de um derrame sofrido há dias. Fiquei triste, mesmo sem nunca tê-lo visto. Conheço de Sendak apenas o livro Onde vivem os monstros, editado aqui no Brasil pela Cosac Naify. Sei que não basta, mas para mim foi o suficiente para entender sua importância na cena da literatura infantil. Max, o menino protagonista do livro ilustrado, ganha no traço e texto de Sendak uma profundidade psicológica, digna de grandes personagens. Sua viagem à terra dos monstros, onde torna-se rei, dá ao pequeno leitor inúmeras possibilidades. Ele é a própria criança em diálogo com seus medos, desejos, fantasias e ansiedades. Sua mãe, a antagonista da história, está presente apenas no pensamento do menino, que desobedece, transgride, inventa e desafia, mas, como um bom filho, à casa torna. Max, podemos dizer sem medo, é a criança sadia. A criança que experimenta, sem, no entanto, cortar os laços com o mundo real. Ele vai e volta da terra dos monstros, com a certeza de que haverá um prato de comida quentinho o esperando. Para nós, convidados por Sendak para esta aventura, fica a certeza de que uma boa história é sempre uma rica viagem. Assim, que o Antônio a entende todas as vezes que a leio para ele. Já ouviu inúmeras vezes as aventuras de Max, na terra dos monstros, mas está sempre disposto a mais uma vez. Ele, mais que o Pedro, que conheceu a história com quase oito anos, assim que ela foi lançada no Brasil, curte as possibilidades da narrativa de Senadk. Curte tanto que, todas as vezes que a ouve, resolve assumir a identidade de um dos monstros - sempre o mesmo, que representam a subjetividade da criança em todas as suas possibilidades, do humor ao terror. Um belo livro, que, com certeza, justifica uma vida. Fica aqui minha homenagem a este grande autor, que ganhou os dois mais importantes prêmios mundiais da literatura infantil - o Hans Christian Anderson, em 1970, e o Astrid Lindgren, em 2003.
Quem quiser, ler outro comentário do Gato de Sofá sobre o livro, clique aqui.  

terça-feira, 10 de abril de 2012

Tecendo histórias, noite após noite

Em nova fase, dormindo cedo para acordar mais cedo ainda, o Pedro sempre chega à hora de deitar-se caindo de sono, o que o faz muitas vezes rejeitar as histórias que ofereço. Cada vez que diz não à minha intenção de ler para ele, lembro do enorme tempo que dedica à TV e à internet e penso que minha luta para trazê-lo para um mundo de leitores ainda não acabou. Chegamos, nós dois, a conversar sobre isso, sobre as possibilidades da leitura para vencer o tédio que toma conta das crianças às vésperas da adolescência e de como alguns personagens mexem com nosso imaginário e, assim, desvendam um mundo interior até, então, envolto em névoas. Ele ouviu atento, disse que gosta de histórias, mas que só gosta de ler, com suas próprias pernas, alguns poucos livros. Pensei que talvez esteja na hora de levá-lo a uma livraria para que escolha suas leituras. Mas enquanto este momento não vem, decidi prender a atenção de meu menino com As mil e uma noites, a coletânea de contos árabes iniciada pela fantástica história de Sherazade para livrar seu povo da fúria do Rei Shariar, que depois de traído resolve dormir cada dia com uma virgem e entregá-la, ao amanhecer, à morte. Sherazada buscou no fascínio dos contos um estratagema para manter-se viva e, noite após noite, poupar uma moça de seu povo. O rei, encantado com as histórias, a mantém viva por mil e uma noites, até que desiste de sua vingança para viver a seu lado. As histórias são realmente fascinantes pelo mundo exótico que apresentam e pela violência vivida com naturalidade, sem os floreios dos contos tradicionais europeus que ganharam, nos últimos séculos do segundo milênio, cores mais suaves do as originais. Li sem medo as histórias apresentadas por Sherazade ao despótico Rei Shariar para o Pedro, que espantou-se mais com as diferenças culturais da vida dos personagens do que com a violência por eles vivida. Interrompeu a leitura de Ali Babá e os 40 ladrões para entender como um homem casado promete casar-se com sua cunhada, que acaba de enviuvar de seu irmão. A violência, naturalizada por um contexto fantástico, não o chocou, como não choca a nós adultos. Ao fim de duas noites, Pedro, assim como Shariar, estava totalmente ganho para o universo fantástico prometido por uma boa história. Só não sei por quantas noites.
Em tempo: a edição que estou lendo para o Pedro é a da Cosac Naify, destinada a jovens leitores. As mais belas histórias das mil e uma noites, reunidas pela holandesa Arnica Esterl, ganham belíssimas ilustrações da russa Olga Dugina. As ilustrações de príncipes, princesas, ladrões e animais contribuem ainda mais para que o leitor embarque no universo oriental dos contos e faz do livro uma preciosidade para adultos e crianças. Mas como a edição só traz cinco contos, decidi comprar a tradução de Ferreira Gullar para As mil e uma noites, da Editora Revan. O livro, que ainda está sendo aguardado aqui em casa, não tem o mesmo apelo gráfico da edição da Cosac Naify, mas, em compensação, tem o texto de Gullar sobre a primeira coletânea publicada no Ocidente, em 1704, pelo francês Antoine Galland. São 18 histórias selecionadas e traduzidas por Gullar, que vão garantir mais algumas noites de boas histórias aqui em casa.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A vida vista de diversos ângulos

Cada dia é mais bacana ler para o Antônio. Ele está perdendo a mania de perguntar tudo o que acontece na narrativa e de se certificar de um em um segundo quem é do bem e quem é do mal, podendo, assim, curtir mais as brincadeiras e viagens propostas em cada história. Nesta nova fase, o divertido Pato Coelho, de Amy Krouse Rosenthal, com ilustrações de Tom Lichtenheld, editado pela Cosac e Naify, saiu da estante, onde estava esquecido, desde que ele o rejeitou, para ser uma divertida opção de leitura noturna. Lemos o livro várias vezes e, assim, pudemos explorá-lo em todas os seus ângulos. O Antônio se divertiu tentando vencer o velho desafio de desvendar uma imagem que se confunde com um pato e um coelho. Pato/coelho, na versão de Amy e Tom, é, antes de tudo, um bacana exercício de percepção visual. O bico do pato pode muito bem ser as orelhas do coelho e vice-versa, dependendo apenas com qual sugestão se esteja vendo a imagem. Ao fim, os autores embaralham as cartas, fazendo com que os dois personagens ocultos do livro - que debatem sobre o pato e o coelho - mudem de ideia e se vejam diante de uma nova imagem desafio. Afinal, perceber que a vida pode ser vista de diversos ângulos é o segredo dessa história.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um livro lido em dois tempos

Bichos que existem e que não existem, de Arthur Nestrovski, ilustrado por Maria Eugênia e editado pela Cosac & Naify, está no segundo tempo aqui em casa. A primeira vez que o li foi para o Pedro, quando ele tinha cinco anos, e ficamos encantados com o jogo de fantasia/realidade proposto pelo autor. Lemos o livro muitas e incontáveis vezes, o Pedro cresceu e ele ficou esquecido na estante até que o Antônio começasse a me perguntar a toda hora se os seres de suas fantasias e filmes existem na realidade. Foram tantas perguntas como, "lobisomem não existe de verdade, né mãe?", que me lembrei do livro de Nestrovski. O resgatei da estante e propus a brincadeira para o Antônio, que está se encaminhando para os cinco anos. Pra quê? Agora ele pede o livro quase todos os dias e se diverte muito tentando adivinhar o que existe e o que não existe. Fiquei surpresa ao ver que ele acertou quase todos os bichos da fantasia e da realidade, apesar de não dar muita bola para o mundo animal. Isso é mais um sinal de que meu menino está saindo daquele mundo maravilhoso em que vivem as crianças pequenas e está começando a discernir realidade de fantasia. O Pedro, em sua vez, aproveitava o livro como mais uma forma de contato com os bichos, que tanto o fascinavam. A memória do livro era boa, tanto que acompanhou com prazer a primeira leitura feita para o Antônio. Essas descobertas e diferenças entre irmãos fazem parte da alegria de ter um segundo filho. A gente ganha uma chance de ver a história de um ângulo totalmente diferente. A dos livros e da vida. Vale cada noite mal dormida.

sábado, 22 de outubro de 2011

Um céu de estrelas para um conto de amor

Eu sempre adorei mitologia grega e seu universo de deuses e semideuses. Na minha infância e adolescência, li e reli livros em que os principais personagens da mitologia grega eram apresentados. Sonhava, ao ver programas de TV que propunham viagens no tempo, viver na Grécia de belos homens e mulheres convivendo com os deuses em histórias heróicas. Mas somente quando cresci e entrei na faculdade, entendi que era através desses mitos que os gregos organizavam simbolicamente o mundo dos mortais. Aquelas histórias fantásticas davam corpo aos valores que lhes eram caros e às condutas desprezíveis. Foi então que aquele encantamento juvenil me ajudou a começar a desvendar o mundo em que eu vivia, herdeiro daquela tradições. Não à toa, assim que o Pedro cresceu um pouquinho, passei a comprar livros com adaptações dos mitos gregos para crianças. Até que um dia me deparei na estante de uma livraria com Psiquê, de Angela Lago, editado pela Cosac Naify. O livro era recém lançado e me encantou, apesar da quase certeza de que o Pedro não se interessaria por ele. Comprei-o como um presente para mim mesma. A história da bela princesa que desperta a ira da deusa Afrodite e, depois de enfrentar os abismos da alma e a morte, acaba conquistando o coração de Eros não tem idade. Na versão de  Angela, ganha contornos ainda mais belos, com sua prosa e ilustração que criam uma atmosfera de sonho e fantasia, como pano de fundo para o enlace da alma com o amor. O li e guardei-o na estante do quarto dos meninos sem dividi-lo com o Pedro, que o rejeitou de imediato. Meses depois, há poucos dias, lendo para os dois à noite, peguei o livro e comecei a leitura que logo prendeu a atenção do meu mais velho. Contei a história no ritmo de sonho proposto pela autora e o Pedro a acompanhou interessado. Ao fim, ele disse apenas que a história era linda. Disse pouco e tudo. Assim, como Adélia Prado, em seu breve comentário na quarta capa do livro, disse: "Como é possível alguém perfurar um papel de fundo preto e me obrigar a dizer: é um céu estrelado". Assim é a fantasia proposta pela mitologia - imediata e profunda.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O humor e as delícias de um leitor iniciante

O Diário de um Gato Assassino, de Anne Fine, das Edições SM, foi lido de um único fôlego para um Pedro atento que, ao fim da narrativa, lamentou-se por sua brevidade. Realmente o livro é pequeno, com apenas 64 páginas e algumas poucas ilustrações de Sofía Balzola, mas é super bacana. A sacada da autora inglesa foi criar um gato, que segue o esteriótipo do felino dono de um humor sarcástico, para tratar da naturalidade da morte. Para o gato, esses eventos são banais, para seus donos, uma pequena tragédia. E para quem os lê, uma divertida aventura. São livros assim que tenho procurado para oferecer para o Pedro, atualmente um aficionado da série Diário de um Banana, de Jeff Kinney, editado no Brasil pela Vergara & Riba. O banana veio depois dos sete volumes de As Aventuras do Capitão Cueca, de Dav Pilkey, editados pela Cosac Naify. Nada contra o banana, que acho muito engraçado, e o Cueca, que acho uma bobagem sem fim. Muito pelo contrário! Eles fizeram o Pedro ler por conta própria e dividir suas experiências de leitura com os amigos. Ponto para eles! Mas isso não me impede de buscar obras que tenham maior preocupação com o estilo da narrativa. O que não é fácil! Meu olhar está sempre focado em livros com humor, já que ele é uma excelente isca para um menino de 9 anos, que começa a descobrir as malandragens da vida. Mas o humor não é um recurso literário fácil de ser trabalhado. Eu, pelo menos, não rio de qualquer coisa que leio ou vejo. Meu riso é difícil, mas quando encontrado, incontrolável.  Assim, tem sido por toda a minha vida. O Pedro está no meu caminho, que acredito, vale dizer, ser o mais comum. Por isso, tem sido um desafio encontrar bons títulos para ele, como já falei disso brevemente aqui. Ele já passou da fase de ler livros ilustrados e ainda não está maduro o suficiente para ler sozinho obras com muito texto. Isso faz com que me empenhe cada vez mais para não deixá-lo sozinho nesse momento, em que passa a ser um leitor/ouvinte mais exigente. A dificuldade dele encontrar sozinho o que ler, poderia significar uma ruptura em seu processo de formação de leitor. Há quem diga que estou sendo excessivamente tutora e preocupada com isso e que deveria o deixar mais solto e livre para buscar suas escolhas literárias. Mas o que temo é que, nessa idade, o Pedro ainda não tenha vontade suficiente para sozinho alimentar sua fome de leitura e, que sem combustível, ela vá aos poucos se apagando, como uma vela asfixiada. Enquanto eu tiver prazer em fazer essa garimpagem, por que não?

sábado, 12 de março de 2011

Uma bruxinha para chamar de sua

Faz tempo que não escrevo no blog, eu sei. Mas é que aqui em casa fevereiro é um tempo animado. Além da rotina de sempre - trabalho e filhos -, ainda temos o carnaval. Eu e o Cadoca adoramos a folia, que no Rio começa duas semanas antes do carnaval oficial. Por isso, não tenho escrito no blog. Mas nossas leituras noturnas continuaram. O Pedro hoje é um leitor mais exigente. Gosta de novelas e romances, onde pode acompanhar por mais tempo as aventuras e desventuras de seus personagens prediletos. Estamos lendo o quarto livro da série do Pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny. O da vez é A volta às aulas do pequeno Nicolau, editado pela Rocco Jovens Leitores. Ele não se cansa de saber da gulodice do Alceu e das trapalhadas da turminha do Nicolau. Ri que faz gosto. Já o Antônio, meu menino que está prestes a completar quatro anos, adora variar. Cada dia quer um livro diferente. Mas ele tem suas predileções que variam de tempos em tempos. As atuais são O bem com o bem se paga, recontado por Edgard Romanelli e editado pela Moderna, e já comentado aqui, e A Casa assombrada, de Kazuno Kohara, editado pela Cosac Naify. A história da menina que não era apenas uma menina, era também uma bruxa, é realmente encantadora. Tão encantadora que dá frescor às velhas histórias de casas assombradas por fantasmas. Isso explica a razão de o Antônio ter me feito lê-la todos os dias da semana que passou. Como sempre ele resolveu renomear os personagens com nomes de seus amigos queridos. A bruxinha virou Marina e o gatinho, Lucas. Mas no meio da semana o Lucas perdeu o posto para o próprio Antônio, que passou a ser o companheiro das caçadas de fantasmas da Marina. A história é daquelas que permitem às crianças suas próprias fantasias. O texto e a imagem têm a sintonia necessária aos bons livros de imagens, fazendo com que a história seja lida e vista ao mesmo tempo. A japonesa Kazuno Kohara, radicada em Londres, é autora do texto e das ilustrações. Ele teve uma bela sacada para dar leveza à bruxinha e seu companheiro gatinho e aos fantasmas. Suas ilustrações foram todas criadas nas três cores do Halloween - laranja, preto e branco - e impressas em papel Alta Alvura, 150g/m, o que dá elegância ao livro. A leveza e o humor da história são um convite para as crianças, assim como a bruxinha, fazer os fantasmas de gatos e sapatos e rir um bocado do medo que mora em cada um. Pelo menos é isso eu e o Antônio temos feito antes de dormir, com a ajuda da bruxinha de Kazuno Kohara.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A vida e a morte podem deixar frutos

A morte e o envelhecimento são temas difíceis. Tão difíceis que muitas vezes nos furtamos de encará-los. Mas eles estão lá, no fundo de nossas emoções, nos assombrando. A nós e a nossas crianças até que alguém, como o escritor austríaco Christian Duda, radicado na Alemanha, resolve trazê-lo à luz e, com coragem, encarar de frente o incômodo que eles nos causam. Duda assim o fez em Todos os Patinhos, seu livro de estreia na literatura infantil e juvenil, editado no Brasil pela Cosac Naify, em 2009.
A história do encontro da raposa Conrado e do patinho Lourenço e da formação de uma improvável família servem para o autor tratar sem temor do curso natural da vida que nos leva ao envelhecimento e à morte. Mas este caminho pode ser profícuo, como nos propõe o autor, se ele for pavimentado pela certeza de que, em vida, nos demos para alguém que vai continuar nossa história. Mesmo que para isso tenhamos que, como Conrado, abrir mão de prazeres mais imediatos e previsíveis e viver uma história nada convencional.
A narrativa de Duda é rica em humor, como gostam as crianças, e lirismo para falar da relação construída entre Conrado e Lourenço. Relação tão intensa e verdadeira que nem mesmo o envelhecimento e a morte a ameaçam. Quando eles chegam, chegam com a calma dada pelas coisas inevitáveis e assim são vividos pela raposa e pelos patinhos. Da mesma forma que chegam para aqueles anciões, que, calmamente, se desenlaçam da vida por ter a certeza de que a viveram plenamente.
Isso, no entanto, não elimina o mal estar que o tema provoca. Mas nos oferece uma rara oportunidade para tratar do destino de todos os seres vivos com as crianças, que, mesmo caladas, sofrem com esta predistinação ao imaginar a morte delas e de seus pais.  
O drama de Conrado e Lourenço, no entanto, é amenizado pela força da narrativa de Duda, que encontra no traço vibrante das ilustrações da alemã Julia Friese, radicada na Irlanda, uma excelente parceria que rendeu prêmios na Alemanha e o selo brasileiro de Altamente Recomendável, concedido este ano pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil). O encontro entre autor e ilustrador de Todos os patinhos deu tão certo, que eles lançaram em agosto deste ano, na Alemanha, um novo livro para crianças – Schnipselgestrüpp, ainda sem tradução para o português.  
As ilustrações de Julia misturam tons fortes, recortes e colagens para nos criar a impressão de estarmos vendo um desenho animado. Julia não abre mão nem mesmo dos rabiscos iniciais das cenas descritas por seu traço. A força de seu desenho justifica as páginas duplas, nas quais, sem texto, as ilustrações são o único recurso narrativo. O impacto poderia ser ainda maior se Julia tivesse ousado e impresso o livro em um papel mais grosseiro do que o couché fosco, o que daria mais vida ao efeito rústico que a ilustradora dá ao cenário.  
De qualquer forma, Todos os patinhos é um belo livro para jovens leitores preocupados com os mistérios da vida e da morte. O texto de Duda e as ilustrações de Julia não lhes darão respostas, mas, com certeza, provocarão um rico diálogo interior na busca de preencher um pedacinho do vazio que a morte provoca a todos – crianças e adultos.


PS: Este texto foge do padrão dos relatos postados neste blog por ter sido produzido para o curso de pós-graduação em Literatura Infanto-Juventil da UFF. Antes de escrevê-lo, li o livro para o Pedro, meu filho de oito anos, que estava se divertindo com a narrativa de Duda até perceber a morte na história. Ele, como já falei aqui outras vezes, lida muito mal com este tema. Por isso, ouviu o resto da história com o olhar enevoado e ao fim disse que era chata. Chata para ele, antes e acima de tudo, é a morte. Para mim também, mas, como Duda, percebi que uma vida bem vivida pode dar sentido a ela. Espero que o Pedro também consiga perceber isso um dia. Até lá, o que fazer? Só lhe resta conviver com este mal estar, que atravessou quase todos os dias de minha vida.  

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Com a morte entalada na garganta

Há tempos paquero o livro O pato, a morte e a tulipa, do alemão Wolf Erlbruch, editado pela Cosac Naify. Todas as vezes que me deparava com ele nas livrarias o pegava e lia com prazer e encantamento, causado pela beleza gráfica da história do pato que trava um profundo diálogo com a morte. Mas, apesar de achá-lo lindo, acabava sempre o deixando de lado. A razão era o desconforto que este tema causa a mim e ao Pedro. A morte sempre foi um assunto difícil na minha vida e percebo que também o é para meu filho mais velho. Todas as vezes que ela surge entre nós, vejo sofrimento nos olhinhos dele. Outro dia, ele veio me mostrar que gravara uma mensagem no celular. Eu a ouvi com um trago na garganta. Pedro dizia que amava a mim, ao pai e ao irmão e que temia muito que algum de nós morresse. Foi a maneira meio torta que ele encontrou de me falar de um medo tão comum nas crianças. Ele precisou de um gravador entre nós para poder me contar de sua angústia. Como me lembrei de mim quando criança? A noite, quase todas, me ameaçava com a ideia da morte dos meus pais, minha própria e dos meus irmãos. A solidão de meu quarto aumentava ainda mais a minha apreensão com a possibilidade de não mais encontrar o dia. Mas eu sempre acordava e, de dia, esse assunto não me importava. Acho que é assim com o Pedro. A ideia da morte o assombra e depois vai embora o deixando novamente vez em paz. Por isso, me pergunto se vale a pena provocar esta emoção, mesmo com uma leitura tão rica de subjetividades e de saídas para uma boa conversa, como a do pato de Erlbrush. O meu racional diz que sim, mas meu coração de mãe se rende a velha ideia de que é melhor deixar as coisas como estão. Mas por vias das dúvidas, no domingo, ao ver o livro na prateleira de uma livraria resolvi trazê-lo para casa. Quem sabe?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Para falar de Deus...

A criação, do belga Bart Moeyaert, editado pela Cosac Naify, foi um dos meus erros que, tempos depois, acabou em acerto. Eu comprei o livro há uns três anos e, claro, o Pedro não gostou. Ele, na época, com cerca de cinco anos e nenhuma cultura religiosa, boiou na história do homem apequenado diante de Deus criando o mundo e todos os seres. O humor fino do texto de Bart, com certeza, não disse nada para aquela criança alheia ao mundo cristão. O livro voltou à estante e ficou esquecido por lá até semana passada, quando resolvi tentar mais uma vez sua leitura. Agora deu. O Pedro prestou uma bruta atenção na história do homem diante da criação. O texto de Bart e as ilustrações do alemão Wolf Erlbruch têm um humor refinado para tirar o homem do lugar passivo que as religiões sempre lhe reservaram. O primeiro homem criado por Deus não deixa de ser perplexo, mas tem uma postura crítica diante daquele ser poderoso, que tudo pode e faz. "Deus (...) por que você criou primeiro a luz, e só depois o Sol? Não devia ser o contrário? Não devia ter sido ao mesmo tempo? Pensando bem, será que valeu a pena? Você não se arrepende?", pergunta o homem para um deus em fim de criação. Confesso que gostei deste homem abusado que não fica intimidado diante de nada e não se deslumbra com sua semelhança com Deus. "Confesse de uma vez: eu fui um erro!" Pois é, uma ótima leitura para mães agnósticas e em dúvida sobre a existência de Deus, como eu, apresentarem para os filhos à guisa de educação religiosa.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A viagem de Max para onde vivem os monstros

Uma bela história é o melhor que há na literatura infantil. Melhor ainda quando uma bela história é acompanhada de belas ilustrações. Este é o caso de Onde vivem os monstros, com texto e ilustração do premiado autor americano Maurice Sendak. O livro é uma beleza que consquista a gente no primeiro toque. Digo toque porque a edição da Cosac Naify é de um capricho que vai do papel importado à lombada de tecido. Mas o livro merece. A história de Max que, castigado pela mãe, embarca em uma viagem imaginária à terra em que vivem os monstros e, chegando lá, torna-se por sua esperteza o rei do lugar merece tanto esmero. As ilustrações de Sendak são tão expressivas que nos fazem sentir a textura do pelo dos monstros e a rudeza da vegetação do lugar, fazendo de sua história e de seus personagens uma peça mítica. Mas, engraçado, não foi isso que chamou a atenção do Pedro. O que lhe conquistou foi mesmo a história e a descoberta de Max de que nem todo amor é verdadeiro. "Ele percebe que os monstros só gostavam dele porque ele era o rei. Quem gostava dele era a mãe e o pai", resumiu meu menino, que colocou um pai na história, em que só aparece a mãe. Justo. O Cadoca merece. Agora a gente aguarda a estreia do filme de Spike Jonze que, pelo que vi no trailer, faz jus a beleza do livro.
Quem quiser conhecer outro comentário do Gato de Sofá sobre o livro, clique aqui.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Surpresas na noite escura

Na noite escura, do designer Bruno Munari, editado pela Cosac Naify, me chegou como um presente da professora de literatura e escritora Ninfa Parreiras, que coordena o grupo de estudos de livros infanto-juvenis da Estação das Letras, do qual faço parte, para eu ler para meu filho. Assim que cheguei em casa abri o livro para ele. Pedro sentou-se ao meu lado e se divertiu explorando página por página e cada uma das texturas de papel em que o livro foi publicado. Ele adorou a história do gato em busca de uma luzinha perdida na noite, que encontra o dia e, ao seguir uma formiga,  reencontra a noite. Pedro entendeu melhor do que eu a obra, publicada pela primeira vez na Itália, em 1956, como parte da experiência dos livros-ilegíveis, que se trata, segundo o próprio Munari,  de "livros sem palavras mas com imagens abstratas que se transformam virando as páginas, como fotogramas de um filme". Pedro se encantou com os vagalumes, que funcionam como uma saída para o absoluto da noite, e leu o livro com a imaginação. Eu talvez não tenha conseguido me desligar da minha condição de adulta, racional e excessivamente verbal para curtir mais o livro de Munari, um autor que, como as crianças, pensa com a imaginação.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mamãe zangada não é vítima, nem algoz

Relutei muito antes de citar o livro Mamãe zangada, da alemã Jutta Bauer, editado pela Cosac Naify. Nada com a qualidade do livro, já que o texto e as ilustrações de Jutta são lindos e a edição, como todas da Cosac, muito bem cuidada. A razão de minha relutância se deveu a dois fatores: o livro ser muito badalado e, assim, eu ter pouco a acrescentar; e minhas dúvidas sobre para quem de verdade a autora fala, para mãe ou para o filho. Mamãe Zangada será, como disse a Renata, uma colega de trabalho que não tem filhos, um livro para as mães se envergonharem? Ou será um livro para pensarmos, mães e filhos, nos limites de nossa tolerância? Os acessos de ira, se respeitados os limites da civilidade, são normais nas relações entre mães e filhos. Quem nunca enlouqueceu sua mãe que joge a primeira pedra e a mãe que nunca gritou com o filho que me desminta. Acredito mesmo que a autora não queria fazer de Mamãe Zangada um manifesto politicamente correto contra a violência nas relações entre mães e filhos. Pelo contrário, em entrevista à Revista Babar, Jutta diz que "para se resolver conflitos há que se passar primeiro pela tristeza e pela dor". Desta forma, acredito que nesta história não haja vítimas, nem algozes. Afinal, a mamãe pinguim também sofre com a bronca que dá em seu filho. Como todas nós, mães, culpadas ou não.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Brasileirinhos em verso e belíssimas ilustrações







O poeta Lalau e a ilustradora Laurabeatriz formam uma dupla e tanto! Eles são os autores da maravilhosa série Brasileirinhos, editada pela Cosac & Naify. São quatro livros em que eles apresentam em verso e em belíssimas ilustrações bichos brasileiros que estão em risco de extinção. A seleção dos bichos é um dos pontos altos dos livros, que nos apresentam desde o famoso e fofo peixe-boi até a desconhecida lagarixa-de-areia. Cada um deles ganha uma página dupla, onde um poema exalta suas características e qualidades e um pequeno texto informa sobre seu habitat, sua alimentação e a condição de risco em que vive. Os textos são fáceis e agradáveis e podem ser lidos para crianças bem pequenas. O Pedro foi apresentado ao primeiro deles, Brasileirinhos - na minha opinião o melhor -, aos três anos. Os outros - Novos Brasileirinhos, Mais Brasileinhos e Bem Brasileirinhos - vieram na seqüência e serviaram tanto para ele ter os primeiros contatos com a poesia, quanto para ele conhecer mais sobre os bichos brasileiros. Até hoje, já alfabetizado, gosta de folhear e ouvir as histórias destes bichos tão brasileiros. O encanto dos livros rendeu à série o selo de Altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil. Com justiça!

sábado, 8 de novembro de 2008

Contos para adultos incorformados

Confesso que nunca ouvira falar em Jacques Prévert até depararme com o instigante título Contos para crianças impossíveis, uma tradução da Cosac Naify. Mãe de uma criança impossível e apaixonada por histórias, resolvi comprar o livro ilustrado pelo brasileiro Fernando Vilela. Ao ler a apresentação do filósofo José Arthur Giannotti percebi de imediato que o livro não era exatamente para uma criança, mas para adolescentes e adultos incorformados. Isso mesmo. Jacques Prévert faz um manifesto contra o antropocentrismo que fez o homem destruir e dominar a natureza. Seu discurso é a favor da natureza, mas não foi escrito na recente onda do crescimento sustentável. Ele é um dos expoentes da literatura francesa do pós-guerra - sua primeira obra Paroles foi publicada em 1945 - e fala o francês do povo. Sua verve é libertária e questiona o modelo que nos fez senhores do mundo. Seu manifesto me encantou. Com certeza vou procurar para ler suas outras obras publicadas no Brasil: Dia de folga, da Cosac Naify, Carta das Ilhas Andarilhas, da 24 Letras, e Poemas, da Nova Fronteira.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A grande questão

Quem nunca se perguntou de onde veio, para onde vai e porque está aqui? A resposta não é fácil e com certeza não é única. Mas a gente pode encontrar uma ajuda para aplacar esta angústia, que nasce conosco, no maravilhoso livro do alemão Wolf Erlbruch. Nossas crianças não precisam saber alemão para brincar de filosofar sobre A Grande Questão. O livro foi editado com capricho, em português, pela Editora Cosac & Naify. A leitura compartilhada da obra, que ganhou o prêmio de melhor livro na Feira de Bolonha, em 2004, é uma divertida brincadeira entre adulto e criança, com cada um falando sobre o porque está aqui. Eu acho que estou aqui para amar os meus. E você?