Hoje é o primeiro dia de um novo ano que promete ser osso duro de roer. Um ano depois de outro ano difícil, em que perdemos muito, aqui no Brasil, mas ganhamos a certeza de que a vida é isso: luta. Mas para lutar é preciso também alguma ternura, ou melhor, é preciso poesia. A liberdade e a fantasia, ao contrário do que ouvimos, desde crianças, não são escapismo, são possibilidade. A arte é isso, liberdade, fantasia e possibilidade. Eu diria, parafraseando Ferreira Gullar, que a arte é essencial quando a vida falha. É dentro de seu círculo, ou extrapolando seus limites, que a vida se amplia, promete o que nos parece impossível e nos faz mais humanos. As crianças vivem a permanência desse estado de possibilidade, negado a nós pelo racionalismo que nos rege no mundo da produção, por experimentarem a liberdade e a fantasia em seu cotidiano. Uma experiência singela, difícil de ser captada por nós, adultos, sempre tão rasos e complexos, mas encantadora, como é o livro Lina e o Balão, da japonesa Komako Sakai, editado pela Pequena Zahar e traduzido por Lúcia Hiratsuka, sempre tocada por um olhar infantil. A narrativa trata da relação de Lina com um balão de gás e é construída em um texto que preserva a inocência da criança e por delicadas ilustrações que trazem em seus traços um ar retrô, que nos remete a um tempo em que a infância era protegida das verdades da vida. A menina de Komako é quase um neném e brinca com seu balão, como se ele tivesse vida. E tem. Atravessado pelo olhar mágico de Lina, o balão vira um amigo constante e sua "fuga" lhe impõe verdadeiro sofrimento. A sorte da menina é ter na mãe uma parceira nessa viagem tão rica que somente a liberdade e a fantasia podem proporcionar. Lina segue se relacionando com o balão, sem ser confrontada com a racionalidade uma única vez. Uma viagem que amplia as possibilidade do "mundo real" e pode tornar a vida ainda mais rica. Uma viagem que, infelizmente, está cada vez mais sendo negada às crianças, em nome de verdades que irão prepará-las para a vida, como se a vida que levamos não fosse o fruto da liberdade e da fantasia humana. Uma história para nos enternecer e, sobretudo, para nos lembrar que a infância é um tempo de possibilidades e devemos não apenas deixá-la se manifestar, mas nos inspirar nela. Que o olhar de Lina sobre o balão nos sirva de bússola para atravessarmos 2018.
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Um sopro de possibilidades na primeira manhã de 2018
Hoje é o primeiro dia de um novo ano que promete ser osso duro de roer. Um ano depois de outro ano difícil, em que perdemos muito, aqui no Brasil, mas ganhamos a certeza de que a vida é isso: luta. Mas para lutar é preciso também alguma ternura, ou melhor, é preciso poesia. A liberdade e a fantasia, ao contrário do que ouvimos, desde crianças, não são escapismo, são possibilidade. A arte é isso, liberdade, fantasia e possibilidade. Eu diria, parafraseando Ferreira Gullar, que a arte é essencial quando a vida falha. É dentro de seu círculo, ou extrapolando seus limites, que a vida se amplia, promete o que nos parece impossível e nos faz mais humanos. As crianças vivem a permanência desse estado de possibilidade, negado a nós pelo racionalismo que nos rege no mundo da produção, por experimentarem a liberdade e a fantasia em seu cotidiano. Uma experiência singela, difícil de ser captada por nós, adultos, sempre tão rasos e complexos, mas encantadora, como é o livro Lina e o Balão, da japonesa Komako Sakai, editado pela Pequena Zahar e traduzido por Lúcia Hiratsuka, sempre tocada por um olhar infantil. A narrativa trata da relação de Lina com um balão de gás e é construída em um texto que preserva a inocência da criança e por delicadas ilustrações que trazem em seus traços um ar retrô, que nos remete a um tempo em que a infância era protegida das verdades da vida. A menina de Komako é quase um neném e brinca com seu balão, como se ele tivesse vida. E tem. Atravessado pelo olhar mágico de Lina, o balão vira um amigo constante e sua "fuga" lhe impõe verdadeiro sofrimento. A sorte da menina é ter na mãe uma parceira nessa viagem tão rica que somente a liberdade e a fantasia podem proporcionar. Lina segue se relacionando com o balão, sem ser confrontada com a racionalidade uma única vez. Uma viagem que amplia as possibilidade do "mundo real" e pode tornar a vida ainda mais rica. Uma viagem que, infelizmente, está cada vez mais sendo negada às crianças, em nome de verdades que irão prepará-las para a vida, como se a vida que levamos não fosse o fruto da liberdade e da fantasia humana. Uma história para nos enternecer e, sobretudo, para nos lembrar que a infância é um tempo de possibilidades e devemos não apenas deixá-la se manifestar, mas nos inspirar nela. Que o olhar de Lina sobre o balão nos sirva de bússola para atravessarmos 2018.
terça-feira, 2 de junho de 2015
A poesia e os desafios impostos pela língua
Percebo no Antônio um prazer enorme em descobrir os segredos da escrita e a da leitura. Um prazer que faz com que ele, desde pequenino, se divida entre ouvir uma história e acompanhar com os olhos ou mesmo os dedinhos as palavras e frases impressas nos livros. Não raro ele se surpreende no meio da leitura com a grafia de uma palavra ou a pontuação de uma frase. Essa curiosidade, que para mim soa surpreendente, faz com que a leitura noturna seja mais do que ouvir uma boa história, Seja também um momento de investigação da língua. E nada melhor do que os poetas para nos apresentar os mistérios desse português tão cheio de artimanhas. O Antônio não é muito simpático a eles, mas aceitou na boa o livro Um gato chamado Gatinho, de Ferreira Gullar. Acima do preconceito com a poesia, estava a curiosidade acerca do poeta, homenageado na festa literária de sua escola, e de ele conviver com a Isolda, uma linda gatinha negra que teve como companheiro o Tristão, que se foi antes dele nascer, e com a Gueen, que nos deixou depois de 20 anos de vida. Tudo isto fez o Antônio encontrar rapidamente sentido nos versos de Gullar, explorados por ele com a maior sem cerimônia. "Se o gato sobreviveu/por ser muito cauteloso,/tem no entanto um ponto fraco:/ é por demais curioso", leu, fazendo uma pausa para saber o sentido de cauteloso. Foram três noites curtindo os poemas do livro editado pela Salamandra, com belas aquarelas de Angela Lago. Três noites de esforço e prazer de estar conseguindo, passo a passo e dentro de seus limites, vencer os desafios impostos pela língua. Acho que é mesmo assim, brincando e desafiando a língua, que aprendemos a amá-la.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Tecendo histórias, noite após noite
Em nova fase, dormindo cedo para acordar mais cedo ainda, o Pedro sempre chega à hora de deitar-se caindo de sono, o que o faz muitas vezes rejeitar as histórias que ofereço. Cada vez que diz não à minha intenção de ler para ele, lembro do enorme tempo que dedica à TV e à internet e penso que minha luta para trazê-lo para um mundo de leitores ainda não acabou. Chegamos, nós dois, a conversar sobre isso, sobre as possibilidades da leitura para vencer o tédio que toma conta das crianças às vésperas da adolescência e de como alguns personagens mexem com nosso imaginário e, assim, desvendam um mundo interior até, então, envolto em névoas. Ele ouviu atento, disse que gosta de histórias, mas que só gosta de ler, com suas próprias pernas, alguns poucos livros. Pensei que talvez esteja na hora de levá-lo a uma livraria para que escolha suas leituras. Mas enquanto este momento não vem, decidi prender a atenção de meu menino com As mil e uma noites, a coletânea de contos árabes iniciada pela fantástica história de Sherazade para livrar seu povo da fúria do Rei Shariar, que depois de traído resolve dormir cada dia com uma virgem e entregá-la, ao amanhecer, à morte. Sherazada buscou no fascínio dos contos um estratagema para manter-se viva e, noite após noite, poupar uma moça de seu povo. O rei, encantado com as histórias, a mantém viva por mil e uma noites, até que desiste de sua vingança para viver a seu lado. As histórias são realmente fascinantes pelo mundo exótico que apresentam e pela violência vivida com naturalidade, sem os floreios dos contos tradicionais europeus que ganharam, nos últimos séculos do segundo milênio, cores mais suaves do as originais. Li sem medo as histórias apresentadas por Sherazade ao despótico Rei Shariar para o Pedro, que espantou-se mais com as diferenças culturais da vida dos personagens do que com a violência por eles vivida. Interrompeu a leitura de Ali Babá e os 40 ladrões para entender como um homem casado promete casar-se com sua cunhada, que acaba de enviuvar de seu irmão. A violência, naturalizada por um contexto fantástico, não o chocou, como não choca a nós adultos. Ao fim de duas noites, Pedro, assim como Shariar, estava totalmente ganho para o universo fantástico prometido por uma boa história. Só não sei por quantas noites.
Em tempo: a edição que estou lendo para o Pedro é a da Cosac Naify, destinada a jovens leitores. As mais belas histórias das mil e uma noites, reunidas pela holandesa Arnica Esterl, ganham belíssimas ilustrações da russa Olga Dugina. As ilustrações de príncipes, princesas, ladrões e animais contribuem ainda mais para que o leitor embarque no universo oriental dos contos e faz do livro uma preciosidade para adultos e crianças. Mas como a edição só traz cinco contos, decidi comprar a tradução de Ferreira Gullar para As mil e uma noites, da Editora Revan. O livro, que ainda está sendo aguardado aqui em casa, não tem o mesmo apelo gráfico da edição da Cosac Naify, mas, em compensação, tem o texto de Gullar sobre a primeira coletânea publicada no Ocidente, em 1704, pelo francês Antoine Galland. São 18 histórias selecionadas e traduzidas por Gullar, que vão garantir mais algumas noites de boas histórias aqui em casa.
Em tempo: a edição que estou lendo para o Pedro é a da Cosac Naify, destinada a jovens leitores. As mais belas histórias das mil e uma noites, reunidas pela holandesa Arnica Esterl, ganham belíssimas ilustrações da russa Olga Dugina. As ilustrações de príncipes, princesas, ladrões e animais contribuem ainda mais para que o leitor embarque no universo oriental dos contos e faz do livro uma preciosidade para adultos e crianças. Mas como a edição só traz cinco contos, decidi comprar a tradução de Ferreira Gullar para As mil e uma noites, da Editora Revan. O livro, que ainda está sendo aguardado aqui em casa, não tem o mesmo apelo gráfico da edição da Cosac Naify, mas, em compensação, tem o texto de Gullar sobre a primeira coletânea publicada no Ocidente, em 1704, pelo francês Antoine Galland. São 18 histórias selecionadas e traduzidas por Gullar, que vão garantir mais algumas noites de boas histórias aqui em casa.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Gato de Sofá Deita e Rola na Flist
Levei até um susto quando vi que minha última postagem foi no dia 26 de abril. Mas a razão para eu ter abandonado o blog nesta semana foi justa. Me envolvi no projeto de criar uma edição especial do Gato de Sofá para a Festa Literária de Santa Teresa - a Flist, promovida pelo Ceat - Centro Educacional Anísio Teixeira. O resultado foi o Gato de Sofá Deita e Rola na Flist. O blog estará de plantão no dia da festa, 16 de maio, na Livraria Largo das Letras, na Rua Almirante Alexandrino, 501, para colher impressões de crianças e adultos sobre o evento e sobre livros. A idéia é construir junto com o público uma memória virtual da primeira edição da festa literária que vai acontecer de 9h às 18h, em vários pontos do Largo dos Guimarães, em Santa Teresa. A programação é bem legal. Tem café da manhã com a Lygia Bojunga, conversa com os poetas Ferreira Gullar e Ondjaki, oficina com os ilustradores Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, entre muitas outras atrações. Vale a pena ir a Santa neste dia. Vai ter diversão para crianças e adultos, além de ser uma bela oportunidade de desfrutar do bucólico bairro.
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