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quarta-feira, 17 de julho de 2019

A estética da vertigem em "Todo cuidado é pouco"

Compartilho, aqui, com vocês meu artigo A estética da vertigem como estratégia de subversão da ordem: um estudo de "Todo Cuidado é pouco", de Roger Mellopublicado na Revista Palimpsesto, do programa de pós-graduação em Letras da UERJ. Meu objetivo foi analisar o livro ilustrado na perspectiva da vertigem. A hipótese que trabalhei é a de que o autor se utiliza da forma da parlenda para criar uma ciranda em que os personagens se transformam à medida em que a narrativa avança, em versos rimados e ritmados. As ilustrações se comporiam, nessa perspectiva, por imagens fragmentadas e circulares, como a de um caleidoscópio, e a leitura dos versos produziria uma espécie de vertigem que libertaria o leitor do sentido estrito do texto, oferecendo-lhe uma experiência lúdica. A narrativa circular, como uma ciranda, é, segundo minha hipótese, não uma reafirmação da tradição dos jogos falados, mas a utilização deles para criar um ambiente de instabilidade que subverte o papel de cada personagem. Essa análise foi inicialmente apresentada como monografia final do curso Línguas do começo, ministrado pela professora doutora Rosana Kohl Bines, no Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade, da PUC-Rio (PPGLCC-PUC-Rio). Rosana é também minha orientadora de mestrado, a quem só tenho a agradecer pela generosidade e atenção de sempre.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Uma longa viagem de descoberta

Os meninos estão crescendo, ganhando autonomia e tem sido cada vez mais comum eu ir dormir sem dividir leituras com eles. O Pedro, já um adolescente, quase nunca me quer a contar histórias e tão pouco lê sozinho, mas não raro tira uma casquinha de minhas leituras com o menor. Antônio, o menor, resolveu, de uns tempos para cá, fazer ele mesmo suas leituras. Liberada, sempre arrumo o que fazer, nem que seja observá-los de longe, imaginando que daqui a pouco nem mesmo em casa estarão. Numa destas espiadelas, flagrei os dois, cada qual em sua cama, lendo seus livros. O do Pedro - Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, recomendado pela escola - me fez lembrar da minha juventude, quando o livro foi lançado e fez grande sucesso. O li com o mesmo nó na garganta que percebi no Pedro. Como um cara tão jovem pôde pular em uma cachoeira e sair dali paraplégico? O Pedro veio a mim com esta pergunta, sentindo o mesmo frio na espinha que percorreu cada um dos leitores do livro - uma espécie de rito de passagem para um tempo em que nem tudo dá certo. Ali pertinho, ainda alheio a todas as dores do mundo, estava o Antônio se divertindo com O Diário de um Banana, de Jeff Kinney, que, por sua vez, deixou claro as diferenças entre os dois irmãos, que, neste momento em que um deixa a infância para trás, estão unidos apenas pelo amor e, quase, mais nada. É a aposta neste amor que nos une me faz pensar sem angústia no dia em que eles irão embora e que a casa voltará a ficar vazia. Uma nova vida para a qual estou me preparando desde já. Quero tê-los ao meu lado como adultos que vão e voltam e não como adolescentes, que nunca desgarram. Que eles possam fazer a viagem em busca do que realmente querem ser e são e, assim, consigam se desligar do que nós, pais, esperamos deles. Uma viagem de descobrimento, assim como a de Griso, o único, de Roger Mello, que apesar de ser um livro para crianças foi minha leitura solitária. O Antônio não o quis, para o Pedro nem ofereci e, por isso, fiquei eu só a me encantar com o unicórnio em busca de sua individualidade, marcada pela descoberta das diferenças. Griso é o último unicórnio sobre a terra que, na esperança de encontrar um semelhante, parte para uma longa viagem até os confins do mundo. No caminho encontra vários outros seres, mas nenhum de sua espécie, até que se depara com um cavalo alado, ele também o único sobre a terra. Um encontro que pode ser lido como o momento em que percebemos que nos constituímos como únicos, como indivíduos, mirando as diferenças. O caminho do personagem de Roger, doído, como será o nosso, é narrado não apenas com palavras, mas principalmente com imagens do próprio autor, que, em 2014, conquistou o prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, o primeiro dado a latino-americano. Griso toma várias e belas formas, inspiradas em vasos gregos, em murais chineses, na arte rupestre, em ilustrações da idade média e por aí vai. A experimentação de Roger é um presente para o leitor, que tem no livro, editado pela Global, um pequeno painel da arte universal atravessando os séculos e as culturas. Um painel que nos encanta o olhar e, acima de tudo, não nos deixa esquecer que a humanidade não é apenas uma, é múltipla e que, nestes milhares de anos de existência, assumiu formas diversas para dar significado a sua história. É essa liberdade que espero para meus meninos. Que eles possam descobrir, na sua longa viagem até os confins da vida, o que eles realmente são e querem ser.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As histórias da Preguiça contadas para a Sorte

Meninos do mangue, de Roger Mello, editado pela Cia. das Letrinhas, foi um dos livros infantis que mais me impressionaram nos últimos tempos. A história da aposta feita pela Sorte e pela Preguiça e a prenda a ser paga pela perdedora é absolutamente envolvente. A gente começa e não quer parar. Mas, como a leitura era em voz alta para o Pedro, foi feita em capítulos. Assim, por algumas noites lemos as oito histórias em que a Preguiça, a perdedora - é claro, teve que contar para a Sorte. Nos dias de muito sono, o Pedro só aguentava ouvir uma. Mas, em alguns dias, o interesse vencia o sono e ele conseguia ouvir mais de uma. Todas elas são maravilhosas e criativas e têm a prosa de um autor original. Roger conta uma história única, que, claro, faz referências à tradição de nossa literatura popular e infantil. Mas, com certeza, ela tem a marca de Roger, no texto e nas ilustrações que criam um belíssimo jogo entre a Sorte e a Preguiça para contar para as crianças como é a vida no mangue. Um olhar quase antropológico, sem qualquer piedade pela pobreza de quem vive por lá. O Pedro aprendeu, com a Preguiça e a Sorte, que homens e crianças do mangue vivem de catar siri na lama e que separam o dia pelas quatro mudanças de maré. A história de como surgiram as marés alta e baixa, aliás, é genial e a minha preferida. Mais genial ainda é poder contar para meu filho uma história de um mundo tão diferente do nosso, um mundo feito de pobreza material e riqueza simbólica que, a prosa de Roger faz parecer natural, nos impedindo de sucumbir à piedade de quem não é como nós. Roger, com os meninos do mangue, deu a meu filho a primeira oportunidade de olhar o mundo de forma a relativizar as verdades sobre a felicidade. Por isso, viva Meninos do Mangue, que rendeu a Roger, em 2002, o Jabuti nas categorias infantil ou juvenil e ilustração de livro infantil ou juvenil, além de prêmios da FNLIJ e da Fondation Espace Enfants, da Suiça. Viva Roger, que, com justiça, empresta seu nome à biblioteca infantil do Ceat (Centro Educacional Anísio Teixeira) e concorre ao prêmio Alma (Astrid Lindgren Memorial Award).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Bartolomeu e Roger Mello concorrem ao Alma

A literatura infanto-juvenil brasileira está novamente concorrendo ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award), o maior prêmio internacional em prol da literatura para crianças e jovens do mundo, com as indicações do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, pela segunda vez, e do ilustrador Roger Mello, que assina o São Jorge ao lado, estreando entre os concorrentes de 61 países. Na categoria promotor de leitura, Maurício Leite concorre pela terceira vez. O mundo só vai conhecer o vencedor do prêmio em 24 de março de 2010. Quem sabe a gente não repete este ano o feito de Lygia Bojunga que, em 2004, recebeu a segunda edição do prêmio pelo conjunto de sua bela obra. Um orgulho para nossa literatura que já concorreu em outros anos com as candidaturas de Ana Maria Machado e Ângela Lago.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Gato de Sofá Deita e Rola na Flist

Levei até um susto quando vi que minha última postagem foi no dia 26 de abril. Mas a razão para eu ter abandonado o blog nesta semana foi justa. Me envolvi no projeto de criar uma edição especial do Gato de Sofá para a Festa Literária de Santa Teresa - a Flist, promovida pelo Ceat - Centro Educacional Anísio Teixeira. O resultado foi o Gato de Sofá Deita e Rola na Flist. O blog estará de plantão no dia da festa, 16 de maio, na Livraria Largo das Letras, na Rua Almirante Alexandrino, 501, para colher impressões de crianças e adultos sobre o evento e sobre livros. A idéia é construir junto com o público uma memória virtual da primeira edição da festa literária que vai acontecer de 9h às 18h, em vários pontos do Largo dos Guimarães, em Santa Teresa. A programação é bem legal. Tem café da manhã com a Lygia Bojunga, conversa com os poetas Ferreira Gullar e Ondjaki, oficina com os ilustradores Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, entre muitas outras atrações. Vale a pena ir a Santa neste dia. Vai ter diversão para crianças e adultos, além de ser uma bela oportunidade de desfrutar do bucólico bairro.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Uma vizinhança de futuro

Tem tempo que não atualizo o blog. Mais precisamente 11 dias. Acho que nunca fiquei tanto tempo longe, mas é que fevereiro é um mês complicado. Volta às aulas, aniversário do Pedro, carnaval - ah! meus dias de folia - e este sol de rachar o coco. Com tudo isso fica difícil arrumar tempo e concentração para fazer qualquer coisa que não seja trabalhar e cuidar da vida, aí incluído marido , filhos e casa. Ia até me esquecendo da casa, que dá um trabalhão. É supermercado, feira, empregada e muito mais. As vezes dá até saudades do tempo que era solteira e saracoteava por aí nas horas vagas com o Cadoca, hoje meu maridão. Foi impossível não lembrar destes dias ao ler o criativo Vizinho, Vizinha, da Companhia das Letrinhas, que meu filho trouxe da biblioteca da escola. O livro é uma criação de Roger Mello, com a participação luxuosa das ilustradores Graça Lima e Mariana Massarani. À Graça coube desenhar a Vizinha, à Mariana, o Vizinho, e ao Roger, o belíssimo corredor do prédio, além da criação dos textos. Os dois vizinhos solitários vivem suas rotinas separados apenas por um corredor e sonham com a possibilidade de um dia se encontrarem. O desejo do encontro, pensei eu com malícia, ignora o que pode lhes acontecer no futuro. Mas, na verdade, na verdade, a melhor coisa da vida são os encontros, apesar de seus futuros encargos. Viva a casa da Lu e do Cadoca, com crianças, gato, empregada e muita confusão.