domingo, 2 de julho de 2017

É hora de olharmos para o céu e vermos estrelas


Sina
Ela vem ali, na fila,
cumprindo a sua sina,
carregando aquela folha
nas costas, quieta, certa
de que faz o melhor,
quando, do alto, surge  
uma sombra urgente
para fazer do dia noite
e da vida, morte.

Luciana Conti
Rio:  11/04/2017

PS: O Pedro era um garotinho quando comprei, perto do meu trabalho, Os encontros de um caracol aventureiro e outros poemas, de Federico García Lorca, da Ática, editado especialmente para crianças por José Paulo Paes. Era um dia de chuva, cheguei em casa toda feliz com o livro, que hoje sei ser totalmente inadequado para um menino de seis anos, como era o Pedro, e, na hora de dormir, fui lê-lo para meu menino. Lembro como se fosse hoje da sua carinha curiosa diante do novo livro, lindamente ilustrado por Odilon Moraes, e da nossa proximidade. Deitei-me a seu lado e comecei a ler o poema que conta a caminhada de um caracol que se defronta com questões místicas e transcendentes, em seus encontros com duas rãs e um bando de formigas. O Pedro ouvia atento, apesar de o poema ser difícil demais para um menininho, até que, ao perceber, que uma das formiguinhas estava morrendo, seu semblante foi se fechando, até que ele desatou a chorar. "A formiguinha vai morrer, mamãe", ele me perguntava angustiado. "Por que elas querem matá-la", emendava. Até hoje não sei o quanto ele entendeu do poema, mas sei que percebeu que a formiguinha havia sido morta por suas colegas por se comportar de uma maneira estranha para as outras. Foi a primeira vez que vi o Pedro reagir tão fortemente ao horror da morte. Fiquei espantada, sem saber direito o que fazer e o abracei forte para acalmá-lo e nunca mais lemos o livro. Mas a história da formiguinha que via estrelas que nenhuma outra via, nunca me saiu da cabeça. Foi pensando nela, que escrevi, anos depois, Sina. A minha formiguinha, ao contrário da de Lorca, é totalmente enquadrada, o que não a livra de sua sina, a morte. Morre silenciosa, anestesia pelo dever, sem chamar a atenção, como muitos de nós. Vida insignificante que, infelizmente, é interrompida. Sua dona segue automaticamente, sem olhar para o céu para ver as estrelas, o que poderia a ter salvado. Quantos de nós levamos a vida assim, sem olhar para o céu? Por isso, discutir essas questões com as crianças, em um mundo desumanizado como o nosso, é mais que necessário. Tão necessário, que me deu vontade de, agora, que o Pedro tem 15 anos, sentar de novo com ele para lermos juntos Os encontros de um caracol aventureiro. Tenho certeza de que, dessa vez, ele iria gostar. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A imaginação é uma preciosa arma contra o consumismo

Em um mundo em que o consumo é uma entidade quase divina, capaz de ordenar a vida dos mortais, qualquer alerta contra ele é bem-vindo. É preciso mudar de rota, encontrar novos caminhos para evitarmos nos perdermos no labirinto do consumismo. Mas estes caminhos só nos serão mostrados se nos abrirmos para prazeres mais comezinhos, que podem ser fruídos à revelia do poder da grana. O maior deles, a imaginação, é bem conhecido das crianças e preenche qualquer vazio. É com ela que Satoshi Kitamura, premiado ilustrador japonês, aceita o convite do igualmente premiado escritor sul-africano, Hiawyn Oram, para entrar No sótão. A história de Oram ganha novos contornos com o traço quase mágico de Kitamura. Os dois, em prosa e imagem, nos levam para o quarto de um garotinho que está entediado, apesar de cercado de brinquedos, até que a imaginação o vem salvar. Embarcado nela, o menino entra em um sótão onde a realidade é ampliada pela fantasia. Ali, Oram e Kitamura andam de mãos dadas para conduzir o leitor. A palavra precisa e as imagens quase psicodélicas se fundem em uma única mensagem, que, seguindo as leis da imaginação, nos permite várias interpretações. A beleza do livro, editado originalmente em Londres, nos chega pela Pequena Zahar Editora com 34 anos de atraso, mas sem nenhum prejuízo. O menino que entra no sótão de Oram e Kitamura poderia ser um de nossos filhos e o recado enviado por ele, ser endereçado a qualquer um de nós, pais contemporâneos, sempre tão preocupados em proporcionar o melhor para as crianças. Pedro, hoje com 15 anos, com quem aprendi aos poucos a ser mãe, me ensinou que seu prazer não viria com a quantidade de brinquedos, que eram muitos naqueles dias de filho único recém-chegado. Suas escolhas eram sempre as mesmas, em meio a tanta quinquilharia, e quase nunca recaiam sobre os brinquedos mais caros e modernos. Ele gostava mesmo era da coleção de bichos de borracha que usava para criar fazendas, florestas de dinossauros e savanas africanas, por onde andava com sua imaginação o dia todo. Depois, vieram os bonecos articulados, sempre os menores, que o ocupavam e o faziam ignorar dezenas de brinquedos mais atraentes aos olhos dos adultos e, por fim, as bolas em qualquer formato e cor. A montanha de brinquedos acumulados em seus primeiros anos passou como herança para o Antônio, que pouco contribuiu para seu crescimento e mais ainda a ignorou. As escolhas do caçula eram ainda mais restritas e recaiam sempre sobre os blocos de montar, a massinha de modelar e as bolas. Os jogos eram as opções em momentos em que eu e o Cadoca sentávamos para brincar com eles e nada mais. Ainda hoje há aqui em casa muitos brinquedos que estão esperando que eu mais uma vez organize o quarto dos meninos e doe o que está sem uso. Nesse tempo em que eles estão conosco, aprendi muitas coisas, mas a melhor delas eu sabia desde criança, mas andava um pouco esquecida. Com eles lembrei de quando encontrava prazer em copos de iogurte que, unidos com barbante, viravam telefones ou sozinhos, galinhas com canto estridente; em revistas velhas que faziam as vezes de cadernos de alunos que eu não tinha; em folhas de árvore, pedrinhas e areia que eram ingredientes das mais deliciosas comidas que preparava em panelinhas de plástico; em cobertores e lençóis que montavam misteriosas barracas; em cartões velhos que formavam a minha mais querida coleção; e no prazer de colher, catar e organizar as coisas do mundo, segundo minha imaginação. Desta forma, criava um mundo se encaixava perfeitamente em minha vontade e lá ficava horas. Naqueles dias, nem sabia do poder que as crianças tinham nas mãos e que, hoje, vai sendo vencido aos poucos pelo consumismo e a convicção de que tudo que desejamos está pronto em alguma prateleira. O prazer como exclusividade de quem pode consumir, não mais uma possibilidade de nossa condição humana. Para restabelecê-lo é preciso, antes de tudo, remar contra a maré do consumismo e apostar na imaginação, como um direito humano. Nossos filhos não podem se ver privados dela em nome de nada, tampouco em nome de um conforto que não pediram. O que No sótão nos ensina, sem a pretensão de fazê-lo, é que as crianças, apesar de tudo, ainda não esqueceram do poder da imaginação. Uma lição que outro dia, em uma reunião de pais da turma do Pedro, ouvi da coordenadora da escola ao recomendar que não déssemos muito dinheiro aos filhos, que viajariam com a escola. "Vou lembrar aqui de uma história muito antiga, da época dos conflitos da Rússia com a Mongólia. Os príncipes mongóis foram tomados como prisioneiros e educados com o luxo e o requinte da corte dos czares. Anos depois, em um tratado de paz, eles foram trocados por prisioneiros russos, que estavam no Império Mongol, e, prestes a deixar a corte dos czares, lhe perguntaram o que levariam daquela vida requintada que ali viveram. A resposta foi simples. "Nada. O que vivemos de melhor nesses anos estão aqui, em nossa memória", disseram. E é isso que temos que ensinar a nossos adolescentes: que o melhor de uma viagem não são as coisas que compramos nela, mas, sim, as lembranças das experiências que vivemos", disse a coordenadora, nos mostrando que edução é muito mais do que o ensino de Matemática ou História, é sobretudo a possibilidade de preparar nossos filhos para uma vida com mais significado e magia, que possa vencer, assim como fez o menino de No sótão, o vazio reservado a quem só acredita no consumo.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A beleza das pequenas coisas e os rumores do mundo

Ando meio sumida daqui. Quase não tenho falado sobre minhas leituras com os filhos, na verdade, com o Antônio, já que o Pedro, com 15 anos, não compartilha mais comigo suas poucas aventuras literárias. O Antônio, sim, ainda quer dividir com a mãe os livros que lê ou tenta ler. Nos últimos tempos, temos nos aventurado por histórias longas, em várias sessões de leitura. A melhor delas, com certeza, foi Bambi, uma novela belíssima do austríaco Felix Salten, que me surpreendeu por sua riqueza, infinitamente maior do que a apresentada no também belo filme da Disney. O livro levou Antônio a ver o filme, que adorou, e a concluir que a história que estávamos lendo era muito mais legal que sua adaptação para o cinema. Uma bela lição que o fez ver que ler o livro e ver o filme são experiências muitos distantes e que ambas podem ser boas. O Bambi de Salten é muito mais do que o fofo filhote de cervo, apresentado no filme. Ele é um animal atento a seu meio, aos outros animais, enfim, à riqueza da natureza e à presença intrusa e ameaçadora do homem. O título original do livro, A vida na floresta, me parece mais acertado do que Bambi, que, certamente, se impôs na tradução brasileira da Cosac Naify pela notoriedade que o filme lhe conferiu. Mas não é Bambi o assunto do livro, é a vida na floresta contada sob a ótica do personagem. É sobre Bambi que o olhar do narrador se fixa para nos levar para um passeio surpreendente pela floresta habitada por uma infinidade de animais, pequenos e grandes, que reconhecem majestade no grande e elegante porte dos cervos. Mas, apesar de referências ao mundo dos humanos, como a importância da linhagem de Bambi, os animais de Salten não são humanizados e, por isso, não se prestam a um tradicional recurso da literatura infantil, o antropomorfismo. Eles são animais descritos na linguagem dos homens, que se contorce para reproduzir sua relação com o ambiente em que vivem. Os leitores mais atentos serão capazes de sentir o inicial estranhamento de Bambi com tudo o que lhe cerca, de ouvir o canto e a revoada de pássaros ou farfalhar de folhas, de se surpreender com o verde da floresta e a beleza dos animais e de sentir a fome e o frio impostos pelo inverno. Sentimentos que nos chegam, sem alarde, pela prosa de Salten que está colada com o universo da floresta e nos revela as luzes, os sons e as sensações vividas pelos personagens do livro. Essa simbiose entre objeto e palavra, conseguida pelo autor, é a grande beleza da narrativa, que nos fala de um tempo que a cidade matou e direciona nosso olhar para pequenos detalhes, que a vida corrida não nos deixa ver. Em Bambi o que importa é perceber aquela experiência pequena e rica do vento no corpo, da fome na barriga, da luz nos olhos, da voz nos ouvidos, enfim, dos rumores do mundo e de nosso corpo. Uma harmonia quebrada apenas pela presença dele, o homem, na floresta, com seus cães e máquinas de morte. Não há aproximação possível do mundo da floresta com o homem. Ceder ao homem é perder-se, desproteger-se, anular-se. É isso que Bambi nos ensina, nada mais. Não há tentativas de usar Bambi para falar de um menino que está aprendendo a moral da vida. Bambi é um cervo e move-se na floresta como um cervo e é isso que encanta o leitor. Eu e o Antônio adoramos seguir os passos de Bambi na floresta. A cada pequena emoção de Bambi, a fome, o frio, a perda da mãe, do amigo, a descoberta do amor, o encontro com o pai, enfim, suas experiências, o Antônio reagiu de forma diferente, mas sempre se emocionou com a história. O melhor foi ele ter sido capaz de acompanhar o ritmo lento da narrativa, em oposição à velocidade de nosso tempo, para acompanhar com paciência e encantamento a trajetória de Bambi e poder compartilhar com o personagem suas alegrias e tristezas. Bambi não quis nos ensinar nada, mas nos revelou que há beleza nas pequenas coisas e que, para vê-la, é preciso ouvir os rumores do mundo e de nosso corpo. Isso se o barulho da cidade nos deixar percebê-los.

PS: A má notícia é que a edição brasileira, com a primeira tradução da novela para o português a cargo de Christine Röhring, está fora de mercado. O livro editado com capricho pela Cosac Naify, que fechou as portas no final de 2015, só é encontrado em sebos ou na Amazon. A procura vale a pena. A belíssima história nos é apresentada em um livro de capa dura, encapado com tecido, e traz belas ilustrações de Nino Cais, que trabalhou com colagens de silhueta dos bichos sobre recortes de livros de botânica. Um luxo.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O verde de meu ver o mundo



Amanhecer 

Através de minhas lentes castanhas,
vejo todo o verde do mundo.
Um verde múltiplo, 
um verde sem fim,
que se espalha, esparrama
pelo chão, pelas pedras, pelos muros,
sobe o céu, escalando meu olhar.

É quando explode sob o azul celeste,
- fugindo do cinza opaco da cidade -
um radiante espectro de verdes,
que deixa sombras no preto do asfalto,
já singrado de prata por linhas de aço.

Meus olhos percebem o verde musgo,
dividindo espaço com o verde alface,
o verde periquito, o verde mangueira,
o verde palmeira, o verde samambaia,
o verde matinho, o verde maria-sem-vergonha,
que juntos colorem o verde do meu ver o mundo,
o verde do meu coração.

Um verde que me acorda bem cedo pra vida
e um dia, tarde eu espero, 
vai me acolher no leito da morte. 

Rio: 27/4/17

terça-feira, 16 de maio de 2017

Noite feliz!

Fim de noite, toda a família reunida, e o Antônio, correndo para terminar seus deveres de casa, pede que eu lhe diga três países com menos de um milhão de habitantes.
- Vamos ver no Google. Olha só... a Islândia, terra do Papai Noel, é um deles.
- Islândia?! A terra do Papai Noel é a Finlândia - gritou o Cadoca, da cozinha.
- É não. É a Islândia - insisti, instalada no sofá.
- Deixa de ser burra... ele é da Lapônia, que fica na Finlândia – retrucou, aparecendo na sala.
Eu, como sempre, certa de minha resposta, mas nem tanto, dei outra gugada, e, sem dar o braço a torcer, respondi triunfante.
- Ô, doutor sabe tudo, estou lendo aqui que a Islândia e a Finlândia brigam pela nacionalidade do Papai Noel. Viu?!
Antes mesmo que o Cadoca pudesse responder, o Pedro riu da confusão na bancada dos universitários e o Antônio veio com um balde de água fria, tentando acabar com a discussão.
- Gente, mas o Papai Noel nem existe!
- Existe, sim, menino ingrato – respondi na lata, completando - Depois de 10 anos recebendo presente dele, no Natal, você vem dizer que o bom velhinho não existe? Deixa de ser mal-agradecido. Assim, não vai ter presente esse ano, heim, Antônio.
Com um sorriso vacilante, mas ainda agarrado a sua certeza, insistiu.
- Mas ele não existe.
Vendo instalar-se em sua fisionomia aquela dúvida de criança, que está entre a palavra do adulto e a sua convicção, apelei maldosamente para o irmão mais velho, em busca da minha bala de prata.
- Pedro, Papai Noel existe ou não existe – perguntei, torcendo para que não me deixasse na mão.
- Claro que sim - assentiu, sem levantar os olhos do celular, entrando na brincadeira.
- Tá vendo, Antônio, quem você acha que, nestes anos todos, veio aqui em casa trazer o presente de vocês?
Minha criança, tadinha, vencida pela brincadeira dos adultos, resolveu botar a sua viola no saco e, na dúvida, reafirmar sua crença em Papai Noel para garantir seu presente de Natal.
- Bom, então tá. Deixa ele vir esse ano aqui em casa, trazer meu presente – capitulou, mas não sem antes colar um sorriso no canto da boca, que arrastou junto seus olhinhos para o lado e deixou sua carinha ainda mais fofa.
E, assim, ainda distantes do Natal, tivemos, em maio, nossa Noite Feliz.

 👨‍👩‍👦‍👦: Apesar de, aqui em casa, o Papai Noel ter dupla nacionalidade, na foto ele está na Finlândia.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O prato de um jovem burguês



O prato de um jovem burguês  

Esse é meu prato.
Sobre sua superfície branca,
quase feia, sem adornos,
estão os restos de minha ceia
sempre simples sobre a banca.

Alguns grãos de arroz, um caroço
de feijão, um tremoço,
um osso descarnado
sobre o prato abandonado
ao fim do almoço,
       fazem os mais asseados 
me acharem um porco.

Ao ver o prato assim de borco,
tentando ocultar
meu lixo e desleixo,
minha mãe, carrancuda,
fala baixo e grosso que o único
animal que não lava
o próprio prato é o burguês.

Com o Manifesto sob o braço,
recolho-me embaraçado
a meu quarto e, deitado
para me refazer do almoço,
fico a clamar
para que as bactérias
façam logo a sua parte,
me fazendo lembrar
de que tudo que é sólido
se desmancha no ar.

Rio, 5 de abril de 2017


Esse poema eu fiz em homenagem ao Pedro, meu filho, que, como quase todos os adolescentes finge desconhecer o caminho para a pia da cozinha. Apesar de eu ficar louca de raiva, gritar grosso - é mentira que falo baixo -, acabo o perdoando e o amo. Amo muito! Como a maioria das mães, sou frouxa e tenho memória: fazia o mesmo com a minha mãe. E tenho que reconhecer que há coisa pior. O ex-marido de uma amiga, já adulto e morando sozinho, colocava toda a louça suja na geladeira, para que ela pudesse esperar, sem feder, a chegada da faxineira, uma vez na semana. Toda vez que lembro disso, fico feliz por ser só um prato no chão.

PS: O detalhe do Manifesto - o Comunista - é verdadeiro. O Pedro, por livre e espontânea vontade, decidiu ler a obra, o que me fez ter mais um argumento contra os pratos sujos, deixados ao pé da cama. "Não é porque sou sua mãe e te amo, que me explorar é bacana. É exploração do mesmo jeito." Não deu de todo certo, mas no dia em que mandei essa, ele, envergonhado, lavou seu prato. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sá Diola e lobos e carneiros no Dia de Luta da Mulher

Deolinda foi o nome que me escapou ou que escapei dele. Era o nome de minha bisavó, mãe do pai do meu pai, que ficou na memória de meu pai como sinônimo de mulher forte. Eu já grandinha e ele dizia ter pensado em me nomear com a homenagem à avó. Era mentira, eu sabia. Uma ingênua mentira que toda vez proferida me fazia agradecer aos céus por ter escapado dessa sina: a de ter um nome que me parecia tão velho, que, com certeza, soaria estranho em mim. Deolinda, na verdade, era apenas a homenagem que meu pai fazia às mulheres. Foi entregue pela mãe, ansiosa por se casar novamente, com apenas 12 anos para José, um homem mais velho que a recebera na lua de mel com a babá e as bonecas. O casamento, contava minha avó Glória, sua nora, lhe soara como uma violência e, por isso, ela nunca perdoou o marido, que, apesar de tudo, aprendeu a amar. Teve com Zeca 11 filhos. O caçula era meu avô Jacy, que ainda adolescente deixou a família em Tebas, um cafundó de Minas Gerais, para tentar a sorte no Rio. A distância, no entanto, não o fez esquecer da mãe e da vida que deixara para trás. Deolinda ficou lá, firme, no imaginário da família, como uma mulher forte, que nas ausências do marido, um pequeno fazendeiro, mandava na propriedade da família com mãos de ferro. Era conhecida como Sá Diola. Andava para lá e para cá, com um chicote de dar em pangaré e sua beleza caipira de mulher que de frágil tinha apenas a aparência. Ficou viúva cedo e assumiu de vez a sua vida, que estava comprometida para sempre com os 11 filhos e a casa que herdara. A maneira como meu pai falava dela me fazia imaginar uma mulher dura e amarga - trajando um vestido claro e longo, com os pés cobertos por botinas de salto baixo e com os cabelos presos em um coque mal feito - falando grosso com quem a colocasse em risco ou a seus filhos. Na família, contava-se com orgulho que as pessoas tinham medo dela. E Sá Diola? De que teria medo? De suas fragilidades sei apenas do abandono que sentiu ao ser dada em casamento em uma idade em que ainda brincava de bonecas. Do medo de ter satisfazer um homem, quando ainda era uma criança. De ter que assumir uma posição de mando para garantir sua vida e a de seus filhos. Deolinda, acredito, deve ter se alimentado de um misto de amargura e fé na vida, como um meio de superar as dificuldades impostas às mulheres por uma sociedade patriarcal como a nossa. Era preciso seguir e ela, apesar de tudo, seguiu. Quase um século depois de sua morte, nonogenária, ainda somos um pouco Deolindas e precisamos continuar a lutar para garantir nosso lugar na vida e no mundo. Por isso, nesse dia internacional da mulher, me apazíguo com um destino que, por pouco, não foi o meu e digo que hoje teria orgulho de me chamar Deolinda e, assim, como a protagonista de O lobo e o carneiro, do belo conto de Marina Colasanti, enfrentar os perigos da vida para ser dona de meus sonhos e escolher com quem compartilho minha história; sejam lobos ou carneiros.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Cartas para a minha mãe são enderaçadas a todos nós

Enfim, acabou o tempo da folia, que, no Rio, começa no réveillon só termina na primeira segunda-feira depois do Carnaval. Um dia por mim ansiado, como um tempo de reorganização das rotinas, minha e dos meninos, e de retomada de meus projetos. Fim de folia, fim de férias escolares e, melhor ainda, a promessa de que o clima boçal do verão vai terminar. Ainda não terminou, é fato, mas faço fé de que o calor que nos chapa vá embora logo. Não aguento mais ter que me refugiar o dia todo em locais refrigerados ou tomar vários banhos para me refrescar. Este calor nos impete, até mesmo, de aproveitar o verão. O sol por aqui brilha tanto que ofusca tudo em volta e me faz perguntar se envelheci ou se o Rio está cada dia mais quente. A resposta ainda não tenho, mas desconfio que seja uma conjunção de muitos fatores, alguns deles ocultos, mas, agora, ela não mais importa. O que quero é receber, de braços abertos e olhos colados no céu, o outono. Aquela estação que colore o Rio de um azul celeste lindo e inspirador e nos permite trocar a praia pelos nossos parques, que são um deleite para olhares distraídos sobre a cidade. Mas o outono é, sobretudo, um tempo ansiado, para a retomada da vida. E cá estou, no meu cantinho, ainda com o ar refrigerado ligado, voltando a esse blog que me acompanha há tanto tempo, depois de uma ausência prolongada e provocada pela bagunça que a folia faz em minha vida. Para retomá-la vou ao dia do meu aniversário, pouco antes do início do verão, em que conheci a escritora cubana Teresa Cárdenas. Uma mulher bonita, de presença marcante e escrita vigorosa. Vigorosa como devem ser pés de bailarina, que ela um dia foi. Teresa se nos apresentou no salão do castelo do CEAT, em Santa Teresa, trazendo as experiências de sua Cuba natal. Veio com dois livros - Cartas para a minha mãe e Cachorro Velho, ambos editados pela Pallas - e alguns poemas na bagagem. A mim coube um deles, lindo, que fala da bravura do povo cubano diante das carências, até mesmo a fome, nos dias de ruína do império soviético, que socorria a economia do país do isolamento causado pelo embargo americano. Os livros eu trouxe para casa, com o autógrafo de Teresa me lembrando que na vida o que vale é nosso esforço. Naquele mesmo dia, li em um fôlego Cartas para a minha mãe e fiquei impressionada com o texto corajoso da cubana que nos coloca diante de uma menina sofrida que escreve para a mãe morta para falar de seus medos, angústias e dificuldades. A menina escreve para se ligar à mãe, e à medida que cresce, vai se desligando até conseguir lidar sozinha com suas questões, que são muitas. Ela mora com uma tia, o marido dela, e as primas e experimenta a rejeição da avó, atravessada pelo racismo e pelo desgosto pela opção da filha já morta. Seu dia a dia é marcado pela violência e o abandono, mas, sobretudo, pela imensa vontade da menina de seguir adiante. É desse porvir que a menina se alimenta e se liga a nós leitores. Uma menina que poderia viver em qualquer lugar do planeta, já que suas questões são universais. O abuso e o abandono por ela sofridos são os menos que submetem crianças em vários cantos do mundo e em qualquer classe social. Com esta escrita universal, o livro de estreia de Teresa, que ganhou mais importante prêmio literário de Cuba, o Casa das Américas, pode ser lido aqui ou lá com a mesma emoção. Uma emoção que, tenho certeza, pode ajudar muitos adolescentes e, até adultos, a lidar com suas feridas, assim como fez a protagonista de Teresa ao decidir escrever para a mãe. A menina das cartas, vou além, pode ser qualquer um de nós. Só nos resta ter coragem para violar essa correspondência.

PS: A vida é mesmo feita de coincidências. O Antônio chegou em casa na hora em que eu estava postando esse texto e viu o livro sobre a minha mesa. "Mãe, você tem esse livro? A minha professora começou a ler essa história hoje pra gente", me disse. Logo, em seguida, com uma carinha terna confessou. "A história é triste. Fiquei triste de ver ela sendo zoada na escola." É, isso, Teresa consegue tocar crianças e adultos com a sua narrativa. Feliz do leitor que enfrenta as emoções que o livro dos provoca.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As grandes questões da existência e o ano novo

O ano de fato começa hoje, dia 2 de janeiro. Passada a ressaca da festa, nos vemos novamente diante da vida: nua e crua, sem fogos, purpurinas e borbulhas. Seca e franca. E eu, novamente diante do branco desta página do word, nem tão limpa assim, tentando criar minhas alternativas. Não é fácil. Sei disso. Mas não estou sozinha. Logo aqui pertinho o Pedro e o Antônio dormem aquele sono longo de férias, cheios de ideias para uma vida que mal se iniciou. É deste combustível que me encho de esperanças no porvir. É deste corpo a corpo com um futuro que não é meu, que vou criando minhas saídas. Saídas que não podem nunca abandonar o que já construí. O novo só me enche os olhos se prenhe de passado e, por isso, preciso preservar pontes, mesmo nas rupturas. Não me pergunte nada. Ainda não sei  para onde vou. Mas navegar, como já nos disse o poeta, é preciso, mesmo que em rio seco. E assim sigo em meu desafio, buscando sentido nessa vida tão louca, a quem somos tão apegados, apesar de tudo. Fora dela não há saída, não há existência. A vida é uma existência que nos intriga e já fez muitos filósofos passarem a sua em busca da palavra exata para descrevê-la. Mas ela, ao que parece, não existe e, enquanto a procuramos, vamos vivendo, experimentando, criando e nos espantando com as inúmeras possibilidades de tradução da vida. Cada um, neste tempo múltiplo de que somos contemporâneos, vai encontrando a sua, escolhendo a que melhor lhe cabe. Mas para chegarmos lá, não podemos nunca nos esquecer daquelas velhas  perguntas que há milênios fazem os homens abandonarem seus lugares de conforto: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. As respostas são difíceis, talvez inalcançáveis, mas persegui-las deverá sempre ser nosso esporte. Um esporte que deve ser iniciado nos primeiros anos de nossa existência, muito antes das aulas de inglês, de empreendedorismo e de administração de sonhos. Para aprendê-lo não há cartilhas, nem técnicas ou táticas, há apenas liberdade para perguntar. Perguntar muito e sempre. Consultar a experiência alheia também é boa receita e há muitas delas disponíveis em belas narrativas. A arte é uma boa conselheira nesse exercício de pertencimento ao mundo e à vida. E as crianças amam fazê-lo. Aqui em casa, meus filhos o fazem de várias maneiras, mas não posso deixar de citar o livro A grande questão, de Wolf Erlbruch, uma espécie de introdução à filosofia, despretensiosa e lúdica como devem ser as obras para crianças, que encanta a todos, de qualquer idade. No livro, editado por aqui pela Cosac Naify, o ilustrador e escritor alemão cria um belo diálogo sobre a existência entre um menino que faz aniversário e vários outros personagens. Erlbruch, ao fim, convida seu leitor a responder a essa grande questão que há milênios nos inquieta. É perseguindo essa resposta que inicio mais um ano de minha vida. No mais, só me resta torcer para que 2017 seja um tempo feliz para mim e para toda a humanidade. Desejo talvez mais difícil ainda de se realizar do que encontrar a resposta para a grande questão. Mas são das impossibilidades que encontramos nossas saídas. E elas, com certeza, existem.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Mais um ano em minha vida

Passei um sábado desconectada. Era o dia do meu aniversário e decidi amanhecer em um sarau de poesia e anoitecer em um samba. 

Foi um dia cheio e feliz, que me deixou a certeza de que a vida, mesmo quando nos surpreende com tristezas, como as que experimentamos na semana passada, vale a pena. 

Vale mais ainda quando contamos com o carinho de tantos amigos, que deixaram, por aqui, suas boas vibrações. Sou toda gratidão por ter vocês em minha vida.


PS: O poema da foto eu ganhei de presente da escritora cubana Teresa Cárdenas, de quem falarei adiante. Por enquanto, digo apenas que ela transformou em poesia a dor de seu povo durante o sempre imoral embargo a Cuba, que, os anos 90, teve efeitos ainda mais cruéis. Como disse, em sua dedicatória, esse poema (clique na foto para lê-lo) define o tempo. O mesmo tempo que me permitiu chegar até aqui.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O espanto diante da morte e a necessidade de encará-la

Quando decidi criar esse blog, em 2008, tínhamos duas gatas em casa. A minha e a do Cadoca. Isolda e Gueen. Elas não se davam, ou melhor se odiavam, evitando-se todo o dia. A convivência entre as duas fora forçada por conta da nossa união, que nos fez juntar não apenas os trapos, mas, sobretudo, os gatos. Tristão, companheiro da Isolda, desde o nascimento, já havia partido quando criei o Gato de Sofá, inspirada na experiência de ler com gatos passeando seus rabos na frente dos livros ou deitados em meu colo, no sofá. Era um gato branco, gordo, com uma alma de Garfield do bem. Isolda era uma gata preta, magrinha e serelepe, cheia de personalidade. Gueen era uma dama. Uma siamesa petit, toda meiga e mimada, que se ressentiu quase de morte com a invasão de sua casa. Tristão, nos primeiros dias, a assediou e se exibiu como pode, marcando território - que ignorou ser o lar do novo casal - com seu xixi fedorento. Isolda, certamente com ciúmes da atenção de seu companheiro para aquelazinha, tomou-se de uma antipatia sem fim pela Gueen, que também não a apreciava. Tristão se foi ainda jovem, vítima de uma insuficiência renal, cumprindo o destino trágico do nome que escolhi por estar encantada com aquela poderosa história de amor. Ele partiu e as duas ficaram para a quase eternidade, sem nunca se reconciliar. Passaram anos pela casa ignorando uma a outra, até que a Gueen também nos deixou, logo após completar duas décadas. Foi a vez da Isolda reinar sozinha, em meu quartinho de trabalho, onde ocupou por anos a única poltrona do ambiente, até que, semana passada, também com duas décadas de vida, partiu. A casa em que, nos últimos 20 anos, o ar misturava-se com com gatos, fazendo-se sentir na fricção com a nossa perna, de repente ficou oca. O ar agora é rarefeito e não opõe resistência ao nosso caminhar. O sofá está vazio, o cantinho perto do tanque, onde foi por anos o banheiro e o refeitório dos felinos, ficou livre e nós nos deparamos mais uma vez com a morte. Apesar de anunciada pela idade da vítima, a morte sempre nos causa espanto. A tristeza se abateu de um jeito peculiar em cada um de nós. Eu, que passava a maior parte de meu tempo, velando o sono da Isolda, mesmo sem me dar conta disso, intuí a morte e, no meio da semana, comentei com o Pedro sobre o estado da gata. Meu filho veio até meu quartinho de trabalho, aonde ela passava quase todas as suas horas, e aqui ficou pelo tempo que desejou. A vida seguiu e ele, com o vigor de um adolescente, correu atrás dela. Os dias se passaram e a morte se anunciava cada vez mais perto. Assustada e desejosa em dar uma boa hora para a minha gatinha, companheira de tantos anos, decidi levá-la à clínica veterinária que sempre a atendeu. Mas antes avisei ao Antônio sobre a possibilidade de ela não voltar para casa. Dei corpo em meu aviso ao temor que me assombrava há tempos de um dos meus filhos a encontrarem morta pela casa. Meu pequeno, que nunca esteve diante da morte, veio ao quartinho e repetiu o ritual de despedida feito dias antes pelo irmão. Depois de alguns minutos, entrou na sala com os olhos e o nariz congestionados de tanto chorar. Sentei-o em meu colo, do jeito que ainda é possível, e, com a ajuda do Cadoca, expliquei para ele que o fim é um dado da vida, que não temos como fugir disso e que precismos aceitar as despedidas, mesmo assumindo que isso nos entristece muito. Suas lágrimas escorriam e, olhando aquele rostinho enevoado pela tristeza, pensei em como temos que reaprender a conviver com a morte. Falei para ele, com os ouvidos voltados para dentro de mim, que diante da morte, o único alento é a vida que partilhamos com quem se vai. Meu pequeno, que me ouviu com os olhos ainda embargados, me perguntou em que dia ela morreria. "Não sei, filho, mas não vai demorar", disse, francamente. Naquela mesma noite, ela nos deixou e à vida. Ela se foi, como o esperado, sem grandes sofrimentos. Fiquei triste de ela não estar conosco e, ao mesmo tempo, aliviada por ter sido atendida nessa hora derradeira. Mas, novamente, me perguntei porque nós perdemos a capacidade de aceitar a morte. Havia pedido à veterinária que a atendeu, na emergência, que não fizesse nenhum procedimento para tentar salvá-la. Eu sabia que estava morrendo e queria apenas que não sofresse. A notícia da morte me chegou junto com o prontuário da internação. A veterinária, formada, assim como os médicos, para combater a morte, me explicou que ela morrera após uma tentativa de normalizar sua frequência respiratória, com uma pulsão de líquido que estava em seu pulmão. Não deu certo. Logo após, ela se foi. Saber do procedimento me entristeceu menos por ter ele ter contrariado meu pedido e mais por eu não ver vantagem nele. Para que realizá-lo? Para mantê-la viva aos trancos e barrancos por mais algumas horas ou dias? Não teria sido melhor dar um analgésico forte para ela não sentir dor e deixá-la partir em paz? Afinal, a gata tinha quase 21 anos e, me colocando nesse lugar, me veio a certeza de que se chegar aos 100, não quero médicos fazendo procedimentos de reanimação quando minha morte chegar. Temos que reaprender a morrer. Não há morte mais digna do que a trazida pela velhice. Uma morte do fim do caminho, que não nos rouba nada e, apenas, abre caminho para outros. Sei que os médicos e os veterinários hoje são formados para lutar contra a morte, mas, em algumas situações, como a da Isolda, acho que fazer um pacto com ela seria mais generoso. Ela teria morrido do mesmo jeito, mas sem a angústia de ter que lutar pela vida aos quase 21 anos. Não foi assim. Eu, que a vi nascer na casa da minha mãe e me despedi dela aos poucos, me agarrei à certeza de que minha gata teve uma vida feliz ao nosso lado e fiquei aliviado por ter podido conversar com meus filhos sobre a morte. Falar sobre a morte é uma maneira de digeri-la e, assim, aceitá-la. O silêncio acerca dela, ao contrário do que nossa sociedade nos faz crer, não a afasta de nós, apenas dá a ela o poder de nos assombrar. E, nós aqui nesse silêncio pós-morte, nos apegamos à certeza de que a Isolda foi e nos fez feliz. 

PS: Essa foto não faz jus à beleza da Isolda. Mas foi a que achei agora, na pressa. Depois, coloco outra mais bacana.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Querido diário

O Antônio deu para ler sozinho, sem a minha presença ou ajuda. Entre os livros que escolheu para essa aventura está O diário de um banana, de Jeff Kinney, que o atrai por ser coisa de menino, ao mesmo tempo que o desagrada por Greg, o protagonista, estar sempre sendo sacaneado pelo irmão mais velho, Rodrick. Apesar de ele e o Pedro se darem muito melhor do que os irmãos do livro, muitas vezes se parecem com eles, como dá para ver no causo que conto a seguir.

Antônio me pediu um diário. Com cadeado e tudo para guardar a sete chaves seus melhores e maiores segredos.
Fomos à papelaria, fuçamos as estantes e só encontramos diários para meninas. Cor-de-rosa, poderoso com caixinhas de música, decorado com corações, bonequinhas de luxo ou princesas, enfim, nada que lembrasse o universo de um menino apaixonado por futebol e louco para treinar sua letra cursiva e, assim, chegar abafando no terceiro ano.
- Ah, mãe, então não quero – falou, desanimado.
- Filho, a gente pode comprar um caderno maneiro e ele ser o seu diário.
- Mas, assim, todo mundo vai poder ler meu diário - replicou. 
- Não. A gente compra o caderno e um envelope com fecho eclair para você guarda-lo. 
- Então, tá – assentiu, feliz.
Catamos na papelaria um caderno – o escolhido foi um do UFC, mais menino impossível -, um lápis do Brasil, um apontador e o envelope preto com fecho, que escondia tudo em seu interior. Ele saiu felizão da papelaria, com o diário debaixo do braço, ansioso pelo momento que poderia ficar sozinho com seus segredos.
Chegamos em casa e ele pôs-se a escrever. Escreveu, escreveu, escreveu. Apagou, apagou, apagou. Escreveu mais e mais e escolheu o Xico, seu comparsa de quase todas as horas, para compartilhar seus segredos e depois, com toda a pompa que o momento merecia, guardou o diário. Não a sete chaves, mas escondidinho, num canto do armário.
Os dias se passaram, o diário foi sendo deixado de lado, até que neste carnaval, voltou à ativa. Renato, o primo adulto e desavisado do caráter confidencial do caderno, o abriu e se surpreendeu com o conteúdo. Lista dos amigos, lista negra, lista da família, etc. Mas o melhor viria na lista dos melhores amigos, em que só três sujeitos figuravam: “meu irmão, meu primo e meu cocô.” 
Isso mesmo, “meu cocô.”
- Mãe, olha o que o Antônio escreveu no diário dele – Pedro veio correndo delatar – Ele disse que o cocô dele é um de seus melhores amigos – contou, rindo, com cara de irmão mais velho, diante das maluquices do mais novo. 
E não é que o cocô do menino estava mesmo lá, entre seus melhores amigos. Todos se puseram a indagar a razão de escolha tão esdrúxula. 
- Será que o Antônio se sente aliviado quando se livra do cocô e por isso ele é um de seus melhores amigos, ou se ele gosta tanto dele que o guarda para quando o carnaval chegar – perguntava, rindo, o irmão. 
 
Eu fiquei de fato intrigada com o que poderia ter feito meu menino eleger o cocô, tão desprezado pela humanidade, como um de seus amigões e cheguei a pensar que essa resposta fazia parte dos mistérios da vida. Mas não. Era apenas mais uma daquelas maldades perpetradas pelo irmão mais velho, contra o mais novo.
Então aos fatos. O Pedro e o Renato resolveram tirar uma onda com a cara do Antônio e o fizeram incluir, em seu próprio diário, o cocô na lista de seus melhores amigos. Cocô inscrito, vieram a mim, mãe crédula e ansiosa por novidades, mostrar a lista dos amigões do pequeno. Minha surpresa não foi surpresa para os dois grandões, que se divertiram a valer com a bem-sucedida maldade contra o menor. Tudo bem, não fosse a mãe ter contado para todo mundo sobre as estranhas amizades do filho caçula.
- Mãe, eles me obrigaram a escrever o cocô na lista dos meus melhores amigos – contou-me o Antônio, com os olhos úmidos e um tom entre o humilhado e o revoltado, ao saber que eu divertia meus amigos com a história do cocô amigão.
A confissão que deixou a história a nu, me fez pensar em como nós, adultos, não entendemos nada de cocô, de crianças e de melhores amigos, além de me fazer lembrar da dor e da delícia de se ter um irmão mais velho. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O resultado de um olhar atento para os próprios pés

O oculto

Tão rasteiro, sempre perto do chão.
Formato estranho, pranchado,
sem protagonismo, comandado,
perdido, sem direção.

Uma borda cortada em cinco,
com as pontas duras, e a outra firme: raiz
fincada em um círculo que nunca se fecha. 

Sustenta tudo sem reconhecimento,
aguenta todo o peso quieto, despercebido,
desapercebido de adornamento.

Nem quente, nem frio, sempre morno.
Nem belo, nem feio, sempre torto.

É aquele que ninguém revela, que se esconde
em sapatos comprometidos com a graça,
para evitar a desgraça do sol e da chuva. Oculta-se.

Nada mais estranho do que uma mão ao rés do chão.
No masculino é áspero, quebradiço.
No feminino, unhas vermelhas
a bulir com a fuligem das ruas...

Assim, são os pés, que nos sustentam e nos guiam.
Mal-acabados, malditos, malvistos, fedidos, invertidos. 

Esse poeminha-descrição foi o resultado da provocação feita pela Cláudia Chigres, uma das professoras da pós de Literatura, Artes e Pensamento Contemporâneo, da PUC-Rio, para que descrevêssemos uma coisa, qualquer que fosse. O pé foi o escolhido, por estar ali, sobre a cadeira da frente, bem em frente a meu nariz. Sempre ali, despudorado em uma sandália aberta, pedindo atenção. Um exercício que me fez olhar as coisas com outros olhos. 
Experimenta você também. 

Em tempo: essa foto dos meus próprios pés, relaxando em um rio de águas 
límpidas e geladas, fui eu mesma que tirei. Uma delícia. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sobre habitar o tempo, o nosso e de nosso tempo

Tebas, segundo meus filhos, é um lugar que não existe. Mas Tebas existe, sim. Lá escondidinha em um canto de Minas Gerais e mais ainda, vivíssima, em minha memória. É um lugarejo tradicional, com a praça marcando seu centro, poucas centenas de casas, muitas vendas, uma padaria, uma igreja no alto do morro, com o cemitério se escondendo ao fundo, um campo de futebol, uma escola, uma biblioteca, um precário posto de saúde e uma cadeia pública. Assim é a Tebas, que não vejo há quase 20 anos. O lugar onde aprendi a entender o tempo. Um tempo lento, modorrento, prenhe de nada. Por lá, não há pressa, não há surpresas a serem perseguidas e, tampouco, grandes emoções a serem vividas. O tempo, na roça, é manso, não nos convida para a luta, não quer nos vencer ou ser vencido. Ele corre. Apenas corre junto com os ventos, as águas, os bichos, os moleques atrás dos outros. O tempo, na roça, é uma experiência, como é o bater de nosso coração, a chuva que se aproxima, as vozes que rompem o silêncio, o crepitar da lenha no fogão. A noite não engole o tempo e tampouco o dia o pare. Ele escorre do claro para o escuro, do escuro para o claro, nos impedindo de fazer contas e de fracionar o dia. Ele passa lento, junto o suor dos homens que tratam a terra, das conversas de mulheres em roda que amarram o fumo ou ardem ao lado de tachos de doce, do embalo dos velhos em cadeiras de balanço, de crianças que correm pelos campos, catando matinhos, pedras e tocos. O tempo na roça é assim, quando a gente para, ele para junto para nos permitir descalçar os pés, uni-los ao chão, deixá-los sentir o frio da pedra, a unidade do orvalho, o calor do sol. Somente nossos pés podem fazer o tempo voltar a andar. Em tudo este tempo é diferente desse que vivemos na cidade. O nosso tempo - ou será de outro, apenas emprestado a nós - é, assim, apressado, nervoso, cheio de vazio. Um vazio que, ao contrário do nada lá da roça, que se deixa ocupar pelo ar, nos angustia e pede preenchimento. E é na pressa de preenchê-lo que vamos perdendo a intimidade com o tempo. Aqui, em casa, os meninos, em sua correria para saciá-lo, vão a cada dia que passa tendo mais dificuldade de acreditar que Tebas possa de fato existir. De cá, me espanto em vê-los passar suas horas vagas operando dispositivos eletrônicos para matar o tempo com joguinhos e viagens virtuais. Me culpo por não poder oferecer a eles uma realidade que os faça experimentar o tempo, sem a pretensão de vencê-lo, assim de mansinho, como fazem Lia e Nico, personagens de Lúcia Hiratsuka. Eles vivem no campo e brincam como as crianças de lá, com a terra, plantas e bichos. A natureza preenche o universo dos dois irmãos e animam suas aventuras, que, se julgadas pelo padrão do audiovisual contemporâneo, são bastante prosaicas. Mas é justo a simplicidade e a capacidade de cada um em ver sentido em sua própria existência que fazem de Antes da chuva, Corrida dos caracóis A venda, todos editados pela Global, livros preciosos, que podem nos ajudar a mostrar para as crianças pequenas a riqueza de viver a experiência do tempo, sem pressa, sem expectativas, de boa com a própria vida. Lúcia, assim como João Cabral de Melo Neto, no poema Habitar o tempo (que reproduzo abaixo), nos fala do desafio de nos apaziguarmos com o tempo. Ela com a delicadeza de suas aquarelas o frescor da infância, e ele com a força de seus versos ásperos, difíceis, que nos convidam a decifrar os mistérios do tempo, como se estivéssemos diante de uma esfinge. Habitar seu próprio tempo, sem se afastar do tempo alheio é o desafio maior que vivo na maternidade. Deixar meus filhos serem contemporâneos de si mesmos, sem que, para isso, sejam tragados por um tempo hostil, que os alienará de sua própria existência. Um desafio tão enorme, que só me resta pedir a Cronos que tenha piedade de nós.

Habitar o tempo
Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.

Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Não posso deixar de falar de Clarice

Há três dias tenho acompanhado pela web a polêmica em torno do artigo do Gregório Duvivier, publicado pela Folha, em que ele fala de seu amor por Clarice Falcão. Vi gente apaixonada pela declaração de amor póstuma de Gregório, gente colocando em dúvida sua sinceridade e homens se perguntando a razão do sucesso do texto. Uma perplexidade que, pelo que entendi, motivou o humorista Rafinha Bastos a fazer um registro sobre seu próprio casamento. Desta vez, só vi gente baixando o porrete em sua vulgaridade. Li os dois textos e vi verdade em ambos. Os casamentos são assim mesmo, ambíguos. Mas isso pouco me importa, afinal, casamento é igual à opinião: cada um tem o seu. O que me importa, aqui, não é falar sobre a natureza de cada opinião, mas, sim, do excesso delas. Mais ainda. Do excesso de exposição de nossa vida privada que praticamos hoje. O amor de Gregório e Clarice, que já morreu, não precisava ter vindo à público, profanado em uma página de jornal, assim como a intimidade de Rafinha e Junia também não. Em busca de likes, audiência, um lugar ao sol, estamos transformando nossa vida em mercadoria, nossos sentimentos em enredo de novela, nossa experiência em banalidade. Não falo de memórias, reflexões, análises apoiadas em nossa própria experiência - afinal, pensamos à partir dela - que já deram bons e belos textos para a humanidade. Mas será que é preciso expormos tudo o que vivemos? Da nossa ida ao banheiro de porta aberta ao nosso choro de separação? Com que cara entrar no elevador e cumprimentar o vizinho - aquele de quem não gostamos -, se ele está com o jornal com nossas confissões mais íntimas debaixo do braço? Como encarar o chefe, de quem escondemos as verdadeiras razões de nosso atraso, depois de ele ter lido que passamos a noite em uma balada, bebendo sei lá o quê? Talvez torcendo para que não seja preciso encontrar essa gente cara a cara, nos mantemos refugiados no Facebook ou então ouvindo a voz fraca de nossas avôs, donas de um saber ancestral, nos dando aquele velho conselho, de que é preciso pudor na vida. Sei que lutamos muito para derrubar essa moral pudica, mas me permito meter a mão neste saber e, com um toque de modernidade, reduzir esta receita a apenas um pouco de pudor. Só um pouco. O suficiente para proteger nosso ego das críticas despudoradas de que são vítimas aqueles que muito se expõem na rede. Digo isso, aqui neste blog, onde registro as impressões de leitura com meus filhos, por ter tido em todos esses anos a preocupação de falar de nós, sem nos desvelar por inteiro. Um pouco apenas, como nosso tempo nos exige ou permite, mas não de corpo inteiro a ponto de me sentir nua diante daquele amigo não tão íntimo. Um exercício sem fim, que me faz, ao mesmo tempo, ser acanhada e ousada para tentar acertar. Espero que tenha conseguido, para evitar que meus filhos, um dia ao se debruçarem sobre esses textos, se sintam traídos e percebam que, neste tempo todo, eu não estava falando deles, mas apenas do amor que sinto por eles. Assim faço, neste modesto blog, como já o fizeram muitas mães, que falaram de seu amor por seus filhos por meio de livros. Obras que graças ao talento dessas mães - grupo do qual, sem nenhuma falsa modéstia, estou excluída - transformaram-se em obras fundamentais para a nossa literatura para crianças. O que me faz lembrar - me desculpa o oportunismo - de Clarice. A minha Clarice não é a de Gregório, é a Lispector. Nunca a conheci, mas a amo de longe, mesmo envolta em mistérios, que ainda não desvendei por falta de tempo de terminar sua biografia. A minha Clarice registrou em literatura um "pedido-ordem" de seu filho Paulo para que escrevesse uma história só para ele. O mistério do coelho pensante é essa história, só para o Paulo, que revelada da intimidade da família, sem desvelar todos os seus mistérios, faz a alegria de muitas crianças que nem desconfiam quem seja Clarice ou Paulo e Pedro, seus filhos. Não há dúvidas de que Clarice, com sua escrita que faz o leitor se perguntar se ela fala de si ou de um outro inventado, nos provoca a pensar sobre um tempo que, ao que parece, nos convida a perder de vez o pudor.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nosso coração faz tum-tum por vocês

O Antônio e o Xico são mais que amigos. Como diz a Juliana, são parças. Daqueles parças que entendem o outro só com um olhar, um sorriso ou mesmo com os muitos e muitas vezes pensamentos, digamos, nem tão bons, assim.
Mas erra quem pensa que eles são muito parecidos. Qual nada? O André os descreve como o o tempo e o o vento. Meu Antônio, que ignora a existência do tempo, é o próprio. Já o Xico, assim como o vento, passa voando ao nosso lado. O resultado do encontro do tempo com o vento é sempre um tufão de boas lufadas, em que a gente nunca sabe, como bem observa o Cadoca, quem é o culpado.
O maior amigo deles é, sem dúvida, o chão. Chão para correr, rolar a mais que amada bola, escorregar, sentar e, se nada mais houver para fazer, deitar. Uma proximidade que faz com que eles tenham, muitas vezes, a cara, o cheiro e a cor do chão. Este mimetismo faz deles largos como o chão.
No chão da cidade, se viram como podem. No clube, no parque, em casa, no play, na escola, onde e como der. No chão da Kihu, descobrem um novo universo em cada tufo de grama, em cada buraco na terra, em cada pedra perdida no terreno. Ali são mais que o Tempo e o Vento. São os amigos inseparáveis. Uma amizade inspiradora, que fez com que o Vento, improvisasse:
- Tom-tom, meu coração faz tum-tum por você – disse, sorridente, para ocupar o Tempo, nessa manhã modorrenta, aqui em casa.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Entre mim e o outro há mais do que um bife e uma pipoca

Tenho dois filhos, como os seguidores desse blog sabem. Dois meninos, um de 14 e outro de 9 anos, que têm toda a vida pela frente. Sonhei para eles com um Brasil mais justo, que fosse dando passos largos para se afastar do país em que vivi grande parte da minha vida. Um Brasil em que mulheres pobres entravam todos os dias na minha casa - seja minha ou a da minha mãe - para lavar pratos, latrinas e roupas e cozinhar a comida nossa de cada dia. Não raro, estas mesmas mulheres saíam da minha casa, com a certeza de que, na delas, estariam sujos os poucos pratos que tinham, também suja a única e velha latrina e quase vazias as panelas gastas. Ainda pior. Seus filhos, aqueles mesmos meninos pobres temidos pela família das patroas, estariam entregues à própria sorte, soltos na rua, driblando o azar, ou trancados em casa para se proteger da violência de um mundo em que não não havia lugar para eles. Um Brasil onde nós, filhos da elite e da classe média, dividíamos nossa infância com crianças pobres, que estariam presas para sempre à pobreza e a uma espécie de minoridade cidadã. A nós era dada a promessa de crescer e ganhar o mundo. Adultos, assumíamos o lugar de nossos pais, enquanto os meninos pobres buscavam seu lugar na área de serviço. Uma realidade que era naturalizada pelo discurso do mérito ou da falta dele, que escondia a verdadeira origem do problema. Um discurso que perdoava a todos nós por seguir a vida, sem nos revoltarmos ou solidarizarmos com aqueles que, um dia, foram nossos antigos de infância. Eu vivi isso e não vivi só. Cresci, fui para a faculdade; errei, tive outra chance; me empreguei, construí uma carreira; me descolei da minha infância, onde, tenho certeza, absoluta certeza, muitos de meus amigos continuam. Waldemar é deles o que mais me marcou. Filho de uma família de lavradores pobres do interior de Minas, que expropriados da terra foram parar na cidade, onde viviam esquecidos pelos bem-nascidos, Walemar era semi-analfabeto e, por isso, sofria, coitado, com nossas risadas diante de sua ignorância. Um dia, sem mais, Waldemar parou de brincar comigo e meus irmãos para trabalhar como jardineiro na fazenda de minha família. Nós, então, adolescentes começamos a planejar uma vida bem longe dali. Ele, no entanto, foi ficando por lá e tenho certeza, ainda hoje, está está no lugar que foi de seu pai, esquecido junto com outros milhões de brasileiros que ficaram para trás no processo de modernização conservadora pela qual o Brasil passou nos últimos 50 anos. Entre nós ficou mais do uma enxada a separar nossos mundos. Fechou-se uma porta, a mesma que se abria para ele, na minha infância. Por ela, não havia como alguém, como Waldemar, passar, e nós, naqueles dias, não estranhávamos esse sinal fechado. A minha sorte foi ter tido, do lado de cá da porta, uma família que, apesar de todos os seus vícios de classe, me mostrou que poderia haver um mundo sem portas fechadas, mesmo que ele nos parecesse distante. Eu cresci, atravessei muitas portas e deixei Waldemar para trás, mantendo-o prisioneiro em minha memória. Waldemar me serviu mais como uma bússola do que como uma lembrança. É em sua figura de menino de coração bom e ingênuo que me fixo todas as vezes que preciso escolher um lado na vida. É do lado dele que me coloco todas as vezes que a vida me pergunta com quem quero me irmanar. É nesse sentimento, que sei não ter mais nada de amor ou amizade, que reafirmo meu compromisso ético com um mundo menos desigual e mais justo. É ele que quero legar a meus filhos, para permitir que, estejam onde estiverem na vida e no mundo, possam se emocionar com o que é humano, mesmo que essa humanidade, como nos ensinou João Cabral de Melo Neto, seja uma vida severina. E é por isso que, aqui em casa, as mazelas humanas estão sempre em pauta. Não vou, é claro, impor aos meus filhos doses diárias de sofrimento alheio, mas, também, não vou educá-los como se eles não tivessem nada com isso. A melhor maneira que encontrei de colocá-los diante da dor alheia, em um mundo com tantas portas fechadas a nos separar do outro, é a experiência que a literatura nos proporciona. Ler é sempre fazer um bom exercício de empatia e alteridade e, por isso, não devemos ter medo quando vemos nossos filhos se emocionarem com os livros. Ver os olhinhos deles marejados nos aperta o coração, sei disso, mas também nos dá esperança de que sejam pessoas capazes de experimentar-se na experiência alheia, o que é, nesses dias de individualismo exacerbado, um alento e uma esperança. Esse exercício de alteridade é desconfortável, mas acima de tudo é necessário e a literatura é uma boa maneira de vivê-lo. Nem sempre ela nos faz rir ou sonhar, como muita gente acredita que seja seu papel. Muitas vezes nos faz sofrer, um sofrimento que nos permite adiante um riso e um sonho ainda melhores. Esse caminho nos é oferecido por muitos livros para crianças, mas destaco aqui o conto O bife e a pipoca, de Lygia Bojunga, editado em Tchau, pela Casa de Lygia Bojunga, pela coragem de sua narrativa. A autora narra, sem constrangimentos, o encontro de Rodrigo, filho da classe média, com Tuca, menino de favela que estuda, graças a uma bolsa, em uma escola de bacanas. O conto é preciso no espanto que os dois experimentam ao se aproximarem. Um encontro que revela as diferenças entre seus dois mundos. Na casa de classe média, não é preciso razão para se comer um bom e suculento bife, já, na casa do pobre, a pipoca é servida como iguaria fina. Um contraste que dói no estômago do leitor e faz a leitura do conto se constituir em uma experiência sofrida, mas necessária por fazer nossos meninos pensarem no desconforto do outro e no quanto, esse sentimento, nos afeta, O Pedro, meu filho, leu o conto na escola, aos 10 anos, e foi convidado pela professora a escrever uma carta, aos moldes do que Rodrigo escrevia para seu melhor amigo, contando sobre sua relação com Tuca. A carta do meu menino deu conta do seu espanto com a história de Tuca e Rodrigo e apontou para o entendimento de de era possível conviver e aprender com alguém tão diferente dele. Uma carta de um menino chocado com uma dor que não imaginava existir e que lhe foi apresentada pela narrativa de Lygia, sempre corajosa ao colocar o dedo na ferida. A literatura é assim como minhas memórias de infância, em que tantos ficaram para trás - um pouco de dor e de delícia. Ao lidar corajosamente com essa dualidade de sentimentos, como também nos provoca a memória, ganhamos a possibilidade de andarmos para frente. Assim na literatura, como na vida, não podemos nos livrar dessa dualidade. Quem tenta passar ao largo desse desconforto, acaba se livrando da empatia, aquele sentimento que nos torna humanos e nos liga aos outros. Por isso, eu luto. Para, como disse Vinícius de Moraes, "ninguém tivesse mais que lutar".

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Uma longa viagem de descoberta

Os meninos estão crescendo, ganhando autonomia e tem sido cada vez mais comum eu ir dormir sem dividir leituras com eles. O Pedro, já um adolescente, quase nunca me quer a contar histórias e tão pouco lê sozinho, mas não raro tira uma casquinha de minhas leituras com o menor. Antônio, o menor, resolveu, de uns tempos para cá, fazer ele mesmo suas leituras. Liberada, sempre arrumo o que fazer, nem que seja observá-los de longe, imaginando que daqui a pouco nem mesmo em casa estarão. Numa destas espiadelas, flagrei os dois, cada qual em sua cama, lendo seus livros. O do Pedro - Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, recomendado pela escola - me fez lembrar da minha juventude, quando o livro foi lançado e fez grande sucesso. O li com o mesmo nó na garganta que percebi no Pedro. Como um cara tão jovem pôde pular em uma cachoeira e sair dali paraplégico? O Pedro veio a mim com esta pergunta, sentindo o mesmo frio na espinha que percorreu cada um dos leitores do livro - uma espécie de rito de passagem para um tempo em que nem tudo dá certo. Ali pertinho, ainda alheio a todas as dores do mundo, estava o Antônio se divertindo com O Diário de um Banana, de Jeff Kinney, que, por sua vez, deixou claro as diferenças entre os dois irmãos, que, neste momento em que um deixa a infância para trás, estão unidos apenas pelo amor e, quase, mais nada. É a aposta neste amor que nos une me faz pensar sem angústia no dia em que eles irão embora e que a casa voltará a ficar vazia. Uma nova vida para a qual estou me preparando desde já. Quero tê-los ao meu lado como adultos que vão e voltam e não como adolescentes, que nunca desgarram. Que eles possam fazer a viagem em busca do que realmente querem ser e são e, assim, consigam se desligar do que nós, pais, esperamos deles. Uma viagem de descobrimento, assim como a de Griso, o único, de Roger Mello, que apesar de ser um livro para crianças foi minha leitura solitária. O Antônio não o quis, para o Pedro nem ofereci e, por isso, fiquei eu só a me encantar com o unicórnio em busca de sua individualidade, marcada pela descoberta das diferenças. Griso é o último unicórnio sobre a terra que, na esperança de encontrar um semelhante, parte para uma longa viagem até os confins do mundo. No caminho encontra vários outros seres, mas nenhum de sua espécie, até que se depara com um cavalo alado, ele também o único sobre a terra. Um encontro que pode ser lido como o momento em que percebemos que nos constituímos como únicos, como indivíduos, mirando as diferenças. O caminho do personagem de Roger, doído, como será o nosso, é narrado não apenas com palavras, mas principalmente com imagens do próprio autor, que, em 2014, conquistou o prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, o primeiro dado a latino-americano. Griso toma várias e belas formas, inspiradas em vasos gregos, em murais chineses, na arte rupestre, em ilustrações da idade média e por aí vai. A experimentação de Roger é um presente para o leitor, que tem no livro, editado pela Global, um pequeno painel da arte universal atravessando os séculos e as culturas. Um painel que nos encanta o olhar e, acima de tudo, não nos deixa esquecer que a humanidade não é apenas uma, é múltipla e que, nestes milhares de anos de existência, assumiu formas diversas para dar significado a sua história. É essa liberdade que espero para meus meninos. Que eles possam descobrir, na sua longa viagem até os confins da vida, o que eles realmente são e querem ser.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

As narrativas e a tecitura do manto do acolhimento

Nos últimos tempos, aqui em casa, só lemos mitologia. O Antônio é um apaixonado por histórias e seres fantásticos e só quer ouvir narrativas que se fundem no lado de lá da razão e possam lhe oferecer novas possibilidades de entender o mundo que o cerca. Assim, voando sobre oceanos em asas feitas de penas e cera, puxando espadas mágicas encravadas em pedras, enfrentando monstros terríveis e ouvindo no som dos pássaros os mistérios da criação vamos tecendo uma grande rede de narrativas, que, noite após noite, nos mantém ligados, até o dia em que ele descobrirá outros caminhos para além dos livros que lemos juntos. Caminhos que o Pedro, com 14 anos, já começa a vislumbrar e me fazer antever, pela primeira vez, nestes anos de maternidade, o momento da separação. Nunca pensei que diria isso, certa de que estava preparada para o futuro dos meus filhos, mas percebo agora que a adolescência não é um tempo de incertezas apenas para quem o vive, é também para quem o acompanha, como as mães e os pais. O Pedro já está comprido o suficiente para pegar sem a minha ajuda seus sapatos na prateleira mais alta do armário e começa a escrever as primeiras linhas de sua narrativa, onde eu e seu pai não seremos mais protagonistas, mas tenho, mais que certeza, esperança de que estaremos sempre nesta história. Por enquanto, vivemos naquela gangorra que nos coloca ora diante de um jovem e ora frente a uma criança. No meio do caminho está a vontade de ficar mais um pouquinho no ninho, de ser servido como menino, de brincar com o irmão e de ouvir mais uma história, mesmo que finja não estar interessado, com aquele olhar enviesado com que tem mirado O Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, de Rosalind Kervin, trazido pelo Antônio da escola. O livro faz parte da coleção Clássicos Infantis, que se destaca no mercado de adaptações pela qualidade do texto e o capricho das edições ilustradas, com quadros explicativos sobre o contexto histórico das narrativas e suas influências no imaginário ocidental. Vale dizer que o interesse do Pedro é justificado. A história, nascida na mitologia do povo Celta, que dominou a Grã-Bretanha até a hegemonia do cristianismo na Europa, é mesmo fascinante e até hoje desafia historiadores e arqueólogos a provar sua existência. Ao que tido indica Artur e sua corte são apenas mitologia que buscava explicar a vida em um mundo encantado, onde a vida real se realizava em um universo dominado por magos e feiticeiras. É o poder da magia de Merlin e de Morgana que agita a história de Artur, da rainha Guinevere e de seus cavaleiros, que distribuídos, em posição de igualdade na Távola Redonda, defendem o reino de Camelot. Ao longo dos séculos a história foi se misturando ao imaginário cristão e Artur e seus súditos passaram, assim, nas versões da Idade Média, a defender símbolos da Igreja Católica Romana, como a cruz, e a ceder os seus, como santo graal, ao cristianismo. Este sincretismo de culturas tão diferentes produziu, com certeza, uma das mais fascinantes histórias de todos os tempos. No reino de Camelot não falta nada. Tem poder, ambição, amor e traição e, acima de tudo, magia. Com tantos atrativos O Rei Artur tem sido um sucesso entre os meninos e me feito aprender muito deste mito, que, com certeza, é um dos mais belos romances de capa e espada que já existiu. A magia de Merlin e Morgana, para o bem ou para o mal, tem me ajudado muito a tecer o manto com que acolho meus filhos todas as noites. Que assim seja até o dia que eles quiserem.