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sexta-feira, 24 de maio de 2019

Piedade pouca

Ao sair quarta à noite da PUC, universidade no coração da Zona Sul em que jovens burgueses pagam milhares de reais para estudar, passei por dois meninos ainda mais novos que os meus a vender balas. No fim da calçada, havia um rapaz preto e pobre deitado no chão a pedir dinheiro. Eu, como os outros, olhei para frente, como se em meu caminho não houvesse chão. Segui. Segui incomodada com a pobreza do outro, mas segui para a minha casa. Tomei banho para deixar a rua do lado de fora, jantei com os meus e dormi. Voltei ontem cedo para a PUC e, em meu caminho de ida, lá estava o rapaz, como se o tempo não houvesse passado, no mesmo lugar, com a pouca e rota roupa de antes. Ali, estava ele novamente a meus pés, com as pernas negras e os pés fortes esticados na calçada, como a formar uma barricada. Seus gestos continham a pressa dos que têm fome e o desespero dos que esperam por piedade. Ao ver-me disposta a abrir a bolsa e procurar por um trocado, o rapaz levantou as mãos em prece, como se saudasse um deus que dirigisse a ele sua graça, e, ao ver as moedas, abriu-as para receber tão acanhada piedade. Eram apenas quatro moedas. Quatro moedas que não somavam mais do que um real e cinquenta. Uma piedade tão pouca para gestos tão largos, que, ao dar as costas para ele e seguir em meu caminho, chorei. Apenas chorei. 
#LulaLivre 


PS: Posto a capa do conto A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen, por ele provocar em mim a mesma emoção que senti ao ver o rapaz que estava na calçada da PUC aos meus pés. Já falei disso aqui no blog, se quiser, clica aqui e volta lá.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tim Maia, Pessoa, Andersen e as tristezas da vida

Mal dormi hoje por conta de uma crise de tosse que tirou o sono do Antônio às quatro da manhã. Ele foi me pedir socorro e implorar para que eu tirasse aquela doença dele, mas nem todo o meu carinho, xarope e spray de própolis foram capazes de acalmar sua tosse. Ficamos insones, ele e eu e, assim que amanheceu, seguimos para nossa rotina. No rádio do carro, ainda bem cedo, ouvi Tim Maia cantar Bom senso, de seu álbum místico, Racional, e fiquei pensando em como muita coisa mudou nestes 47 anos em que estou no mundo. Quem hoje falaria assim, de cara tão limpa - nesta época o Tim estava limpo, que fez muita coisa errada, dormiu na rua e pediu ajuda? Hoje, vivemos tempos em que todos nascem limpos, bem-sucedidos e felizes. Um tempo em que o Tim seria mais outsider do que foi em sua breve vida. Um tempo que, na verdade, apesar de todo o discurso da diversidade, há lugar para cada vez menos pessoas. Entendo por lugar, um lugar qualificado, que garanta as oportunidades e a mobilidade que a modernidade promete a todos e oferece a apenas alguns. O desabafo de Tim me fez pensar em como nós, da classe média, temos criado nossos filhos. Nas estratégias que adotamos para evitar que eles vivam a dor, a vergonha, a tristeza, a dureza, entre tantas agruras, e no resultado desta proteção. Pensei em Fernando Pessoa e seu Poema sujo, em que o poeta português diz nunca ter conhecido quem tivesse levado porrada e que todos os seus amigos têm sido campeões em tudo. Pensei na máxima das redes sociais de que ninguém é tão feito quanto na identidade, tão bonito como no Orkut, tão feliz como no Facebook, tão simpático quanto no Twitter, tão ausente como no Skype, tão ocupado quanto no MSM e tão bom como diz seu currículo. Talvez por falta de coisa melhor para fazer, estava pensando em tudo isso quando abri meu Facebook e me deparei com dois comentários que engrossaram o caldo de minhas reflexões. Um deles estava no perfil de um jornalista da minha idade, que questionava a supervalorização da juventude. O outro, era de uma jornalista já avó, na dúvida se deveria ler os contos de Hans Christian Andersen para seus netos. Nesta hora, tudo se encaixou. Tim Maia, Fernando Pessoa, redes sociais, Andersen e os jovens da classe média de hoje, que formam uma geração poupada das tristezas e durezas da vida e que ocupam cada vez um lugar maior no mundo. Um mundo, que, por outro lado, nega lugar a outros tantos jovens menos privilegiados. Uma geração que chegou ao poder cedo demais, sem antes ter experimentado privações. Os jovens, que hoje estão no poder, são bem nascidos e bem adaptados a um mundo individualista, marcado pelo consumo e pela busca de status. São filhos de uma camada da sociedade que, cada vez mais, tem garantido lugar nos postos de mando, posto que, cada vez menos, jovens pobres têm condições de ascender. Digo ascensão social de verdade, não esta inclusão que tira os pobres da faixa de miséria e os condena a serem trabalhadores sem instrução, em empregos e moradias precárias e uma realidade de consumo de segunda classe, garantida pelo amplo crédito e subsídios do governo. Aquelas histórias de meninos que começam como boys de bancos e décadas depois estão sentados nas cadeiras da diretoria serão cada vez mais raras, em um mercado que supervaloriza a formação profissional, em uma sociedade que não garante nem mesmo ensino básico de qualidade. Não estou dizendo que só o sofrimento construa, mas, com certeza, sem ele não podemos nos tornar humanos. A riqueza dos contos de Andersen, dizem os historiadores e seus críticos, está intimamente ligada à vida pobre de sua família em Odelsa, na Dinamarca. Andersen foi um menino pobre, que soube transformar sua dor em histórias verdadeiras que, há dois séculos, falam da condição humana com tanta clareza que encanta crianças e adultos de vários cantos do mundo. Seus contos são sofridos, assim como sua infância, mas nos permitem saídas. Saídas construídas pela imaginação, acalentada quando criança pelo seu pai, um humilde sapateiro, que lhe ensinou o prazer de se envolver com boas histórias. Saídas simbólicas, que permitem a seus personagens transformar sua condição no mundo. A pequena vendedora de fósforos, talvez a mais triste de todas as suas histórias, é uma menina pobre, que morre de frio e fome sendo ignorada por todas na véspera do Ano Novo. Sua morte, apesar de trágica, a liberta da tirania do pai, que a joga na rua para esmolar, do frio, da fome, da indiferença e a joga no colo da avó que lhe dá acolhida, em sua última alucinação de quase morte. Uma morte que mexe com sentimentos, que em doses homeopáticas, todo ser humano sente. Uma história que pode servir para as crianças elaborarem seus medos e ressentimentos. A tristeza da menina vendedora de fósforos faz parte da vida, por mais que não queiramos aceitar isso. Que bem poderá fazer a nossos filhos, ignorá-la? Saber que meninas como ela existem até hoje, só pode tornar nossos filhos mais humanos e generosos. Lidar com as provações, só pode torná-los mais fortes. As adaptações das obras de Andersen que escondem a carga dramática de seus personagens - como é o caso de A Sereiazinha e seu destino trágico diluído nas tintas coloridas dos estúdios Disney, na minha opinião, subestimam a capacidade das crianças de entender a vida. Isso não as impede de se revoltarem com o final, como foi o caso do meu filho Pedro, que aos 9 para 10 anos, assistiu a uma bela montagem do grupo Pequod, que preserva a história original. Ele saiu revoltado com a morte da menina, como ficaríamos todos se ela fosse real. Mas esta revolta não roubou dele a experiência de acompanhar a luta da menina para ter uma alma, conseguida mesmo que a custa da morte. Assim como as trágicas e muitas vezes violentas histórias da mitologia grega encantam nossas crianças. Claro que não defendo que estas histórias sejam contadas para crianças que mal saíram das fraldas. Mas, a medida que elas forem adquirindo maturidade para ouvir histórias mais longas, o que coincide com um tempo em que descobrem a existência da maior de todas as tristezas, a morte, acho, sim, que podem ser apresentadas ao universo de Andersen. Para nossa surpresa, na maior parte das vezes, as crianças se atêm mais no maravilhoso da história do que na morte dos personagens, como é o caso de O Soldadinho de Chumbo. Infantilizá-las no campo das emoções é um contra-senso, em uma sociedade que se gaba de ter filhos com cada vez mais habilidades precoces. Eles podem usar computadores aos três anos, mas não podem conhecer a morte aos seis. Eles podem aprender uma segunda língua antes mesmo de serem alfabetizados, mas não podem saber da miséria aos seis anos. Os fracassos da Sereiazinha, os obstáculos do Soldadinho de Chumbo e as privações da Pequena Vendedora de Fósforos só podem preparar melhor nossos filhos para as suas próprias dificuldades. Afinal, um dia todo mundo vai virar calçada maltratada, como o Tim já virou.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal é tempo de renascimento


Hoje é Natal! Queria ter escrito antes para desejar a todos um feliz dia, mas me enrolei e meus votos vão agora, quase na hora da ceia. Votos de quem não acredita mais em Papai Noel, mas continua acreditando que a vida pode ser bem melhor e será. A menina de Andersen também! Apesar de todo o sofrimento, ele aposta no futuro. Ela nos ensina a estender a mão a quem sofre e, mesmo se não chegar ajuda, a superar nossas próprias dores. Afinal, Natal é tempo de nascimento e, por que não, de renascimento. Assim espero que seja para todos nós.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Um conto de Natal

É quase Natal! Tem dias que não atualizo o blog por causa da correria de fim de ano. Todo dia tem uma confraternização, todo dia tem um afazer. Mas agora que está chegando a hora, a vida vai ficando mais tranquila e, com poucas pendências a resolver, começo a buscar calma em mim mesma. Uma calma que, nestes dias que antecedem o Natal, se confunde com a melancolia e uma sensação de impotência diante das dores do mundo. O Natal me evoca este sentimento desde a adolescência, quando comecei a conviver com as minhas primeiras perdas. Mas este sentimento está em mim desde a infância. Lembro bem da tristeza que sentia ao ouvir o conto A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen. Aquela menina abandonada à própria sorte, na neve, sonhando com o aconchego que a vida lhe negara. Ficava muito, muito triste. Na verdade, fico até hoje. Por isso, me surpreendi quando, há bem pouco tempo, o Pedro trouxe a história da escola. Li todo o livro, editado pela Editora Scipione (a imagem ao lado é de um lindo curta da Disney), com a voz travada para não chorar. O Pedro a ouviu com a maior serenidade e, ao fim, me disse que tinha achado o conto lindo. Me perguntei por que ele, como eu, não se sentiu mal ao ouvir uma história em que uma criança morre de frio na véspera de ano novo sem que ninguém a ajude? Talvez, como a menina, ele tenha embarcado na fantasia que a tira daquela existência de dor e de abandono e, com isso, nem tenha percebido que ela se liberta pela morte. De qualquer forma, a Pequena Vendedora de Fósforos continua sendo, para mim, uma história de dor e sofrimento com a qual não sei lidar.