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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Um sopro de possibilidades na primeira manhã de 2018

Hoje é o primeiro dia de um novo ano que promete ser osso duro de roer. Um ano depois de outro ano difícil, em que perdemos muito, aqui no Brasil, mas ganhamos a certeza de que a vida é isso: luta. Mas para lutar é preciso também alguma ternura, ou melhor, é preciso poesia. A liberdade e a fantasia, ao contrário do que ouvimos, desde crianças, não são escapismo, são possibilidade. A arte é isso, liberdade, fantasia e possibilidade. Eu diria, parafraseando Ferreira Gullar, que a arte é essencial quando a vida falha. É dentro de seu círculo, ou extrapolando seus limites, que a vida se amplia, promete o que nos parece impossível e nos faz mais humanos. As crianças vivem a permanência desse estado de possibilidade, negado a nós pelo racionalismo que nos rege no mundo da produção, por experimentarem a liberdade e a fantasia em seu cotidiano. Uma experiência singela, difícil de ser captada por nós, adultos, sempre tão rasos e complexos, mas encantadora, como é o livro Lina e o Balão, da japonesa Komako Sakai, editado pela Pequena Zahar e traduzido por Lúcia Hiratsuka, sempre tocada por um olhar infantil. A narrativa trata da relação de Lina com um balão de gás e é construída em um texto que preserva a inocência da criança e por delicadas ilustrações que trazem em seus traços um ar retrô, que nos remete a um tempo em que a infância era protegida das verdades da vida. A menina de Komako é quase um neném e brinca com seu balão, como se ele tivesse vida. E tem. Atravessado pelo olhar mágico de Lina, o balão vira um amigo constante e sua "fuga" lhe impõe verdadeiro sofrimento. A sorte da menina é ter na mãe uma parceira nessa viagem tão rica que somente a liberdade e a fantasia podem proporcionar. Lina segue se relacionando com o balão, sem ser confrontada com a racionalidade uma única vez. Uma viagem que amplia as possibilidade do "mundo real" e pode tornar a vida ainda mais rica. Uma viagem que, infelizmente, está cada vez mais sendo negada às crianças, em nome de verdades que irão prepará-las para a vida, como se a vida que levamos não fosse o fruto da liberdade e da fantasia humana. Uma história para nos enternecer e, sobretudo, para nos lembrar que a infância é um tempo de possibilidades e devemos não apenas deixá-la se manifestar, mas nos inspirar nela. Que o olhar de Lina sobre o balão nos sirva de  bússola para atravessarmos 2018.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Tecendo a manhã

2017 não foi um ano fácil, mas sigo com esperanças no porvir. Uma esperança, como nos ensina João Cabral de Melo Neto, que aposta na ousadia, no coletivo, no compartilhamento, na parceria. Que terminemos esse ano com boas festas e, em 2018, possamos tecer juntos uma nova manhã. Até!

Tecendo a manhã* 
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 

João Cabral de Melo Neto, 
(A educação pela pedra)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As grandes questões da existência e o ano novo

O ano de fato começa hoje, dia 2 de janeiro. Passada a ressaca da festa, nos vemos novamente diante da vida: nua e crua, sem fogos, purpurinas e borbulhas. Seca e franca. E eu, novamente diante do branco desta página do word, nem tão limpa assim, tentando criar minhas alternativas. Não é fácil. Sei disso. Mas não estou sozinha. Logo aqui pertinho o Pedro e o Antônio dormem aquele sono longo de férias, cheios de ideias para uma vida que mal se iniciou. É deste combustível que me encho de esperanças no porvir. É deste corpo a corpo com um futuro que não é meu, que vou criando minhas saídas. Saídas que não podem nunca abandonar o que já construí. O novo só me enche os olhos se prenhe de passado e, por isso, preciso preservar pontes, mesmo nas rupturas. Não me pergunte nada. Ainda não sei  para onde vou. Mas navegar, como já nos disse o poeta, é preciso, mesmo que em rio seco. E assim sigo em meu desafio, buscando sentido nessa vida tão louca, a quem somos tão apegados, apesar de tudo. Fora dela não há saída, não há existência. A vida é uma existência que nos intriga e já fez muitos filósofos passarem a sua em busca da palavra exata para descrevê-la. Mas ela, ao que parece, não existe e, enquanto a procuramos, vamos vivendo, experimentando, criando e nos espantando com as inúmeras possibilidades de tradução da vida. Cada um, neste tempo múltiplo de que somos contemporâneos, vai encontrando a sua, escolhendo a que melhor lhe cabe. Mas para chegarmos lá, não podemos nunca nos esquecer daquelas velhas  perguntas que há milênios fazem os homens abandonarem seus lugares de conforto: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. As respostas são difíceis, talvez inalcançáveis, mas persegui-las deverá sempre ser nosso esporte. Um esporte que deve ser iniciado nos primeiros anos de nossa existência, muito antes das aulas de inglês, de empreendedorismo e de administração de sonhos. Para aprendê-lo não há cartilhas, nem técnicas ou táticas, há apenas liberdade para perguntar. Perguntar muito e sempre. Consultar a experiência alheia também é boa receita e há muitas delas disponíveis em belas narrativas. A arte é uma boa conselheira nesse exercício de pertencimento ao mundo e à vida. E as crianças amam fazê-lo. Aqui em casa, meus filhos o fazem de várias maneiras, mas não posso deixar de citar o livro A grande questão, de Wolf Erlbruch, uma espécie de introdução à filosofia, despretensiosa e lúdica como devem ser as obras para crianças, que encanta a todos, de qualquer idade. No livro, editado por aqui pela Cosac Naify, o ilustrador e escritor alemão cria um belo diálogo sobre a existência entre um menino que faz aniversário e vários outros personagens. Erlbruch, ao fim, convida seu leitor a responder a essa grande questão que há milênios nos inquieta. É perseguindo essa resposta que inicio mais um ano de minha vida. No mais, só me resta torcer para que 2017 seja um tempo feliz para mim e para toda a humanidade. Desejo talvez mais difícil ainda de se realizar do que encontrar a resposta para a grande questão. Mas são das impossibilidades que encontramos nossas saídas. E elas, com certeza, existem.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um mistério pra vida inteira

2012 chegou! Tim-tim para nossos sonhos e esperanças que se renovam com mais um ano novo e com os encontros e reencontros da vida - nestes dias tão comuns e desejados. É isso que nos faz olhar para trás e nos prepararmos para seguirmos em frente. Sempre em frente, sem romper com o passado jamais. Passado rico em subjetividades, em história e em afetos. Afetos que nos lembram, logo no primeiro dia de um ano novo, antigas personas. Eu, aos 20 e poucos anos, fui um coelho. Não um coelho qualquer, tão pouco um coelho de Páscoa. Fui o Coelho, da Sociologia da PUC, o Coelho amigo do Urso, da Lontra e do Peroba. Peroba, de mané, Peroba, de gente boa. Coelho que ao longo dos anos foi se disfarçando, até um dia em que ficou impossível perceber sua natureza e, assim, reconhecê-lo. Mas hoje, primeiro de janeiro de 2012, acordei e fui procurar por minha natureza de coelho. A primeira coisa que lembrei foi de ter visto ontem, em uma novela, um pai lendo para a filha O mistério do coelho pensante, de Clarice Lispector, editado pela Rocco. Belo livro, em que Clarice fala para seu filho Paulo sobre os seres, suas naturezas e os limites da realidade e as possibilidades da imaginação. Imaginação que faz a história do coelho pensante ser muito "mais extensa que o seu aparente número de páginas". História que "na verdade só acaba quando a criança descobre outros mistérios". Mistérios que vão afastá-la da infância, mas que, se observados, vão criar novas possibilidades para a realidade que, sem eles, parece tão sem graça. Essas possibilidades, ensina Clarice, ficam a cargo de cada um. Fazem parte dessa história tecida ano a ano, com os encontros e reencontros que preenchem as lacunas deixadas pela autora em O mistério do coelho pensante, texto enriquecido pelo ludismo do traço de Mariana Massarani. O coelho de Clarice é mais um sinal de que vale a pena viver. Por isso, repito: viva 2012! O ano do dragão, aquele que discretamente ultrapassou o coelho e nos promete grandeza na vida. Os outros mistérios, ficam a nosso encargo. Do jeito que quisermos e pudermos!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Um conto de Natal

É quase Natal! Tem dias que não atualizo o blog por causa da correria de fim de ano. Todo dia tem uma confraternização, todo dia tem um afazer. Mas agora que está chegando a hora, a vida vai ficando mais tranquila e, com poucas pendências a resolver, começo a buscar calma em mim mesma. Uma calma que, nestes dias que antecedem o Natal, se confunde com a melancolia e uma sensação de impotência diante das dores do mundo. O Natal me evoca este sentimento desde a adolescência, quando comecei a conviver com as minhas primeiras perdas. Mas este sentimento está em mim desde a infância. Lembro bem da tristeza que sentia ao ouvir o conto A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen. Aquela menina abandonada à própria sorte, na neve, sonhando com o aconchego que a vida lhe negara. Ficava muito, muito triste. Na verdade, fico até hoje. Por isso, me surpreendi quando, há bem pouco tempo, o Pedro trouxe a história da escola. Li todo o livro, editado pela Editora Scipione (a imagem ao lado é de um lindo curta da Disney), com a voz travada para não chorar. O Pedro a ouviu com a maior serenidade e, ao fim, me disse que tinha achado o conto lindo. Me perguntei por que ele, como eu, não se sentiu mal ao ouvir uma história em que uma criança morre de frio na véspera de ano novo sem que ninguém a ajude? Talvez, como a menina, ele tenha embarcado na fantasia que a tira daquela existência de dor e de abandono e, com isso, nem tenha percebido que ela se liberta pela morte. De qualquer forma, a Pequena Vendedora de Fósforos continua sendo, para mim, uma história de dor e sofrimento com a qual não sei lidar.