A resistência do Antônio em aceitar novas histórias para seu repertório, já citada aqui algumas vezes, está sendo quebrada pelas visitas semanais de sua turma à biblioteca da escola. Até o ano passado, na educação infantil, ele frequentava uma aconchegante sala de leitura, em que livros dividem espaço com bonecos. Agora, no fundamental, sua turma frequenta uma biblioteca em uma torre, com estantes repletas de livros que cobrem as paredes da sala até o teto. Das janelas, vê-se uma bela vista. Mas o Antônio, ainda baixinho, só tem olhos para os livros. São tantos e com tantas histórias que ele faz planos de trazê-los para casa. Toda semana vem com um livro novo para lermos juntos. A leitura é sempre um prazer, que nas últimas semanas ganhou mais uma alegria, com a aventura da decodificação das primeiras letras. Uma graça sua leitura. Ela vem esbarrando em dois erres, dois esses, cês, agás, cedilhas e outras trapaças do nosso português, mas não desiste de tentar. O dia todo lê o que lhe passa pela frente e nos chama para comunicar sua mais nova conquista. Deitado na cama, ouvindo histórias, a vontade de ler cresce, mas vida de iniciante não é fácil. A letra cursiva, a opção editorial da maior parte dos livros, acrescenta um novo desafio às crianças em fase de alfabetização, que ainda estão lidando com a letra de forma, ou bastão. Mas o Antônio não desiste nunca e consegue ler algumas poucas palavras, em meio a leituras incompreensíveis. Assim foi com A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, editado pela Rocco Jovens Leitores, e ilustrado por Flor Opazo, que tiramos da nossa estante mesmo. Antônio adiantou-se para ler ele mesmo e, com a maior segurança, saiu falando uma série de fonemas desconexos. Em meio a uma língua estranha, emplacou algumas palavras em português. Satisfeito com sua performance, entregou-me o livro e passou a acompanhar com interesse minha leitura. O Pedro, que já conhecia a história, juntou-se a nós para ouvi-la mais uma vez. Deitada ao lado do Antônio, comecei a ler: "A mulher que matou os peixes, infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer". Logo nas primeiras frases do conto, Clarice mostra que vai travar um diálogo franco com seus leitores. As crianças são as suas interlocutoras e é elas que Clarice quer convencer de que não é uma pessoa má e que matou os peixes sem querer. Para isso, vai buscar em suas memórias as histórias dos bichos que teve. São vários causos, contados com crueza, sem metáforas, para mostrar para seus pequenos leitores que ela sempre gostou de animais. Seu diálogo com as crianças é tão verdadeiro que o Antônio respondia a todas as perguntas que faz no texto, criticava suas atitudes e até lamentava pela sorte dos bichos sobre os quais Clarice escreve. A história que mais o tocou foi a de Max e Bruno, dois cães amigos que lutam até a morte por causa de um ser humano. Antônio ficou triste, como Clarice disse que ele ficaria, e não perdoou Bruno, apesar de ela pedir compreensão com o cão. Nesta altura, o Pedro que acorda com a alvorada, já tinha sucumbido ao sono. Eu e o Antônio seguimos, então, adiante para o fim da história, que não guarda mistério algum, a não ser aquele escondido atrás de um belo texto. Mistério que o Antônio decifra com sua alma de leitor-ouvinte, que anda fazendo um esforço sobre-humano para ler as palavras que lhe trazem tantas histórias.
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
domingo, 1 de janeiro de 2012
Um mistério pra vida inteira
2012 chegou! Tim-tim para nossos sonhos e esperanças que se renovam com mais um ano novo e com os encontros e reencontros da vida - nestes dias tão comuns e desejados. É isso que nos faz olhar para trás e nos prepararmos para seguirmos em frente. Sempre em frente, sem romper com o passado jamais. Passado rico em subjetividades, em história e em afetos. Afetos que nos lembram, logo no primeiro dia de um ano novo, antigas personas. Eu, aos 20 e poucos anos, fui um coelho. Não um coelho qualquer, tão pouco um coelho de Páscoa. Fui o Coelho, da Sociologia da PUC, o Coelho amigo do Urso, da Lontra e do Peroba. Peroba, de mané, Peroba, de gente boa. Coelho que ao longo dos anos foi se disfarçando, até um dia em que ficou impossível perceber sua natureza e, assim, reconhecê-lo. Mas hoje, primeiro de janeiro de 2012, acordei e fui procurar por minha natureza de coelho. A primeira coisa que lembrei foi de ter visto ontem, em uma novela, um pai lendo para a filha O mistério do coelho pensante, de Clarice Lispector, editado pela Rocco. Belo livro, em que Clarice fala para seu filho Paulo sobre os seres, suas naturezas e os limites da realidade e as possibilidades da imaginação. Imaginação que faz a história do coelho pensante ser muito "mais extensa que o seu aparente número de páginas". História que "na verdade só acaba quando a criança descobre outros mistérios". Mistérios que vão afastá-la da infância, mas que, se observados, vão criar novas possibilidades para a realidade que, sem eles, parece tão sem graça. Essas possibilidades, ensina Clarice, ficam a cargo de cada um. Fazem parte dessa história tecida ano a ano, com os encontros e reencontros que preenchem as lacunas deixadas pela autora em O mistério do coelho pensante, texto enriquecido pelo ludismo do traço de Mariana Massarani. O coelho de Clarice é mais um sinal de que vale a pena viver. Por isso, repito: viva 2012! O ano do dragão, aquele que discretamente ultrapassou o coelho e nos promete grandeza na vida. Os outros mistérios, ficam a nosso encargo. Do jeito que quisermos e pudermos!
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
A vida de Laura por Clarice Lispector
Ninguém duvida de que Clarice Lispector é uma escritora genial. Mas nem todo mundo sabe que ela escreveu para crianças. E, como não podia deixar de ser, sua literatura infantil é da melhor qualidade. O meu livro preferido é A vida íntima de Laura, ilustrado por Flor Opazo. Laura é uma galinha que tem o pescoço mais feio do mundo, e que, além de tudo, é burrinha e medrosa. Mas que apesar de burrinha, tem uns pensamentozinhos e sentimentozinhos. Imaginem só, uma história inteirinha dedicada a esta personagem tão comum, presente em qualquer quintal de interior. Pois é, mas o talento de Clarice faz com que o relato da vida íntima de Laura seja um delicioso livro para ser compartilhado com os filhos. Ela escreve como quem conversa com a criança, surpreendendo-a com comentários maliciosos sobre a galinha Laura. É realmente muito divertido xeretar a vida de Laura pela lente do maravilhoso texto de Clarice. Vale a pena ler este e os outros quatros títulos da escritora para crianças - Como nascem as estrelas, A mulher que matou os peixes, O mistério do coelho pensante e Quase de verdade, todos editados pela Rocco.
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