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sábado, 23 de dezembro de 2017

Tecendo a manhã

2017 não foi um ano fácil, mas sigo com esperanças no porvir. Uma esperança, como nos ensina João Cabral de Melo Neto, que aposta na ousadia, no coletivo, no compartilhamento, na parceria. Que terminemos esse ano com boas festas e, em 2018, possamos tecer juntos uma nova manhã. Até!

Tecendo a manhã* 
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 

João Cabral de Melo Neto, 
(A educação pela pedra)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sobre habitar o tempo, o nosso e de nosso tempo

Tebas, segundo meus filhos, é um lugar que não existe. Mas Tebas existe, sim. Lá escondidinha em um canto de Minas Gerais e, mais ainda, vivíssima, em minha memória. É um lugarejo tradicional, com a praça marcando seu centro, poucas centenas de casas, muitas vendas, uma padaria, uma igreja no alto do morro, com o cemitério se escondendo ao fundo, um campo de futebol, uma escola, uma biblioteca, um precário posto de saúde e uma cadeia pública. Assim é a Tebas que não vejo há quase 20 anos. O lugar onde aprendi a entender o tempo. Um tempo lento, modorrento, prenhe de nada. Por lá, não há pressa, não há surpresas a serem perseguidas e, tampouco, grandes emoções a serem vividas. O tempo na roça é manso, não nos convida para a luta, não quer nos vencer ou ser vencido. Ele corre. Apenas corre junto com os ventos, as águas, os bichos, os moleques atrás dos outros. O tempo na roça é uma experiência, como é o bater de nosso coração, a chuva que se aproxima, as vozes que rompem o silêncio, o crepitar da lenha no fogão. A noite não engole o tempo e tampouco o dia o pare. Ele escorre do claro para o escuro, do escuro para o claro, nos impedindo de fazer contas e de fracionar o dia. Ele passa lento, junto ao suor dos homens que tratam a terra, às conversas de mulheres em roda que amarram o fumo ou ardem ao lado de tachos de doce, ao embalo dos velhos em cadeiras de balanço, a crianças que correm pelos campos, catando matinhos, pedras e tocos. O tempo na roça é assim, quando a gente para, ele para junto para nos permitir descalçar os pés, uni-los ao chão, deixá-los sentir o frio da pedra, a umidade do orvalho, o calor do sol. Somente nossos pés podem fazer o tempo voltar a andar. Em tudo este tempo é diferente do que vivemos na cidade. O nosso tempo - ou será de outro, apenas emprestado a nós - é, assim, apressado, nervoso, cheio de vazio. Um vazio que, ao contrário do nada lá da roça, que se deixa ocupar pelo ar, nos angustia e pede preenchimento. E é na pressa de preenchê-lo que vamos perdendo a intimidade com o tempo. Aqui, em casa, os meninos, em sua correria para saciá-lo, vão a cada dia que passa tendo mais dificuldade em acreditar que Tebas possa de fato existir. De cá, me espanto em vê-los passar suas horas vagas operando dispositivos eletrônicos para matar o tempo com joguinhos e viagens virtuais. Me culpo por não poder oferecer a eles uma realidade que os faça experimentar o tempo, sem a pretensão de vencê-lo, assim de mansinho, como fazem Lia e Nico, personagens de Lúcia Hiratsuka. Eles vivem no campo e brincam como as crianças de lá, com a terra, plantas e bichos. A natureza preenche o universo dos dois irmãos e animam suas aventuras, que, se julgadas pelo padrão do audiovisual contemporâneo, são bastante prosaicas. Mas é justo a simplicidade e a capacidade de cada um em ver sentido em sua própria existência que fazem de Antes da chuva, Corrida dos caracóis A venda, todos editados pela Global, livros preciosos, que podem nos ajudar a mostrar para as crianças pequenas a riqueza de viver a experiência do tempo, sem pressa, sem expectativas, de boa com a própria vida. Lúcia, assim como João Cabral de Melo Neto, no poema Habitar o tempo (que reproduzo abaixo), nos fala do desafio de nos apaziguarmos com o tempo. Ela com a delicadeza de suas aquarelas o frescor da infância, e ele com a força de seus versos ásperos, difíceis, que nos convidam a decifrar os mistérios do tempo, como se estivéssemos diante de uma esfinge. Habitar seu próprio tempo, sem se afastar do tempo alheio é o desafio maior que vivo na maternidade. Deixar meus filhos serem contemporâneos de si mesmos, sem que, para isso, sejam tragados por um tempo hostil, que os alienará de sua própria existência. Um desafio tão enorme, que só me resta pedir a Cronos que tenha piedade de nós.

Habitar o tempo
Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.

Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A arte é uma coisa de tripa

Eu amei a Espanha. Passei pouco tempo em Madri e em Barcelona, mas o suficiente para me fazer lembrar com frequência daquela terra, que, como descreve João Cabral de Melo Neto, "é coisa de tripa". Uma das coisas que mais me encantou por lá foram os vários museus que guardam a memória de pintores modernos espanhóis que assombraram o século XX com seu talento e ousadia. Em Madri, o Prado é um esplendor, com os clássicos que provocaram os modernos a tomarem outro caminho. O Reina Sofia, um escândalo, com Guernica e outras obras que remontam a primeira metade do espetacular século XX. E Barcelona? Nos dá o Museu Picasso e o Museu Miró para não nos deixar esquecer da inquietude com que os modernos viam o mundo. Eles, nos museus da Espanha, ganham novo corpo, ao termos diante de nós o ambiente histórico e artístico em que se formaram. As tensões de um capitalismo ainda frágil com o mundo da tradição, as guerras, o fascismo, as vanguardas artísticas e o triunfo do modernismo sobre o conservadorismo do classicismo. Toda essa tensão foi o caldo de cultura para o surgimento da beleza que a virada do século XIX para o XX nos deixou, o que reforça minha crença de que o desconforto é mesmo necessário à criação artística e me faz arriscar a dizer, parafraseando João Cabral, que a arte é uma coisa de tripa. É esse desconforto que fica claro no livro O pássaro na gaiola, do premiado ilustrador espanhol Javier Zabala, editado pela Pequena Zahar, que reproduz uma das cartas do pintor holandês Vincent Van Gogh para seu irmão Théo. Van Gogh morreu pobre, sem o reconhecimento de sua genialidade, e atormentado. Ele se suicidou aos 37 anos depois de uma série de surtos psicóticos, que o fizeram até cortar uma de suas orelhas. Sua vida trágica, em que conseguiu vender apenas uma das 800 obras que produziu, alimenta a mística em torno das relações entre genialidade artística e loucura e faz dele um personagem fascinante que falou muito de si em “Cartas para Théo”. Van Gogh fala, como em uma parábola, sobre seus sentimentos através da história de um pássaro preso em uma gaiola que implora por liberdade e autonomia. Ele se lamenta de não vencer as dificuldades de sua vida e de ser sustentado pelo irmão. No fim, liricamente, fala do amor que os une. O sentimento de impotência que atormenta o pintor é captado com sensibilidade pelo ilustrador espanhol, que trabalhou quatro anos nesse projeto, e expresso com o requinte de uma sofisticada ilustração que consegue refletir o mundo interior em que Van Gogh se sentia preso. As ilustrações são tão bonitas que mereceram, em 2014, uma exposição no Museu de Desenho e Ilustração de Madri, que, por desconhecê-lo não o visitei. Lá o público pode apreciar, além dos originais, todo o processo de criação do livro. Zabala usou técnicas como colagem, aquarela, tintas, acrílicos e monotipias para traduzir a angústia de Van Gogh. O resultado é uma obra delicada que, além de nos educar o olhar, nos apresenta um pouco mais de um dos mais importantes pintores modernistas. A edição é um presente para jovens leitores, que tem tudo para agradar também a leitores maduros e mais uma mostra de que a Espanha é mesmo "uma coisa de tripa". "A Espanha está nessa cintura/que o toureiro oferece ao touro,/e que é de donde o andaluz sabe/fazer subir seu cantar tenso,/a expressão, explosão, de tudo/que se faz na beira do extremo." Zabala, com seu livro, nos faz lembrar que é da ausência desse extremo que nosso tempo se ressente. Só me resta pedir, que a história tenha piedade de nós!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

50 anos riscando a vida

Hoje acordei com 50 anos. Levantei cheia de sono, querendo dormir mais, mas levantei rápido o suficiente para agarrar a vida com a pressa de quem acredita estar apenas no meio do caminho. E para celebrar essa data, nada melhor do que lembrar o meu poeta preferido, falando com a justeza dos céticos sobre as possibilidades da vida.

"Nunca pensei que tal mundo
com sermões implantaria.
Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida,
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
O mundo não é uma ilha
de papel, receptiva:
o mundo tem alma autônoma,
é de alma inquieta e explosiva.
Mas o sol me deu a ideia
de um mundo claro algum dia.
Risco nesse papel praia,
em sua brancura crítica,
que exige sempre a justeza
em qualquer caligrafia:
que exige que as coisas nele
sejam de linhas precisas
e que não faz diferença
entre a justeza e a justiça."

Trecho de "O auto do Frade", de João Cabral de Melo Neto

sábado, 6 de agosto de 2011

Para gostar de ler poesia

Eu era ainda uma adolescente quando conheci Castro Alves e a grandeza de sua poesia romântica que falava de um povo a ser liberto e um mundo a ser construído. Me apaixonei por essa verve tão intensa, apesar de ter nascido quase 100 anos após sua morte precoce por tuberculose. Depois dele veio João Cabral de Melo Neto, com seu auto Morte e Vida Severina. A maioria deles me chegou pela escola ou pelas mãos de minha mãe, que sabia que eu estava me encantando pela poesia. Na minha casa esse era um gênero inexistente. Minha mãe sempre foi uma leitora voraz, mas poesia nunca fez parte de seu cardápio. A poesia me ligava à minha bisavó, Maria da Silveira, que tinha vivido os saraus do início do século XX. Ela gostava de saber que eu me encantava pelos poetas, o que fez sua filha, minha avó, após sua morte, me dar alguns de seus livros de poesia, entre eles Estrela da Vida Inteira, de Manoel Bandeira. Esse gosto, no entanto, nunca cruzou mares. Sempre fiquei entre os poetas brasileiros. Minha ousadia maior foi Fernando Pessoa. Conheço muito pouco mesmo da poesia americana ou europeia. O pouco que li, não me seduziu. Aí me pergunto se o problema é eu ler poesia traduzida. A tradução, desconfio, faz muito da beleza pretendida pelo poeta desaparecer. Mas reconheço que, apesar disso, tem muita coisa boa a ser lida nas prateleiras das livrarias. Por isso, não titubeei em comprar Ri melhor quem ri primeiro (Poemas para crianças e adultos inteligente), de José Paulo Paes, pela Companhia das Letrinhas. O livro traz uma seleta de poemas escolhidos e traduzidos por Paes para ser apresentada para leitores jovens ou inexperientes na poesia em língua não portuguesa, como eu. O poeta, ensaísta e tradutor dedicou parte de seus últimos anos escrevendo para crianças e divulgando a obra  de seus pares para este público normalmente tão esquecido pelos literatos. Paes, neste livro,  um de seus últimos projetos, reúne 31 poemas de origens linguísticas e temporais diferentes que servem como um resumido cenário da riqueza que o gênero pode ter. "A senhora esperava o ônibus./ O senhor esperava o ônibus./ Passa um cachorro preto que manca./ A senhora fica olhando o cachorro./ O senhor fica olhando o cachorro./ Nesse meio tempo o ônibus passou.", do surrealista francês Raymond Queneau, é um bom exemplo do que Paes traz para adultos e crianças que estejam dispostos a embarcar nessa viagem. Mas como diz Queneau, é preciso fazer sinal para o motorista. Paes já fez para nós, só nos resta topar a brincadeira.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O sim de João Cabral de Melo Neto

"Só vive quem se debate". Por traz da força desse verso está um dos maiores poetas da língua portuguesa. A poesia de João Cabral de Melo Neto, mesmo após a morte do poeta há 12 anos, ainda é capaz de surpreender a quem, como eu, a admira. Ilustrações para fotografias de Dandara, obra de onde tirei este verso, foi guardada até agora como relíquia de família e chegou às livrarias este mês, como um presente para quem ama poesia. Editado pela Objetiva, o livro é uma preciosidade. Idealizado por João Cabral para uma neta querida e distante, ele ganhou ainda mais beleza com o projeto gráfico elegante de Mariana Newlands. Os versos de Cabral vêm de longe, do Senegal, de onde o poeta diplomata servia naqueles dias de 1975. Dandara, uma garotinha de dois anos, filha de sua Inez " nascida para dizer não", fez a mãe, segundo o poeta, reencontrar "um sim a que condicionou a vida".  Esse sim perpassa todos os versos que ilustram as fotografias de Dandara. A cada verso do livro a gente reencontra um poeta inspirado, se é que podemos usar este adjetivo com Cabral, dono de uma escrita poética que não faz pouco da vida. Cabral engrandece os sentimentos, as paixões e as possibilidades do ser humano com a beleza de seus versos. Talvez o que mais me encante nele - sem dúvida meu poeta preferido - é que ele nos faz lembrar que "o mundo não é uma folha/ de papel, receptiva:/ o mundo tem alma autônoma,/ é de alma inquieta e explosiva.", como ele mesmo define no poema Auto do Frade. Este novo encontro com o poeta me emocionou. Não esperava isso. Não sabia da existência do livro, não sabia de seu lançamento, quando dei de cara com ele em uma seção infantil de uma bela livraria, na porta de um cinema do Rio. Eu fazia hora, esperando meus filhos, quando comecei a ler os versos de Cabral para Dandara. Fiquei emocionada. Cheguei a chorar. Não sei bem dizer a razão de tanta emoção. Talvez tentar explicá-la aqui seja uma forma de perdê-la. Mas posso dizer que fiquei emocionada por reencontrar Cabral - que foi tão importante na minha formação - na carinha alegre/triste de Dandara. Emocionada por lembrar que Morte e vida severina foi um dos primeiros livros de poesia que minha mãe me deu e que Ilustrações para fotografias de Dandara, editada para um jovem leitor, será o primeiro livro de Cabral na estante dos meus filhos. Pela certeza de que ele tem muito a falar para os jovens de hoje, fecho este texto com mais uns versos do poeta para Dandara. " Tua mão tirando a pipoca/ do pacote que tua mãe te compra/ tem o mesmo gesto de quem/ dele tiraria uma bomba". Que nossos filhos possam viver com este ímpeto transformador presente na poesia de Cabral.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A magia da imaginação

Comprei o livro Obax, de André Neves, editado pela Brinque-Book, e fiquei muito impressionada com a beleza plástica de suas ilustrações. Sou fã do trabalho de André, o autor/ilustrador, mas Obax realmente me surpreendeu. Como um traço tão preciso, tão contido na perfeição, pode traduzir tanta emoção? Digo preciso e contido por não achar melhor adjetivo para o desenho de André. Tenho medo de falar que ele é racional e ofender o artista. Longe disso. Meu poeta preferido é o João Cabral de Melo Neto, conterrâneo do autor. A poesia de João Cabral, avessa ao sentimentalismo, é inspiradora pela beleza que produz. O desenho de André é assim. Avesso às facilidades da inspiração, mas rico de sentimento.Lamento não ter mais elementos para descrever a sensação que as ilustrações de Obax me causam. Uma bela história sobre a magia da imaginação, ambientada em um continente com muita coisa ainda a ser descoberta. Obax, como alerta o autor na última página do livro, não é um reconto de um conto africano. É fruto de sua curiosidade sobre a geografia e os costumes do Oeste Africano. Belo exercício de imaginação de André Neves que cria uma África à semelhança das histórias de Obax. Uma África que existe sem existir.
PS: Escrevi para o André Neves e ele me respondeu hoje (dia 16 de junho) assim. " Oi, Luciana, acabo de chegar de viagem, Além do Rio, fui para outra cidade no interior do Rio Grande do Sul. Estou muito feliz com resultado de Obax. Aprendi muito fazendo este livro e vou procurar exercitar esse aprendizado nos outros, em busca de uma qualidade total. Entendi todas suas palavras e sensações para o livro. E ter essa riqueza de sentimento de que você falou como resposta, já valeu a pena.Usei técnica mista para compor as imagens, isto é, vários materiais. Porém a tinta base é a acrílica. Pesquisei o Oeste Africano. Ainda existem aldeias assim, sabia? Onde as mulheres são responsáveis pela decoração das casa, pintando com tintas coloridas.A história é ficção, toda questão africana está na composição gráfica para o livro."