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quarta-feira, 17 de julho de 2019

A estética da vertigem em "Todo cuidado é pouco"

Compartilho, aqui, com vocês meu artigo A estética da vertigem como estratégia de subversão da ordem: um estudo de "Todo Cuidado é pouco", de Roger Mellopublicado na Revista Palimpsesto, do programa de pós-graduação em Letras da UERJ. Meu objetivo foi analisar o livro ilustrado na perspectiva da vertigem. A hipótese que trabalhei é a de que o autor se utiliza da forma da parlenda para criar uma ciranda em que os personagens se transformam à medida em que a narrativa avança, em versos rimados e ritmados. As ilustrações se comporiam, nessa perspectiva, por imagens fragmentadas e circulares, como a de um caleidoscópio, e a leitura dos versos produziria uma espécie de vertigem que libertaria o leitor do sentido estrito do texto, oferecendo-lhe uma experiência lúdica. A narrativa circular, como uma ciranda, é, segundo minha hipótese, não uma reafirmação da tradição dos jogos falados, mas a utilização deles para criar um ambiente de instabilidade que subverte o papel de cada personagem. Essa análise foi inicialmente apresentada como monografia final do curso Línguas do começo, ministrado pela professora doutora Rosana Kohl Bines, no Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade, da PUC-Rio (PPGLCC-PUC-Rio). Rosana é também minha orientadora de mestrado, a quem só tenho a agradecer pela generosidade e atenção de sempre.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Um convite para olharmos para quem nunca é olhado

Nos últimos dias, eu e o Pedro estamos lendo juntos Capitães da Areia, de Jorge Amado. O livro, que teve sua primeira edição em 1937 e suscitou a ira da elite baiana, que o queimou em praça pública, está fazendo o Pedro dormir mais tarde todos os dias à espera de mais e mais da turma de Pedro Bala. Ele luta até quando pode contra o sono, que teima em o levar para longe das areias de Salvador, e se emociona a cada nova aventura dos meninos desvalidos de quem Jorge Amado nos fala. Uma leitura que está fazendo o Pedro romper a invisibilidade que meninos pobres negros ou pardos sofrem neste país desde os primeiros dias da República. O mérito do livro não é nos fazer desculpar os crimes cometidos pelos Capitães da Areia. É nos fazer enxergar cada um desses pequenos delinquentes como um indivíduo dono de uma história, de uma carência, de uma dor e, por fim, de uma valentia exercida nem sempre para o bem. Mas quem fez o bem para aqueles meninos? Pois é, a literatura de Amado nos tira das sombras que faz com que os brancos sempre-no-comando classifiquem meninos pobres negros ou pardos com o mesmo rótulo: “marginais”. Ele apresenta um a um dos Capitães da Areia e, assim, nos faz pensar neles como pensamos em nossos filhos ou em nós mesmos. Eles são meninos, mas meninos abandonados pela família e rejeitados por todos, que não tiveram oportunidades, amor e acolhida. Meninos que, se tratados como meninos, podem ser como qualquer outra criança ou adolescente. Mas não são tratados como meninos. São tratados como bichos, como pessoas mal queridas e mal chegadas. Mas eles são meninos que sonham com uma família, com um deus bondoso, com comida, com o calor de uma boa cama, enfim, com uma vida que lhes é negada com a violência do desprezo de quem a tem. Este é o mérito do livro, colocar meninos pobres negros ou pardos em cima de um carrossel e fazê-los girar, girar e girar para permitir a eles um pouco do encantamento da infância a eles negada. Jorge Amado denuncia a invisibilidade que os pobres amargam neste país. Uma invisibilidade que só nos fica clara quando olhamos de perto, bem de perto para cada um deles. E foi neste exercício de olhar que o Pedro embarcou e está acompanhando com toda a sua emoção a história. “Mãe, este é o melhor livro que li na minha vida”, disse, fazendo a ressalva de que a história é muito tensa. “Imagina, fazer um manco correr e bater muito nele por que ele não consegue correr mais”, completou, referindo-se às torturas que o Sem-pernas sofreu no reformatório. O olhar que o Pedro está voltando para os meninos de Jorge Amado faz com que ele possa se colocar no lugar deles e, isso, o confunde. Como alguém piedoso como Pirulito pode enfiar uma faca no pescoço de um outro menino? Como Pedro Bala tão valente e amigo no comando do grupo pode as vezes ser tão cruel? Como meninos que tanto sofrem, fazem tantas pessoas sofrerem? Pois é, estas perguntas tiram o Pedro do lugar de conforto que ele vive. De menino amado, querido, acolhido, cuidado e provido e o fazem desejar uma solução para tanto sofrimento. É neste exercício de colocar-se no lugar do outro e de voltar a si depois dessa experiência que está a riqueza da literatura. Se não quero para mim, não quero para os outros. É neste diálogo com o outro que podemos construir nossa identidade e, em uma realidade de tantas conexões superficiais, encontros com o mundo dos Capitães da Areia são ainda mais ricos. Encontros como estes são capazes de mexer e remexer com a emoção de quem está do outro lado do mundo daqueles desvalidos das areias. Não importa se esses meninos foram criados há quase um século por um escritor que já nos deixou. O que importa é que os Capitães da Areia, infelizmente, ainda são nossos contemporâneos e Jorge Amado nos convida a olhar para eles. É justamente neste convite de olhar para quem nunca foi olhado que reside a contemporaneidade do livro escrito há quase um século, mas que se mantém jovem o suficiente para encantar um menino de 13 anos. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Enquanto Rui não cresce e toma juízo

 
Em uma coisa as crianças têm razão: mãe é uma figura chata. Está sempre reclamando, mandando o filho fazer o que não quer, chamando a atenção, enfim, educando. Mas eles, com a experiência que têm, é claro, não são capazes de perceber que toda aquela chatice, no fundo, no fundo, é para o bem deles. Então, vamos combinar que o que sobra é a chatice. E é isso que a mãe de Rui, protagonista de Enquanto isso, de Jules Feiffer, editado pela Companhia das Letrinhas, é: uma mala. A mãe interrompe, com seus gritos, os momentos de prazer do menino, irritando-o, até que um dia, tem uma brilhante ideia: imitar as histórias em quadrinhos e dar um corte temporal na narrativa para livrar-se dela. Enquanto a mãe grita, ele transporta-se para aventuras radicais e, para salvar-se desses novos perigos, usa novamente o recurso do "enquanto isso" aprendido nas tirinhas. Feiffer joga esse jogo como um craque - ele é um reconhecido quadrinista americano - e nos dá, assim, a oportunidade de curtir muitas maluquices, enquanto Rui não cresce e toma juízo. As aventuras narradas por Feiffer bem que poderiam ter saído da cabeça de um dos meus filhos, que ouviram atentos à história, para as redações da escola. Os personagens que cruzam com Rui são os tops do imaginário infantil: piratas, tubarões e outras feras que fazem Rui correr de uma história para outra, até aterrizar novamente em seu quarto para enfrentar a maior delas: sua mãe. Um livro bacana que nos faz lembrar que as melhores histórias para crianças são aquelas escritas por quem não se esqueceu de como era ser criança. Assim, Feiffer cria um Rui cheio de moral, mesmo que, do ponto de vista das mães, ele não tenha qualquer razão.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A ira também ataca os poetas

A poesia foi a porta que me levou à literatura. Ela se abriu para mim nas aulas de Literatura, na escola, que, na minha época, mais afastavam da leitura do que aproximavam. Para minha sorte, esbarrei com Castro Alves, que me pegou pela mão e me convidou para a leitura. Como amei o estilo romântico e engajado do poeta baiano! Amei ainda mais a descoberta de que a língua poderia me apresentar tantas surpresas. Depois de Castro Alves vieram outros poetas, sempre brasileiros, que aprendi a amar. João Cabral de Melo Neto foi a maior de todas minhas surpresas. Uma poesia dura como a pedra, que soava estranha, mas falava direto para mim. Nem toda a poesia me agrada, nem todo o poeta é meu par, mas quando este encontro se dá, é o melhor, o mais forte. Por isso, minha felicidade em ver o prazer do Antônio explorando os poemas de A arca de Noé, do maravilhoso Vinícius de Moraes, editados pela Companhia das Letrinhas e ilustrado por Laurabeatriz. Mais de uma vez pegamos o livro e lemos os 32 poemas. Digo lemos, porque o Antônio leu alguns ou releu outros, com uma animação tão grande que contagiou o Pedro, na cama ao lado, fazendo ele se juntar a nós. É claro que temos alguns preferidos, na maior parte das vezes, os que exploram o humor, como O vento, O pato e a A casa. É lógico também que há um lugar especial para O leão e sua fúria poética, assim como para As borboletas, descobertas pelo Antônio em seu caderno de poesias preparado pela escola. Uma descoberta que levou a outra, desta vez, dada por uma amiga querida, Maria de Moraes, que herdou do pai o gosto pela palavra, em um depoimento sobre as agruras do poeta ao tentar escrever um poema para a borboleta amarela. Uma história deliciosa que encantou o Antônio e o fez saber que a ira também ataca os poetas. Vale conhecer o texto da Maria, que reproduzo a seguir. Como diz a pulga, de Vinícius, "Tchau/ Good bye/ Auf Wiedersehen".

“As pessoas adoram e pedem mais e mais histórias; então, lá vai uma bonitinha, de família, que minha amada mãe, Christina Gurjão, me contava sempre rindo. Papai queria porque queria fazer um poema para a Borboleta Amarela. Sentado na cadeira, em frente a sua escrivaninha, máquina de escrever, tec, tec, tec, não gostava, tirava o papel da máquina e amassava o papel em bolinha, jogado no chão, insatisfeito, na busca da poesia. Tarde da noite, mamãe fora dormir, sem ainda ele ter saído da cadeira, tec, tec, tec, silêncio, barulho de papel amassado. Deu-lhe um beijo e, ainda na cama, antes de ferrar no sono, os mesmos barulhinhos, tec, tec, tec, e de papel amassado. Diz que despertou, o dia amanhecendo, com papai indo dormir. Ainda ficou um tempo na cama, mas logo se levantou, já curiosa para ver que poema lindo haveria saído depois de tanto tec, tec, tec. Na sala, um mar de bolinhas amassadas, muitas no chão, e, na máquina de escrever, um papel, que ela foi ler, com o título A Borboleta Amarela, e abaixo escrito: A Borboleta Amarela – Merda pra ela!”

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma bela história, sem título e com muitas possibilidades

Tem um bom tempo que não passo por aqui. Um tempo de férias, que me serviu para descansar e reorganizar a vida. Um tempo também de ausência. Mas uma ausência vivida com a tranquilidade dada pela certeza de que eu sempre posso voltar. Este sofá é um lugar de afeto que construí na vida e que está sempre arrumadinho para mim e minhas histórias. É tão bom saber disso, tanto que estou aqui novamente, buscando seu aconchego. Um aconchego que não me cobra nada. Aqui não preciso ter certezas e posso me alimentar apenas de possibilidades, assim como Hervé Tullet fez com o seu Sem título, editado pela Companhia das Letrinhas. Pelo título ou ausência dele já é possível perceber que o francês não criou um livro comum. Ele nos propôs um livro aberto, em que o leitor é sujeito da narrativa e ele, autor, é surpreendido pelo olhar de cobrança de quem esperava uma história tradicional. Hervé não cede e nos dá apenas os personagens, premidos a se apresentar pela urgência do leitor, e muitas lacunas. Na falta do autor, a história vira uma grande confusão e os personagens vão se virando como podem para dar um significado ao caos. E nós, leitores, temos que encontrar um lugar nesta bagunça. Nada confortável para um pequeno leitor, sei disso. O Antônio reagiu logo, querendo deixar o livro de lado. Eu insisti certa de que a confusão e a insegurança não são confortáveis para ninguém, mas que nela podemos enxergar grandes possibilidades e construir belas histórias. Diante de minha insistência, o Antônio foi cedendo, se abrindo para esta nova possibilidade e interagindo com o livro. Uma interação que Hervé garante sem qualquer artifício. O livro não tem dobraduras, texturas ou sons, tem apenas provocação. A interação de Hervé com o pequeno leitor se dá pela imaginação. O Antônio, depois de ganho pela brincadeira, leu o livro várias vezes e conversou com os personagens, reclamou das soluções dadas por eles, cobrou mais histórias, enfim exerceu ativamente o seu papel de leitor. Um leitor exigente que soube, mesmo no caos, tirar prazer do diálogo travado com o livro. Uma bela história, sem título, com muitas possibilidades e a promessa de que, se quisermos, podemos construir um final feliz.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma história para ler, brincar, experimentar e existir

A capa de Dia de pinguim, do autor e ilustrador ucraniano Valeri Gorbachev, é apenas um tira-gosto da delícia que nos espera no interior do livro, editado pela Companhia das Letrinhas. Delicadeza, lirismo e fantasia é o que nos dá Valeri com seu Tartaruguinha, protagonista da história, que se diverte experimentando novas possibilidades de existência. Mesmo que esta experimentação se dê apenas na fantasia, como em uma brincadeira. Tartaruguinha, que cisma ser um pinguim, é, na verdade, uma de nossas crianças travestida pelo recurso do antropomorfismo em um filhote de tartaruga. Aliás, o antropomorfismo que busca nos traços e características animais semelhanças com seres humanos é um recurso comum na obra de Valeri, que tem mais de 40 livros publicados, e mais ainda na história da literatura infantil. Não há como negar que um belo desenho de um animal vestido como gente nos invade de ternura, por mais que saibamos da nova tendência das ilustrações de bichos que fazem as vezes de homens, mulheres e crianças é apresentá-los em sua própria pele, apesar de eles continuarem agindo com a moral dos humanos. A ternura dos desenhos de Valeri está a serviço do elogio à imaginação e à fantasia que podem ser despertadas por uma boa história. Em Dia de Pinguim, o Tartaruguinha fica encantado com uma história de pinguins que seu pai lhe conta e resolve ser um deles, assim como o meu Antônio no processo de identificação com seus amigos quis até mudar de nome. Experimentar, isso que o personagem de Valeri e o meu filho quiseram com suas brincadeiras. Tartaruguinha ganhou toda a sua turma para sua brincadeira, já o Antônio arrumou a maior confusão ao decidir que se chamaria Lucas, assim como um de seus melhores amigos. Seus colegas embarcaram como puderam em sua fantasia e passaram a chamá-lo de Lucas Antônio, o que o desagradou sobremaneira. Teve choro, vela e muita reclamação até ele entender que é melhor vivermos sozinhos algumas fantasias para evitar o risco de confundir quem está de fora de nossa viagem. Já o Tartaruguinho, com a ajuda do livro de seu pai, conseguiu levar todos os seus amigos para sua viagem. Os amigos e os leitores de Valeri. Acho que vou sonhar que sou uma tartaruguinha. E você?

terça-feira, 15 de maio de 2012

Assim é se lhe parece!

A verdadeira história dos três porquinhos, da dupla de autor e ilustrador Jon Scieszka e Lane Smith, chegou aqui em casa pelas mãos do Antônio, que, sendo o primeiro na chamada, teve o privilégio de abrir a escolha dos livros da ciranda. Tem lobo, porquinhos... é esse mesmo! Escolheu sem qualquer sombra de dúvidas e chegou em casa todo orgulhoso, com  o livro editado pela Companhia das Letrinhas. Eu já o conhecia, mas confesso implicava com ele, como com quase todos que tornam-se campeões de venda. Mas neste caso, se ele virou um best-seller, virou por seus méritos e não deméritos. A verdadeira história dos três porquinhos, lançado em 1989, é o primeiro livro da dupla de autor e ilustrador e, com certeza, um dos primeiros a desconstruir um conto de fadas. Mas Scieszka, um renomado autor para crianças, faz isso com o maior talento, o que livra a narrativa de ser mais uma história politicamente correta ou desmistificadora dos contos tradicionais, tão em voga nos últimos anos. Pelo contrário, o livro reforça o caráter maravilhoso das histórias tradicionais ao criar dúvidas sobre o papel do lobo na morte dos porquinhos, da casa de palha e de madeira, e na tentativa de invasão da casa de tijolos. O formato depoimento, proposto pelo autor, é a grande sacada. que dá uma dimensão maior à história contada pelo lobo mau. Ele pode estar falando a verdade ou não. Suas críticas aos meios de comunicação, que, segundo ele, o endemonizaram, podem ser justas ou apenas uma estratégia de sua defesa para livrá-lo da culpa. Pois é, guardando as devidas proporções. a história me lembrou livros reportagens produzidos por jornalistas americanos, com entrevistas de condenados por crimes de grande repercussão. Ao fecharmos o livro de Scieszka, fica a dúvida se o lobo é mais um psicopata ardiloso ou uma vítima de coincidências infelizes, exploradas com sensacionalismo pela mídia. Tudo isso com a sutileza que uma narrativa desta natureza exige, para que a história não resvale no didatismo. Bom ou mau, mais uma vez uma bela história de lobo!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Uma nova chance para a história do Brasil

O Pedro está estudando na escola a colonização brasileira e, em decorrência disso, as violências cometidas pelo português contra os índios nativos e os negros africanos. Seu primeiro espanto com este mundo, perdido no passado, foi saber que havia mais de cinco milhões de indígenas em terras brasileiras, quando o português-branco-colonizador por aqui chegou, e que hoje, o resultado do extermínio desses povos é termos apenas 300 mil índios entre os brasileiros. Ele ficou chocado também com a violência da escravidão negra, que trouxe para nossas terras cerca de quatro milhões de negros da África para sofrer, aqui, como escravos. A luta desses povos pela liberdade o impressionou. Índios guerreando contra portugueses e morrendo de tristeza e em decorrência de doenças dos brancos e negros cometendo o suicídio, matando seus senhores, queimando lavouras e fugindo. A história do Quilombo de Palmares e seu líder guerreiro, Zumbi, prendeu sua atenção e o fez entender um pouco a luta do dominado diante da força do dominador. O fez entender também a razão de a Constituição brasileira reconhecer que a terra é um direito ancestral dos indígenas e que, portanto, o Governo deve garanti-la em forma de reservas. Entendeu também o porquê deste direito ter sido estendido aos remanescentes dos quilombos, como forma de reparação ao  sofrimento imposto aos antepassados dos atuais quilombolas. Por fim, espantou-se que, em pleno século XXI, índios e negros ainda possam ser tungados pelos brancos, ao saber que uma maioria conservadora admitiu, quarta-feira, na Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados, proposta de emenda constitucional que tira do Executivo a prerrogativa de criar reservas indígenas e ambientais e reconhecer o direito dos quilombolas à terra. A PEC 215/2000 determina que  o Congresso Nacional avalize os atos do Executivo de demarcação de terras para fins de reservas indígenas ou ambientais ou de reconhecimento de quilombos. Isso quer dizer, na prática, que a PEC 125, apoiada com fervor pela bancada ruralista, maioria no Congresso, retira de índios e negros direitos garantidos depois de muito sofrimento e luta. Estes senhores de terras, sempre ávidos por aumentar suas fronteiras agrícolas, estão negando a nós, brancos, negros, indígenas e mestiços brasileiros, a esperança de avançarmos, cada vez mais, para um país em que natureza e diversidade cultural sejam um bem de todos. Esta é a lição que Leonardo Boff nos dá no belíssimo livro O casamento entre o céu e a terra, editado pela Salamandra, que nos serve com um pequeno painel da riqueza da cultura indígena no Brasil e do desrespeito com que foi tratada pelo branco-português-colonizador. Sobre os negros, temos A história dos escravos, de Isabel Lustosa, pela Companhia das Letrinhas, para apresentar a nossos filhos. No mais, só espero que nós, brasileiros do século XXI, possamos enfim mudar esta história de expropriação e exploração! O primeiro passo é pressionarmos o Congresso Nacional a derrotar em plenário esta maldita PEC 215 e, assim, darmos uma nova chance à história do Brasil.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Umas lavadeiras pra lá de fuzarqueiras

As lavadeiras fuzarqueiras, de John Yeoman, ilustrado por Quentin Blake, é um daqueles livros que merecem uma especial atenção. A história das sete lavadeiras que trabalhavam para o senhor Baltazar Durão é tão bacana que até me perguntei se não era um daqueles contos populares, que, com imaginação e humor, registram nossa história e nos permitem refletir sobre os conflitos do ser humano. Mas acho que não. Pelo menos não há qualquer referência, na edição da Companhia das Letrinhas, de que a história seja colhida da tradição oral. Não importa. O que a torna tão especial é a forma leve, engraçada e claríssima com que os dois ingleses, autor e ilustrador, contam para crianças a história de um grupo de lavadeiras que, depois de anos de exploração, resolve se rebelar contra seu patrão e seguir rumo à liberdade. Liberdade para fazer uma fuzarca ou para escolher seus pares. Os desenhos a bico de pena e aquarela de Quentin Blake ajudam a dar o tom de registro à narrativa ao desenvolver com humor e movimento as aventuras das fuzarqueiras, com destaque para a figura franzina e emproada do senhor Durão. Sua figura não deixa dúvidas de que ele, além de sovina, é um explorador. A narrativa de John Yeoman, dessa forma, é construída em parceria com a ilustração de Quentin Blake - um dos mais importantes ilustradores da atualidade - e não nos deixa outra alternativa a não ser esconjurar o senhor Durão e torcer pelas lavadeiras, que, livres das pilhas de roupas, podem seguir "felizes, lenhando e aproveitando a vida a valer".  Eu e o Pedro adoramos o livro e aproveitamos para falar um pouco sobre o velho e feio hábito que os homens têm de explorar seus semelhantes. Mesmo que essa exploração tenha deixado de lado o fraque e a cartola do senhor Durão e se travestido com as roupas sutis e sofisticadas da modernidade. As lavadeiras não nos deixam esquecer que, com certeza, a história não acabou.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os meninos e seus amados e temidos cachorros

Vamos combinar que cachorros são o grande barato de nove entre dez crianças. Essa uma que não gosta deles, com certeza, é aquela mesma que tem medo de cães. Todo mundo gosta de um cãozinho, mesmo que não os queira. Pois assim é aqui em casa. Eu amo os setters, tanto o inglês, quanto o irlandês; o Cadoca faz parte daquele grupo que adora o cachorro dos outros e que esse outro, de preferência, não seja o vizinho; o Pedro ávido para ter um, gosta de qualquer um; e o Antônio, com seus quatro aninhos, prefere os pequenos que não o assustam. Mas há quem, como Leonardo, personagem de Wolf Erlbruch, queira ser um. As razões podem ser várias. Mas a de Leonardo é a mais legítima. Nada melhor do que ser um cão para não ter mais medo deles. Será? É disso que Erlbruch, esse escritor/ilustrador alemão telentosíssimo e super premiado, fala em Leonardo, que no Brasil foi editado pela Companhia das Letrinhas. O livro veio parar aqui em casa há quatro anos por meio da ciranda de livros da sala do Pedro. Veio, foi lido e adorado e voltou para a escola. Agora, com o medo que o Antônio tem de cachorros grandes, resolvi procurá-lo para uma nova leitura. Foi um sucesso! O Pedro adorou, o Antônio ouviu super atento e nos divertimos um bocado especulando sobre quem ia se transformar em cachorro. Será que você toparia?

sábado, 6 de agosto de 2011

Para gostar de ler poesia

Eu era ainda uma adolescente quando conheci Castro Alves e a grandeza de sua poesia romântica que falava de um povo a ser liberto e um mundo a ser construído. Me apaixonei por essa verve tão intensa, apesar de ter nascido quase 100 anos após sua morte precoce por tuberculose. Depois dele veio João Cabral de Melo Neto, com seu auto Morte e Vida Severina. A maioria deles me chegou pela escola ou pelas mãos de minha mãe, que sabia que eu estava me encantando pela poesia. Na minha casa esse era um gênero inexistente. Minha mãe sempre foi uma leitora voraz, mas poesia nunca fez parte de seu cardápio. A poesia me ligava à minha bisavó, Maria da Silveira, que tinha vivido os saraus do início do século XX. Ela gostava de saber que eu me encantava pelos poetas, o que fez sua filha, minha avó, após sua morte, me dar alguns de seus livros de poesia, entre eles Estrela da Vida Inteira, de Manoel Bandeira. Esse gosto, no entanto, nunca cruzou mares. Sempre fiquei entre os poetas brasileiros. Minha ousadia maior foi Fernando Pessoa. Conheço muito pouco mesmo da poesia americana ou europeia. O pouco que li, não me seduziu. Aí me pergunto se o problema é eu ler poesia traduzida. A tradução, desconfio, faz muito da beleza pretendida pelo poeta desaparecer. Mas reconheço que, apesar disso, tem muita coisa boa a ser lida nas prateleiras das livrarias. Por isso, não titubeei em comprar Ri melhor quem ri primeiro (Poemas para crianças e adultos inteligente), de José Paulo Paes, pela Companhia das Letrinhas. O livro traz uma seleta de poemas escolhidos e traduzidos por Paes para ser apresentada para leitores jovens ou inexperientes na poesia em língua não portuguesa, como eu. O poeta, ensaísta e tradutor dedicou parte de seus últimos anos escrevendo para crianças e divulgando a obra  de seus pares para este público normalmente tão esquecido pelos literatos. Paes, neste livro,  um de seus últimos projetos, reúne 31 poemas de origens linguísticas e temporais diferentes que servem como um resumido cenário da riqueza que o gênero pode ter. "A senhora esperava o ônibus./ O senhor esperava o ônibus./ Passa um cachorro preto que manca./ A senhora fica olhando o cachorro./ O senhor fica olhando o cachorro./ Nesse meio tempo o ônibus passou.", do surrealista francês Raymond Queneau, é um bom exemplo do que Paes traz para adultos e crianças que estejam dispostos a embarcar nessa viagem. Mas como diz Queneau, é preciso fazer sinal para o motorista. Paes já fez para nós, só nos resta topar a brincadeira.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A tradição na literatura de Ana Maria Machado

Há muito tempo estou para falar aqui das narrativas da tradição oral que ganharam registros de diversos autores. Contos de fadas, fábulas, aventuras fantásticas do tempo que os animais falavam, histórias de nossa floresta, enfim, as narrativas que passam de geração em geração e ganham um ponto a cada nova versão e encantam a todos nós, adultos ou crianças. Muitas vezes essas narrativas são vistas como literatura menor e desprezadas na hora de se escolher um livro. Mas, vamos combinar, não há coisa melhor do que ouvir uma bela história de macaco ou de onça; de leão e ratinho; de jacaré; e de bruxas, princesas e seres fantásticos. Por isso, toda vez que posso compro um novo exemplar de histórias tradicionais. Mais legal ainda é que estas histórias ganham roupa nova dependendo do autor que as conte. Ana Maria Machado nos presenteou com várias delas na coleção Histórias à Brasileira, editada pela Companhia das Letrinhas e delicadamente ilustradas por Odilon Moraes. Ela nos apresenta um cardápio variado de histórias nos quatro volumes da coleção que vão desde as do folclore caboclo até as de tradição européia. Eu e o Pedro não nos cansamos de ler e o Antônio começa a ser iniciado. O primeiro volume então, o preferido do meu filho mais velho, nos fez companhia em várias noites em que lemos com prazer as histórias O veado e a onça e Bicho folhagem. Eu adoro outras, como Dona Baratinha, A Festa no Céu e o Boneco de Piche, algumas das histórias que entraram na minha vida pelos disquinhos coloridos de Braguinha. Nada melhor do que os sapinhos da Festa no Céu cantando "Quatro com quatro, quatro, com mais quatro, quatro" e o mestre sapo corrigindo: "Tá errado!". A prosa de Ana Maria e o respeito que ela tem por estas histórias, na maioria recolhidas por Câmara Cascudo de nossa tradição oral, já valem os livros que, por todas estas qualidades, ganharam o selo de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. "Que as crianças de hoje descubram o fascínio de voltar muitas e muitas vezes a estas histórias incomparáveis, fruto da sabedoria popular acumulada em geração de narradores anônimos que coletivamente foram criando esse fastástico patrimônio que nos coube de herança e não tem preço", diz a premiada autora, dona da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras devido à sua dedicação à literatura infantil e juvenil. Que nos venham outras.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para vencer os medos e angústias do mundo real

A noite de ontem foi longa aqui em casa. Depois que o Antônio dormiu, vencido pelo sono e aninhado em seu travesseiro, o Pedro me pediu para ler Ozzy, o quadrinho maravilhoso do Angeli, publicado na Folhinha, da Folha de São, que ganhou quatro títulos da Companhia das Letrinhas. O Ozzy foi uma escolha do próprio Pedro que o catou na biblioteca da escola e o trouxe feliz da vida para casa. Realmente é um personagem cativante, que retrata com humor os meninos de sua idade, e que fez o meu exclamar maravilhado que eles eram igualzinhos. O humor de Angeli, no entanto, não foi capaz de fazer o Pedro relaxar para dormir. Assim que apaguei a luz, ele falou que estava com medo do que poderia sonhar. Me contou que sonha muito com tubarões o atacando, que não consegue se defender dos perigos de seus terríveis sonhos e que não tem medo quando está acordado. Eu falei de meus sonhos de criança, em que ondas enormes me ameaçavam, explicando que estes perigos muitas vezes representam nossos medos e impotências. "Quando entendi isso, nunca mais sonhei com as ondas", expliquei. Mas não bastou. O medo dele era muito mais concreto. Na verdade, estava angustiado com a descoberta de que há muita maldade no mundo. A primeira delas foi um vídeo em inglês achado na internet sobre a notícia da prisão de um pedófilo que se travestia de Justin Bieber para atrair suas vítimas. "Mãe me leva ao médico para ele tirar isso da minha cabeça", pediu angustiado, sem entender direito a notícia. A outra foi a crueldade do massacre na Escola Municipal Tasso de Oliveira, em Realengo, que chocou a todos nós. Ele soube da tragédia sem muitos detalhes, por um colega da escola, que assistia a um programa de esportes quando foi surpreendido por notícias da barbárie. "O que você soube disso, Pedro?", perguntei para um menino, que estava até nauseado de tanto medo e angústia. "Quase nada, mãe. Não me lembro nem mais do nome dele", falou. Mas, em sua angústia, deixou transparecer que sabia muito mais do que poderia suportar. Sabia que Wellington havia estudado na escola que invadira armado, que matara vários alunos e que se suicidara. "Como alguém pode entrar armado em uma escola?", indagou. Eu, diante de tantas perguntas e angústia, me perguntei como falar de tanta dor, maldade e loucura para uma criança de apenas nove anos. Me perguntei ainda como podia proteger meus filhos de tanta informação, que vem de tantos lados, sem qualquer filtro ou limite ético para salvaguardar nossas crianças. Não podia subestimar a inteligência dele e negar o que era óbvio, mas também não queria aumentar ainda mais sua perplexidade diante da descoberta de que a vida pode ser cruel. Só podia dar colo para meu filho, que chorava toda a sua tristeza e me falava sem parar de seus medos. A medida que ele foi se acalmando, pediu que eu não o deixasse aquela noite e que lesse para ele mais uma história. "Mãe, sabe por que eu gosto que você leia histórias para mim? Primeiro porque tenho preguiça de ler, segundo porque ouvindo histórias imagino um mundo só meu. Um mundo que ninguém pode mudar". E foi ouvindo mais uma história que o Pedro driblou seus medos e recobrou as rédeas de sua vida, podendo dormir tranquilo para mais um dia. Que os livros possam sempre lhe dar alento!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os caminhos da literatura

“2010 foi nosso ano leitor.” Estas palavras vindas de meu filho de nove anos me espantaram pela formalidade. Mas no conteúdo ele tem razão. 2010 foi o ano em que nos aventuramos por histórias de maior fôlego e criamos o hábito de ler em capítulos. Digo aventuramos e criamos por a literatura ser ainda uma experiência compartilhada na vida do Pedro. Literatura, vale ressaltar, e não leitura. Meu filho foi alfabetizado, como a maioria dos garotos, aos seis anos. Aos sete, também como a maioria, ainda lia com bastante esforço. Aos oito, sua leitura era cada vez mais fácil, mas ainda insuficiente para grandes voos literários. Mesmo hoje, com seus nove anos recém-completos, a literatura ainda é, com certeza, um caminho de inseguranças a ser percorrido. Talvez por isso, talvez pelo desejo de compartilhar estes momentos com ele, que eu ainda leia para meu filho. O Pedro é grande, eu sei. Mas sei também que minha voz, minha ternura e minha ajuda nos caminhos tortuosos das narrativas são essenciais para que ele tenha o que há de melhor na literatura - a fantasia. É ela quem lhe dá a liberdade de, ao fim da maravilhosa trilogia de Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren, editada pela Companhia das Letrinhas e ilustrada por Michael Chesworth, deitar-se com os pés no travesseiro, como a menina criada na Suécia da década de 1940, e sentenciar: “A Pippi tem razão. Assim é muito melhor”. Em seu rostinho emoldurado por cabelos encaracolados, o mesmo ar sonhador com que a menina de sardas e tranças ruivas se despede de seu leitor.  Proporcionar esta delícia a uma criança é o que há de melhor em contar histórias. Por isso, não tenho pressa em fazer com que ele leia sozinho. Sonho com o dia que o Pedro possa construir suas próprias pontes por onde a narrativa vai correr de encontro a sua emoção. Enquanto isso, vamos eu e ele trilhando os caminhos da literatura. Digo sem vergonha que, neste momento, meu orgulho não está em ver meu filho cumprir rapidamente suas fases, mas vê-lo amadurecer aos poucos como leitor, com a segurança e paciência que um dia serão essenciais para que ele possa vencer sozinho os desafios da literatura. Literatura se frui com esforço. Por enquanto, que o Pedro receba em uma bandeja de prata o prazer de uma boa história. Para mostrar que há muito prazer neste momento de esforço é que existem as mães e os mediadores de leitura. Que eu possa também cumprir este papel com o Antônio, meu caçula, que com seus quase quatro anos ainda está longe de ter seu ano leitor.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mais uma vez, outra vez....

Há muitos prazerem em contar uma história para uma criança. Um deles, com certeza, é acompanhar o pequeno leitor/ouvinte no desvendar da narrativa. Este desvendar, vejo com meus filhos, é muitas vezes lento e cumprido em várias etapas. A criança pede a mesma história várias vezes, ouve a mesma coisa à exaustão de quem lê, mas em cada uma dessas vezes descobre um novo significado naquela narrativa. Só isso explica como pode uma criança, como, por exemplo, meus filhos, cada um a sua época, aguentar ouvir todos os dias Os três porquinhos sem se cansar. O Pedro cresceu, fez nove anos, já é capaz de perceber com clareza os desafios que uma narrativa lhe propõe, mas ainda ouve histórias contadas pela mãe. Assim foi com Perde quem fica zangado primeiro, um reconto de Italo Calvino para a história do embate de um camponês com um ganancioso padre, colhida na tradição popular italiana. Eu conheci o livro, editado pela Companhia das Letrinhas, nas mãos da Sônia Monnerat, minha professora na UFF, e vi logo que ele tinha tudo para encantar o Pedro. A narrativa de Calvino tem tudo que uma história precisa para cativar uma criança: uma boa dose de fantasia e de humor. Estes atrativos, no entanto, não tornam a história fácil. A narrativa de Calvino não tem nada de simplória, como a origem popular do conto poderia supor, e o enredo propõe tramas engenhosas para os duelos do camponês com o padre. Para acompanhá-la é preciso prestar uma bruta atenção para, ao fim, perceber que Perde quem fica zangado primeiro é, na verdade, ganha quem for mais paciente e inteligente. Foi isso que encantou o Pedro. Mas esta percepção, a princípio, foi apenas uma intuição. Ele recorreu a mim e às ilustrações de Susanne Janssen, reproduzidas da edição alemã, para entender as sutilezas da narrativa e traduzir os regionalismos de uma Itália agrária. Estas descobertas, no entanto, foram um prazer enorme para ele. Há muito não o via vibrar tanto com uma leitura, como com este livro que ele me fez ler três noites seguidas. Que Calvino nos conte outra!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quem é o lobo?

Nada é mais difícil para uma mãe de dois filhos do que encontrar o equilíbrio em meio a uma briga entre irmãos. Quando a gente chega na cena da briga é sempre a mesma coisa. Uma das crianças, senão as duas, está chorando e apontando o dedo para a outra e dizendo: "Foi ele quem começou". O que tento, sempre, é ignorar a exegese da briga e tentar fazer com o que os dois parem de se chutar, socar, puxar os cabelos ou até coisas piores, como cuspir um no outro. "Não quero saber quem começou, vamos parar agora", grito. Ou então, diante do choro intenso do Antônio e da queixa do Pedro de que o irmão pequeno começou a bater nele sem mais nem menos, faço um discurso de que as coisas não se resolvem na porrada. Minhas palavras entram em um ouvido e saem pelo outro. Mas ao fim da confusão, os dois, como quaisquer irmãos, voltam a ser os melhores amigos um do outro. Faz parte, é claro. Mas há sempre um que sai vitimizado dessa história, que todos conhecemos ou vivemos. O Antônio, ao que me parece, se coloca nesta posição. Todas as vezes que leio um livro de um menino sendo atormentado por um monstro ou um lobo, sua maior fixação, o Antônio diz ser a vítima e o Pedro o algoz. Mas decide estes papéis sem nenhuma angústia. Ele se vê cair na boca do monstro/lobo/ Pedro sem resistência ou medo. Assim foi durante a leitura de Olha o Lobo, de Tony Ross, editado pela Companhia das Letrinhas, em que ele decidiu, sem dúvidas, ser o menino e o Pedro, o lobo. Nada melhor do que esta história para representar a real relação dos dois. Inúmeras vezes gritos do Antônio me fazem interromper meu trabalho e levantar-me da cadeira para ir ver o que está acontecendo no quarto deles. Ao chegar lá, invariavelmente, o Antônio está chorando e acusando o Pedro de ter batido nele, o esganado, o sacaneado, etc e tal. Algumas vezes, a coisa está realmente acontecendo e outras tantas os gritos são sem razão. Nessas horas, sou dura com o Antônio e o alerto da desonestidade de acusar o outro sem razão e da possibilidade de um dia eu não acreditar em seus gritos de socorro e não o acudir, como aconteceu com o menino da história de Tony Ross. A minha sorte é que aqui em casa o lobo – seja ele quem for - não come ninguém.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Toda criança quer ser Píppi

Píppi Meia Longa é a mais nova paixão do Pedro. Ele adorou a história da menina que vive sem pai, nem mãe em companhia de um cavalo e de macaquinho em uma casa que leva o estranho nome de Vila Vilekula. Píppi é o desejo de toda criança. Ela é destemida, forte, engraçada, inteligente e, o que é melhor, dona de seu nariz. Píppi faz o que quer.  E o querer de Píppi é o querer de qualquer criança. Esta independência, aliada à total falta de noção de Píppi, garantem passagens hilariantes à história criada há 65 anos pela escritora sueca Astrid Lindgren, como um presente para a sua filha, então com 10 anos. A beleza do livro, no entanto, não está apenas no humor e na liberdade de uma menina que chocou a sociedade sueca em seu lançamento. Ele traz uma menina de verdade, que muitas vezes, diante do espanto do mundo dos adultos com seu seu comportamento, revela suas fragilidades. A força de Píppi está justamente em driblar suas fraquezas. A maior delas, com certeza, é a falta que o pai e a mãe lhe fazem. "Se você tem uma mãe que é um anjo e um pai que é o rei dos canibais, e se você passou a vida inteira navegando mar afora, acaba não sabendo direito como se comportar na escola, no meio de tanta maçã e de tanta iguana...", diz Píppi a uma irritada professora com a total inadaptação da menina à escola, uma das instituições mais repressoras da sociedade moderna. Tudo isso é dito sem pieguismo e contribui para a certeza que o leitor vai construindo ao longo da história de que Píppi é uma menina especial. Especial por lidar com suas inseguranças com o poder da imaginação. Imaginação que pode criar um menino chinês, chamado Pedro, isso mesmo, Pedro, que morre de fome por negar-se a comer de maio a outubro; ou uma empregada maravilhosa que, apesar disso, tem todos os defeitos que as mulheres conseguem encontrar em suas serviçais. Com todas estas qualidades, Píppi nasceu para fazer a felicidade de crianças e de adultos, que ainda sonham com as delícias de um pão com manteiga recheado de açucar, e tornar sua criadora uma revolucionária escritora de livros infanto-juvenis. Astrid, que até então era uma jornalista, tornou-se com Píppi uma autora de muito sucesso, que produziu em seus 94 anos de vida mais de 80 livros publicados. Depois de sua morte, o Governo Sueco criou o Prêmio Astrid Lindgren para a literatura para jovens e crianças. É o mais valioso prêmio existente no mundo para a LIJ, que a nossa Ligya Bojunga recebeu em sua segunda edição. Pena que, no Brasil, Astrid e Píppi sejam quase desconhecidas. Eu, por exemplo, soube da existência delas pela mãe da Marie, uma coleguinha do Pedro, que é belga e tem Píppi entre suas memórias de infância. Por aqui, apenas a trilogia de Píppi e Os irmãos coração de leão ganharam traduções, todas pela Companhia das Letrinhas. Mas eu e o Pedro, que, como todo mundo, adoramos Píppi, já estamos nos preparando para ler Píppi à bordo e de Píppi nos mares do sul.

domingo, 6 de junho de 2010

Cadê o patinho que estava aqui?

Dez patinhos, de Graça Lima, editado pela Companhia das Letrinhas, é um livro que vale a pena. O Antônio, que ainda se embola para contar até 10, se diverte com a história da caminhada dos 10 patinhos. A primeira coisa que ele quis ver ao abrir o livro é onde estava a mãe dos patinhos. Achou apenas na página de rosto, onde a autora desenhou pequenos patinhos com sua mãe sobre a dedicatória para os verdadeiros 10 patinhos. Depois sua diversão foi dar seu nome e do irmão a um dos patinhos. É difícil passar a página com ele, a cada uma delas, se procurando entre os patinhos. "Esse é o Antônio". Feito isso, página virada, a gente se deleita com a criatividade de Graça no tangolomango que marca sua estreia como autora de texto e imagem. Ela cria belas ilustrações para narrar a aventura de 10 patinhos em uma caminhada em que a cada página um vai ficando para trás, até finalmente achar a mamãe pata. A capa já é uma mostra do que vai acontecer lá dentro. Aparecem só nove patinhos. O décimo está voando na falsa guarda do livro, onde ele aparece sozinho. Na contra-capa, grudado por dentro, tem uma surpresa para a criançada. Um jogo de tabuleiro em que os patinhos têm que vencer vários obstáculos para disputar com seus irmãozinhos quem vai chegar primeiro.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pelo direito de contar cascata

Assim que ouvi a história Balela (Igor Q.), de Jon Scieszka, editada pela Companhia das Letrinhas, tive a certeza de que o livro ia fazer sucesso com o Pedro. Nenhum mérito para mim, já que é uma delícia a história de Scieszka, ilustrada por Lane Smith. Os dois já fizeram outra parceria de sucesso, com o livro A verdadeira história dos três porquinhos, e acertaram em cheio com Igor Q. Balela, um menino extra-terrestre que todos os dias chega atrasado na aula e por isso resolve contar uma grande cascata para livrar-se da ameaça da professora de impor-lhe um "castigo perpétuo". Isso tudo contado com humor e criatividade, que faz o menino ET falar uma língua que é um mix de vários idiomas da Terra. A história de Igor encantou o Pedro, que chegou a sugerir até mesmo a troca do título para Pedro Q. Balela. Meu filhote, do alto de seus 8 anos, está descobrindo a malandragem e achando que é capaz de enganar a professora. Ele confessou durante a leitura que age como o Igor apenas quando é muito necessário. O mais bacana é que em sua inocência ele acredita que suas histórias colam. Mal sabe ele que todas as professoras são parecidas com Dona Moscapreta, agindo, ao mesmo tempo, com severidade e complacência diante das malandragens dos alunos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As histórias da Preguiça contadas para a Sorte

Meninos do mangue, de Roger Mello, editado pela Cia. das Letrinhas, foi um dos livros infantis que mais me impressionaram nos últimos tempos. A história da aposta feita pela Sorte e pela Preguiça e a prenda a ser paga pela perdedora é absolutamente envolvente. A gente começa e não quer parar. Mas, como a leitura era em voz alta para o Pedro, foi feita em capítulos. Assim, por algumas noites lemos as oito histórias em que a Preguiça, a perdedora - é claro, teve que contar para a Sorte. Nos dias de muito sono, o Pedro só aguentava ouvir uma. Mas, em alguns dias, o interesse vencia o sono e ele conseguia ouvir mais de uma. Todas elas são maravilhosas e criativas e têm a prosa de um autor original. Roger conta uma história única, que, claro, faz referências à tradição de nossa literatura popular e infantil. Mas, com certeza, ela tem a marca de Roger, no texto e nas ilustrações que criam um belíssimo jogo entre a Sorte e a Preguiça para contar para as crianças como é a vida no mangue. Um olhar quase antropológico, sem qualquer piedade pela pobreza de quem vive por lá. O Pedro aprendeu, com a Preguiça e a Sorte, que homens e crianças do mangue vivem de catar siri na lama e que separam o dia pelas quatro mudanças de maré. A história de como surgiram as marés alta e baixa, aliás, é genial e a minha preferida. Mais genial ainda é poder contar para meu filho uma história de um mundo tão diferente do nosso, um mundo feito de pobreza material e riqueza simbólica que, a prosa de Roger faz parecer natural, nos impedindo de sucumbir à piedade de quem não é como nós. Roger, com os meninos do mangue, deu a meu filho a primeira oportunidade de olhar o mundo de forma a relativizar as verdades sobre a felicidade. Por isso, viva Meninos do Mangue, que rendeu a Roger, em 2002, o Jabuti nas categorias infantil ou juvenil e ilustração de livro infantil ou juvenil, além de prêmios da FNLIJ e da Fondation Espace Enfants, da Suiça. Viva Roger, que, com justiça, empresta seu nome à biblioteca infantil do Ceat (Centro Educacional Anísio Teixeira) e concorre ao prêmio Alma (Astrid Lindgren Memorial Award).