Sempre evitei escrever aqui sobre histórias que eu não tenha lido para os meus filhos. Mas hoje vou quebrar esta regra, que eu mesmo impus para o blog, para falar de um livro destinado a um leitor mais velho e mais maduro do que meus filhos, que têm apenas 3 e 9 anos. Sete ossos e uma maldição, de Rosa Amanda Strausz, editado pela Rocco Jovens Leitores, foi uma bela descoberta que me chegou pela Flist (Festa Literária de Santa Teresa), onde conheci a autora, Aliás, vale lembrar, ela é uma simpatia com seus leitores. Eu ainda não o li para o Pedro por temer sua reação, já que o livro traz dois temas difíceis para meu filho: a morte e o sobrenatural. Outra razão é que Sete ossos e uma maldição é um livro para cada um vencer com suas próprias pernas. Digo vencer porque a narrativa de Rosa Amanda cria uma tensão que mobiliza até a nós, adultos, e alimenta nossa vontade de seguir em frente, como os personagens dos contos do livro. O universo do livro, segundo a própria autora disse na Flist, são os contos populares e os mitos passados de geração em geração, que tanto assustaram crianças de outros tempos. Acho que isso explica a escolha de Rosa Amanda em ambientar suas histórias em pequenas cidades ou lugarejos rurais, em que crianças e jovens podem experimentar a liberdade e seguir adiante na busca de saciar a curiosidade. Este ímpeto é que faz com que as crianças, personagens de Rosa Amanda, se defrontem com o perigo e o sobrenatural. A única exceção é o conto O elevador que se passa na cidade grande e tem um prédio elegante e decadente como cenário da história. A prosa de Rosa Amanda cria um clima de mistério e tensão que tem seu clímax no momento em que o protagonista se defronta com o que tanto teme. A curiosidade é punida, assim como manda a cultura popular e os mais famosos contos de terror. Do outro lado, o leitor é impelido a continuar. Rosa vai construindo o medo aos poucos, com pequenos detalhes e muitas omissões, que ficam ainda mais claras no momento do desfecho dos contos. O momento em que o protagonista se defronta com o que tanto teme, a narrativa fica cheia de lacunas, de forma a criar ainda mais ansiedade no leitor. Mas em nosso caso, avançar na leitura é ter a garantia de uma boa história. Por isso, torço para que o Pedro consiga em breve conviver com seus medos para descobrir o prazer de ler uma boa história de terror.
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sábado, 12 de fevereiro de 2011
O prazer de ler histórias de terror
Sempre evitei escrever aqui sobre histórias que eu não tenha lido para os meus filhos. Mas hoje vou quebrar esta regra, que eu mesmo impus para o blog, para falar de um livro destinado a um leitor mais velho e mais maduro do que meus filhos, que têm apenas 3 e 9 anos. Sete ossos e uma maldição, de Rosa Amanda Strausz, editado pela Rocco Jovens Leitores, foi uma bela descoberta que me chegou pela Flist (Festa Literária de Santa Teresa), onde conheci a autora, Aliás, vale lembrar, ela é uma simpatia com seus leitores. Eu ainda não o li para o Pedro por temer sua reação, já que o livro traz dois temas difíceis para meu filho: a morte e o sobrenatural. Outra razão é que Sete ossos e uma maldição é um livro para cada um vencer com suas próprias pernas. Digo vencer porque a narrativa de Rosa Amanda cria uma tensão que mobiliza até a nós, adultos, e alimenta nossa vontade de seguir em frente, como os personagens dos contos do livro. O universo do livro, segundo a própria autora disse na Flist, são os contos populares e os mitos passados de geração em geração, que tanto assustaram crianças de outros tempos. Acho que isso explica a escolha de Rosa Amanda em ambientar suas histórias em pequenas cidades ou lugarejos rurais, em que crianças e jovens podem experimentar a liberdade e seguir adiante na busca de saciar a curiosidade. Este ímpeto é que faz com que as crianças, personagens de Rosa Amanda, se defrontem com o perigo e o sobrenatural. A única exceção é o conto O elevador que se passa na cidade grande e tem um prédio elegante e decadente como cenário da história. A prosa de Rosa Amanda cria um clima de mistério e tensão que tem seu clímax no momento em que o protagonista se defronta com o que tanto teme. A curiosidade é punida, assim como manda a cultura popular e os mais famosos contos de terror. Do outro lado, o leitor é impelido a continuar. Rosa vai construindo o medo aos poucos, com pequenos detalhes e muitas omissões, que ficam ainda mais claras no momento do desfecho dos contos. O momento em que o protagonista se defronta com o que tanto teme, a narrativa fica cheia de lacunas, de forma a criar ainda mais ansiedade no leitor. Mas em nosso caso, avançar na leitura é ter a garantia de uma boa história. Por isso, torço para que o Pedro consiga em breve conviver com seus medos para descobrir o prazer de ler uma boa história de terror. domingo, 6 de fevereiro de 2011
Mais uma vez, outra vez....
Há muitos prazerem em contar uma história para uma criança. Um deles, com certeza, é acompanhar o pequeno leitor/ouvinte no desvendar da narrativa. Este desvendar, vejo com meus filhos, é muitas vezes lento e cumprido em várias etapas. A criança pede a mesma história várias vezes, ouve a mesma coisa à exaustão de quem lê, mas em cada uma dessas vezes descobre um novo significado naquela narrativa. Só isso explica como pode uma criança, como, por exemplo, meus filhos, cada um a sua época, aguentar ouvir todos os dias Os três porquinhos sem se cansar. O Pedro cresceu, fez nove anos, já é capaz de perceber com clareza os desafios que uma narrativa lhe propõe, mas ainda ouve histórias contadas pela mãe. Assim foi com Perde quem fica zangado primeiro, um reconto de Italo Calvino para a história do embate de um camponês com um ganancioso padre, colhida na tradição popular italiana. Eu conheci o livro, editado pela Companhia das Letrinhas, nas mãos da Sônia Monnerat, minha professora na UFF, e vi logo que ele tinha tudo para encantar o Pedro. A narrativa de Calvino tem tudo que uma história precisa para cativar uma criança: uma boa dose de fantasia e de humor. Estes atrativos, no entanto, não tornam a história fácil. A narrativa de Calvino não tem nada de simplória, como a origem popular do conto poderia supor, e o enredo propõe tramas engenhosas para os duelos do camponês com o padre. Para acompanhá-la é preciso prestar uma bruta atenção para, ao fim, perceber que Perde quem fica zangado primeiro é, na verdade, ganha quem for mais paciente e inteligente. Foi isso que encantou o Pedro. Mas esta percepção, a princípio, foi apenas uma intuição. Ele recorreu a mim e às ilustrações de Susanne Janssen, reproduzidas da edição alemã, para entender as sutilezas da narrativa e traduzir os regionalismos de uma Itália agrária. Estas descobertas, no entanto, foram um prazer enorme para ele. Há muito não o via vibrar tanto com uma leitura, como com este livro que ele me fez ler três noites seguidas. Que Calvino nos conte outra!
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