Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de junho de 2018

Água bastante




Água bastante

O que verto pelos olhos não é mais do que um filete d’água,
como aqueles que enchem os córregos da minha infância.

Córregos de água pouca, água contida.
Água que contém tudo.

Água doce, água salgada,
que lava, lambuza,
derrama, limita,
que move o fluxo e o refluxo.

Água pouca, água bastante
para transbordar de mim
tudo o que, com esforço, boto para dentro.

L.C. Rio: 12/5/18


domingo, 13 de maio de 2018

Eu e, sempre, eles






Eu e eles


Um dentro e outro fora.
Os dois fora.
Os dois no meu coração.

L. C.  Rio: 10/04/2014





@Fotos Macarena Lobos e Claudio Oliveira

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Era uma noite de inverno, no Horto, e a lua lá...


A lua

A lua se insinua
sozinha, na terra nua.
No céu, a escuridão
apenas se anuncia,
deixando entrever
o arco esbelto,
que, crescente, esgarça
o tênue fio
e desafia,
com graça,
a imprecisão da noite.

L.C. Rio: 27/07/17

PS: A lua sempre me intrigou. Não há noite que eu não a procure no céu e quando a acho, a escuridão se expande em mim, como se eu estivesse lá, ao lado dela. 

domingo, 2 de julho de 2017

É hora de olharmos para o céu e vermos estrelas


Sina
Ela vem ali, na fila,
cumprindo a sua sina,
carregando aquela folha
nas costas, quieta, certa
de que faz o melhor,
quando, do alto, surge  
uma sombra urgente
para fazer do dia noite
e da vida, morte.

Luciana Conti
Rio:  11/04/2017

PS: O Pedro era um garotinho quando comprei, perto do meu trabalho, Os encontros de um caracol aventureiro e outros poemas, de Federico García Lorca, da Ática, editado especialmente para crianças por José Paulo Paes. Era um dia de chuva, cheguei em casa toda feliz com o livro e, na hora de dormir, fui lê-lo para meu menino. Lembro como se fosse hoje da sua carinha curiosa diante do novo livro, lindamente ilustrado por Odilon Moraes, e da nossa proximidade. Deitei-me a seu lado e comecei a ler o poema que conta a caminhada de um caracol que se defronta com questões místicas e transcendentes em seus encontros com duas rãs e um bando de formigas. O Pedro ouvia atento, apesar de o poema ser difícil para um menininho, até que, ao perceber, que uma das formiguinhas estava morrendo, seu semblante foi se fechando, até que ele desatou a chorar. "A formiguinha vai morrer, mamãe", ele me perguntava angustiado. "Por que elas querem matá-la", emendava. Até hoje não sei o quanto ele entendeu do poema, mas sei que percebeu que a formiguinha havia sido morta por suas colegas por se comportar de uma maneira estranha para as outras. Foi a primeira vez que vi o Pedro reagir tão fortemente ao horror da morte. Fiquei espantada, sem saber direito o que fazer e o abracei forte para acalmá-lo e nunca mais lemos o livro. Mas a história da formiguinha que via estrelas que nenhuma outra via, nunca me saiu da cabeça. Foi pensando nela, que escrevi, anos depois, Sina. A minha formiguinha, ao contrário da de Lorca, é totalmente enquadrada, o que não a livra de sua sina, a morte. Morre silenciosa, anestesia pelo dever, sem chamar a atenção, como muitos de nós. Vida insignificante que, infelizmente, é interrompida. Sua dona segue automaticamente, sem olhar para o céu para ver as estrelas, o que poderia a ter salvado. Quantos de nós levamos a vida assim, sem olhar para o céu? Por isso, discutir essas questões com as crianças, em um mundo desumanizado como o nosso, é mais que necessário. Tão necessário, que me deu vontade de, agora, que o Pedro tem 15 anos, sentar de novo com ele para lermos juntos Os encontros de um caracol aventureiro. Tenho certeza de que, dessa vez, ele iria gostar. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

O prato de um jovem burguês



O prato de um jovem burguês  

Esse é meu prato.
Sobre sua superfície branca,
quase feia, sem adornos,
estão os restos de minha ceia
sempre simples sobre a banca.

Alguns grãos de arroz, um caroço
de feijão, um tremoço,
um osso descarnado
sobre o prato abandonado
ao fim do almoço,
       fazem os mais asseados 
me acharem um porco.

Ao ver o prato assim de borco,
tentando ocultar
meu lixo e desleixo,
minha mãe, carrancuda,
fala baixo e grosso que o único
animal que não lava
o próprio prato é o burguês.

Com o Manifesto sob o braço,
recolho-me embaraçado
a meu quarto e, deitado
para me refazer do almoço,
fico a clamar
para que as bactérias
façam logo a sua parte,
me fazendo lembrar
de que tudo que é sólido
se desmancha no ar.

Rio, 5 de abril de 2017


Esse poema eu fiz em homenagem ao Pedro, meu filho, que, como quase todos os adolescentes finge desconhecer o caminho para a pia da cozinha. Apesar de eu ficar louca de raiva, gritar grosso - é mentira que falo baixo -, acabo o perdoando e o amo. Amo muito! Como a maioria das mães, sou frouxa e tenho memória: fazia o mesmo com a minha mãe. E tenho que reconhecer que há coisa pior. O ex-marido de uma amiga, já adulto e morando sozinho, colocava toda a louça suja na geladeira, para que ela pudesse esperar, sem feder, a chegada da faxineira, uma vez na semana. Toda vez que lembro disso, fico feliz por ser só um prato no chão.

PS: O detalhe do Manifesto - o Comunista - é verdadeiro. O Pedro, por livre e espontânea vontade, decidiu ler a obra, o que me fez ter mais um argumento contra os pratos sujos, deixados ao pé da cama. "Não é porque sou sua mãe e te amo, que me explorar é bacana. É exploração do mesmo jeito." Não deu de todo certo, mas no dia em que mandei essa, ele, envergonhado, lavou seu prato. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

Mais um ano em minha vida

Passei um sábado desconectada. Era o dia do meu aniversário e decidi amanhecer em um sarau de poesia e anoitecer em um samba. 

Foi um dia cheio e feliz, que me deixou a certeza de que a vida, mesmo quando nos surpreende com tristezas, como as que experimentamos na semana passada, vale a pena. 

Vale mais ainda quando contamos com o carinho de tantos amigos, que deixaram, por aqui, suas boas vibrações. Sou toda gratidão por ter vocês em minha vida.


PS: O poema da foto eu ganhei de presente da escritora cubana Teresa Cárdenas, de quem falarei adiante. Por enquanto, digo apenas que ela transformou em poesia a dor de seu povo durante o sempre imoral embargo a Cuba, que, nos anos 90, teve efeitos ainda mais cruéis. Como disse, em sua dedicatória, esse poema (clique na foto para lê-lo) define o tempo. O mesmo tempo que me permitiu chegar até aqui.

terça-feira, 2 de junho de 2015

A poesia e os desafios impostos pela língua

Percebo no Antônio um prazer enorme em descobrir os segredos da escrita e a da leitura. Um prazer que faz com que ele, desde pequenino, se divida entre ouvir uma história e acompanhar com os olhos ou mesmo os dedinhos as palavras e frases impressas nos livros. Não raro ele se surpreende no meio da leitura com a grafia de uma palavra ou a pontuação de uma frase. Essa curiosidade, que para mim soa surpreendente, faz com que a leitura noturna seja mais do que ouvir uma boa história, Seja também um momento de investigação da língua. E nada melhor do que os poetas para nos apresentar os mistérios desse português tão cheio de artimanhas. O Antônio não é muito simpático a eles, mas aceitou na boa o livro Um gato chamado Gatinho, de Ferreira Gullar. Acima do preconceito com a poesia, estava a curiosidade acerca do poeta, homenageado na festa literária de sua escola, e de ele conviver com a Isolda, uma linda gatinha negra que teve como companheiro o Tristão, que se foi antes dele nascer, e com a Gueen, que nos deixou depois de 20 anos de vida. Tudo isto fez o Antônio encontrar rapidamente sentido nos versos de Gullar, explorados por ele com a maior sem cerimônia. "Se o gato sobreviveu/por ser muito cauteloso,/tem no entanto um ponto fraco:/ é por demais curioso", leu, fazendo uma pausa para saber o sentido de cauteloso. Foram três noites curtindo os poemas do livro editado pela Salamandra, com belas aquarelas de Angela Lago. Três noites de esforço e prazer de estar conseguindo, passo a passo e dentro de seus limites, vencer os desafios impostos pela língua. Acho que é mesmo assim, brincando e desafiando a língua, que aprendemos a amá-la.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A ira também ataca os poetas

A poesia foi a porta que me levou à literatura. Ela se abriu para mim nas aulas de Literatura, na escola, que, na minha época, mais afastavam da leitura do que aproximavam. Para minha sorte, esbarrei com Castro Alves, que me pegou pela mão e me convidou para a leitura. Como amei o estilo romântico e engajado do poeta baiano! Amei ainda mais a descoberta de que a língua poderia me apresentar tantas surpresas. Depois de Castro Alves vieram outros poetas, sempre brasileiros, que aprendi a amar. João Cabral de Melo Neto foi a maior de todas minhas surpresas. Uma poesia dura como a pedra, que soava estranha, mas falava direto para mim. Nem toda a poesia me agrada, nem todo o poeta é meu par, mas quando este encontro se dá, é o melhor, o mais forte. Por isso, minha felicidade em ver o prazer do Antônio explorando os poemas de A arca de Noé, do maravilhoso Vinícius de Moraes, editados pela Companhia das Letrinhas e ilustrado por Laurabeatriz. Mais de uma vez pegamos o livro e lemos os 32 poemas. Digo lemos, porque o Antônio leu alguns ou releu outros, com uma animação tão grande que contagiou o Pedro, na cama ao lado, fazendo ele se juntar a nós. É claro que temos alguns preferidos, na maior parte das vezes, os que exploram o humor, como O vento, O pato e a A casa. É lógico também que há um lugar especial para O leão e sua fúria poética, assim como para As borboletas, descobertas pelo Antônio em seu caderno de poesias preparado pela escola. Uma descoberta que levou a outra, desta vez, dada por uma amiga querida, Maria de Moraes, que herdou do pai o gosto pela palavra, em um depoimento sobre as agruras do poeta ao tentar escrever um poema para a borboleta amarela. Uma história deliciosa que encantou o Antônio e o fez saber que a ira também ataca os poetas. Vale conhecer o texto da Maria, que reproduzo a seguir. Como diz a pulga, de Vinícius, "Tchau/ Good bye/ Auf Wiedersehen".

“As pessoas adoram e pedem mais e mais histórias; então, lá vai uma bonitinha, de família, que minha amada mãe, Christina Gurjão, me contava sempre rindo. Papai queria porque queria fazer um poema para a Borboleta Amarela. Sentado na cadeira, em frente a sua escrivaninha, máquina de escrever, tec, tec, tec, não gostava, tirava o papel da máquina e amassava o papel em bolinha, jogado no chão, insatisfeito, na busca da poesia. Tarde da noite, mamãe fora dormir, sem ainda ele ter saído da cadeira, tec, tec, tec, silêncio, barulho de papel amassado. Deu-lhe um beijo e, ainda na cama, antes de ferrar no sono, os mesmos barulhinhos, tec, tec, tec, e de papel amassado. Diz que despertou, o dia amanhecendo, com papai indo dormir. Ainda ficou um tempo na cama, mas logo se levantou, já curiosa para ver que poema lindo haveria saído depois de tanto tec, tec, tec. Na sala, um mar de bolinhas amassadas, muitas no chão, e, na máquina de escrever, um papel, que ela foi ler, com o título A Borboleta Amarela, e abaixo escrito: A Borboleta Amarela – Merda pra ela!”

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Descobrindo a serventia da língua

Confesso que já tinha visto algumas vezes nas prateleiras da Paulinas o livro Girafa não serve para nada, de José Carlos Aragão, ilustrado por Graça Lima, e nunca me decidira por ele. Até que outro dia resolvi trazê-lo para casa. Que bom! Minha demora em lê-lo me preparou para apreciá-lo melhor. Aragão, um escritor mineiro que já me encantara em Trem chegou, trem já vai, faz um relato poético de como um menino - que suponho ser ele, o autor - tomou contato com a língua e foi desamarrando a camisa de força imposta por ela. Sua poesia, com certeza, vem desse embate com a língua, que lhe permitiu um novo e pessoal uso das palavras. Brincando de descobrir a serventia das coisas, Aragão experimenta novos significados para palavras prosaicas, como pedra, chuva, trem, relógio e ovo. Significados poéticos, como o dado para relógio - "caixa de guardar tempo perdido, casa para passarinho que perdeu o voo" - que vão ampliando seu olhar para o mundo e o libertando da tirania da língua, em sua busca do mais amplo uso das coisas. "Com o tempo, as respostas que me davam. além de incompletas, foram ficando vazias de importância. Descobrir por conta própria o uso de cada coisa foi ficando muito mais interessante que ganhar uma resposta já prontinha e embrulhada para presente", escreve Aragão, em Girafa não serve para nada. Ao ler o livro lembrei-me de minha estranheza, quando criança, diante das imposições da língua, que me fazia perguntar a meus pais o porque de cada coisa ter um determinado nome. Estranheza igual a de Marcelo, Marmelo, Martelo, clássico de Ruth Rocha, que encontra em  Girafa não serve  para nada nova e original tradução. Livros como este mostram como o prazer com a leitura deve ser construído à margem do processo de aquisição da língua, que, na maioria das vezes, é muito penoso para as crianças, como foi para mim. Ler não deve ter a ver com aprender português. A leitura literária tem a ver com a descoberta de que é possível encontrar na língua um universo maior do que nos propõem os gramáticos, capaz de nos fazer encarar o desafio de traduzir nossos sentimentos e impressões, apesar das limitações da palavra escrita. Aragão fez a sua parte. Que nós - pais, escola e Estado - sejamos capazes de fazer a nossa, para que nossos filhos percebam que o uso criativo da língua constrói um mundo de sutilezas e de liberdade e que, ao o atravessarmos, nos tornamos mais humanos. 

sábado, 6 de agosto de 2011

Para gostar de ler poesia

Eu era ainda uma adolescente quando conheci Castro Alves e a grandeza de sua poesia romântica que falava de um povo a ser liberto e um mundo a ser construído. Me apaixonei por essa verve tão intensa, apesar de ter nascido quase 100 anos após sua morte precoce por tuberculose. Depois dele veio João Cabral de Melo Neto, com seu auto Morte e Vida Severina. A maioria deles me chegou pela escola ou pelas mãos de minha mãe, que sabia que eu estava me encantando pela poesia. Na minha casa esse era um gênero inexistente. Minha mãe sempre foi uma leitora voraz, mas poesia nunca fez parte de seu cardápio. A poesia me ligava à minha bisavó, Maria da Silveira, que tinha vivido os saraus do início do século XX. Ela gostava de saber que eu me encantava pelos poetas, o que fez sua filha, minha avó, após sua morte, me dar alguns de seus livros de poesia, entre eles Estrela da Vida Inteira, de Manoel Bandeira. Esse gosto, no entanto, nunca cruzou mares. Sempre fiquei entre os poetas brasileiros. Minha ousadia maior foi Fernando Pessoa. Conheço muito pouco mesmo da poesia americana ou europeia. O pouco que li, não me seduziu. Aí me pergunto se o problema é eu ler poesia traduzida. A tradução, desconfio, faz muito da beleza pretendida pelo poeta desaparecer. Mas reconheço que, apesar disso, tem muita coisa boa a ser lida nas prateleiras das livrarias. Por isso, não titubeei em comprar Ri melhor quem ri primeiro (Poemas para crianças e adultos inteligente), de José Paulo Paes, pela Companhia das Letrinhas. O livro traz uma seleta de poemas escolhidos e traduzidos por Paes para ser apresentada para leitores jovens ou inexperientes na poesia em língua não portuguesa, como eu. O poeta, ensaísta e tradutor dedicou parte de seus últimos anos escrevendo para crianças e divulgando a obra  de seus pares para este público normalmente tão esquecido pelos literatos. Paes, neste livro,  um de seus últimos projetos, reúne 31 poemas de origens linguísticas e temporais diferentes que servem como um resumido cenário da riqueza que o gênero pode ter. "A senhora esperava o ônibus./ O senhor esperava o ônibus./ Passa um cachorro preto que manca./ A senhora fica olhando o cachorro./ O senhor fica olhando o cachorro./ Nesse meio tempo o ônibus passou.", do surrealista francês Raymond Queneau, é um bom exemplo do que Paes traz para adultos e crianças que estejam dispostos a embarcar nessa viagem. Mas como diz Queneau, é preciso fazer sinal para o motorista. Paes já fez para nós, só nos resta topar a brincadeira.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O sim de João Cabral de Melo Neto

"Só vive quem se debate". Por traz da força desse verso está um dos maiores poetas da língua portuguesa. A poesia de João Cabral de Melo Neto, mesmo após a morte do poeta há 12 anos, ainda é capaz de surpreender a quem, como eu, a admira. Ilustrações para fotografias de Dandara, obra de onde tirei este verso, foi guardada até agora como relíquia de família e chegou às livrarias este mês, como um presente para quem ama poesia. Editado pela Objetiva, o livro é uma preciosidade. Idealizado por João Cabral para uma neta querida e distante, ele ganhou ainda mais beleza com o projeto gráfico elegante de Mariana Newlands. Os versos de Cabral vêm de longe, do Senegal, de onde o poeta diplomata servia naqueles dias de 1975. Dandara, uma garotinha de dois anos, filha de sua Inez " nascida para dizer não", fez a mãe, segundo o poeta, reencontrar "um sim a que condicionou a vida".  Esse sim perpassa todos os versos que ilustram as fotografias de Dandara. A cada verso do livro a gente reencontra um poeta inspirado, se é que podemos usar este adjetivo com Cabral, dono de uma escrita poética que não faz pouco da vida. Cabral engrandece os sentimentos, as paixões e as possibilidades do ser humano com a beleza de seus versos. Talvez o que mais me encante nele - sem dúvida meu poeta preferido - é que ele nos faz lembrar que "o mundo não é uma folha/ de papel, receptiva:/ o mundo tem alma autônoma,/ é de alma inquieta e explosiva.", como ele mesmo define no poema Auto do Frade. Este novo encontro com o poeta me emocionou. Não esperava isso. Não sabia da existência do livro, não sabia de seu lançamento, quando dei de cara com ele em uma seção infantil de uma bela livraria, na porta de um cinema do Rio. Eu fazia hora, esperando meus filhos, quando comecei a ler os versos de Cabral para Dandara. Fiquei emocionada. Cheguei a chorar. Não sei bem dizer a razão de tanta emoção. Talvez tentar explicá-la aqui seja uma forma de perdê-la. Mas posso dizer que fiquei emocionada por reencontrar Cabral - que foi tão importante na minha formação - na carinha alegre/triste de Dandara. Emocionada por lembrar que Morte e vida severina foi um dos primeiros livros de poesia que minha mãe me deu e que Ilustrações para fotografias de Dandara, editada para um jovem leitor, será o primeiro livro de Cabral na estante dos meus filhos. Pela certeza de que ele tem muito a falar para os jovens de hoje, fecho este texto com mais uns versos do poeta para Dandara. " Tua mão tirando a pipoca/ do pacote que tua mãe te compra/ tem o mesmo gesto de quem/ dele tiraria uma bomba". Que nossos filhos possam viver com este ímpeto transformador presente na poesia de Cabral.

sábado, 13 de março de 2010

Manoel de Barros é o homenageado da 2ª Flist

Maio vem chegando e os professores do Ceat (Centro Educacional de Santa Teresa) já arregaçaram as mangas para produzir a segunda edição da Flist (Festa Literária de Santa Teresa). O sucesso da primeira Flist animou o pessoal da escola a dobrar a dose e realizar a festa em dois dias. Já estão reservados no calendário do Ceat os dias 15 e 16 de maio para os eventos da Flist, que, desta vez, serão realizados no belíssimo Paque das Ruínas. O homenageado da festa será o poeta matogrossense Manoel de Barros, de 94 anos. Bela escolha. Um poeta maior que fala para crianças e adultos, em 24 livros publicados, e é considerado um dos mais originais da língua portuguesa do século XX. Entre os vários prêmios que recebeu estão dois Jabutis - um pelo O guardador de águas e outro por O fazedor de amanhacer (foto). Mesmo assim, sua poesia ainda é uma surpresa para muitos, como mostra o documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, que será exibido na Flist. Quem quiser ver o trailer basta clicar aqui. Para relembrar a primeira festa você pode dar uma olhada no Gato de Sofá Deita e Rola na Flist ou no site da festa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cara a cara com a autora

Outro dia descobri que a Ninfa Parreiras, que coordena o grupo Letra Falante, do qual faço parte, iria à escola dos meus filhos para falar de sua obra. Resolvi fazer uma surpresa para o Pedro e trouxe para casa o livro Poemas do tempo, ilustrado pela Mariana Massarani e editado pela Paulinas. O Pedro ficou animadíssimo ao receber o presente. "A Estela (professora da biblioteca) está lendo este livro pra gente", contou. À noite, que, por azar, foi a do apagão, me fez ler o livro de novo. Sob a luz de uma lanterna, sentamos - eu, ele e o Antônio - para ler e ouvir os poemas da Ninfa que falam do tempo em suas várias versões. Tempo das descobertas, de sorvete, das despedidas, da escola, de fora, do infinito... No dia seguinte, o livro foi para escola nas mãos do Pedro, ávido por um autógrafo e para contar de quem era filho. Assim que cheguei em casa veio logo falar das novidades e mostrar os autógrafos que havia ganho. "Meus amigos me acharam muito sortudo de ter um autógrafo da Ninfa", disse. Não foi bem sorte. Foi insistência. A Ninfa me contou que o Pedro não se contentou com um autógrafo, quis logo três. Aí que entendi porque havia mais de uma dedicatória no mesmo livro. O resultado de tamanha aventura foi que ele ficou fã de carteirinha da Ninfa. Já me pediu para comprar o novo livro dela, que, segundo ele, sai no próximo ano e curte muito o Poemas do tempo. Com justiça... o livro é muito bacana e os poemas falam de vivências bem conhecidas das crianças. Tudo para sua leitura ser um sucesso.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A bela caligrafia de dona Sofia

Acabo de ler para o Pedro A caligrafia de Dona Sofia, com texto e ilustração do pernambucano radicado em Porto Alegre André Neves. O livro, editado pela Paulinhas, em 2007, é tão lindo que foi parar no acervo básico da Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil. Texto e ilustração em perfeita harmonia, nos levam para o universo fantástico de uma senhora, professora aposentada, que decorou sua casa com poemas transcritos por ela própria. No momento em que percebe que já ocupou todos os cantos de sua casa com os versos mais bonitos ou aqueles, segundo a própria, mais importantes para sua vida, dona Sofa resolve distribuir poemas e flores para os moradores de sua pequena cidade. Por meio da poesia, quebra o isolamento no qual vivia e faz uma revolução na vida de seus vizinhos que foi sentida, aqui em casa, pelo Pedro. Ele, uma criança recém-alfabetizada, que está sendo treinada para escrever com letra cursiva, ficou muito interessado na bela caligrafia de dona Sofia e no garrancho de seu Ananias. "Deixa eu ver", pedia ele. André Neves não frustrou a curiosidade da minha criança. O livro é todo decorado, como a casa da dona Sofia, com trechos de poemas de vários autores escritos à mão e por delicadas e expressivas ilustrações. Agradou tanto que ele topou minha sugestão de levar o livro para sua professora, já que a turma está tomando intimidade com a língua por meio de poesias. Enfim... uma bela caligrafia e uma bela história capazes de encantar crianças e adultos, como o poeta Elias José, que deixou suas impressões sobre o livro em um elogioso prefácio.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Gato de Sofá Deita e Rola na Flist

Levei até um susto quando vi que minha última postagem foi no dia 26 de abril. Mas a razão para eu ter abandonado o blog nesta semana foi justa. Me envolvi no projeto de criar uma edição especial do Gato de Sofá para a Festa Literária de Santa Teresa - a Flist, promovida pelo Ceat - Centro Educacional Anísio Teixeira. O resultado foi o Gato de Sofá Deita e Rola na Flist. O blog estará de plantão no dia da festa, 16 de maio, na Livraria Largo das Letras, na Rua Almirante Alexandrino, 501, para colher impressões de crianças e adultos sobre o evento e sobre livros. A idéia é construir junto com o público uma memória virtual da primeira edição da festa literária que vai acontecer de 9h às 18h, em vários pontos do Largo dos Guimarães, em Santa Teresa. A programação é bem legal. Tem café da manhã com a Lygia Bojunga, conversa com os poetas Ferreira Gullar e Ondjaki, oficina com os ilustradores Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, entre muitas outras atrações. Vale a pena ir a Santa neste dia. Vai ter diversão para crianças e adultos, além de ser uma bela oportunidade de desfrutar do bucólico bairro.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Um Lé com Cré cheio de sentido

Sempre olho desconfiada para livros de poesia para criança. Poesia é poesia. Não tem essa de ser para criança. O que tem é poesia falando do universo da criança, assim como música. Por isso, quando vejo uma bela edição de poesia para crianças compro logo para ler para o Pedro e, agora, para o Antônio, meu bebê. Eu adoro poesia e gostaria muito que meus filhos tirassem dos versos o mesmo prazer que eles me dão. Por isso, não abro mão de um bom livro como o Lé com cré, do poeta José Paulo Paes, ilustrado por Alcy e editado pela Ática. Na primeira vez que o li para o Pedro e o Antônio, que além de não parar quieto ainda ameaçava arrancar o livro de minhas mãos, os poemas de Paes fizeram o maior sucesso. Também pudera, ele fala, com o talento de sua poesia, de pulga, Frankenstein, de advinhas e de uma belíssima versão do Cadê?. Vale a pena ler e reler.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Na Cocanha todos os desejos são satisfeitos

Quem não quer viver em um país onde todos seus desejos são satisfeitos? Desde a imortalidade até o ócio. Tudo perfeito! Nem tanto. Há quem morra de tédio nesta terra idealizada na frança medieval, que inspirou até os hippies dos anos 60. Esta terra nos é por Tatiana Belinky, uma bela autora de livros infantis, no Limeriques da Cocanha, editado pela Companhia das Letrinhas e ilustrado com inspiração por Jean-Claude Alphen. Os limeriques, como ela mesmo explica em verso, "são poeminhas/ Que sempre só têm cinco linhas./ Contando, rimados,/ Uns 'causos' gozados. Estórias bem piradinhas." Vale a pena lê-los em voz alta para a criançada e imaginar-se com tão boa vida, mesmo que, ao fim, você conclua como a poeta que a perfeição leva ao tédio. Enfim, desconforto é fundamental. Mas o difícil é uma criança achar isso. O Pedro, por exemplo, deleitou-se imaginando-se na Coconha. A Cocanha seria seu reino e, em seu castelo, haveria toda a sorte de bugigangas eletrônicas, como o Wi e game boy. Mas ele seria um rei generoso. Chamaria todos os mendigos do Rio para morar na Cocanha. Assim, eles teriam casa, comida e roupa lavada. A Cocanha para o Pedro é o paraíso, onde os pobres se tornam ricos e ele estaria no comando. Lugar melhor, não há.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Brasileirinhos em verso e belíssimas ilustrações







O poeta Lalau e a ilustradora Laurabeatriz formam uma dupla e tanto! Eles são os autores da maravilhosa série Brasileirinhos, editada pela Cosac & Naify. São quatro livros em que eles apresentam em verso e em belíssimas ilustrações bichos brasileiros que estão em risco de extinção. A seleção dos bichos é um dos pontos altos dos livros, que nos apresentam desde o famoso e fofo peixe-boi até a desconhecida lagarixa-de-areia. Cada um deles ganha uma página dupla, onde um poema exalta suas características e qualidades e um pequeno texto informa sobre seu habitat, sua alimentação e a condição de risco em que vive. Os textos são fáceis e agradáveis e podem ser lidos para crianças bem pequenas. O Pedro foi apresentado ao primeiro deles, Brasileirinhos - na minha opinião o melhor -, aos três anos. Os outros - Novos Brasileirinhos, Mais Brasileinhos e Bem Brasileirinhos - vieram na seqüência e serviaram tanto para ele ter os primeiros contatos com a poesia, quanto para ele conhecer mais sobre os bichos brasileiros. Até hoje, já alfabetizado, gosta de folhear e ouvir as histórias destes bichos tão brasileiros. O encanto dos livros rendeu à série o selo de Altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil. Com justiça!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Grandes autores para pequenos leitores

A chuva que caiu ontem no Rio, alagando e engarrafando a cidade, me levou à Livraria Arlequim, no Paço Imperial, no Centro, para fazer hora. Não é que tive uma grata surpresa ao fuçar as estantes um tanto bagunçadas da casa? O belo livro Os encontros de um caracol aventureiro e outros poemas, de Federico García Lorca, da Editora Ática, editado especialmente para crianças. Os poemas foram selecionados e traduzidos pelo nosso poeta e ensaísta José Paulo Paes e ilustrados pelo premiado Odilon Moraes. No poema que dá nome ao livro, Lorca usa um diálogo entre rãs, formigas e um caracol para abordar temas sempre atuais, como a eternidade, a tolerância e o poder. A leitura é gostosa e, por meio dela, podemos apresentar o grande autor espanhol para nossos pequenos leitores. E, como a edição é bilíngüe, quem quiser pode ler os poemas no original.

sábado, 8 de novembro de 2008

Contos para adultos incorformados

Confesso que nunca ouvira falar em Jacques Prévert até depararme com o instigante título Contos para crianças impossíveis, uma tradução da Cosac Naify. Mãe de uma criança impossível e apaixonada por histórias, resolvi comprar o livro ilustrado pelo brasileiro Fernando Vilela. Ao ler a apresentação do filósofo José Arthur Giannotti percebi de imediato que o livro não era exatamente para uma criança, mas para adolescentes e adultos incorformados. Isso mesmo. Jacques Prévert faz um manifesto contra o antropocentrismo que fez o homem destruir e dominar a natureza. Seu discurso é a favor da natureza, mas não foi escrito na recente onda do crescimento sustentável. Ele é um dos expoentes da literatura francesa do pós-guerra - sua primeira obra Paroles foi publicada em 1945 - e fala o francês do povo. Sua verve é libertária e questiona o modelo que nos fez senhores do mundo. Seu manifesto me encantou. Com certeza vou procurar para ler suas outras obras publicadas no Brasil: Dia de folga, da Cosac Naify, Carta das Ilhas Andarilhas, da 24 Letras, e Poemas, da Nova Fronteira.