Enfim, acabou o tempo da folia, que, no Rio, começa no réveillon só termina na primeira segunda-feira depois do Carnaval. Um dia por mim ansiado, como um tempo de reorganização das rotinas, minha e dos meninos, e de retomada de meus projetos. Fim de folia, fim de férias escolares e, melhor ainda, a promessa de que o clima boçal do verão vai terminar. Ainda não terminou, é fato, mas faço fé de que o calor que nos chapa vá embora logo. Não aguento mais ter que me refugiar o dia todo em locais refrigerados ou tomar vários banhos para me refrescar. Este calor nos impete, até mesmo, de aproveitar o verão. O sol por aqui brilha tanto que ofusca tudo em volta e me faz perguntar se envelheci ou se o Rio está cada dia mais quente. A resposta ainda não tenho, mas desconfio que seja uma conjunção de muitos fatores, alguns deles ocultos, mas, agora, ela não mais importa. O que quero é receber, de braços abertos e olhos colados no céu, o outono. Aquela estação que colore o Rio de um azul celeste lindo e inspirador e nos permite trocar a praia pelos nossos parques, que são um deleite para olhares distraídos sobre a cidade. Mas o outono é, sobretudo, um tempo ansiado, para a retomada da vida. E cá estou, no meu cantinho, ainda com o ar refrigerado ligado, voltando a esse blog que me acompanha há tanto tempo, depois de uma ausência prolongada e provocada pela bagunça que a folia faz em minha vida. Para retomá-la vou ao dia do meu aniversário, pouco antes do início do verão, em que conheci a escritora cubana Teresa Cárdenas. Uma mulher bonita, de presença marcante e escrita vigorosa. Vigorosa como devem ser pés de bailarina, que ela um dia foi. Teresa se nos apresentou no salão do castelo do CEAT, em Santa Teresa, trazendo as experiências de sua Cuba natal. Veio com dois livros - Cartas para a minha mãe e Cachorro Velho, ambos editados pela Pallas - e alguns poemas na bagagem. A mim coube um deles, lindo, que fala da bravura do povo cubano diante das carências, até mesmo a fome, nos dias de ruína do império soviético, que socorria a economia do país do isolamento causado pelo embargo americano. Os livros eu trouxe para casa, com o autógrafo de Teresa me lembrando que na vida o que vale é nosso esforço. Naquele mesmo dia, li em um fôlego Cartas para a minha mãe e fiquei impressionada com o texto corajoso da cubana que nos coloca diante de uma menina sofrida que escreve para a mãe morta para falar de seus medos, angústias e dificuldades. A menina escreve para se ligar à mãe, e à medida que cresce, vai se desligando até conseguir lidar sozinha com suas questões, que são muitas. Ela mora com uma tia, o marido dela, e as primas e experimenta a rejeição da avó, atravessada pelo racismo e pelo desgosto pela opção da filha já morta. Seu dia a dia é marcado pela violência e o abandono, mas, sobretudo, pela imensa vontade da menina de seguir adiante. É desse porvir que a menina se alimenta e se liga a nós leitores. Uma menina que poderia viver em qualquer lugar do planeta, já que suas questões são universais. O abuso e o abandono por ela sofridos são os menos que submetem crianças em vários cantos do mundo e em qualquer classe social. Com esta escrita universal, o livro de estreia de Teresa, que ganhou mais importante prêmio literário de Cuba, o Casa das Américas, pode ser lido aqui ou lá com a mesma emoção. Uma emoção que, tenho certeza, pode ajudar muitos adolescentes e, até adultos, a lidar com suas feridas, assim como fez a protagonista de Teresa ao decidir escrever para a mãe. A menina das cartas, vou além, pode ser qualquer um de nós. Só nos resta ter coragem para violar essa correspondência.
PS: A vida é mesmo feita de coincidências. O Antônio chegou em casa na hora em que eu estava postando esse texto e viu o livro sobre a minha mesa. "Mãe, você tem esse livro? A minha professora começou a ler essa história hoje pra gente", me disse. Logo, em seguida, com uma carinha terna confessou. "A história é triste. Fiquei triste de ver ela sendo zoada na escola." É, isso, Teresa consegue tocar crianças e adultos com a sua narrativa. Feliz do leitor que enfrenta as emoções que o livro lhe provoca.
Mostrando postagens com marcador Teresa Cárdenas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teresa Cárdenas. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 6 de março de 2017
sábado, 3 de dezembro de 2016
Mais um ano em minha vida
Passei um sábado desconectada. Era o dia do meu aniversário e decidi amanhecer em um sarau de poesia e anoitecer em um samba. Foi um dia cheio e feliz, que me deixou a certeza de que a vida, mesmo quando nos surpreende com tristezas, como as que experimentamos na semana passada, vale a pena.
Vale mais ainda quando contamos com o carinho de tantos amigos, que deixaram, por aqui, suas boas vibrações. Sou toda gratidão por ter vocês em minha vida.
PS: O poema da foto eu ganhei de presente da escritora cubana Teresa Cárdenas, de quem falarei adiante. Por enquanto, digo apenas que ela transformou em poesia a dor de seu povo durante o sempre imoral embargo a Cuba, que, nos anos 90, teve efeitos ainda mais cruéis. Como disse, em sua dedicatória, esse poema (clique na foto para lê-lo) define o tempo. O mesmo tempo que me permitiu chegar até aqui.
Assinar:
Postagens (Atom)
