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quinta-feira, 10 de junho de 2010

A magia da imaginação

Comprei o livro Obax, de André Neves, editado pela Brinque-Book, e fiquei muito impressionada com a beleza plástica de suas ilustrações. Sou fã do trabalho de André, o autor/ilustrador, mas Obax realmente me surpreendeu. Como um traço tão preciso, tão contido na perfeição, pode traduzir tanta emoção? Digo preciso e contido por não achar melhor adjetivo para o desenho de André. Tenho medo de falar que ele é racional e ofender o artista. Longe disso. Meu poeta preferido é o João Cabral de Melo Neto, conterrâneo do autor. A poesia de João Cabral, avessa ao sentimentalismo, é inspiradora pela beleza que produz. O desenho de André é assim. Avesso às facilidades da inspiração, mas rico de sentimento.Lamento não ter mais elementos para descrever a sensação que as ilustrações de Obax me causam. Uma bela história sobre a magia da imaginação, ambientada em um continente com muita coisa ainda a ser descoberta. Obax, como alerta o autor na última página do livro, não é um reconto de um conto africano. É fruto de sua curiosidade sobre a geografia e os costumes do Oeste Africano. Belo exercício de imaginação de André Neves que cria uma África à semelhança das histórias de Obax. Uma África que existe sem existir.
PS: Escrevi para o André Neves e ele me respondeu hoje (dia 16 de junho) assim. " Oi, Luciana, acabo de chegar de viagem, Além do Rio, fui para outra cidade no interior do Rio Grande do Sul. Estou muito feliz com resultado de Obax. Aprendi muito fazendo este livro e vou procurar exercitar esse aprendizado nos outros, em busca de uma qualidade total. Entendi todas suas palavras e sensações para o livro. E ter essa riqueza de sentimento de que você falou como resposta, já valeu a pena.Usei técnica mista para compor as imagens, isto é, vários materiais. Porém a tinta base é a acrílica. Pesquisei o Oeste Africano. Ainda existem aldeias assim, sabia? Onde as mulheres são responsáveis pela decoração das casa, pintando com tintas coloridas.A história é ficção, toda questão africana está na composição gráfica para o livro."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Uma janela aberta para o mundo

A beleza e a dramaticidade de África, o livro de nosso fotógrafo maior Sebastião Salgado, editado pela Taschen, me obriga a abrir uma exceção e deixar entrar no Gato de Sofá uma obra que não é destinada a crianças. As fotos de Salgado mostram um continente grandioso, de belos animais e selvagem natureza, que dá abrigo a uma população castigada pelas guerras e pela fome que luta para manter sua dignidade e identidade. A lente de Salgado mira no ponto mais sensível de nosso planeta e nos sacode da letargia induzida pelas benesses do consumo. Aquela gente sofrida me fez voltar nos anos e reencontrar interlocutores com quem pudesse confessar minha dor ao ver com a crueza do preto e branco tamanha injustiça e desigualdade. A leitura de África, apresentada pela prosa do moçambicano Mia Couto, me fez acreditar que os valores humanistas que nortearam minha adolescência e juventude não foram totalmente soterrados pelo hedonismo do consumismo, que tenta fazer de todos nós seres alienados que se alimentam dos prazeres do materialismo. As fotos de Sebastião Salgado me deram a esperança de que meus filhos vão conseguir encontrar um lugar no mundo em que eles possam ser gente que se irmana com seus semelhantes - ricos ou pobres, iguais ou diferentes - e não apenas máquinas em busca do sucesso e do conforto que o dinheiro pode pagar. Aguardo o dia em que possa mostrar para eles as fotos de Sebastião Salgado e, com elas, abrir uma janela onde eles possam se debruçar para ver o mundo.