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sexta-feira, 28 de maio de 2021

Uma capela para Maria Preta

Essa capela foi erguida em Tebas, um distrito de Leopoldina, em Minas Gerais, pelo meu avô Jacy, a pedido de um preto velho que o protegia. Pai Inácio, como o chamávamos, baixava em meu tio avó, um homem branco, filho de uma família rica de Campos dos Goytacazes que faliu, durante uma enchente que melou um grande depósito de açúcar, seu negócio. Os encontros com Pai Inácio eram compartilhados por todos da família, velhos, adultos e crianças. Ficávamos em volta do velho, com seu cachimbo no canto da boca, a ouvir a fala do povo tão distante da casa apalacetada em um bairro nobre do Rio, em que moravam meus avós, esse tio e a mulher. Eram noites de muita esperança na vida que até hoje, em minha memória, me enchem de afeto. Meu avô foi o primeiro dos quatro anciões da família a morrer. Morreu cedo, aos 73 anos, de um infarto fulminante, deixando seu lugar em minha vida para ser ocupado por esse tio-avô. Salvador, era o nome dele. Só lembro dele velho, com o mesmo cachimbo do Pai Inácio na boca, um roupão de toalha cinza claro e uma sandália franciscana a se arrastar pela casa. Era um homem assertivo, autoritário até, com um travo amargo que vinha de dias ruins, quando o pai falido se matou e deixou a mulher com uma penca de filhos, mas sabia também ser doce, divertido e surpreendente. Até hoje me pergunto como ele, com sua origem, recebia um santo de preto. Um santo que pedia pelos pretos, como foi a tarefa de construir essa capela que legou a meu avô. A família era católica, as duas mulheres, irmãs, piedosas italianas nascidas no Brasil, que rezavam para todos os santos. A capela era uma homenagem da família a Maria Marta, uma mulher escravizada que ao adoecer foi largada pelo cruel senhor no meio do pasto. Morreu lentamente, sofrendo a dor da doença e do abandono. Morreu como mártir, e, assim, foi tratada pelo povo da terra que começou a pedir a ela pelos seus, deixando velas e votos no local de sua morte. O prestígio de Maria Marta ou Maria Preta crescia a cada graça recebida, até que um dia, a pedido de Pai Inácio, meu avô começou a ergueu uma capela em seu nome, no lugar da velha cruz de madeira construída por algum devoto. A preta que morreu no meio do pasto virou santa na cabeça do povo, mas não foi aceita pela Igreja local, cujo padre se negou a benzer o local. Lembro bem da confusão que isso causou em minha família, no dia da inauguração da capela, nos idos dos anos 1970. Meu avô já havia morrido e todos estavam reunidos, tensos, querendo mandar um enviado para Leopoldina ter um duro tête-à-tête com o padre. Meu pai distribuiu tranquilizante para todos e a capela foi inaugurada sem as pompas da Igreja. Anos depois, meu tio, de nome Salvador, como o tio, terminou a capela e entregou sua administração para a Igreja. A capela não foi a única homenagem aos pretos que Pai Inácio encomendou ao meu avô. Ele pediu também, décadas antes de eu nascer, que a família promovesse uma festa no dia 13 de maio para os ex-escravizados e seus descendentes. Uma festa que era aberta na manhã do dia 13 por uma banda de música, continuava com sanfoneiros e era regada a muita cachaça, pão e mortadela. O forró era para todos, durava dois dias e atraía muitos pretos da região. Minha mãe, ainda namorada do meu pai, viu algumas dessas festas e conta da alegria e das bebedeiras homéricas dos convivas, alguns deles ex-escravizados. Era uma festa de brancos para pretos - coisas desse Brasil - que lamento não ter conhecido. Imagino uma festa animada por um grupo de caxambu, o ritmo afro-brasileiro que nasceu nos terreiros dos escravizados, em um pátio de terra, com muitas bandeirinhas, fogueira, latões de leite cheios de cachaça e bancas de comida abastecidas pelas mulheres da família. Imagino a alegria da música, da dança e dos cantos, misturada à dor ainda viva da escravidão. Um mundo que se perdeu com o tempo, a migração para a cidade grande e a chegada das novas gerações. Saudades de meus avós e do Pai Inácio, de quem sempre lembro com o carinho e o amor que eu tinha pelo vô Salvador.

PS: A foto eu peguei no perfil da Rozane Reis, no Facebook, que mantém uma página sobre Tebas.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Eu, o jornal, os poetas e a vontade de habitar meu tempo

Jornal foi uma paixão na minha vida. Não me lembro de um dia sequer na minha infância em que ele não estivesse lá, nas mãos do meu pai, que abria aquelas páginas enormes, abundantes de notícias e anúncios impressos em papel frágil que manchava suas mãos. Eu, mesmo infante, não ficava alheia àquele mundo de adultos em que se discutia os rumos do país e da humanidade. Via o jornal quase como um oráculo dessacralizado que permitia ao leitor se debater contra suas previsões. Eram palavras ao vento, que mobilizavam moinhos. Um primo do meu pai, vizinho de nossa casa de campo, chegava a ficar rubro de raiva ao ler O Globo, que se alinhava à Ditadura Militar, e dizia, com uma voz firme que me parecia ampliada por um megafone, que lia O Globo para se irritar e o Jornal do Brasil para se informar. Nós, como ele, nos ligávamos ao mundo que deixávamos para trás, em busca da paz das férias no campo, pela cesta do seu Levi, um homem de meia idade que vendia jornal, biscoito de polvilho, doces, legumes e algumas conveniências raras em um lugarejo como Tebas, no interior de Minas Gerais. Era uma presença marcante, não por sua beleza, que não tinha, mas pela simpatia e acolhimento que sua figura de homem do campo, com vestes simples, sempre limpas e bem passadas, cabelos brancos, bochechas rosadas e mãos gordinhas, nos transmitia. Eu acompanhava as discussões políticas, das quais seu Levy participava, com a boca de menina toda suja de polvilho e os olhos atentos em um mundo que eu ainda não conhecia.
Ele ia embora para cumprir o resto de sua jornada de trabalho e o jornal envelhecia na mão do meu pai e de seu primo. Passado o meio dia, o que as manchetes nos informavam já era notícia velha, sem serventia, e aquelas folhas enormes e sem refinamento iram servir à limpeza da casa ou ao embrulho de produtos que não exigiam grande higiene. Assim, aos poucos, sem me aperceber fui tomando gosto pelo jornal até que, um dia, me convenci de que estar nele seria uma maneira de participar da vida pública. Eu gostava de escrever e me sentia comprometida com a luta por um mundo melhor. O jornal me parecia o lugar certo para quem, como eu, queria denunciar as injustiças sociais na esperança de superá-las. Assim eu fiz. No derradeiro ano da Ditadura Militar, ingressei na Faculdade de Jornalismo da PUC-Rio certa de que estava saindo do meu mundinho para encontrar o mundo. Um mundo que imaginei possível de ser mirado da janela do prédio do Jornal do Brasil, por onde eu passava em todos os meus retornos ao Rio, e, por sorte ou capricho do destino, foi onde tive a minha primeira experiência em redação. Foi naquele prédio imponente, ancorado em frente ao porto, no início da decadente Avenida Brasil, que eu pisei pela primeira vez em um jornal. Era uma menina ainda, com minha maioridade recém-completa, quando a convite de José Carlos Monteiro, meu professor e então editor do Informe JB, entrei naquele salão enorme em forma de H e me deparei com o burburinho característico de uma redação de jornal. Um frisson produzido pelo tilintar das máquinas de escrever e pelo andar frenético de homens e mulheres para lá para cá, atendendo o telefone como se do outro lado da linha estivesse o presidente da República, o Chico Buarque ou o Pelé. Eles falavam alto como se não houvesse mais ninguém naquele ambiente, em que o tempo parecia acelerado e estranho a quem não estivesse ali. O que mais me impressionou foram os fios, muitos fios descendo do teto para as incontáveis mesas de trabalho. Eram materiais conexões com o mundo e, por isso, estar ali e não se imaginar em seu no centro era humanamente impossível. Essa centralidade a faculdade nunca me dera, nem mesmo insinuara e, ao longo
daquele primeiro ano de curso, fui me convencendo de que não mais me daria. Eu tinha pressa e me transferi para a faculdade de Sociologia e Política, onde o meu tempo pulsava com vigor. Vivíamos nosso dia a dia, nos corredores da PUC, como se o futuro dependesse de nós. Mas não. Eu continuava na borda, lutando para, como João Cabral de Melo Neto, habitar o meu tempo, para encontrar, como Octavio Paz, "a porta de entrada para o presente" e, assim, "ser do meu tempo e do meu século". Tempo que só experimentei de verdade em meu reencontro com o jornal, que aconteceria quase uma década depois do meu ingresso na universidade, com meu retorno à PUC e à faculdade de Comunicação. A porta que transpus para me sentir novamente no centro do mundo foi mais uma vez a do Jornal do Brasil, com sua redação, agora, silenciada pelo computador e diminuída pela arrastada crise que acabou definindo o fim daquele impresso que marcou a história da imprensa no Brasil. Ali, comecei minha carreira de jornalista, ali, aprendi quase tudo que sei de texto, foto, notícia e edição, ali, me senti finalmente habitando o meu tempo, o meu século. Habitando-o como eu podia, com todas as críticas e incômodos que ele me causava, mas habitando-o. O importante, como diz o poeta, era estar ali, enquanto ele ocorria, ao vivo. Foram doze anos de redação. Do Jornal do Brasil fui para O Globo e de O Globo para assessoria de imprensa. Mantive-me na política, razão da minha paixão pelo jornal, e,  assim, continuei, mesmo de fora, a fazer parte do mundo das redações. Eu de um lado, repórteres de outro, todos a favor da notícia e eu, sempre, indo ao encontro do meu tempo. Mas o meu século acabou e veio outro, ainda meu, apesar de estranho tempo em que o jornal já não está mais no centro do mundo, em que o mundo não tem mais centro e todos, inclusive eu, vivemos nas bordas. Minha luta, agora, é para habitar as bordas e alargá-las na busca de uma entrada para um novo presente, um novo tempo, um novo século.

PS: Não deixem de ler O jornal, de Patrícia Auerbach, editado pela Brinque-book. Um lindo livro de imagens - de onde tirei as que ilustram esse texto -, que me inspirou a pensar na importância do jornal na minha vida. Assim mesmo, com artigo definido. E já que falamos do tempo: desejo a todos um feliz 2019. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sobre habitar o tempo, o nosso e de nosso tempo

Tebas, segundo meus filhos, é um lugar que não existe. Mas Tebas existe, sim. Lá escondidinha em um canto de Minas Gerais e, mais ainda, vivíssima, em minha memória. É um lugarejo tradicional, com a praça marcando seu centro, poucas centenas de casas, muitas vendas, uma padaria, uma igreja no alto do morro, com o cemitério se escondendo ao fundo, um campo de futebol, uma escola, uma biblioteca, um precário posto de saúde e uma cadeia pública. Assim é a Tebas que não vejo há quase 20 anos. O lugar onde aprendi a entender o tempo. Um tempo lento, modorrento, prenhe de nada. Por lá, não há pressa, não há surpresas a serem perseguidas e, tampouco, grandes emoções a serem vividas. O tempo na roça é manso, não nos convida para a luta, não quer nos vencer ou ser vencido. Ele corre. Apenas corre junto com os ventos, as águas, os bichos, os moleques atrás dos outros. O tempo na roça é uma experiência, como é o bater de nosso coração, a chuva que se aproxima, as vozes que rompem o silêncio, o crepitar da lenha no fogão. A noite não engole o tempo e tampouco o dia o pare. Ele escorre do claro para o escuro, do escuro para o claro, nos impedindo de fazer contas e de fracionar o dia. Ele passa lento, junto ao suor dos homens que tratam a terra, às conversas de mulheres em roda que amarram o fumo ou ardem ao lado de tachos de doce, ao embalo dos velhos em cadeiras de balanço, a crianças que correm pelos campos, catando matinhos, pedras e tocos. O tempo na roça é assim, quando a gente para, ele para junto para nos permitir descalçar os pés, uni-los ao chão, deixá-los sentir o frio da pedra, a umidade do orvalho, o calor do sol. Somente nossos pés podem fazer o tempo voltar a andar. Em tudo este tempo é diferente do que vivemos na cidade. O nosso tempo - ou será de outro, apenas emprestado a nós - é, assim, apressado, nervoso, cheio de vazio. Um vazio que, ao contrário do nada lá da roça, que se deixa ocupar pelo ar, nos angustia e pede preenchimento. E é na pressa de preenchê-lo que vamos perdendo a intimidade com o tempo. Aqui, em casa, os meninos, em sua correria para saciá-lo, vão a cada dia que passa tendo mais dificuldade em acreditar que Tebas possa de fato existir. De cá, me espanto em vê-los passar suas horas vagas operando dispositivos eletrônicos para matar o tempo com joguinhos e viagens virtuais. Me culpo por não poder oferecer a eles uma realidade que os faça experimentar o tempo, sem a pretensão de vencê-lo, assim de mansinho, como fazem Lia e Nico, personagens de Lúcia Hiratsuka. Eles vivem no campo e brincam como as crianças de lá, com a terra, plantas e bichos. A natureza preenche o universo dos dois irmãos e animam suas aventuras, que, se julgadas pelo padrão do audiovisual contemporâneo, são bastante prosaicas. Mas é justo a simplicidade e a capacidade de cada um em ver sentido em sua própria existência que fazem de Antes da chuva, Corrida dos caracóis A venda, todos editados pela Global, livros preciosos, que podem nos ajudar a mostrar para as crianças pequenas a riqueza de viver a experiência do tempo, sem pressa, sem expectativas, de boa com a própria vida. Lúcia, assim como João Cabral de Melo Neto, no poema Habitar o tempo (que reproduzo abaixo), nos fala do desafio de nos apaziguarmos com o tempo. Ela com a delicadeza de suas aquarelas o frescor da infância, e ele com a força de seus versos ásperos, difíceis, que nos convidam a decifrar os mistérios do tempo, como se estivéssemos diante de uma esfinge. Habitar seu próprio tempo, sem se afastar do tempo alheio é o desafio maior que vivo na maternidade. Deixar meus filhos serem contemporâneos de si mesmos, sem que, para isso, sejam tragados por um tempo hostil, que os alienará de sua própria existência. Um desafio tão enorme, que só me resta pedir a Cronos que tenha piedade de nós.

Habitar o tempo
Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.

Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma Minas Gerais que me toca o coração

Tebas faz parte dos meus sonhos em quase todas as minhas noites. Em sonho, passeio pela casa que foi minha, entro no meu quarto, procuro o que perdi ali há 30 anos e nem sei o que é. Mas não deixo de voltar, procurar meus fantasmas e conversar com meus mortos. Mortos em vida. Mortos pelo abandono. Mortos pelo mudar dos rumos da vida. Mas eles estão lá, como um marco, um porto seguro, uma tarde que não teve fim. Eles fazem parte de uma Luciana que quase ninguém conhece, mas que tem raízes profundas na adulta que sou. Uma Luciana que correu solta pelos campos de pés descalços, que andou em casas de prostitutas e de santas, que chorou de saudades de uma cidade cada vez mais distante e conheceu um mundo em vias de desaparecer. Um mundo onde bichos e gente se misturavam nas ruas de pedra ou de barro, em que era preciso atravessar rios alagados, com a roupa limpa em um saco em cima da cabeça, para sair formosa para os bailes de perto e de longe. Um mundo onde crianças e adolescentes se misturavam em times de vôlei, passeios de bicicleta e banhos de cachoeira. Um mundo em que, nos fins dos anos 70, ainda se lembrava da escravidão e havia clubes de brancos e de negros. Um mundo em que todos se conheciam e meninas andavam de mãos dadas cantando sucessos da MPB. Um mundo de praças, em que se vigiava a vida dos outros pelas frestas das janelas e pequenas novidades eram esperadas ansiosamente. Pequenas novidades, como circos com meninos vendendo pirulitos de açúcar queimado; touradas, não importava se com touros ou vacas; e acampamentos de ciganos. Foi com esse mundo, ainda nas minhas retinas, que li com emoção Ciganos, de Bartolomeu Campos de Queirós, editada pela Global, com belo projeto gráfico de Eduardo Okano sobre ilustrações de Pierre Derlon. A pequena cidade em que o "menino feito de coragem e medo" presencia a chegada de um grupo cigano poderia ser Tebas. E o é nas mulheres com cadeiras na calçada e adultos de pouca conversa com as crianças. No medo que o pai desperta no menino e seu enorme desejo de ser amado por ele. No olhar por sobre as montanhas das Gerais, de onde se pode sonhar com o mar e uma vida que nem se sabe qual é. No viver o tempo de uma maneira que as pessoas da cidade nunca vão entender e é descrita com maestria por Bartô, no trecho em que fala dos ciganos indo embora. "Sem saber se haveria regresso, a saída dos ciganos deixava, nos habitantes da cidade, um vazio impossível de ser preenchido com rezas, novenas, paciência. Era como se a alma ficasse, de repente, desabitada. Contudo, o amor clandestino e suspenso, inaugurado pelos viajantes, era compensado quando os olhos encontravam o terreno vago, ao lado da igreja, aguardando a próxima visita inesperada." Belo livro que mereceu cada prêmio que ganhou.
PS: Para quem quer saber, os prêmios são o Jabuti de Literatura Juvenil, em 1993, o selo Altamente Recomendável da Fundação de Literatura Infanto-Juvenil e a indicação para o Prêmio Bienal Banco Noroeste de Literatura.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um ladrão de ovos e corações

Ilustração do livro publicada no blog da autora
Sempre adorei uma fazenda. Fazendas me fazem lembrar da minha Santa Fé, em Tebas, que começava na Rua Jacy Tavares, uma homenagem ao meu avô, e terminava onde minha curiosidade nunca teve coragem de chegar. Tebas guarda grande parte das minhas lembranças de criança. Uma infância em que eu brincava de casinha, professora, corria e andava de bicicleta com a maior alegria. Lá em Tebas tive os cachorros que sempre desejei no Rio. Primeiro, o Perigo. Um cão vira-latas que caiu de um caminhão e ficou perdido na pequena cidade até encontrar abrigo na Chácara, como todos conheciam nossa casa. "Esse cachorro é um perigo", alertaram os tebanos sem sucesso. Anos depois, desejado e esperado, veio o Travolta. O cãozinho nos foi dado como dálmata e, na verdade, era um mestiço de sei lá o que. O resultado era uma graça e lembrava um setter inglês, com longos pelos brancos manchados com pintas negras, que, passado a decepção com o engodo, nos encantou de imediato. A briga dos três irmãos para passar a primeira noite com o Travolta fez minha mãe ser dura e decretar que ele dormiria no jardim.  Esperei todos dormirem e fui lá resgatar o cãozinho, que se aninhou rapidinho no tapete ao pé da minha cama. Meu castigo não tardou a chegar. O Travolta, com seu intestino recém-nascido, batizou meu quarto, que amanheceu imundo. Estas lembranças me constrangem todas as vezes que nego aos meus filhos um cachorro. Toda criança deveria ter direito a um cachorro. Não há nada mais espontâneo que o amor das crianças pelos cães. Esse amor é o que move a história Ladrão de ovos, de Lúcia Hiratsuka, editado pela SM na coleção Comboio de Corda. Tudo começa quando dois cachorrinhos chegam ao sítio em que moram Laura e Carlinhos. A história alimenta-se das vivências caipiras de Lúcia, que cresceu no interior de São Paulo, e segue o ritmo delicado dos desenhos da autora, que mistura técnicas de aquarela e sumiê em suas ilustrações. O resultado é uma delícia. É quase como ouvir um 'causo' da roça, em que o ladrão rouba não apenas ovos, mas, sobretudo, corações. O dos meus meninos, pela atenção com que acompanharam a história, ele com certeza roubou.

domingo, 3 de abril de 2011

Vivas para Maria Clara Machado!

Acabo de ver um anúncio no jornal em homenagem à dramaturga Maria Clara Machado, que, se viva, estaria completando hoje 90 anos. A notícia me trouxe boas lembranças. Lembranças de minha infância, tempo em que muitas vezes fui ao Tablado para assistir a algumas das 27 peças que ela escreveu para crianças. A que mais me marcou, acredito que a todos que a viram, foi Pluft, o fantasminha. Lindo fantasminha que tinha medo de gente e acaba envolvido em uma perigosa aventura com a menina Maribel, que tinha os cabelos cor de mel, e três covardes marinheiros que tentam livrá-la da perseguição do malvado Pirata Perna de Pau, interessado no tesouro do avô da criança, o Capitão Bonança. Tudo na peça é ternura. "Mamãe, a menina está botando o mar todo pelos olhos", diz um espantado Pluft ao ver Maribel chorar. Imagens como essa fizeram com que os personagens de Maria Clara Machado ficassem no imaginário de gerações e gerações de brasileiros. Quem não pôde ver Pluft no  palco do Tablado, teatro amador que ela criou em 1951, pode vê-lo na TV, em 1975, com a interpretação de Dirce Migliaccio e Norma Blum. Eu o vi no palco do Tablado e na TV e, na adolescência, interpretei-o em uma montagem amadora que eu e meus amigos fizemos no Grupo Escolar de Tebas, em Leopoldina (MG). A direção da peça foi da minha mãe e nós nos divertimos muito com o teatro, que lotou o pátio da escola de um pequeno vilarejo mineiro. A experiência me encantou tanto, que decidi naquele dia estudar teatro. Este desejo me fez assistir a muitas boas montagens de textos maravilhosos, que levavam filas à porta dos teatros do Rio, nos anos 80. Ao chegar na época do vestibular, meu desejo mudou de foco e decidi concorrer a vagas de História e Jornalismo. O tempo passou, eu abandonei a História e o Jornalismo, mudei-me para Sociologia e voltei ao Jornalismo, carreira que exerço hoje. Mas Maria Clara Machado não saiu da minha vida. Tenho até hoje o texto da peça e uma adaptação para literatura, editada nos anos 80 pelo finado Círculo do Livro. Quem for procurar hoje nas livrarias vai achar uma adaptação recente de Pluft, editada pela Nova Fronteira e ilustrada por Graça Lima. Agora, já quarentona, acompanho com atenção os letreiros do Teatro O Tablado, no Jardim Botânico, para ver as trocas de peça e levar meus filhos para ver mais uma da autora que fez o teatro infantil ter a cara do Brasil. Esta conquista, no entanto, parece ter ido para o ralo diante de uma infinidade de peças infantis que transpõem da TV para o palco personagens rasos de imaginação e sem identidade com nossas crianças. Mas não. Todas as vezes que sentamos naquela platéia, vejo que Maria Clara Machado ainda fala para a imaginação dos pequenos, mesmo que eles sejam muito diferentes do que fui. As montagens do Tablado podem ser mais pobres do que as sofisticadas peças dos teatros de shoppings, mas são imperdíveis. Por isso, levo meus filhos em todas as peças lá encenadas e continuo esperando uma nova montagem de Pluft, meu personagem preferido entre tantos desta autora brasileira, que foi traduzida para vários idiomas e montadas diversas vezes fora do Brasil. Com justiça, Maria Clara Machado recebeu mais de uma vez os prêmios Molière, Mambembe e Coca-Cola, entre muitos outros. Que se prepare uma grande homanagem a ela em seus 100 anos, que já estão por chegar.

sábado, 22 de agosto de 2009

De volta à minha casa em Tebas

Minas é um belo capítulo da minha vida. Talvez por isso, eu goste tanto dos livros dos mineiros. Eles falam manso e de coisas que me dizem à alma, como chão, bichos e sentimentos grandes vividos em silêncio. O olhar longo dos mineiros por sobre as montanhas me encanta, desde sempre, me levando de volta para à minha infância e minha adolescência. Não sou mineira, mas poderia ter sido. Meu avô Jacy, nascido em Tebas, um arraial, como se diz lá, distrito de Leopoldina, me deixou de herança o amor por aquela terra. No meio do pomar de nossa chácara, havia uma pedra para lembrar dele e da ligação dos mineiros com sua terra. Todas as vezes que minhas lembranças correm por entre aquelas árvores, paro na frente da pedra para ler sua placa e reafirmar minha ligação com Tebas. "Este pedacinho de chão em que tu cresceste e que tanto amaste, sempre presente para aqueles que te amam". Hoje, Tebas é um lugar na minha memória. Um lugar privilegiado da minha vida. O lugar em que passei belos dias de criança e de adolescente. Talvez por isso, o choque que levei ao ler as duas primeitas frases do belo livro Até passarinho passa, do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela Moderna. "Nossa casa já não existia. Como tantas outras, ela passou." Nossa casa em Tebas ainda existe, mas não como antes. Para ela não passar em minha vida, nunca mais quis voltar lá. Bartolomeu continua falando da varanda da casa, com galhos de maracujá subindo para o telhado, e a porta da minha memória se abre ainda mais. Assim como eu, o menino do livro sabe a dor de ver o tempo passar. Mas sabe também que isso é inevitável e que ele nada pode fazer a não ser preservar este tempo em sua memória. Assim, eu faço para não perder Tebas da minha vida. Belo livro de Bartolomeu, ilustrado com a delicadeza pedida no texto por Elizateth Teixeira. Não a toa a obra ganhou, em 2003, os prêmios Altamente Recomendável, da FNLIJ, de Literatura Infantil da Academia Brasileira de Letras, e o Hours Concours do Melhor para Criança, da FNLIJ; e, finalmente, em 2004, uma menção honrosa do Prêmio Jabuti. Merecido reconhecimento para um livro que nos dá a oportunidade de falar sem dramas para as crianças sobre as perdas que a vida nos impõem.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Minas: ô trem bão, sô!

Trem chegou, trem já vai, de José Carlos Aragão, ilustrado por Elma, da Editora Paulinas, me levou de volta a Minas Gerais, de onde acabei de chegar de uma breve viagem. Embarquei no ritmo do belo poema de José Carlos, inspirado em Manoel Bandeira, com seu maravilhoso Trem de ferro, e desembarquei na Estação de Mariana, onde me surpreendi com o projeto Trem da Vale. Ali, escondidas nas montanhas de Minas, a empresa mantém a praça lúdico-musical e uma bela biblioteca infantil aberta a quem quiser chegar. Eu cheguei pelo trem, vindo de Ouro Preto, onde também funcionam uma biblioteca infantil e o vagão sonoro-ambiental. Tudo em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto, que dá um charme todo especial à cidade mineira. Me fez lembrar da Biblioteca de Tebas, criada por iniciativa do Tio Knnaip, cunhado do meu avô Jacy, onde aprendi a gostar de ler junto com a meninada do pequeno lugarejo mineiro. Viva Minas Gerais, exaltada no poema de José Carlos e nas delicadas ilustrações da paraibana (ou será pernambucana?) Elma, resultado de um trabalho de linha e agulha e retalhos, finalizados por seu pincel. Ilustrações tão lindas que as páginas do livro até parecem um painel daqueles que as mães faziam antigamente para os filhos. Mas o melhor do livro é mesmo poder, a qualquer hora, voltar a Minas. É só deixar a imaginação ser embalada pelo ritmo do trem de José Carlos, que ganhou o selo Altamente recomendável pela FNLIJ 2003, na categoria poesia, e o Prêmio Adolfo Aizen de Literatura Infantil, em 2002, conferido pela União Brasileira de Escritores - UBE.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Um pouco de Bel e Bia

O Pedro adorou tanto o pocket show Bel e Bia que apresentou a mais nova história de Márcio Trigo, dia 16 de maio, na Festa Literária de Santa Teresa (Flist), que assim que ele terminou me pediu para comprar o livro, editado pela Mirabolante. Na hora hesitei por achar que era muito texto para a idade dele, mas resolvi comprar. Bobagem a minha ter tido dúvidas. Ele tinha razão. É realmente muito legal a história das duas amigas que nasceram na mesma maternidade, brincaram e estudaram juntas e foram separadas pela decisão dos pais de Bia de mudar de cidade. As ilustrações de Mariana Massarani, com quem Trigo tem uma velha e bem sucedida parceria, dão ainda mais vida às traquinagens e às boas ações das meninas, dando a elas um gracioso ar hippie. Ele ouviu tudinho com o maior interesse. E eu, confesso, não pude deixar de me lembrar das minhas amigas de Tebas, em Minas Gerais, que foram e ainda são tão importantes na minha vida, apesar da distância. Fiquei até emocionada. O Pedro incrédulo com a minha reação me perguntou porque minha voz estava embargada. Quando falei que era pelo livro, ele riu. Envergonhada, também ri e perdi uma bela oportunidade de falar para meu filho como é bom ter amigos e cuidar deles. Fica para a próxima...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nunca é tarde para conhecer Lygia Bojunga

Uma pena eu adolescente não ter tido a oportunidade de ler Lygia Bojunga. Eu crescia ao mesmo tempo em que ela, jornalista e atriz, se tornava escritora. No lançamento de A Bolsa Amarela, seu terceiro romance, eu tinha apenas 11 anos. Mas, como Raquel, estava estranhando o mundo para o qual me preparava. Tenho a idade de Raquel e muitas de suas questões, mas, ao contrário dela, que teve uma bolsa amarela para carregar seus desejos e abrigar seus amigos imaginários, passei este período da vida sozinha com meus medos e desconfortos. Não foi fácil. Os livros que lia - da minha mãe, da escola ou da Biblioteca de Tebas, lugarejo de Minas Gerais, em que passei três importantes anos de minha vida - não davam voz a adolescentes contestadores. Minhas heroinas eram As meninas exemplares, sempre obedientes, da Condessa de Ségur, e Pollyanna, a personagem de Eleanor H. Porter que supera suas dores e desconfortos brincando com o jogo do contente. Muito diferente de Raquel que nos convence na narrativa em primeira pessoa que tem todas as razões do mundo para estranhar seus pais e irmãos já grandes. Para mim, teria sido um alento saber, nos primeiros dias de minha adolescência, que, em algum lugar real ou imaginário, alguém estava passando pelas mesmas angústias que eu e estava buscando seus caminhos. Mesmo, agora, quase 33 anos depois e com o livro em sua 34ª edição, pela Casa de Lygia Bojunga, a narrativa de Raquel mexeu comigo ao me fazer reviver, com olhos de adulta, aqueles tempos de adolescer. A universalidade da narrativa de Lygia deu ao livro um reconhecimento merecido. A Bolsa Amarela ganhou o selo de ouro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, dado anualmente ao livro considerado O Melhor para a Criança, e o Certificado de Honra do IBBY (International Board on Books for Young People). Traduzido em vários idiomas, a história foi encenada em teatros do Brasil, Bélgica e Suécia. Para quem ainda não leu, posso atestar: nunca é tarde para conhecer Lygia Bojunga.

terça-feira, 14 de abril de 2009

O ritmo da fala do matuto

Eu gosto muito desta história. O bem com o bem se paga, recontado por Edgard Romanelli e editado pela Moderna, tem o ritmo do falar do matuto, de um brasileiro da roça. Um falar que a gente não vê mais por aqui, mas que ecoa até hoje na memória da minha infância vivida parcialmente em Tebas. A roça da minha história tem uma praça e duas ruas principais - uma para cima e outra para baixo - uma igreja, um campo de futebol, uma cadeia, um grupo escolar e uma biblioteca. Biblioteca fundada pelo tio Knnaip, um farmacéutico perdido no interior de Minas Gerais que se achou nos livros e na vontade de partilhar-los com o povo de lá. Uma bibioteca que me ensinou o prazer de ler e de jogar conversa fora sentada na calçada, protegida pela sombra e o aroma de uma árvore de jasmim. O Pedro, que nem sonha com a minha história, também ama a aventura do matuto que salva a onça e por pouco não acaba servindo-lhe de almoço. Até o Antônio encantou-se com a expressividade da onça, traçada por Alberto Nadeo, e prestou a pouca atenção que tem na última leitura que fiz do livro para o Pedro. Foi a primeira vez que li para os dois antes de dormir. Foi um prazer enorme, mas é claro que nenhum dos dois pregou o olho.