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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O olhar mágico de Lúcia Hiratsuka sobre o mundo

As vezes eu fecho os olhos para tentar imaginar o sítio onde Lúcia Hiratsuka cresceu, em Duartina, no interior de São Paulo. Não consigo. O que me vem aos olhos é Tebas, com o chão úmido de orvalho, em que a terra se insinua pelas falhas da grama e onde estão gravadas minhas pegadas, o rastro de um tempo para mim perdido. É nessa Tebas, quase mil quilômetros distante de Duartina, que inscrevo as rememorações de Lúcia, em Chão de peixes, editado pela Zahar, com o capricho que a autora merece. É lá que experimento o tempo vagaroso da criança que consegue enxergar, em um breve instante, o capim reverenciando o grilo atleta que ocupa uma das folhas brancas do novo livro de Lúcia. Um chão que, como diz o nome, é fluido, permissivo ao olhar de quem vê no que não é o que poderia ser. Permissivo à interferência da criança, capaz de caminhar por uma senda, como imagino Deus tenha caminhado no dia da criação. Permissivo à vontade da artista que modela esse novo mundo de acordo com sua sensibilidade, feita matéria em poeminhas que, como os haicais, falam da natureza. Poeminhas ilustrados com as pinceladas da secular técnica sumiê, presente em outros de seus trabalhos. Chão de peixes é mais que um livro, é um convite para uma outra relação com o tempo e as coisas da vida, um convite para sentarmos com nossas crianças apenas para ver as coisas do mundo em movimento, um movimento que, se aceito, pode nos levar a experimentar novos prazeres. É a possibilidade de nos fazer encontrar no chão dessa memória - a folha branca do livro aberta à imaginação - a criança, que, como nos ensinou Walter Benjamin, busca semelhanças no que vê e, por isso, guarda um olhar promissor para com as coisas prosaicas da vida, que nós adultos não conseguimos mais ver valor. É magia que Lúcia nos oferece em seu livro. A nós, resta apenas agradecer.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A foto na cabeceira da minha avó


Tenho muitas lembranças da minha avó materna, que, mesmo morta, ainda faz parte da minha vida. Ela não era uma mulher de fácil leitura. Cresceu e viveu em um pequeno mundo e, nele, se movia obedientemente como se não lhe impusessem limites. Exibia uma beleza discreta, a permitida em seu meio social, e deixava transparecer uma alegria quase envergonhada e alguma tristeza. A maior delas, com certeza, a morte prematura do filho, com 21 anos. Um filho que não conheci e, por isso, nunca chegou a ser meu tio. Dele tenho apenas a lembrança do retrato na mesa de cabeceira da minha avó.

Um retrato de um jovem bonito, sorridente, segurando a rédea de um cavalo de corrida vencedor, como todos esperavam que ele fosse. Um retrato do qual me lembro já esmaecido, desbotado, lavado por uma enchente de Blumenau que quase levou definitivamente de minha avó o filho tão amado e perdido. Naquela foto em sua mesa de cabeceira, aquele rapaz viveu até o último minuto da vida de minha avó. Ela se foi em 1993, na noite em que Madona sacudia o Maracanã. Eu estava lá e, ao chegar em casa, soube de minha avó. Hoje, a tenho em minha estante, em duas poses sorridentes. Uma mulher ainda jovem, bonita, de outro tempo a olhar por mim.

Assim são os retratos para mim. Objetos quase sagrados que mantêm viva a aura de quem se foi, de quem amamos, como se fosse possível dar forma à memória. Perdê-los seria materializar a ameaça sempre viva na cor desbotada do retrato do filho de minha avó. Seria ainda mais. Seria ver morrer mais uma vez aqueles que já nos deixaram. Seria me ver apartada de minha memória, sozinha, sem materialidade para a minha história. É dessa ameaça de separação forçada entre nós e a memória que lembro daqueles dias em que, no Jornal do Brasil, me dediquei ao drama dos moradores do Palace II, o prédio construído pelo então deputado Sergio Naya na Barra da Tijuca, que desabou em um domingo de carnaval de 1998, matando oito pessoas e deixando centenas de desabrigados.

Era madrugada do dia 22 de fevereiro de 1998 e eu estava na Avenida Marquês de Sapucaí cobrindo o carnaval. Não me lembro de a notícia me ter chegado em meio à folia. De manhã, de volta à redação, soube do desabamento. Não havia ainda informação suficiente para sabermos da dimensão da tragédia. Era mais um drama em meio a tantos que cobríamos. Todos os recursos do jornal que não estavam empenhados no carnaval da Sapucaí foram desviados para a cobertura jornalística sobre o Palace II. Eu só cheguei a ela na quinta-feira, depois do anúncio das campeãs.

Eram muitas histórias tristes. As mortes, os desabrigados, o prejuízo da maioria que ainda não havia quitado o financiamento do prédio habitado há apenas dois anos. Tudo concorria para aquela ser uma das maiores tragédias a se abater sobre a classe média carioca. Não me lembro bem qual foi a minha participação na cobertura daqueles primeiros dias, o que me marcou foi a noite que antecedeu à implosão do prédio, ordenada pela prefeitura. O prédio veio abaixo de vez em um domingo, dia 28 de fevereiro, após o desfile das campeãs.

Dessa vez, eu não estava na avenida. Passei a noite, com um farnel e alguns colegas, em frente ao prédio que ruiria assim que o dia amanhecesse. Fui pra rua sabendo que minha pauta podia não dar em nada, que eu podia voltar de mãos vazias para a redação. Meu chefe, o Zé Luiz Alcântara, de quem fui amiga até o fim, me chamou em seu aquário e me pediu que passasse a madrugada em frente ao prédio, para fazer uma matéria caso algum morador tentasse entrar nos escombros, antes da implosão, para resgatar documentos, fotos ou memórias. A tristeza dos moradores com a perda de suas referências materiais era tamanha, que tínhamos medo deles desafiarem a morte em busca de algum resquício da vida que ficara para trás.

Naqueles dias, mulheres não davam plantão de madrugada em jornais. Os perigos da noite ficavam reservados aos homens. Zé Luiz, amigo querido, me deu a possibilidade de recusar a tarefa, mas eu topei. A vontade de estar lá era maior do que o desconforto e os possíveis riscos de passar a madrugada em uma rua deserta da Barra da Tijuca. Foram horas de vigília. Ao contrário do que temíamos, ninguém se aventurou por lá. Nem na rua, nem nos escombros. Havia só seguranças para impedir a entrada na área impedida e uns poucos repórteres. 

Passei a noite imaginando o que estaria debaixo do amontoado de concreto que víamos de longe. Os móveis de uma avó já falecida, o anel que passou de mãe para filha e para neta, a abotoadura que veio na camisa do avô, aquele quadro do amigo talentoso, o faqueiro de família, os cristais ganhos no casamento, a caderneta de escola, a carta do primeiro namorado, a flor desidratada entre as folhas do diário de adolescente, o primeiro cacho de cabelo do filho já adulto, a roupinha usada no batizado do primogênito, a foto de bebê e da formatura, o livro favorito, a coleção de discos, a carteira de trabalho, o caderno de poesias nunca publicadas. 

Passei a noite imaginando a dor de perder o que nos faz lembrar, pensando na foto do filho de minha avó, em sua cabeceira, na dor que seria para ela perdê-lo novamente.


OBS: Peço desculpas por não ter falado de um livro para crianças, nem dos meus filhos. Quis olhar para trás, falar da memória. Da foto na cabeceira de minha avó. Das perdas de quem viu sua casa ruir na tragédia do Palace II, que completou ontem 20 anos. 


sábado, 22 de agosto de 2009

De volta à minha casa em Tebas

Minas é um belo capítulo da minha vida. Talvez por isso, eu goste tanto dos livros dos mineiros. Eles falam manso e de coisas que me dizem à alma, como chão, bichos e sentimentos grandes vividos em silêncio. O olhar longo dos mineiros por sobre as montanhas me encanta, desde sempre, me levando de volta para à minha infância e minha adolescência. Não sou mineira, mas poderia ter sido. Meu avô Jacy, nascido em Tebas, um arraial, como se diz lá, distrito de Leopoldina, me deixou de herança o amor por aquela terra. No meio do pomar de nossa chácara, havia uma pedra para lembrar dele e da ligação dos mineiros com sua terra. Todas as vezes que minhas lembranças correm por entre aquelas árvores, paro na frente da pedra para ler sua placa e reafirmar minha ligação com Tebas. "Este pedacinho de chão em que tu cresceste e que tanto amaste, sempre presente para aqueles que te amam". Hoje, Tebas é um lugar na minha memória. Um lugar privilegiado da minha vida. O lugar em que passei belos dias de criança e de adolescente. Talvez por isso, o choque que levei ao ler as duas primeitas frases do belo livro Até passarinho passa, do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela Moderna. "Nossa casa já não existia. Como tantas outras, ela passou." Nossa casa em Tebas ainda existe, mas não como antes. Para ela não passar em minha vida, nunca mais quis voltar lá. Bartolomeu continua falando da varanda da casa, com galhos de maracujá subindo para o telhado, e a porta da minha memória se abre ainda mais. Assim como eu, o menino do livro sabe a dor de ver o tempo passar. Mas sabe também que isso é inevitável e que ele nada pode fazer a não ser preservar este tempo em sua memória. Assim, eu faço para não perder Tebas da minha vida. Belo livro de Bartolomeu, ilustrado com a delicadeza pedida no texto por Elizateth Teixeira. Não a toa a obra ganhou, em 2003, os prêmios Altamente Recomendável, da FNLIJ, de Literatura Infantil da Academia Brasileira de Letras, e o Hours Concours do Melhor para Criança, da FNLIJ; e, finalmente, em 2004, uma menção honrosa do Prêmio Jabuti. Merecido reconhecimento para um livro que nos dá a oportunidade de falar sem dramas para as crianças sobre as perdas que a vida nos impõem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

O ritmo da fala do matuto

Eu gosto muito desta história. O bem com o bem se paga, recontado por Edgard Romanelli e editado pela Moderna, tem o ritmo do falar do matuto, de um brasileiro da roça. Um falar que a gente não vê mais por aqui, mas que ecoa até hoje na memória da minha infância vivida parcialmente em Tebas. A roça da minha história tem uma praça e duas ruas principais - uma para cima e outra para baixo - uma igreja, um campo de futebol, uma cadeia, um grupo escolar e uma biblioteca. Biblioteca fundada pelo tio Knnaip, um farmacéutico perdido no interior de Minas Gerais que se achou nos livros e na vontade de partilhar-los com o povo de lá. Uma bibioteca que me ensinou o prazer de ler e de jogar conversa fora sentada na calçada, protegida pela sombra e o aroma de uma árvore de jasmim. O Pedro, que nem sonha com a minha história, também ama a aventura do matuto que salva a onça e por pouco não acaba servindo-lhe de almoço. Até o Antônio encantou-se com a expressividade da onça, traçada por Alberto Nadeo, e prestou a pouca atenção que tem na última leitura que fiz do livro para o Pedro. Foi a primeira vez que li para os dois antes de dormir. Foi um prazer enorme, mas é claro que nenhum dos dois pregou o olho.