Mostrando postagens com marcador infância. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador infância. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de setembro de 2021

Eu e o menino da janela, outra vez

Acordei tarde, embalada pelo friozinho que chegou na cidade ontem à noite, e fui cuidar dos meus temperinhos na janela. Do outro lado, distante, estava o menino que grita pela janela. Assim que me viu, gritou: "oi!". Eu olhei em sua direção, surpresa (foi a primeira vez que ele se dirigiu a mim de início). Eu, constrangida com a deferência que me soou como homenagem, gritei de volta: "Oi!" Ele respondeu, "tá frio". Eu de cá, lembrei que hoje é sábado e que muita gente ainda devia estar dormindo, e gritei acanhada: "tá frio". Acenei. O menino acenou de volta. Uma mulher ainda jovem, que parecia ser sua mãe, apareceu na janela, como a me dizer que olha pelo filho. Acenou para mim. Eu retribuí o aceno. O menino, gritou de novo -"tá frio", em uma nova tentativa de puxar assunto. Eu de cá, ainda envergonhada, sem conseguir me despir da minha madureza, sepultei a conversa, com um lacônico "sim". Ele não desistiu, e continuou na janela a me olhar, talvez estranhando a mulher que costuma lhe retribuir os gritos guturais. Talvez tenha pensado que eu ainda não sei falar, que só sei gritar e repetir o que ouço, como os bebês. Será que ele tem um irmãozinho que faz isso, o imita em tudo? Não sei, mas sua mirada insistente me fez perceber que não sou assim tão livre, que não sei mais gritar pela janela como antes. Me vi incomodada. Olhei pro lado e vi as janelas dos vizinhos próximas, pensei "hoje é sábado", "ainda é cedo", "tem muita gente dormindo" e me calei. Me calei porque hoje é sábado, pensei, se fosse um dia de semana eu gritaria, conversaria à distância com o menino da janela. Acenei de novo. O menino mais uma vez retribuiu. De cá, pensei em quantas vezes podia acenar de novo, silenciosamente, protegida pelos meus pés de manjericão e alecrim, sem parecer estranha para o menino. Evitando a resposta, deixei a janela, mas não sem antes acenar mais uma vez para o menino. 

domingo, 18 de julho de 2021

O grito do menino para a menina que um dia eu fui

No prédio em frente ao meu, há um menino que com frequência se diverte gritando na janela. A distância que me separa dele me impede de ver seu rosto, mas posso sentir o seu corpo miúdo próximo a uma rede que o protege do abismo. É de lá, do alto, de costas para a rua principal, de onde é impossível avistar alguém, que ele grita. Gritos que não passam de grunhidos, de berros sem nexo, de mensagens ao léu. De cá, o ouço como se me chamasse, como se falasse à minha infância, ao tempo em que eu, como ele, me debruçava na janela da casa dos meus pais para gritar.

Meu grito, como o dele, era sem nexo e sem destinatário, era apenas um grito para romper o tédio, sentimento incompreensível para as crianças. Eu gritava mais alto e mais agudo que o menino que escuto hoje. Gritava e ria depois, como imagino que ele o faça. Gritava e aguardava as reclamações dos meus irmãos e a reprimenda da minha mãe que me davam a certeza de que meu grito era ouvido. Ele rompia o tédio, ele movimentava a casa, ele me enchia de energia.

Não sei que efeito ele provoca no menino defronte a mim. Não sei se tem irmãos, se a mãe dele o recrimina, se o castiga, sei apenas que ele grita e repete seu grito. Um grito sem nexo, um grito potente, um convite à infância que recebo aqui, como uma intimação. Vou para a janela e grito em resposta ao menino. Ele para, ouve, faz uma pausa e novamente grita. Eu retruco com um novo grito. Ele grita outra vez, modulando a voz para obter novos efeitos. Eu de cá me esmero para emitir um grito diferente. Ele devolve o grito. Eu grito mais uma vez, com medo de estar esgotando meu repertório.

O menino não para, seus gritos não acabam. Eu de cá, tentando renovar meus gritos, me pergunto o que os vizinhos estarão pensando de mim, mas volto a me concentrar em meu interlocutor. O menino sabe de onde vêm os gritos que respondem aos seus. Não vê meu rosto, como não vejo o dele, mas sei que pode perceber pelo meu corpo que sou uma adulta, e parece não se inibir com essa constatação. Me pergunto se minha adultez o confunde. Espero que não. Queria mesmo que meus gritos sussurrassem em seu ouvido que a infância é possível, mesmo quando ela termina, como fazem os seus nos meus.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Uma escola para pais e filhos serem felizes

Hoje, vou falar da escola dos meus filhos. Eles estudam, desde a educação infantil, no Ceat, que se abriga em um cantinho de Santa Teresa, alimentando-se dos ares da Floresta da Tijuca. A escola é um sonho. Instalada em um castelo, forma crianças antenadas com seu tempo e sua gente, solidárias, competentes e felizes. Crianças que podem, no ambiente escolar, viver  integralmente, acionando corpo, mente e  sensibilidade. Crianças com permissão para brincar, para criar, para agir. Crianças-sujeitos são elas no Ceat, que há 50 anos forma cidadãos. Meus filhos e nós, seus pais, somos apenas um pouquinho dessa história, mas todas as vezes que entramos no Ceat nos sentimos inteiros nesse lugar, em que o tempo corre pelos pés dos meninxs que têm o privilégio de crescer naquele pátio, nas curvas do castelo, sob os olhos de tantos professores e funcionários comprometidos com um futuro melhor. Estar no Ceat é, sem dúvida, uma bênção e um privilégio. Nos alenta, nesse mundo de tão pouca empatia, poder contar com uma escola que resiste à banalização da vida e da vontade de saber. Contar com esse corpo, formado por professores e funcionários que promovem a auto-gestão de uma escola sem patrões, para as melhores e necessárias lutas em defesa da educação pública de qualidade. Contar com gestores que criam laços com quem preenche a escola de vida (professores, funcionários, pais, mães e filhxs), e, por isso, estão sempre preocupados em criar políticas de proteção ao emprego e de permanência dos alunos na escola. Em tempos tão bicudos, promovidos pela mais injusta e insensível política econômica que o país já viu, as escolas particulares estão demitindo e perdendo alunos. O Ceat também perdeu alunos, em um drama vivido por todos na escola. As crianças se viram afastadas em seu dia a dia de amigos queridos, os pais que foram, foram tristes, os que ficaram, ficaram também tristes. A vida seguiu, como deveria seguir, mas o que passou não se pode esquecer. Ainda bem. Foi por lembrar, por perceber a falta dos que se foram nas salas de aula é que o Ceat, por meio de seu corpo de professores e funcionários, tomou uma decisão improvável. Congelar os salários de professores e funcionários para congelar também as mensalidades, mantendo os valores desse ano no próximo. Uma decisão que só pode ser tomada sem trauma por uma escola gerida por seus próprios professores e funcionários, em defesa do emprego e da permanência de seus alunxs, em sua maioria, como a própria gestão apontou, filhos de professores, profissionais liberais, artistas, produtores culturais, enfim, de atingidos pela política de terra arrasada do atual desgoverno. Por isso, digo sem medo de errar: eu  o Ceat.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Sobre ser Kihu e seus voos

Um bando de Kihus
Kihu é uma ave de arribação que, todos os semestres, assim que se iniciam as férias escolares, bate asas para a Serra do Matoso. Ela vai em bandos de 45, com pressa para chegar naquela nova terra. Nova, mas sempre a mesma. Pouca coisa muda por lá. Uma ou outra Kihu se junta ao bando, ansiosa por novos ares. O tempo que as Kihus passam na Serra do Matoso é precioso. Só elas podem sentir o cheiro do mato e das flores que cobrem aquele chão, das árvores que lhes garantem sombra, o frescor da água de nascentes em seus corpos, o calor dos cães ansiosos por acolhimento e o olhar misterioso dos gatos que passam a noite a andar pelo mato. Só elas são capazes de encontrar, com seus bicos nervosos, os grãos que se espalham, como moedas em uma caça ao tesouro, pelos caminhos daqueles campos. Quando a noite chega, elas, apenas elas, ouvem o piar das corujas e o burburinho de seus pares. Só elas enxergam o breve piscar dos vagalumes e o brilho do nascer do sol. O farfalhar de suas asas ameaça a calmaria do ar e coloca em movimento céus e terra. Elas trazem novos tempos, que, como em um círculo, é sempre aquele vivido, intensamente, antes e por outros. Mas o vigor de seus corpos subverte a ordem e renova o que era para ser repetido e, assim, o círculo ganha nova atmosfera. Quando uma Kihu envelhece e já não pode mais voar, acompanha atenta o voo das mais novas na esperança de, pelos olhos delas, ver novamente o que lhe é negado por suas retinas cansadas, com tantas idas e vindas. Àquelas que guardam em si a essência de uma Kihu, é dada a possibilidade de experimentar novamente, dispensado a segurança do chão, a magia do voo de uma Kihu. Um voo em que corpo e penas já não são mais sentidos, permitindo apenas a experiência de estar suspensa e livre, de ser uma Kihu.



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nosso coração faz tum-tum por vocês

O Antônio e o Xico são mais que amigos. Como diz a Juliana, são parças. Daqueles parças que entendem o outro só com um olhar, um sorriso ou mesmo com os muitos e muitas vezes pensamentos, digamos, nem tão bons, assim.
Mas erra quem pensa que eles são muito parecidos. Qual nada? O André os descreve como o tempo e o vento. Meu Antônio, que ignora a existência do tempo, é o próprio. Já o Xico, assim como o vento, passa voando ao nosso lado. O resultado do encontro do tempo com o vento é sempre um tufão de boas lufadas, em que a gente nunca sabe, como bem observa o Cadoca, quem é o culpado.
O maior amigo deles é, sem dúvida, o chão. Chão para correr, rolar a mais que amada bola, escorregar, sentar e, se nada mais houver para fazer, deitar. Uma proximidade que faz com que eles tenham, muitas vezes, a cara, o cheiro e a cor do chão. Este mimetismo faz deles largos como o chão.
No chão da cidade, se viram como podem. No clube, no parque, em casa, no play, na escola, onde e como der. No chão da Kihu, descobrem um novo universo em cada tufo de grama, em cada buraco na terra, em cada pedra perdida no terreno. Ali são mais que o Tempo e o Vento. São os amigos inseparáveis. Uma amizade inspiradora, que fez com que o Vento, improvisasse:
- Tom-tom, meu coração faz tum-tum por você – disse, sorridente, para ocupar o tempo, nessa manhã modorrenta, aqui em casa.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Selvagem é o que toda criança devia ser,antes de crescer

Cada dia que passa fica mais difícil fazer o Antônio aceitar a leitura de um novo livro. Ele quer sempre os mesmos ou as histórias tradicionais, sejam os contos europeus ou os mitos de qualquer canto do mundo, e rejeita tudo o que é disso diferente. Ontem, me espantei quando ele, deitadinho na minha cama, aceitou de primeira o livro que lhe ofereci."Selvagem", de  Emily Hughes, talvez o tenha ganho pela capa, como fez comigo. Retangular e em tons de verde, invadida por uma ou outra cor intrusa, a capa é linda e exibe toda a vitalidade da menina selvagem. Ao deparar-se com ela, de olhos esbugalhados, o fitando, ele não teve dúvidas: abriu o livro, editado pela Pequena Zahar, o primeiro da autora havaiana no Brasil, e folheou cada página com bastante atenção. Depois, aceitou que eu lesse a história em voz alta. A expectativa criada pela capa não se frusta com a leitura. A menina selvagem é fofa e é uma espécie de Tarzan, criada na floresta, com a a ajuda dos bichos que por lá moram. Seu contato com os humanos é tão traumático, quanto foi para Tarzan, mas ela é uma criança e isso faz toda a diferença. Sua saga encantou o Antônio, que, desconfio, se identificou com a menina nos bons e maus momentos. Emily acertou em cheio em sua estreia no mundo dos livros ilustrados. Selvagem não fala de boas maneiras e não é um tratado antropológico. É apenas uma ode à infância. Uma infância feliz em oposição a de hoje, cada vez mais reprimida e limitada pelas expectativas que os adultos têm sobre o futuro de suas crianças, impedindo-as de viver com liberdade e descompromisso essa maravilhosa e importante fase da vida. Meninos e meninas vivem hoje a infância como se fossem pequenos adultos, preparando-se para um mundo competitivo, em que todos buscam o dinheiro e o sucesso, como se não houvesse alternativa para esse presente e esse futuro. Eu acho que há. E sabe do que mais. Selvagem é o que toda criança deveria ser, antes de crescer.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A porta aberta pela literatura

A Ana, do blog Abrindo Clareiras, me provocou a tomar partido sobre um debate, que travava com uma amiga, sobre o incentivo, dado por alguns  pais a seus filhos, de ler mediante recompensa em dinheiro. Fui lá responder e me posicionar contra esta estratégia de garantir a leitura com estímulo financeiro e decidi falar um pouco disso também aqui no blog, por saber que o desafio de formar leitores inquieta muitos pais e professores, como inquieta a mim. Discordo dessa estratégia, como discordo de qualquer método coercitivo. Quantos brasileiros não se desgostaram da leitura, em suas aulas de português em que eram obrigados a ler clássicos e a responder a questões de maçantes provas? Nem sei quantos. Não tenho dúvidas de que a leitura deve ser, antes de tudo, um prazer, uma porta aberta para novas sensações e experiências. Mostrar a nossos filhos esta porta, é nosso grande desafio. Mas temos que reconhecer ainda, sem ares de derrota, que muitas pessoas passam a vida sem achar este caminho e, mesmo assim, vivem felizes. Não podemos ser arrogantes ao ponto de pensar que só seremos homens e  mulheres plenos se lermos. A diferença é que, quem encontra esta porta, ganha novos horizontes em um universo onde tudo é possível, um universo de liberdade e possibilidades. O caminho para esta porta, no entanto, não é fácil. Acredito que ela não esteja sempre e, em cada um de nós, no mesmo lugar. Em cada um, ela se esconde em um canto diferente. Cada um de nós será um leitor particular. Não há quem possa dizer a nossos filhos onde eles encontrarão a sua porta, Quem tem dois filhos como eu, ou lida com muitas crianças, como os professores, percebe que os livros falam de forma diferente a cada um deles. O dinheiro, tenho certeza, será mais útil se usado para facilitar o acesso das crianças e dos jovens leitores ao maior número de livros possível. Estes livros podem ser achados em bibliotecas, nas escolas, nos acervos de família ou mesmo comprados nas livrarias e nos sebos. Quanto mais livros pudermos apresentar a nossos filhos, mais possibilidade teremos de eles encontrem em si o lugar onde a porta da leitura está escondida. Uma vez aberta, não há quem não queira atravessá-la. Assim, foi com Maksim Górki (1868-1936), o escritor russo comprometido com a Revolução Soviética de 17, que conta no primeiro livro de sua trilogia autobiográfica a relação de afeto que mantinha com a avó, em ambiente marcado pela violência, e o primeiro contato com os livros em um navio, onde trabalhava como lavador de pratos. Os livros emprestados pelo cozinheiro abriram a porta por onde Górki atravessou até achar seu novo lugar no mundo. Assim, também foi com Graciliano Ramos (1892-1953), escritor nordestino também comprometido com o comunismo de meados do século XX, que superou a aridez e a violência de sua infância ao  encontrar na biblioteca do tabelião Jerônimo Barreto a sua porta para vencer a realidade que o oprimia. Górki e Graciliano nos mostram, nos belos romances em que visitam sua infância, que encontrar a porta da leitura é um grande desafio, mas que, uma vez vencido, nos abre caminhos nunca dantes imaginados. O que nos resta é paciência para ajudar nossos filhos a conseguirem encontrar, em si, a porta a ser aberta pela literatura.

domingo, 8 de julho de 2012

Estela e Marcos e as delícias da infância

Para retomar meus escritos por aqui, nada melhor do que uma série de livros de Marie Louise Gay, editada pela Brinque-Book, que me encanta há anos. Ela conta a história dos irmãos Estela e Marcos, duas crianças encantadoras. Tão encantadoras que aqui em casa encantaram a mãe, o pai, o Pedro e o Antônio. Cada um a seu tempo. O Pedro foi o primeiro a sucumbir ao charme dos irmãos, quando nos chegou às mãos Bom Dia, Marcos, pela ciranda de livros de sua escola. Foi amor à primeira vista. O menino, com ares de bebê e seu cachorro Fred sendo ajudado pela irmãzinha maior a acordar e a se vestir nos conquistou e, com certeza, fez meu filho mais velho antever sua relação com o Antônio, então um menino recém-nascido. A paixão de Pedro pelos dois irmãos era tanta, que fomos aos poucos comprando os oito livros da série. Nesse tempo o Antônio cresceu e passou a ser mais um leitor de Marie-Louise. Foi ele quem me pediu, recentemente, para comprar Estela, rainha da neve. Comprei e vi o Antônio tomar o lugar do Pedro na hora de ler as aventuras dos dois irmãos. Marie-Louise tem uma qualidade rara nos autores para crianças. Ela fala sem qualquer constrangimento, como uma criança. Suas histórias não são sobre elas, nem para elas. São simplesmente delas. Marcos é bem pequenino e pergunta absurdos para a irmã, que, apesar de um pouco mais crescida, ainda pensa com a lógica do maravilhoso e dá respostas tão absurdas quanto as perguntas. Ao absurdo dos diálogos somam-se as delicadas ilustrações da autora, que, assim, cria um clima de fantasia que encanta até mesmo os adultos. O Pedro ria-se todo das bobagens de Marcos e o Antônio, mais crédulo e fantasioso, pergunta o tempo todo se as respostas de Estela estão corretas. Ele fica muito curioso para saber a idade dos irmãos e arrisca um palpite: Estela tem cinco anos e o Marcos, dois. No embalo, sonha o impossível que é ter mais um irmãozinho, desta vez, mais novo. Os dois, cada um a sua maneira, divertem-se a valer com as histórias de Marie-Louise que foram traduzidas para 15 idiomas e já venderam mais de um milhão de cópias. Este sucesso levou os dois irmãos para o Canal Disney do Canadá, que exibe semanalmente uma série de desenhos animados inspirados em Estela e Marcos, que por lá são Stella e Sam. Aqui em casa, os dois meninos vivem apenas nos livros de Marie-Louise e na nossa imaginação. Agora ainda mais. Sábado passado, durante a festa junina da escola dos meninos, tivemos a felicidade de completar nossa coleção. Quando vi, lá estava Bom Dia, Marcos no balcão de prendas, esperando ser escolhido por alguma criança. Sugeri ao Antônio pegar o livro e ele topou. Assim, completamos a série pelo primeiro livro que lemos. E o encontramos no mesmo lugar que o vimos pela primeira vez - na escola. De noite, depois da festa, foi hora da leitura. O Pedro, do alto de seus 10 anos protestou, dizendo que era livro de criancinha e, portanto, chato. Mas, a verdade, apareceu logo nas primeiras frases da narrativa. Pedro parou para ouvir a história e o Antônio amou. Mais uma noite feliz ao lado de Estela e Marcos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O encantamento de Sylvia Orthof

É muito bom quando a gente pega um livro e se encanta por ele, como me aconteceu com Fada Cisco Quase Nada, de Sylvia Orthof, editado pela Ática. O Antônio chegou em casa da escola com o livro da ciranda e logo me pediu para lê-lo. Senti de imediato que aquela história era especial. Nem sempre os livros da ciranda o animam dessa forma. A maioria deles é preterida por ele, que sempre quer ler os seus próprios. Mas a Fada Cisco chamou sua atenção. Tão logo comecei a ler a história de Sylvia Orthof entendi o encantamento do meu filho, tão pequeno como a fadinha que ganha vida nas cores de Eva Furnari. Cisco traz em si a essência da infância tão bem contada na obra de Sylvia, uma de nossas grandes autoras de literatura infantil e juvenil. Uma essência que, segundo Sylvia, pode ser entendida por gente de todas as idades. "A rosa é encantada: só se abre para quem sabe que sempre é tempo de fada", garante ela ao apresentar a morada da fadinha. Passear pela casa da Cisco é outro grande barato do livro que se deve ao rico diálogo entre ilustração e texto. Acompanhar a história de Sylvia de olho nas ilustrações de Eva foi um desafio que encantou o Antônio e a mim, que descobri, com a leitura, que meu filhote já é capaz de ligar ao concreto abstrações - como meia, chulé e pé - e acompanhar sem perder detalhes uma história tão rica quanto a da fada cisco. Ao fim de quase 10 leituras em apenas dois dias, partilhei com o Antônio a certeza de que a Fada Cisco é mesmo muito especial, tanto que ele  chorou quando eu disse que tínhamos que devolver o livro para a escola. Tomara que a Fada Cisco volte para meu pequeno Antônio no fim do ano!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Quer ouvir um segredo?

O fim de semana aqui em casa foi de jejum de histórias. Os meninos foram dormir tarde demais para eu  ainda ter energia para ler para eles. Fui dormir sobre protestos dos dois que nunca acreditam nas minhas ameaças de não ler história, caso eles não se deitem cedo. Por isso, ontem, assim que falei em dormir o Antônio se postou em frente à estante para escolher o de sempre, nos últimos dias: as versões da Disney para clássicos como O Pedro e o Lobo e Os Três Porquinhos. Apesar de parecer irredutível em suas escolhas, eu consegui ler, no contrabando, o que ele trouxe da Ciranda de Livros da escola. O monstruoso segredo de Lili, de Angelika Glitz, editado pela Brinque-Book, é uma graça. O segredo de Lili é uma das delícias da infância e a história ganha cores delicadas e alegres nas belas  ilustrações de Annette Swoboda. Ele não queria ouvir a história de jeito nenhum, mas minha insistência deu certo. No meio do livro  já estava ouvindo e perguntando o porquê de se falar baixinho quando o assunto era um segredo. A resistência contra Lili é a mesma que faz o Antônio, nos últimos tempos, se negar a ouvir quase tudo que escolho ou trago para ele. Ele quer fazer suas escolhas em tudo na vida e resiste em abrir mão delas, mesmo diante de novidades e novas possibilidades. Já o Pedro não pode ver um livro novo na estante que pede para que eu o leia. É assim também com os livros da ciranda do irmão mais novo. Todas as semanas, Pedro pega uma carona nos livros trazidos pelo Antônio da escola. O monstruoso segredo de Lili agradou. Ele ficou com aquele sorriso de quem está crescendo, mas sem perder a ternura. Que a vida o guarde assim!

domingo, 12 de junho de 2011

A infância e o bolinho de bacalhau da Cadeg

Um bom programa de sábado de manhã é comer bolinho de bacalhau e sardinha na brasa na Cadeg, em Benfica. Eu adoro! Adoro tudo. Passear pelo mercado, comprar flores, sentar-me à mesa, esperar pelos maravilhosos bolinhos de bacalhau e olhar a festa da colônia portuguesa no Rio ao som de música de concertina, um instrumento semelhante a um acordeão. Uma das melhores coisas é ver os portugueses e seus descendentes dançarem o vira. Ontem, foi dia. Eu e o Cadoca voltamos lá, levando pela primeira vez o Pedro e o Antônio que descobriram mais uma delícia da vida. Foi uma farra portuguesa que, aqui em casa, volta e meia ganha sessões noturnas com a leitura de Quando eu nasci, de Isabel, Minhós Martins, ilustrado por Madalena Matoso. O livro veio do lado de lá do Atlântico, onde foi publicado em 2007 pela Editora Planeta Tangerina, e desembarcou este ano em nossas bandas pelas mãos da brasileira Tordesilhinhas. Quando eu nasci trata das descobertas pelas crianças das coisas, mistérios e prazeres que a vida nos guarda em uma prosa ritimada e vibrantes ilustrações, que ganharam em Portugal o prêmio nacional de ilustração. Mas como o Pedro disse, o texto é melhor do que as ilustrações compostas em cores básicas, lembrando desenhos de criança. O livro caiu como uma luva para o momento vivido pelo Antônio, tão bem trabalhado na escola, em que ele está curtindo seu crescimento. "Quando eu nasci, nunca tinha visto nada. Só um escuro, muito escuro, na barriga da minha mãe", começa a narrativa que tem o mérito de não nos deixar esquecer que a infância é o tempo das descobertas. Tempo curto que, em meu caso pôde ser vivido em dois momentos, o meu e o do meus filhos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O tempo e a prosa de Bartolomeu

Bartolomeu Campos de Queirós mais uma vez recorre à memória para compor uma bela história sobre o passar da vida. Desta vez, seu protagonista é o próprio tempo, que traz em si a vida e a morte.  Em Tempo de voo, editado pela Comboio de Corda, das Edições SM, o autor mineiro usa sua prosa poética para criar um belo diálogo entre um homem e uma criança. As inquietações dos dois, como o infinito, unem o início e o fim na mesma perplexidade diante da passagem do tempo. 
As perguntas do menino se sucedem às explicações do homem, que aos poucos revela os mistérios do tempo em uma linguagem que expressa a generosidade do velho diante do novo.  “O que é tolerância?”, pergunta o menino, que ouve do homem que é “gostar das coisas mesmo sabendo que elas não são como eu quero”. E conclui, paciente: “Aprendi com o tempo”. 
A delicadeza do diálogo do homem com o menino traz em si uma preciosidade. A serenidade do homem diante da consciência de que o tempo não pára e que está caminhando para seu fim. “Hoje, ele é curto e demanda cuidados”, diz o narrador, diante da infância de seu interlocutor. Esta serenidade empresta uma grandeza ao personagem, que, desta forma, se aproxima dos anciões das sociedades tradicionais em que valores eram transmitidos no diálogo entre jovens e velhos.
A história do diálogo do homem com o menino ainda tem como mérito o fato de trazer em sua narativa as marcas do tempo na prosa de Bartolomeu. Marcas que se equivalem aos risquinhos no rosto do narrador e dão legitimidade a um discurso quase que filosófico sobre o tempo. A riqueza desta prosa valeu dois importantes prêmios para Tempo de voo: o Glória Pondé, concedido pela Biblioteca Nacional a obras infantis e juvenis, e  Jovem Hors-Concours da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil.
Toda esta riqueza se potencializa no encontro com as ilustrações do espanhol Alfonso Ruano. O ilustrador busca inspiração em seus compatriotas surrealistas, da vanguarda do início do século XX, para compor as ilustrações que, prenhes de significados, traduzem com inspiração as inquietações do homem de Bartolomeu diante do tempo. Belas ilustrações para valorizar uma leitura que vale a pena ser feita por jovens ou não tão jovens que queiram abrir um diálogo interior com suas memórias ou com as possibilidades de seu porvir.