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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Sobre ser Kihu e seus voos

Um bando de Kihus
Kihu é uma ave de arribação que, todos os semestres, assim que se iniciam as férias escolares, bate asas para a Serra do Matoso. Ela vai em bandos de 45, com pressa para chegar naquela nova terra. Nova, mas sempre a mesma. Pouca coisa muda por lá. Uma ou outra Kihu se junta ao bando, ansiosa por novos ares. O tempo que as Kihus passam na Serra do Matoso é precioso. Só elas podem sentir o cheiro do mato e das flores que cobrem aquele chão, das árvores que lhes garantem sombra, o frescor da água de nascentes em seus corpos, o calor dos cães ansiosos por acolhimento e o olhar misterioso dos gatos que passam a noite a andar pelo mato. Só elas são capazes de encontrar, com seus bicos nervosos, os grãos que se espalham, como moedas em uma caça ao tesouro, pelos caminhos daqueles campos. Quando a noite chega, elas, apenas elas, ouvem o piar das corujas e o burburinho de seus pares. Só elas enxergam o breve piscar dos vagalumes e o brilho do nascer do sol. O farfalhar de suas asas ameaça a calmaria do ar e coloca em movimento céus e terra. Elas trazem novos tempos, que, como em um círculo, é sempre aquele vivido, intensamente, antes e por outros. Mas o vigor de seus corpos subverte a ordem e renova o que era para ser repetido e, assim, o círculo ganha nova atmosfera. Quando uma Kihu envelhece e já não pode mais voar, acompanha atenta o voo das mais novas na esperança de, pelos olhos delas, ver novamente o que lhe é negado por suas retinas cansadas, com tantas idas e vindas. Àquelas que guardam em si a essência de uma Kihu, é dada a possibilidade de experimentar novamente, dispensado a segurança do chão, a magia do voo de uma Kihu. Um voo em que corpo e penas já não são mais sentidos, permitindo apenas a experiência de estar suspensa e livre, de ser uma Kihu.



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nosso coração faz tum-tum por vocês

O Antônio e o Xico são mais que amigos. Como diz a Juliana, são parças. Daqueles parças que entendem o outro só com um olhar, um sorriso ou mesmo com os muitos e muitas vezes pensamentos, digamos, nem tão bons, assim.
Mas erra quem pensa que eles são muito parecidos. Qual nada? O André os descreve como o tempo e o vento. Meu Antônio, que ignora a existência do tempo, é o próprio. Já o Xico, assim como o vento, passa voando ao nosso lado. O resultado do encontro do tempo com o vento é sempre um tufão de boas lufadas, em que a gente nunca sabe, como bem observa o Cadoca, quem é o culpado.
O maior amigo deles é, sem dúvida, o chão. Chão para correr, rolar a mais que amada bola, escorregar, sentar e, se nada mais houver para fazer, deitar. Uma proximidade que faz com que eles tenham, muitas vezes, a cara, o cheiro e a cor do chão. Este mimetismo faz deles largos como o chão.
No chão da cidade, se viram como podem. No clube, no parque, em casa, no play, na escola, onde e como der. No chão da Kihu, descobrem um novo universo em cada tufo de grama, em cada buraco na terra, em cada pedra perdida no terreno. Ali são mais que o Tempo e o Vento. São os amigos inseparáveis. Uma amizade inspiradora, que fez com que o Vento, improvisasse:
- Tom-tom, meu coração faz tum-tum por você – disse, sorridente, para ocupar o tempo, nessa manhã modorrenta, aqui em casa.