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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Querido diário

O Antônio deu para ler sozinho, sem a minha presença ou ajuda. Entre os livros que escolheu para essa aventura está O diário de um banana, de Jeff Kinney, que o atrai por ser coisa de menino, ao mesmo tempo que o desagrada por Greg, o protagonista, estar sempre sendo sacaneado pelo irmão mais velho, Rodrick. Apesar de ele e o Pedro se darem muito melhor do que os irmãos do livro, muitas vezes se parecem com eles, como dá para ver no causo que conto a seguir.

Antônio me pediu um diário. Com cadeado e tudo para guardar a sete chaves seus melhores e maiores segredos.
Fomos à papelaria, fuçamos as estantes e só encontramos diários para meninas. Cor-de-rosa, poderoso com caixinhas de música, decorado com corações, bonequinhas de luxo ou princesas, enfim, nada que lembrasse o universo de um menino apaixonado por futebol e louco para treinar sua letra cursiva e, assim, chegar abafando no terceiro ano.
- Ah, mãe, então não quero – falou, desanimado.
- Filho, a gente pode comprar um caderno maneiro e ele ser o seu diário.
- Mas, assim, todo mundo vai poder ler meu diário - replicou. 
- Não. A gente compra o caderno e um envelope com fecho eclair para você guarda-lo. 
- Então, tá – assentiu, feliz.
Catamos na papelaria um caderno – o escolhido foi um do UFC, mais menino impossível -, um lápis do Brasil, um apontador e o envelope preto com fecho, que escondia tudo em seu interior. Ele saiu felizão da papelaria, com o diário debaixo do braço, ansioso pelo momento que poderia ficar sozinho com seus segredos.
Chegamos em casa e ele pôs-se a escrever. Escreveu, escreveu, escreveu. Apagou, apagou, apagou. Escreveu mais e mais e escolheu o Xico, seu comparsa de quase todas as horas, para compartilhar seus segredos e depois, com toda a pompa que o momento merecia, guardou o diário. Não a sete chaves, mas escondidinho, num canto do armário.
Os dias se passaram, o diário foi sendo deixado de lado, até que neste carnaval, voltou à ativa. Renato, o primo adulto e desavisado do caráter confidencial do caderno, o abriu e se surpreendeu com o conteúdo. Lista dos amigos, lista negra, lista da família, etc. Mas o melhor viria na lista dos melhores amigos, em que só três sujeitos figuravam: “meu irmão, meu primo e meu cocô.” 
Isso mesmo, “meu cocô.”
- Mãe, olha o que o Antônio escreveu no diário dele – Pedro veio correndo delatar – Ele disse que o cocô dele é um de seus melhores amigos – contou, rindo, com cara de irmão mais velho, diante das maluquices do mais novo. 
E não é que o cocô do menino estava mesmo lá, entre seus melhores amigos. Todos se puseram a indagar a razão de escolha tão esdrúxula. 
- Será que o Antônio se sente aliviado quando se livra do cocô e por isso ele é um de seus melhores amigos, ou se ele gosta tanto dele que o guarda para quando o carnaval chegar – perguntava, rindo, o irmão. 
 
Eu fiquei de fato intrigada com o que poderia ter feito meu menino eleger o cocô, tão desprezado pela humanidade, como um de seus amigões e cheguei a pensar que essa resposta fazia parte dos mistérios da vida. Mas não. Era apenas mais uma daquelas maldades perpetradas pelo irmão mais velho, contra o mais novo.
Então aos fatos. O Pedro e o Renato resolveram tirar uma onda com a cara do Antônio e o fizeram incluir, em seu próprio diário, o cocô na lista de seus melhores amigos. Cocô inscrito, vieram a mim, mãe crédula e ansiosa por novidades, mostrar a lista dos amigões do pequeno. Minha surpresa não foi surpresa para os dois grandões, que se divertiram a valer com a bem-sucedida maldade contra o menor. Tudo bem, não fosse a mãe ter contado para todo mundo sobre as estranhas amizades do filho caçula.
- Mãe, eles me obrigaram a escrever o cocô na lista dos meus melhores amigos – contou-me o Antônio, com os olhos úmidos e um tom entre o humilhado e o revoltado, ao saber que eu divertia meus amigos com a história do cocô amigão.
A confissão que deixou a história a nu, me fez pensar em como nós, adultos, não entendemos nada de cocô, de crianças e de melhores amigos, além de me fazer lembrar da dor e da delícia de se ter um irmão mais velho. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Chiclete, uma boa razão para seguir lendo

Tenho passado pouco pelo blog. Sei disso. A vida está corrida, muitas coisas ao mesmo tempo, mudanças por vir. Mas nossa rotina leitora continua. O Antônio não dorme sem ouvir uma história. É seu momento mágico de aconchego, em que reclama seus direitos de filho e disputa meu amor com o irmão. Ele sempre me quer a seu lado, lendo para ele e depois o aguardando pegar no sono. Os dias que leio primeiro para ele para depois ler e fazer um cafuné no Pedro são um inferno em sua vida. Ele chora, pergunta mil vezes se eu não vou dormir em sua cama, tenta estragar a leitura do irmão, leva broncas, não raro é expulso do quarto, enfim, um tumulto. Mas o amor de irmão, quando verdadeiro, supera todos estes momentos. Tanto que outro dia, exausta, deitei cedo, avisando que não leria para ninguém. Os dois, maior e menor, entraram em meu quarto de mãozinhas dadas para tentar mais uma vez. Diante de minha negativa saíram e se ajeitaram como puderam. Foi quando eu vi, encantada, o Pedro lendo para o irmão. Os dois juntinhos, na mesma cama, lado a lado, como dois irmãos amados. Naquela hora, quem visse, não  poderia imaginar as inúmeras brigas, as implicâncias, as chatices, os egoísmos, enfim tudo o que anima e desespera a vida de quem tem irmão. O Pedro, muitas vezes, se condói do Antônio e cede para ele. Já o contrário, é pouco comum. O Antônio, nos últimos tempos, tem apelado para garantir minha presença em sua cama ao lembrar dos momentos em que o irmão, irado comigo, diz que sou chata. "Mãe, o Pedro nem gosta de você!" Não posso deixar de lembrá-lo que ele também me renega em seus chiliques e que, apesar de raivas passageiras, os dois continuam a me amar, assim como eu não deixo de amá-los nos momentos em que quase me levam a loucura. Assim, nessa animação de casa com muitas crianças, vamos recebendo novos personagens em nossa vida. O último a chegar foi Chiclete, o irmão mais novo de Judy Moody. O personagem apareceu primeiro na série dedicada à sua irmã, um sucesso da Editora Salamandra no público formado por meninas pré-adolescentes, e acabou ganhando vida própria pelas mãos de Megan McDonald, com a ajuda das ilustrações de Peter H. Reynolds. Não é a leitura sonhada pelas mães, mas é leitura que agrada a nossos filhos, com uma narrativa que mistura humor e escatologia. Confesso que acho o universo de Chiclete pobre, mais pobre ainda do que muitos de seus concorrentes, como As Aventuras do Capitão Cueca e o Diário de um Banana, mas ele agradou ao Pedro e é isso que me importa, neste momento, para não deixar que se afaste dos livros à medida que a adolescência se aproxima. Pedro já leu três dos cinco livros do irmão de Judy Moody e só deixou o quarto de lado para ler o sexto da série do Banana, recém-lançado no Brasil. Assim, segue lendo. Bobagem ou não, é o livro que o encanta neste momento da vida. Que ele possa encontrar, sempre, em toda a sua vida, personagens que lhes deem razões para continuar a ler.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O humor e as delícias de um leitor iniciante

O Diário de um Gato Assassino, de Anne Fine, das Edições SM, foi lido de um único fôlego para um Pedro atento que, ao fim da narrativa, lamentou-se por sua brevidade. Realmente o livro é pequeno, com apenas 64 páginas e algumas poucas ilustrações de Sofía Balzola, mas é super bacana. A sacada da autora inglesa foi criar um gato, que segue o esteriótipo do felino dono de um humor sarcástico, para tratar da naturalidade da morte. Para o gato, esses eventos são banais, para seus donos, uma pequena tragédia. E para quem os lê, uma divertida aventura. São livros assim que tenho procurado para oferecer para o Pedro, atualmente um aficionado da série Diário de um Banana, de Jeff Kinney, editado no Brasil pela Vergara & Riba. O banana veio depois dos sete volumes de As Aventuras do Capitão Cueca, de Dav Pilkey, editados pela Cosac Naify. Nada contra o banana, que acho muito engraçado, e o Cueca, que acho uma bobagem sem fim. Muito pelo contrário! Eles fizeram o Pedro ler por conta própria e dividir suas experiências de leitura com os amigos. Ponto para eles! Mas isso não me impede de buscar obras que tenham maior preocupação com o estilo da narrativa. O que não é fácil! Meu olhar está sempre focado em livros com humor, já que ele é uma excelente isca para um menino de 9 anos, que começa a descobrir as malandragens da vida. Mas o humor não é um recurso literário fácil de ser trabalhado. Eu, pelo menos, não rio de qualquer coisa que leio ou vejo. Meu riso é difícil, mas quando encontrado, incontrolável.  Assim, tem sido por toda a minha vida. O Pedro está no meu caminho, que acredito, vale dizer, ser o mais comum. Por isso, tem sido um desafio encontrar bons títulos para ele, como já falei disso brevemente aqui. Ele já passou da fase de ler livros ilustrados e ainda não está maduro o suficiente para ler sozinho obras com muito texto. Isso faz com que me empenhe cada vez mais para não deixá-lo sozinho nesse momento, em que passa a ser um leitor/ouvinte mais exigente. A dificuldade dele encontrar sozinho o que ler, poderia significar uma ruptura em seu processo de formação de leitor. Há quem diga que estou sendo excessivamente tutora e preocupada com isso e que deveria o deixar mais solto e livre para buscar suas escolhas literárias. Mas o que temo é que, nessa idade, o Pedro ainda não tenha vontade suficiente para sozinho alimentar sua fome de leitura e, que sem combustível, ela vá aos poucos se apagando, como uma vela asfixiada. Enquanto eu tiver prazer em fazer essa garimpagem, por que não?