
Antônio me pediu um diário. Com cadeado e tudo para guardar a sete chaves seus melhores e maiores segredos.
Fomos à papelaria, fuçamos as estantes e só encontramos diários para meninas. Cor-de-rosa, poderoso com caixinhas de música, decorado com corações, bonequinhas de luxo ou princesas, enfim, nada que lembrasse o universo de um menino apaixonado por futebol e louco para treinar sua letra cursiva e, assim, chegar abafando no terceiro ano.
- Ah, mãe, então não quero – falou, desanimado.
- Filho, a gente pode comprar um caderno maneiro e ele ser o seu diário.
- Mas, assim, todo mundo vai poder ler meu diário - replicou.
- Não. A gente compra o caderno e um envelope com fecho eclair para você guarda-lo.
- Então, tá – assentiu, feliz.
Catamos na papelaria um caderno – o escolhido foi um do UFC, mais menino impossível -, um lápis do Brasil, um apontador e o envelope preto com fecho, que escondia tudo em seu interior. Ele saiu felizão da papelaria, com o diário debaixo do braço, ansioso pelo momento que poderia ficar sozinho com seus segredos.
Chegamos em casa e ele pôs-se a escrever. Escreveu, escreveu, escreveu. Apagou, apagou, apagou. Escreveu mais e mais e escolheu o Xico, seu comparsa de quase todas as horas, para compartilhar seus segredos e depois, com toda a pompa que o momento merecia, guardou o diário. Não a sete chaves, mas escondidinho, num canto do armário.
Os dias se passaram, o diário foi sendo deixado de lado, até que neste carnaval, voltou à ativa. Renato, o primo adulto e desavisado do caráter confidencial do caderno, o abriu e se surpreendeu com o conteúdo. Lista dos amigos, lista negra, lista da família, etc. Mas o melhor viria na lista dos melhores amigos, em que só três sujeitos figuravam: “meu irmão, meu primo e meu cocô.”
Isso mesmo, “meu cocô.”
- Mãe, olha o que o Antônio escreveu no diário dele – Pedro veio correndo delatar – Ele disse que o cocô dele é um de seus melhores amigos – contou, rindo, com cara de irmão mais velho, diante das maluquices do mais novo.
E não é que o cocô do menino estava mesmo lá, entre seus melhores amigos. Todos se puseram a indagar a razão de escolha tão esdrúxula.
- Será que o Antônio se sente aliviado quando se livra do cocô e por isso ele é um de seus melhores amigos, ou se ele gosta tanto dele que o guarda para quando o carnaval chegar – perguntava, rindo, o irmão.
Eu fiquei de fato
intrigada com o que poderia ter feito meu menino eleger o cocô, tão desprezado
pela humanidade, como um de seus amigões e cheguei a pensar que essa resposta
fazia parte dos mistérios da vida. Mas não. Era apenas mais uma daquelas
maldades perpetradas pelo irmão mais velho, contra o mais novo.
Então aos fatos. O Pedro e
o Renato resolveram tirar uma onda com a cara do Antônio e o fizeram incluir, em
seu próprio diário, o cocô na lista de seus melhores amigos. Cocô inscrito,
vieram a mim, mãe crédula e ansiosa por novidades, mostrar a lista dos amigões
do pequeno. Minha surpresa não foi surpresa para os dois grandões, que se
divertiram a valer com a bem-sucedida maldade contra o menor. Tudo bem, não
fosse a mãe ter contado para todo mundo sobre as estranhas amizades do filho
caçula.
- Mãe, eles me obrigaram a
escrever o cocô na lista dos meus melhores amigos – contou-me o Antônio, com os
olhos úmidos e um tom entre o humilhado e o revoltado, ao saber que eu divertia
meus amigos com a história do cocô amigão.
A confissão que deixou a
história a nu, me fez pensar em como nós, adultos, não entendemos nada de cocô,
de crianças e de melhores amigos, além de me fazer lembrar da dor e da
delícia de se ter um irmão mais velho.
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