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quinta-feira, 7 de julho de 2011
João e Maria e as diferenças entre irmãos
O Pedro e o Antônio, desde o nascimento, me mostraram ser inútil fazer planos para os filhos. Eles me contrariaram logo de início para que eu não me animasse a idealizar o futuro. Tudo começou no dia em que nasceram. O Pedro, com previsão de nascimento para o início de fevereiro, me fez sonhar com o parto no dia 2, dia de Iemanjá e de festa no mar. Mas o danado resolveu aparecer apenas no dia 3, à uma hora da madrugada. Chegou a vez do Antônio. Eu teria que fazer uma cesariana e o médico me pediu para marcar a data. Depois de muito resistir, marquei para o dia 20 de abril, que atendia a todos e a meu desejo de ter um filho ariano. Mas não é que o danadinho nasceu no início da tarde, quando o sol já estava em Touro? Passado esse susto, pensei com os meus botões: "Vou viver tudo outra vez com meu caçulinha". Mas que nada. O Pedro e o Antônio até tem feições semelhantes, apesar de um ser moreno de cabelos cacheados e outro louro de cabelos encaracolados, mas em pouco se parecem em suas vivências. A começar pelas roupas que eu havia guardado de um para o outro, com tanto carinho. O Pedro nasceu no verão e o Antônio, no outono. Assim, quando as roupas serviam no tamanho não serviam mais no modelo e no tecido. Depois, vieram os brinquedos. O que o Pedro mais gostava não encantava o Antônio. E, por fim, os livros. Os livros de que o Pedro tanto tinha ciúmes, mas que em sua maioria não enchiam os olhos do Antônio. Meu caçula é um leitor (sic) de muita personalidade. Ele escolhe todos os dias as histórias que quer ouvir. Já o Pedro aceita, até hoje, minhas sugestões. E entre essas histórias a única coincidência com o repertório do Pedro foram o lobo mau, os três porquinhos e os sete cabritinhos. No mais, o mais velho adorava livros com informação científica e sobre bichos que nunca consegui ler para o Antônio. Por outro lado, o Pedro morria de medo de quase tudo e o Antônio enfrenta os vilões com o maior interesse. Foi assim com João e Maria, o conto tradicional que chegou a nossos dias pelo esforço dos Irmãos Grimm. A história das crianças abandonadas pelo pai e a madrasta na Floresta Negra hipnotizou o Antônio várias noites. Li a versão da Coleção Clássicos Caramelo, em que a história é recontada por Joan Cameron e ilustrada por Andrew Whestcrof. Mas o que não falta são versões dos contos clássicos. Confesso que sou encantada com Contos de Fadas Clássicos, de Helen Cresswell, que tem belíssimas ilustrações de Carol Lawson. O livro, editado pela Martins Fontes, é uma riqueza, que, no entanto, não cativa tanto os pequeninos, como o Antônio, já que as ilustrações não recontam a história quadro a quadro, como no livro da Caramelo. O que o Antônio queria é ver o João, a Maria, a bruxa, a casinha de doces e perguntar a cada lance da história o porquê disso e daquilo e, principalmente, de os pais os terem abandonado. Fato é que meu menino, ainda tão pequeno, foi até o fim da história que, o Pedro tem razão, é realmente assustadora. Dois meninos pobres abandonados à própria sorte para enfrentar os perigos da floresta e a fome. Mas que ela seja contada assim e não na simplificação grosseira que, sob o manto do politicamente correto, transformou a história de horror em um pequeno comercial de guloseimas que nada tem a contribuir com o universo simbólico de nossas crianças.
sábado, 12 de março de 2011
Uma bruxinha para chamar de sua
Faz tempo que não escrevo no blog, eu sei. Mas é que aqui em casa fevereiro é um tempo animado. Além da rotina de sempre - trabalho e filhos -, ainda temos o carnaval. Eu e o Cadoca adoramos a folia, que no Rio começa duas semanas antes do carnaval oficial. Por isso, não tenho escrito no blog. Mas nossas leituras noturnas continuaram. O Pedro hoje é um leitor mais exigente. Gosta de novelas e romances, onde pode acompanhar por mais tempo as aventuras e desventuras de seus personagens prediletos. Estamos lendo o quarto livro da série do Pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny. O da vez é A volta às aulas do pequeno Nicolau, editado pela Rocco Jovens Leitores. Ele não se cansa de saber da gulodice do Alceu e das trapalhadas da turminha do Nicolau. Ri que faz gosto. Já o Antônio, meu menino que está prestes a completar quatro anos, adora variar. Cada dia quer um livro diferente. Mas ele tem suas predileções que variam de tempos em tempos. As atuais são O bem com o bem se paga, recontado por Edgard Romanelli e editado pela Moderna, e já comentado aqui, e A Casa assombrada, de Kazuno Kohara, editado pela Cosac Naify. A história da menina que não era apenas uma menina, era também uma bruxa, é realmente encantadora. Tão encantadora que dá frescor às velhas histórias de casas assombradas por fantasmas. Isso explica a razão de o Antônio ter me feito lê-la todos os dias da semana que passou. Como sempre ele resolveu renomear os personagens com nomes de seus amigos queridos. A bruxinha virou Marina e o gatinho, Lucas. Mas no meio da semana o Lucas perdeu o posto para o próprio Antônio, que passou a ser o companheiro das caçadas de fantasmas da Marina. A história é daquelas que permitem às crianças suas próprias fantasias. O texto e a imagem têm a sintonia necessária aos bons livros de imagens, fazendo com que a história seja lida e vista ao mesmo tempo. A japonesa Kazuno Kohara, radicada em Londres, é autora do texto e das ilustrações. Ele teve uma bela sacada para dar leveza à bruxinha e seu companheiro gatinho e aos fantasmas. Suas ilustrações foram todas criadas nas três cores do Halloween - laranja, preto e branco - e impressas em papel Alta Alvura, 150g/m, o que dá elegância ao livro. A leveza e o humor da história são um convite para as crianças, assim como a bruxinha, fazer os fantasmas de gatos e sapatos e rir um bocado do medo que mora em cada um. Pelo menos é isso eu e o Antônio temos feito antes de dormir, com a ajuda da bruxinha de Kazuno Kohara.
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