Mostrando postagens com marcador selo altamente recomendável fnlij. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador selo altamente recomendável fnlij. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A vida e a morte podem deixar frutos

A morte e o envelhecimento são temas difíceis. Tão difíceis que muitas vezes nos furtamos de encará-los. Mas eles estão lá, no fundo de nossas emoções, nos assombrando. A nós e a nossas crianças até que alguém, como o escritor austríaco Christian Duda, radicado na Alemanha, resolve trazê-lo à luz e, com coragem, encarar de frente o incômodo que eles nos causam. Duda assim o fez em Todos os Patinhos, seu livro de estreia na literatura infantil e juvenil, editado no Brasil pela Cosac Naify, em 2009.
A história do encontro da raposa Conrado e do patinho Lourenço e da formação de uma improvável família servem para o autor tratar sem temor do curso natural da vida que nos leva ao envelhecimento e à morte. Mas este caminho pode ser profícuo, como nos propõe o autor, se ele for pavimentado pela certeza de que, em vida, nos demos para alguém que vai continuar nossa história. Mesmo que para isso tenhamos que, como Conrado, abrir mão de prazeres mais imediatos e previsíveis e viver uma história nada convencional.
A narrativa de Duda é rica em humor, como gostam as crianças, e lirismo para falar da relação construída entre Conrado e Lourenço. Relação tão intensa e verdadeira que nem mesmo o envelhecimento e a morte a ameaçam. Quando eles chegam, chegam com a calma dada pelas coisas inevitáveis e assim são vividos pela raposa e pelos patinhos. Da mesma forma que chegam para aqueles anciões, que, calmamente, se desenlaçam da vida por ter a certeza de que a viveram plenamente.
Isso, no entanto, não elimina o mal estar que o tema provoca. Mas nos oferece uma rara oportunidade para tratar do destino de todos os seres vivos com as crianças, que, mesmo caladas, sofrem com esta predistinação ao imaginar a morte delas e de seus pais.  
O drama de Conrado e Lourenço, no entanto, é amenizado pela força da narrativa de Duda, que encontra no traço vibrante das ilustrações da alemã Julia Friese, radicada na Irlanda, uma excelente parceria que rendeu prêmios na Alemanha e o selo brasileiro de Altamente Recomendável, concedido este ano pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil). O encontro entre autor e ilustrador de Todos os patinhos deu tão certo, que eles lançaram em agosto deste ano, na Alemanha, um novo livro para crianças – Schnipselgestrüpp, ainda sem tradução para o português.  
As ilustrações de Julia misturam tons fortes, recortes e colagens para nos criar a impressão de estarmos vendo um desenho animado. Julia não abre mão nem mesmo dos rabiscos iniciais das cenas descritas por seu traço. A força de seu desenho justifica as páginas duplas, nas quais, sem texto, as ilustrações são o único recurso narrativo. O impacto poderia ser ainda maior se Julia tivesse ousado e impresso o livro em um papel mais grosseiro do que o couché fosco, o que daria mais vida ao efeito rústico que a ilustradora dá ao cenário.  
De qualquer forma, Todos os patinhos é um belo livro para jovens leitores preocupados com os mistérios da vida e da morte. O texto de Duda e as ilustrações de Julia não lhes darão respostas, mas, com certeza, provocarão um rico diálogo interior na busca de preencher um pedacinho do vazio que a morte provoca a todos – crianças e adultos.


PS: Este texto foge do padrão dos relatos postados neste blog por ter sido produzido para o curso de pós-graduação em Literatura Infanto-Juventil da UFF. Antes de escrevê-lo, li o livro para o Pedro, meu filho de oito anos, que estava se divertindo com a narrativa de Duda até perceber a morte na história. Ele, como já falei aqui outras vezes, lida muito mal com este tema. Por isso, ouviu o resto da história com o olhar enevoado e ao fim disse que era chata. Chata para ele, antes e acima de tudo, é a morte. Para mim também, mas, como Duda, percebi que uma vida bem vivida pode dar sentido a ela. Espero que o Pedro também consiga perceber isso um dia. Até lá, o que fazer? Só lhe resta conviver com este mal estar, que atravessou quase todos os dias de minha vida.  

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A dor de cada um

A literatura para o Pedro ainda é uma experiência compartilhada com os adultos. Apesar de ele, com seus 8 anos, já ser capaz de ler, a gente lá em casa ainda tem a prática de levá-lo para a cama com a promessa de uma história. Histórias que ultimamente são escolhidas, na maioria das vezes, pelo próprio, que garante, desta forma, a repetição de seus livros preferidos. A apresentação de novidades fica, assim, bastante prejudicada. Conto com um cochilo do Pedro para sacar de uma nova história para experimentar a leitura com ele. Em muitos destes momentos cogito escolher uma história de Lygia Bojunga, escritora que a cada livro que leio gosto mais. Apesar disso, sempre a deixo de lado. São dois os motivos para esta hesitação. O primeiro é eu achar o Pedro ainda muito novo para a maioria  das histórias de Lygia. O outro é eu sentir um desconforto ao pensar em ler para meu filho narrativas tão intimistas, que tratam de crianças em diálogo com seu mundo interior para superar seus conflitos com os adultos e com a realidade. Ler Lygia Bojunga para meu filho me soa como uma invasão de privacidade, como uma tentativa indevida de bisbilhotar os sentimentos mais íntimos dele. Me perguntam se não poderia ser diferente, se eu não poderia já apresentar-lhe algumas destas histórias sem fazer comentários. Talvez, mas acho que prefiro que o Pedro tenha esta experiência no momento que escolher e sozinho. Sozinho para pensar em como nós adultos lhe caímos na alma, no que lhe falta e no que lhe sobra na vida. Assim como o menino protagonista de Seis vezes Lucas, de 1995, teve que romper o silêncio interior para entender seu isolamento e aceitar que a história de seus pais - indiferentes a seus desejos e dores - não lhe pertencia para finalmente poder crescer. Acredito que o Pedro também vai crescer quando se deparar sozinho com suas questões. Uma solidão que pode estar assistida por mim e pelo pai dele para que, ao contrário dos pais de Lucas, nós possamos entender seu mal-estar e lhe estender a mão. 
PS: A capa (na foto), assinada por Roger Mello, é da primeira edição. Hoje, o livro é publicado pela Casa Lygia Bojunga Editora. Seis vezes Lucas recebeu os prêmios Jabuti e Orígens Lessa, da FNLIJ, e o selo de altamente recomendável da FNLIJ.