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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Entre mim e o outro há mais do que um bife e uma pipoca

Tenho dois filhos, como os seguidores desse blog sabem. Dois meninos, um de 14 e outro de 9 anos, que têm toda a vida pela frente. Sonhei para eles com um Brasil mais justo, que fosse dando passos largos para se afastar do país em que vivi grande parte da minha vida. Um Brasil em que mulheres pobres entravam todos os dias na minha casa - seja minha ou a da minha mãe - para lavar pratos, latrinas e roupas e cozinhar a comida nossa de cada dia. Não raro, estas mesmas mulheres saíam da minha casa, com a certeza de que, na delas, estariam sujos os poucos pratos que tinham, também suja a única e velha latrina e quase vazias as panelas gastas. Ainda pior. Seus filhos, aqueles mesmos meninos pobres temidos pela família das patroas, estariam entregues à própria sorte, soltos na rua, driblando o azar, ou trancados em casa para se proteger da violência de um mundo em que não havia lugar para eles. Um Brasil onde nós, filhos da elite e da classe média, dividíamos nossa infância com crianças pobres, que estariam presas para sempre à pobreza e a uma espécie de minoridade cidadã. A nós era dada a promessa de crescer e ganhar o mundo. Adultos, assumíamos o lugar de nossos pais, enquanto os meninos pobres buscavam seu lugar na área de serviço. Uma realidade que era naturalizada pelo discurso do mérito ou da falta dele, que escondia a verdadeira origem do problema. Um discurso que perdoava a todos nós por seguir a vida, sem nos revoltarmos ou solidarizarmos com aqueles que, um dia, foram nossos amigos de infância. Eu vivi isso e não vivi só. Cresci, fui para a faculdade; errei, tive outra chance; me empreguei, construí uma carreira; me descolei da minha infância, onde, tenho certeza, absoluta certeza, muitos de meus amigos continuam. Waldemar é deles o que mais me marcou. Filho de uma família de lavradores pobres do interior de Minas, que expropriados da terra foram parar na cidade, onde viviam sem muita função, esquecidos pelos bem-nascidos, Waldemar era semi-analfabeto e, por isso, sofria, coitado, com nossas risadas diante de sua ignorância. Um dia, sem mais, Waldemar parou de brincar comigo e meus irmãos para trabalhar como jardineiro na fazenda de minha família. Nós, então, adolescentes o esquecemos e começamos a planejar uma vida bem longe dali. Ele, no entanto, foi ficando por lá e tenho certeza, ainda hoje, está está no lugar que foi de seu pai, junto com outros milhões de brasileiros que ficaram para trás no processo de modernização conservadora pela qual o Brasil passou nos últimos 50 anos. Entre nós ficou mais do uma enxada a separar nossos mundos. Fechou-se uma porta, a mesma que se abria para ele, na minha infância. Por ela, não havia como alguém, como Waldemar, passar, e nós, naqueles dias, não estranhávamos esse sinal fechado. A minha sorte foi ter tido, do lado de cá da porta, uma família que, apesar de todos os seus vícios de classe, sonhava com um mundo sem portas fechadas, mesmo que ele nos parecesse distante. Eu cresci, atravessei muitas portas e deixei Waldemar para trás, mantendo-o prisioneiro em minha memória. Waldemar me serviu mais como uma bússola do que como uma lembrança. É em sua figura de menino de coração bom e ingênuo que me fixo todas as vezes que preciso escolher um lado na vida. É do lado dele que me coloco todas as vezes que a vida me pergunta com quem quero me irmanar. É nesse sentimento, que sei não ter mais nada de amor ou amizade, que reafirmo meu compromisso ético com um mundo menos desigual e mais justo. É este mundo que quero legar a meus filhos, para permitir que, estejam onde estiverem na vida, possam se emocionar com o que é humano, mesmo que essa humanidade, como nos ensinou João Cabral de Melo Neto, seja uma vida severina. E é por isso que, aqui em casa, as mazelas humanas estão sempre em pauta. Não vou, é claro, impor aos meus filhos doses diárias de sofrimento alheio, mas, também, não vou educá-los como se eles não tivessem nada com isso. A melhor maneira que encontrei de colocá-los diante da dor alheia, em um mundo com tantas portas fechadas a nos separar dos outros, é a experiência que a literatura nos proporciona. Ler é sempre um bom exercício de empatia e alteridade e, por isso, não devemos ter medo quando nossos filhos se emocionam com os livros. Ver os olhinhos deles marejados nos aperta o coração, sei disso, mas também nos dá esperança de que sejam pessoas capazes de experimentar-se na experiência do outro, o que é, nesses dias de individualismo exacerbado, um alento e uma esperança. Esse exercício de alteridade é desconfortável, mas acima de tudo é necessário e a literatura é uma boa maneira de vivê-lo. Nem sempre ela nos faz rir ou sonhar, como muita gente acredita que seja seu papel. Muitas vezes nos faz sofrer, um sofrimento que nos permite adiante um sorriso e um sonho ainda melhores. Esse caminho nos é oferecido por muitos livros para crianças, mas destaco aqui o conto O bife e a pipoca, de Lygia Bojunga, editado em Tchau, pela Casa de Lygia Bojunga, pela coragem de sua narrativa. A autora narra, sem constrangimentos, o encontro de Rodrigo, filho da classe média, com Tuca, menino de favela que estuda, graças a uma bolsa, em uma escola de bacanas. O conto é preciso no espanto que os dois experimentam ao se aproximarem. Um encontro que revela as diferenças entre seus dois mundos. Na casa de classe média, não é preciso razão para se comer um bom e suculento bife, já, na casa do pobre, a pipoca é servida como iguaria fina. Um contraste que dói no estômago do leitor e faz a leitura do conto se constituir em uma experiência sofrida, mas necessária por fazer nossos meninos pensarem no desconforto do outro e no quanto, esse sentimento, nos afeta, O Pedro, meu filho, leu o conto na escola, aos 10 anos, e foi convidado pela professora a escrever uma carta, aos moldes do que Rodrigo escrevia para seu melhor amigo, contando sobre sua relação com Tuca. A carta do meu menino deu conta do seu espanto com a história de Tuca e Rodrigo e apontou para o entendimento de de era possível conviver e aprender com alguém tão diferente dele. Uma carta de um menino chocado com uma dor que não imaginava existir e que lhe foi apresentada pela narrativa de Lygia, sempre corajosa ao colocar o dedo na ferida. A literatura é assim, como minhas memórias de infância, em que tantos ficaram para trás, um pouco de dor e de delícia. Ao lidar corajosamente com essa dualidade de sentimentos, ganhamos a possibilidade de andarmos para frente. Assim na literatura, como na vida, não podemos nos livrar dessa dualidade. Quem tenta passar ao largo desse desconforto, acaba se livrando da empatia, aquele sentimento que nos torna humanos e nos liga aos outros. Por isso, eu luto. Para, como disse Vinícius de Moraes, "ninguém tivesse mais que lutar".

terça-feira, 23 de março de 2010

Um livro é para sempre

Acho que sou uma pessoa bastante desprendida com os objetos. Não guardo as primeiras roupas dos meus filhos, o meu brinquedo da infância preferido, presentes que ganhei dos primeiros namorados, enfim, não tenho apego por coisas que não têm mais uso para mim e que podem significar alguma coisa para outras pessoas. Mas não me desfaço de livros. Se eles valem a pena, os guardo, mesmo sem lê-los. As vezes me sinto mesquinha por isso. Porque não doar os livros que já li? Mas não. Estão todos aqui em casa. O Pedro, ao que tudo indica, será como eu. Logo depois que o Antônio nasceu, ele me disse que daria tudo que era dele para o irmão. Roupas e brinquedos, mas os livros não. Eu argumentei que um dia ele iria crescer e não querer mais ler aquelas histórias de criança. "Aí você não vai se importar de dar seus livros para o Antônio." Ao que ele retrucou me perguntando se eu gostava mais dos meus filhos ou dos meus irmãos. Sem entender a pergunta, ele me explicou que não podia doar para o Antônio o que planejava guardar para seus filhos. Ri, com a certeza de que um dia ele deixaria o irmão ficar com seus livros. Alguns deles, aqueles para crianças menores, já estão na estante do Antônio. Ao que parece, essas pequenas doações não o fizeram esquecer de seus planos. Anteontem travamos mais um capítulo deste diálogo. Ao me ver encapando um livro recém-comprado, me perguntou porque eu sempre fazia aquilo. Expliquei que os livros de crianças ficam muito gastos com o uso e que ao encapá-los os estava protegendo.
- Assim, eles duram mais para outras pessoas lerem.
Ao que ele perguntou.
- Mãe, o que o que vai acontecer com os livros quando eu morrer?
- Eles vão ficar com os seus filhos - disse, seguindo sua própria lógica.
- E e quando os meus filhos morrerem?
- Vão passar para os seus netos - continuei, explicando que até hoje tenho livros que foram do meu avô, da minha avó e até da minha bisavó.
Não satisfeito, insistiu.
- E quando morrer todo mundo da nossa família?
- Aí, eles vão ficar como uma marca de que nós passamos por este mundo.
PS: Depois desta conversa, me lembrei de O livro - um encontro, da sempre maravilhosa Lygia Bojunga: "Para mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros m e deram casa e comida." Vale a pena ler.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ana Paz é uma protagonista sem protagonismo

Não é fácil falar de Fazendo Ana Paz, de Lygia Bojunga, porque não é fácil falar de uma narrativa densa de emoção como a da escritora gaúcha. Ao sentar-me no computador para iniciar esta resenha, tive que vencer primeiro a tentação de centrar meu texto no depoimento de como a novela de Lygia me tocou para então enfrentar o desafio de escrever sobre a narrativa da autora e dos recursos que ela usou para se comunicar com o leitor.
A Ana Paz não é uma protagonista comum. Lygia não centra seus esforços em criar uma trama para manter o interesse sobre Ana por toda a narrativa. Ela é o instrumento usado por Lygia para falar de outro protagonista: o processo de criação de um personagem. Este sim consome todos os esforços da autora. Ana Paz é uma personagem incompleta, sem passado claro e em busca de um futuro incerto. Mas é no diálogo com ela que Lygia fala de como seus personagens foram tomando corpo.
Ana Paz, destaca logo de início a autora, faz parte de uma estirpe de personagens que foge à regra de sua galeria de tipos que, segundo a própria, sempre hesitam em vir à tona. Ela, assim como Raquel, de A Bolsa Amarela, “chegou sem a mais leve hesitação e foi dizendo: ‘Eu me chamo Ana Paz; eu tenho oito anos; eu acho o meu nome bonito’.” Mas engana-se quem pensa que a desenvoltura da personagem garantiu tranquilidade à autora.
A pressa de Ana Paz em se apresentar traduziu-se em um turbilhão de emoções em que Lygia vê-se enredada em todo o livro. A angústia gerada pelo embate autora/ personagem é o fio condutor de toda a narrativa de Lygia na novela. Ana Paz não se importa com os questionamentos de sua criadora sobre a pertinência de sua personagem e obra. Ela quer existir, ela quer ganhar corpo com a publicação da obra.
Lygia hesita. E hesita não por causa de Ana Paz. Seu problema é com o pai da protagonista que, assim como os outros personagens da autora, hesita em existir. Lygia vai e volta na narrativa em busca de um sentido para um pai perseguido pela polícia que pede a filha que não se esqueça de uma carranca. Que pai é esse, de que ele foge, o que esta carranca simboliza na relação entre pai e filha? Sem estas respostas, Lygia não vê sentido para sua obra e para sua personagem, que, assim, fica incompleta.
Mas Ana Paz, convicta de sua existência, mesmo que seu passado não esteja claro, quer viver, quer ganhar as páginas, quer ganhar autonomia. Lygia resiste até que, cansada de brigar com sua personagem, a liberta de sua crítica e transforma Fazendo Ana Paz em uma obra sobre o processo de criação. Não à toa a autora encerra o livro com Pra Você que me Lê, em que fala de como garimpa em seu passado e em sua memória fatos que, em sua narrativa, ganham novas cores e emoções para dar vida a quem sustenta sua obra: seus personagens.
PS: Este texto foge do tom impressionista das outras postagens por ser uma resenha que fiz para o Grupo Letra Falante, cordenado pela professora Ninfa Parreiras, na Estação das Letras. O grupo está lendo a obra de Lygia Bojunga e, em breve, todas as resenhas dos livros de Lygia estarão publicadas no site Dobras da Leitura, que tem uma seção especial para o Letra Falante.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O que há entre o bife e a pipoca?

Foi uma decepção a leitura de Ponto de Vista, de Ana Maria Machado, para o Pedro. Li página por página com a maior calma para que ele não se perdesse no ritmo da narrativa em versos todos rimados, mas não deu certo. Ao fim de tudo perguntei o que ele tinha gostado e sua resposta foi curta: do Ziraldo. Insisti e ele repetiu a resposta. Justa escolha. Realmente o Ziraldo é o máximo e seu traço geométrico valoriza o morro e os prédios da cidade partida descrita por Ana Maria. Mas desconfiei que a resposta era de alguém que, na verdade, não tinha entendido a narrativa e mudei a pergunta. O que você entendeu do livro? A resposta veio curta e direta: "Nada." Não me espantei. Afinal, a narrativa em versos rimados, que nem sempre seguem a ordem natural das orações para fechar as rimas, confunde um leitor iniciante como o Pedro. Parei e expliquei para ele a história dos meninos que nasceram um na favela e outro no asfalto, se encontraram na praia e se tornaram amigos de toda a vida. Bonita mensagem de alguém que sofre com a cidade partida. Mas, confesso, achei um pouco ingênua. Mas me perguntei se esta ingenuidade não seria necessária para apresentar este problema a um menino, como o meu, de apenas 7 anos? Talvez. Por isso, guardei para mais tarde o conto O bife e a pipoca, do livro Tchau, de Lygia Bojunga, editado pela Casa de Lygia Bojunga, que traz a realidade nua e crua do encontro de Rodrigo, menino de classe média, e Tuca, menino de favela que estuda de bolsa na escola de bacanas. O conto é preciso no sofrimento de Tuca e de Rodrigo, que ao se aproximar um do outro entendem as diferenças entre seus dois mundos. Doído, mas real. Leitura para quando o Pedro puder suportar o tranco. Por enquanto, vamos ficando com o sonho de vencer as desigualdades com nosso esforço de não descriminar os diferentes.