Confesso que, agora nas férias, a hora de dormir, aqui em casa, está cada vez mais tumultuada. Colocar um ponto final no dia do Pedro e do Antônio não tem sido tarefa fácil. Sempre há alguma coisa ainda a ser feita: terminar o filme que estão vendo, fazer o último gol no Fifa 15, comer a maçã noturna, mandar a última mensagem para o amigo ou qualquer outra razão que retarde o momento de escovar os dentes e dormir. Quando, enfim, consigo vencer todos esses desafios estou cansada, irritada e com muita pouca vontade de contar qualquer história para eles. É a hora da choradeira. O Antônio esperneia e chora pela história de todo dia e, quase sempre, eu cedo e procuro um livro para ler. A leitura também não tem sido fácil, já que vencer a dispersão dos dois é outro desafio digno de um herói grego. Como sou apenas mãe - e muitas vezes a pior mãe do mundo - faço o que posso. Nessa hora escolher a história certa é um trunfo contra a bagunça que se instala no quarto. Nem sempre dá certo, mas quando dá é uma alegria, ou melhor, um sossego. Foi assim com O livro da selva, de Rudyard Kipling, que calou os filhos e levou a mãe a lágrimas. O fim do primeiro conto - Os irmãos de Mogli, em que o menino lobo e seus amigos são apresentados ao leitor - se antecipou, em minha emoção, ao dia em que meus filhos, já grandes, vão sair de casa, Assim foi com Mogli e a mãe loba, quando ele, já homem, deixou a alcateia e a selva para ir ao encontro da aldeia dos homens. Inseguro, Mogli chorou. Seus irmãos menores prometeram nunca esquecerem-se dele, seu pai pediu que ele voltasse à floresta para vê-los e sua mãe lhe declarou todo o seu amor. A beleza da narrativa de Kliping, a princípio, apenas me embargou a voz, mas a medida em que prosseguia a leitura, não aguentei, e acabei chorando de verdade, o que deixou meus filhos espantados e preocupados comigo. Foi a oportunidade de conversamos brevemente sobre o poder que um bom texto tem sobre a emoção dos leitores. Kipling escreveu O livro da selva com apenas 29 anos e aos 42 anos ganhou o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. A beleza de sua narrativa faz com que o universo de Mogli, fantástico por si só, ganhe ainda mais força. Não foi sem razão que meus meninos se aquietaram diante de suas aventuras. Com certeza, leremos os outros contos que, por sua beleza, mantêm-se vivos, apesar de terem sido escritos há mais de 100 anos. Me arrisco a dizer que o livro de Kliping ainda vai valer a pena para muitas gerações de leitores.
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
O dia em que Mogli deixou a alcateia onde foi criado
Confesso que, agora nas férias, a hora de dormir, aqui em casa, está cada vez mais tumultuada. Colocar um ponto final no dia do Pedro e do Antônio não tem sido tarefa fácil. Sempre há alguma coisa ainda a ser feita: terminar o filme que estão vendo, fazer o último gol no Fifa 15, comer a maçã noturna, mandar a última mensagem para o amigo ou qualquer outra razão que retarde o momento de escovar os dentes e dormir. Quando, enfim, consigo vencer todos esses desafios estou cansada, irritada e com muita pouca vontade de contar qualquer história para eles. É a hora da choradeira. O Antônio esperneia e chora pela história de todo dia e, quase sempre, eu cedo e procuro um livro para ler. A leitura também não tem sido fácil, já que vencer a dispersão dos dois é outro desafio digno de um herói grego. Como sou apenas mãe - e muitas vezes a pior mãe do mundo - faço o que posso. Nessa hora escolher a história certa é um trunfo contra a bagunça que se instala no quarto. Nem sempre dá certo, mas quando dá é uma alegria, ou melhor, um sossego. Foi assim com O livro da selva, de Rudyard Kipling, que calou os filhos e levou a mãe a lágrimas. O fim do primeiro conto - Os irmãos de Mogli, em que o menino lobo e seus amigos são apresentados ao leitor - se antecipou, em minha emoção, ao dia em que meus filhos, já grandes, vão sair de casa, Assim foi com Mogli e a mãe loba, quando ele, já homem, deixou a alcateia e a selva para ir ao encontro da aldeia dos homens. Inseguro, Mogli chorou. Seus irmãos menores prometeram nunca esquecerem-se dele, seu pai pediu que ele voltasse à floresta para vê-los e sua mãe lhe declarou todo o seu amor. A beleza da narrativa de Kliping, a princípio, apenas me embargou a voz, mas a medida em que prosseguia a leitura, não aguentei, e acabei chorando de verdade, o que deixou meus filhos espantados e preocupados comigo. Foi a oportunidade de conversamos brevemente sobre o poder que um bom texto tem sobre a emoção dos leitores. Kipling escreveu O livro da selva com apenas 29 anos e aos 42 anos ganhou o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. A beleza de sua narrativa faz com que o universo de Mogli, fantástico por si só, ganhe ainda mais força. Não foi sem razão que meus meninos se aquietaram diante de suas aventuras. Com certeza, leremos os outros contos que, por sua beleza, mantêm-se vivos, apesar de terem sido escritos há mais de 100 anos. Me arrisco a dizer que o livro de Kliping ainda vai valer a pena para muitas gerações de leitores.
sábado, 3 de janeiro de 2009
As marchinhas também encantam crianças
Na sexta-feira, eu e meu marido fomos assistir com uns amigos à reestréia do musical Sassaricando, e o Rio inventou a marchinha, em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. O espetáculo é tão legal que me arrependi de não ter levado o Pedro. Acredito que ele, apesar de ser uma criança, iria curtir a peça e a possibilidade de conhecer as marchinhas que nos deixaram uma herança de irreverência e clássicos, que de tão conhecidos parecem até música de domínio público. Afinal que criança nunca ouvir falar do pirata da perna-de-pau, do olho de vidro e da cara de mau? Do Zezé e sua cabeleira? Das touradas de Madri? E da Marcha do Remador? Elas podem não saber que eram marchinhas, mas que as conhecem, as conhecem. E pela cara das várias crianças que estavam na platéia, o musical pode ser um boa opção para nossos filhos.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Desconstruindo o lobo



O Pedro, meu filho mais velho, foi um apaixonado por Os três porquinhos. Todos os dias ele pedia para contar a história dos três irmãos perseguidos pelo lobo mau. A repetição era tanta, que comprei mais de uma versão para a história e a usei como tema de sua festinha de três anos. O Pedro, como outras crianças apaixonadas por esta história, tinha um medo enorme do lobo. Afinal, era um lobo muito mau que, em algumas versões, infernizava a vida dos porquinhos e, no original, comia os dois mais novos sem piedade. Mais tarde, desapegado dos porquinhos, ele começou a gostar de histórias de outros lobos. O lobo e os sete cabritinhos também era um clássico aqui em casa, apesar da violência da narrativa que acaba com o lobo jogado no lago com um monte de pedras na barriga. Dá para imaginar o fim trágico do malvado lobo que come os filhos de dona Cabrita. Até que chegou uma hora em que foi necessário desmistificar este tal lobo mau. Há uma série de livros que fazem isso. Mas há dois que valem a pena ser citados. Chapeuzinho Amarelo, do nosso Chico Buarque, ilustrado com maestria por Ziraldo e editado pela José Oympio Editora, e O cuidado com o menino, uma história inglesa de Tony Blundel, traduzida por Ana Maria Machado e editada pela Salamandra. São leituras maravilhosas que mostram que o lobo não é tão poderoso assim. A história de Chico é maravilhosa e leva a criança a perceber que o medo do lobo é fruto de sua imaginação e que, afinal, ele pode não ser tão mal assim. A libertação de Chapeuzinho é contada em versos que, se lidos com vontade, transformam-se em um mantra contra o medo. Para fechar o ciclo dos lobos, vale O cuidado com o menino. É bom mesmo ter cuidado, afinal o menino é tão esperto que faz do lobo faminto gato e sapato. O fim do lobo que se preparava para jantar o menino é surpreendente.
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