Contos de
Grimm, com seleção e tradução de Ana Maria Machado, editado pela Salamandra,
estava há algum tempo na minha lista de desejos. O livro é caro, já que são
dois volumes, mas exerceu sobre mim imediata atração. Além da promessa de bom
texto, pela assinatura de Ana Maria Machado, e de boas histórias, pela fonte dos
Grimm, os livros são ideais para quem quer apresentar o mundo maravilhoso
dos contos de fadas para as crianças. A linguagem é adequada e as ilustrações
de Jean Claude R. Alphen, no primeiro volume, e Cris Eich, no segundo, são lindas e colaboram, cada um com seu estilo, para compor o clima mágico das histórias. Com todos estes atributos, resolvi comprar os livros e os apresentar
para meus filhos. Na verdade, minha intenção primeira era ler para o Antônio,
já este ano sua escola vai explorar a diversidade do universo dos
contos maravilhosos, mas o Pedro se inscreveu logo na fila, prestando uma
baita atenção na leitura de ontem à noite. Escolhi para a estreia o conto O lobo e a raposa, contando com
o carisma dos dois animais para prender de imediato a atenção do Antônio. Deu certo! Logo
no início do conto, Ana Maria, apresenta a raposa como explorada pelo lobo, que
a escraviza na ânsia de saciar sua insaciável fome. A ação que se segue mostra
a raposa explorada por um insensível lobo, até ela usar de um artifício para livrar-se dele, induzindo-o à morte. Foi quando vi o interesse do Pedro. "O
que aconteceu mesmo com o lobo?". Repeti o fim em que o lobo, algoz da
raposa, é enganado por sua vítima e morto a pauladas por um enraivecido
fazendeiro. O Pedro ficou revoltado com a atitude da raposa. Eu tentei explicar
que a raposa tinha enganado o lobo para se livrar de uma terrível exploração e
de nada adiantou. "Os dois estão errados", disse convicto.
Confesso que torci pela raposa. Os explorados sempre têm minha simpatia. Já o Pedro ainda não tem condições de entender que, quando vale a lei do mais forte, a única ética é a da sobrevivência. Fugir dessa
ética é possível apenas quando temos mecanismos de defesa contra a força
desproporcional de nossos exploradores. O lobo e a raposa das histórias
tradicionais são anteriores a uma ética pautada pelo bem e o mal, que, no
caso do conto em questão, reprovaria tanto a vítima, quanto o algoz. Acho que não fui capaz de explicar isso para ele. Mas da próxima vez, tento de novo. Então, que a Ana Maria nos conte
outra!
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quarta-feira, 7 de março de 2012
O lobo, a raposa e a lei do mais forte
Contos de
Grimm, com seleção e tradução de Ana Maria Machado, editado pela Salamandra,
estava há algum tempo na minha lista de desejos. O livro é caro, já que são
dois volumes, mas exerceu sobre mim imediata atração. Além da promessa de bom
texto, pela assinatura de Ana Maria Machado, e de boas histórias, pela fonte dos
Grimm, os livros são ideais para quem quer apresentar o mundo maravilhoso
dos contos de fadas para as crianças. A linguagem é adequada e as ilustrações
de Jean Claude R. Alphen, no primeiro volume, e Cris Eich, no segundo, são lindas e colaboram, cada um com seu estilo, para compor o clima mágico das histórias. Com todos estes atributos, resolvi comprar os livros e os apresentar
para meus filhos. Na verdade, minha intenção primeira era ler para o Antônio,
já este ano sua escola vai explorar a diversidade do universo dos
contos maravilhosos, mas o Pedro se inscreveu logo na fila, prestando uma
baita atenção na leitura de ontem à noite. Escolhi para a estreia o conto O lobo e a raposa, contando com
o carisma dos dois animais para prender de imediato a atenção do Antônio. Deu certo! Logo
no início do conto, Ana Maria, apresenta a raposa como explorada pelo lobo, que
a escraviza na ânsia de saciar sua insaciável fome. A ação que se segue mostra
a raposa explorada por um insensível lobo, até ela usar de um artifício para livrar-se dele, induzindo-o à morte. Foi quando vi o interesse do Pedro. "O
que aconteceu mesmo com o lobo?". Repeti o fim em que o lobo, algoz da
raposa, é enganado por sua vítima e morto a pauladas por um enraivecido
fazendeiro. O Pedro ficou revoltado com a atitude da raposa. Eu tentei explicar
que a raposa tinha enganado o lobo para se livrar de uma terrível exploração e
de nada adiantou. "Os dois estão errados", disse convicto.
Confesso que torci pela raposa. Os explorados sempre têm minha simpatia. Já o Pedro ainda não tem condições de entender que, quando vale a lei do mais forte, a única ética é a da sobrevivência. Fugir dessa
ética é possível apenas quando temos mecanismos de defesa contra a força
desproporcional de nossos exploradores. O lobo e a raposa das histórias
tradicionais são anteriores a uma ética pautada pelo bem e o mal, que, no
caso do conto em questão, reprovaria tanto a vítima, quanto o algoz. Acho que não fui capaz de explicar isso para ele. Mas da próxima vez, tento de novo. Então, que a Ana Maria nos conte
outra!segunda-feira, 27 de julho de 2009
Bicho-papão para tirar medo
Outro dia, vi pela primeira vez uma manifestação clara de medo por parte do Antônio. Ele que sempre dormiu super bem, com sono pesado, sem pesadelos, estava custando a adormecer. Só percebi o que estava acontecendo, quando ele deu um pulo, assim que ouviu um barulhinho. Naquele gesto vi o medo. Como tínhamos assistido à tardinha Mogli 2, o belo desenho do Walt Disney, perguntei se estava com medo. Com suas pouquíssimas palavras disse "é". Fui além e perguntei se era medo do tigre do Mogli, o terrível Sherikan. Ele disse novamente "é". O tranquilizei, dizendo que o tigre não viria à nossa casa e que eu e o pai dele o protegeríamos. Ouviu atento, arrumou o travesseiro e dormiu em seguida. Isso me fez lembrar o velho debate sobre histórias que metem medo. Quando era criança, meu pai não deixava ninguém contar histórias de bicho-papão para mim e meus irmãos. Ele dizia que eram histórias horrorosas, inventadas apenas para amedrontar as crianças e fazê-las obedientes e submissas à custa da insegurança. Posso até concordar com ele, mas em parte. Estas histórias foram por um longo tempo um meio de educar pelo medo crianças e adultos para os perigos do mundo. Mas eliminá-las do imaginário infantil não fará com que estes perigos desapareçam, nem com que elas não tenham medo. O medo está aí, no Antônio, de apenas dois anos, ou no Pedro, de 7 anos, e até em mim, burra velha, de 43 anos. Mas eles, aí que discordo do meu pai, têm a possibilidade de extravasar seus medos ao ouvirem histórias aterrorizadoras. Ainda mais, hoje, quando, nós adultos deixamos de acreditar nelas e, por isso, podemos contar a nossas crianças de forma lúdica e, assim, permitir que elas expressem seus medos. Por isso, o Pedro adora quando leio para ele Bicho-Papão pra gente pequena, bicho-papão pra gente grande, de Sônia Travassos, com ilustrações de Jean-Claude Alphen, editado pela Rocco Jovens Leitores. O livro é um divertido glossário sobre os mais horrorosos bichos-papões do imaginário popular e ainda traz uma coleção de bichos-papões criados pela autora para livrá-la da brabeza de sua mãe. Uma delícia. Mas acho que isso não vale para os filmes infantis que abusam da tensão para atrair a atenção da garotada. O realismo das cenas, animadas ou não, submetem as crianças a uma tensão que elas não estão preparadas para sofrer. Por isso, resolvi evitar alguns filmes para o Antônio. Mas as histórias sempre valem a pena.
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