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quarta-feira, 28 de março de 2012

O alfabeto, segundo Millôr Fernandes


Em homenagem a Millôr Fernandes e a Antônio, com sua fome de letras, posto aqui duas maravilhas da obra deste grande jornalista, escritor, cartunista e humorista, que acaba de nos deixar.

Alfabeto Concreto
ABCdário
Esta composição gestaltiana levou anos, literalmente, para ser feita. Foi melhorando na medida em que o tempo - os anos, Deus meu! - foram passando. Publicada a primeira vez em 1958, na revista O Cruzeiro, foi reescrita para várias publicações. Não se consegue fazer esse tipo de coisa, numa sentada só. Tem que ser um pouco chinês.
O A é uma letra com sótão. Chove sempre um pouco sobre o à craseado. O B é um l que se apaixonou pelo3. O b minúsculo é uma letra grávida. Ao C só lhe resta uma saída. O Ç cedilha, esse jamais tira a gravata. OD é um berimbau bíblico. O e minúsculo é uma letra esteatopigia (esteatopigia, ensino aos mais atrasadinhos, é uma pessoa que tem certa parte do corpo, que fica atrás e embaixo, muito feia). O E ri-se eternamente das outras letras. O F, com seu chapéu desabado sobre os olhos, é um gangster à espera de oportunidade. O f minúsculo é um poste antigo. A pontinha do G é que lhe dá esse ar desdenhoso. O gminúsculo é uma serpente de faquir. O H é uma letra duplex. A parte de cima é muda. Serve também como escada para as outras letras galgarem sentido. O h minúsculo é um dinossauro. O I maiúsculo guarda, em seu porte de letra, um pouco do número I romano. O i minúsculo é um bilboquê. O J, com seu gancho de pirata, rouba às vezes o lugar do g. O j minúsculo é uma foca brincando com sua bolinha. Vê-se nitidamente; o K é uma letra inacabada. Por enquanto só tem os andaimes. Parece que vão fazer um R. Junto com o k minúsculo o K maiúsculo treina passo-de-ganso. O L maiúsculo parece um l que extraíram com raiz e tudo. Mas o lminúsculo não consegue disfarçar que é um número (1) romano espionando o número arábico. O M maiúsculo é um gráfico de uma firma instável. O m minúsculo é uma cadeia de montanhas. O N é um M perneta. No nminúsculo pode-se jogar críquete com a bolinha do o. O O maiúsculo boceja largamente diante da chatice das outras letras. O o minúsculo é um buraquinho no alfabeto. O p é um d plantando bananeira. Ou o q, vindo de volta. O Q maiúsculo anda sempre com o laço do sapato solto. O q minúsculo é um p se olhando de costas ao espelho. O R ficou assim de tanto praticar halterofilismo. Sente-se que o s é um cifrão fracassado. O Smaiúsculo é um cisne orgulhoso. Na balança do T se faz jusTiça. O U é a ferradura do alfabeto, protegendo o galope das idéias. O u minúsculo é um n com as patinhas pro ar. O V é uma ponta de lança. O W são vês siameses. O X é uma encruzilhada. O Y é a taça onde bebem as outras letras. Desapareceu do alfabeto porque se entregou covardemente, de braços pra cima. O Z é o caminho mais curto entre dois bares. O zminúsculo é um s cubista.

segunda-feira, 26 de março de 2012

De letra em letra e de dedinhos em dedinhos

O mais novo objetivo de vida do Antônio é aprender a ler e a contar. Ele passa o dia todo contando os dedinhos das mãos, seja para quantificar o mundo, seja para registrar letras, ou melhor, sílabas. Distinguir letras de sílabas é o primeiro desafio que a língua lhe impõe e, ainda longe de vencê-lo, Antônio vai dividindo as palavras por seus sons e, de seu jeito, por suas sílabas. Em sua contagem, amigo, por exemplo, tem apenas três letras. E ai de quem tente o convencer do contrário. Convencer o Antônio de que ele está errado é um desafio maior do que aprender a ler e, por isso, o melhor que eu e o Cadoca temos a fazer neste momento é oferecer a eles brincadeiras com a língua para que, devagarzinho, vá distinguindo letras de sílabas, até que um dia, sei lá quando, ele possa ler sozinho. Por isso, fui remexer a estante a procura de livros que pudessem me ajudar a saciar a ânsia de letras e de números de meu caçula e descobri que perdi Palavras, muitas palavras, de Ruth Rocha, editada pela Melhoramentos, que serviu à curiosidade do Pedro na fase anterior à alfabetização. (Vale registrar que o Pedro nunca teve a ansiedade do Antônio em nada.) Voltando às letras, resolvi então procurar um novo livro e foi então que encontrei De letra em letra, de Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela Moderna. Comprei, certa de que a delicadeza da prosa de Bartolomeu daria a meu pequeno um biscoito fino das letras ou sílabas, como ele queira. Não errei, o livro é lindo no texto de Bartô e nas tintas suaves de Elisabeth Teixeira. A maior brincadeira que ele tem nos permitido é mudar um pouquinho os versos de Bartô. Só um pouquinho para poder lê-los com os nomes dos colegas de sala do Antônio e, assim, permitir que ele relacione mais facilmente as palavras com suas letras. Assim, Alice cedeu lugar a Antônio, Daniel a Danilo, Mario a Miguel, Valério a Vinícius... De todos os versos, o que mais gosto é o da letra B. "Com B/ Beatriz borda bosque, balão, borboleta./ Beatriz brinca em bonitos bosques/ com brilhos de balões/ e belas borboletas brancas." De letra em letra, o Antônio vai tecendo o seu bordado. Enquanto não o termina, continua a contar seus dedinhos.