domingo, 2 de julho de 2017

É hora de olharmos para o céu e vermos estrelas


Sina
Ela vem ali, na fila,
cumprindo a sua sina,
carregando aquela folha
nas costas, quieta, certa
de que faz o melhor,
quando, do alto, surge  
uma sombra urgente
para fazer do dia noite
e da vida, morte.

Luciana Conti
Rio:  11/04/2017

PS: O Pedro era um garotinho quando comprei, perto do meu trabalho, Os encontros de um caracol aventureiro e outros poemas, de Federico García Lorca, da Ática, editado especialmente para crianças por José Paulo Paes. Era um dia de chuva, cheguei em casa toda feliz com o livro, que hoje sei ser totalmente inadequado para um menino de seis anos, como era o Pedro, e, na hora de dormir, fui lê-lo para meu menino. Lembro como se fosse hoje da sua carinha curiosa diante do novo livro, lindamente ilustrado por Odilon Moraes, e da nossa proximidade. Deitei-me a seu lado e comecei a ler o poema que conta a caminhada de um caracol que se defronta com questões místicas e transcendentes, em seus encontros com duas rãs e um bando de formigas. O Pedro ouvia atento, apesar de o poema ser difícil demais para um menininho, até que, ao perceber, que uma das formiguinhas estava morrendo, seu semblante foi se fechando, até que ele desatou a chorar. "A formiguinha vai morrer, mamãe", ele me perguntava angustiado. "Por que elas querem matá-la", emendava. Até hoje não sei o quanto ele entendeu do poema, mas sei que percebeu que a formiguinha havia sido morta por suas colegas por se comportar de uma maneira estranha para as outras. Foi a primeira vez que vi o Pedro reagir tão fortemente ao horror da morte. Fiquei espantada, sem saber direito o que fazer e o abracei forte para acalmá-lo e nunca mais lemos o livro. Mas a história da formiguinha que via estrelas que nenhuma outra via, nunca me saiu da cabeça. Foi pensando nela, que escrevi, anos depois, Sina. A minha formiguinha, ao contrário da de Lorca, é totalmente enquadrada, o que não a livra de sua sina, a morte. Morre silenciosa, anestesia pelo dever, sem chamar a atenção, como muitos de nós. Vida insignificante que, infelizmente, é interrompida. Sua dona segue automaticamente, sem olhar para o céu para ver as estrelas, o que poderia a ter salvado. Quantos de nós levamos a vida assim, sem olhar para o céu? Por isso, discutir essas questões com as crianças, em um mundo desumanizado como o nosso, é mais que necessário. Tão necessário, que me deu vontade de, agora, que o Pedro tem 15 anos, sentar de novo com ele para lermos juntos Os encontros de um caracol aventureiro. Tenho certeza de que, dessa vez, ele iria gostar. 

4 comentários:

Terezinha Costa disse...

Que belo e comovente texto, Luciana! E obrigada pela informação, não sabia que havia livro do Lorca adaptado para crianças. Um abraço.

Luciana Conti disse...

Oi, Terezinha, é um belo livro, que nos traz ainda os poemas em espanhol. Vale procurar. bjs

natalie catuogno consani disse...

que relato tocante, Luciana! obrigada! :-) adoro o Lorca e também não sabia desse livro de poemas adaptado para os pequenos. vou procurar! sempre ótimo passar aqui por esse sofá. bjos

Luciana Conti disse...

Sempre ótimo te receber, Natalie.