quinta-feira, 23 de julho de 2015

A beleza da festa do boi por Roger Mello

A tradição popular é inspiração de Roger Mello em vários de seus livros para crianças. Bumba meu boi bumbá, editado pela Agir, é um deles e revela um talentoso autor, que fez por merecer ser o primeiro latino-americano laureado pelo Hans Christian Andersen pelo conjunto de sua obra como ilustrador. O livro traz o reconto de Roger para o auto do boi, um folguedo popular que agita o interior do Brasil nos meses de junho, julho e dezembro. A história gira em torno da morte e ressurreição de um boi sacrificado pelo negro Pai Francisco para atender ao desejo de grávida de sua mulher Catirina, que sonhava em comer uma suculenta língua. Ao atendê-la Pai Francisco se encrenca com seu patrão, o dono do animal, e é preso. Ele é salvo por obra da magia de um índio, que ressuscita o boi e o livro da prisão e da ira do patrão. Tudo isso contado com muito humor e ritmo e, como manda a tradição, em versos para melhor envolver seu leitor. mas Roger vai além e, usando e abusando de seu talento de ilustrador, recria nas páginas do livro a beleza esplendorosa da festa. Para isso, usa técnicas de ilusão de ótica para garantir o movimento da festa e cria um boi que tem sua cabeça inspirada nas máscaras das Cavalhadas de Pirenópolis, que também mereceram um livro seu. O boi de Roger, como deveria ser, dança e assombra Pai Francisco em toda a história e não deixa o leitor descansar. Ler em voz alta o livro de Roger é como se transportar para um terreiro de roça e ver o boi dançar, cercado de caboclos e índios cantando a magia do auto. O Antônio logo reconheceu a história, como sendo aquela que vê todos os anos encenada no pátio de sua escola pelos professores, adolescentes, funcionários e pais de alunos. Uma festa linda, de cores e ritmos, que ganha vida em qualquer lugar em que haja vontade de celebrar as tradições populares. E Roger tem esse compromisso com a tradição. Melhor ainda é que sabe traduzir esse apreço pelo Brasil com seu traço. “Bumba Meu Boi Bumbá”, por todas essas razões, é uma preciosidade e merece um lugar na estante da família, mesmo depois que os filhos crescerem. Eu vou guardá-lo para um dia ele me ajudar a lembrar da alegria que foi tê-los crianças, brincando em meu terreiro e bagunçando meu coreto. 
Se quiser ouvir o cometário sobre o livro na coluna Hora da Leitura, da Rádio BandNews FM do Rio, clique aqui. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Uma adaptação que guarda a magia do original

Outro dia venci a resistência do Antônio para novas histórias, com a leitura - diga-se de passagem, à sua revelia - das primeiras páginas de A pequena Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. "Era uma vez uma menininha chamada Alice. E ela teve um sonho muito estranho. Você quer saber o que ela sonhou?" - comecei lendo. "Bem, a primeira coisa que aconteceu foi essa. Um Coelho Branco veio correndo apressado e, justamente quando passava diante de Alice, tirou o relógio do bolso." - continuei, atraindo a atenção dele, que se chegou, encostou-se em mim e passou a acompanhar a história, adaptada do clássico Alice no país das maravilhas pelo próprio autor, interessado em ganhar os leitores de zero a cinco anos. O livro é uma preciosidade que chegou para o leitor brasileiro só agora, em meio às comemorações pelos 150 anos da primeira edição de Alice, com uma edição caprichada da Galerinha Record. O texto foi traduzido pela maravilhosa Marina Colasanti e está abrigado em um  livro de capa dura, grande, de 24cm por 30, com belíssimas ilustrações do francês Emanuel Polanco. Mas voltando ao texto de A pequena Alice, uma das cerejas do bolo desse badalado aniversário, sua maior qualidade é manter a magia do original. E a maneira de Carroll fazer essa adaptação sem amesquinhá-lo foi transformar-se, diante das crianças pequenas, em um contador de histórias. Ele dialoga com elas em vários momentos da narrativa e busca nas ilustrações ainda mais razões para seu pequeno leitor/ouvinte submergir ainda mais fundo no universo mágico do país das maravilhas e vencer as 47 páginas da história. É nessa triangulação – texto, imagem e leitor – que a pequena Alice vai ganhando vida e encontrando os personagens que habitam o seu país das maravilhas. Assim, o consagrado autor oferece a quem ainda conhece pouco do mundo real um livro igual à Alice, que cresce, cresce, cresce e, depois, diminui, diminui e diminui, mais uma vez cresce, cresce e cresce, desafiando, nesse vai e vem da imaginação, o pequeno leitor a sonhar. Aqui em casa, posso garantir que deu certo. O Antônio passou toda a história acompanhando as aventuras de Alice e olhando com atenção as ilustrações, para, ao fim, me perguntar. "Mãe, ela estava sonhando?" "Estava, Antônio. Você queria ter um sonho como esse", perguntei. "Queria", disse convicto. "Pois, então, feche os olhos para dormir rapinho e fica pensando na Alice, para sonhar igual a ela", disse, aproveitando o ensejo para colocá-lo para dormir. Graças a Carrell, aquela noite foi breve e cheia de bons sonhos. 

Se quiser ouvir o comentário sobre o livro, na coluna Hora da Leitura, da Rádio BandNews FM Rio, clique aqui.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Hora da Leitura estreia na Band News FM do Rio

Acabo de matar um pernilongo tipo jumbo, que, enquanto eu trabalho no computador, se delicia com o meu sangue. Esse ato de pura vingança, confesso, me deu um enorme prazer, mas alegria maior estou com meu novo projeto: a coluna Hora da leitura, da Band News FM do Rio. Todas as semanas apresento uma resenha de um livro para crianças ou jovens ou uma pequena matéria sobre literatura infantil e juvenil, como mais um espaço para divulgar a magia das histórias para crianças. A estreia foi no dia 17 e, na quarta, vai ao ar meu terceiro texto, sobre a Flipinha. A coluna tem cinco inserções na semana. A primeira delas entre 5h40 e 6h de quarta-feira e as outras às 11h12 e 16h12 de sábados e domingos. Como demorei a falar da coluna e duas semanas já se passaram, desde a estreia, aproveito para postar aqui o link para o áudio dos dois primeiros spots. O primeiro foi sobre o livro Selvagem, de Emily Hughes. O segunda sobre o clássico Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren. Se vocês me acompanharem nessa nova aventura, aí mesmo é que vou ficar feliz. Feliz demais! Para isso, basta sintonizar na 94,9 FM. Fico aguardando curiosa para saber o que acharam.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quando não sobra tempo para o dever de casa

Confesso que, quando criança, algumas vezes deixei de fazer os deveres de casa. Não lembro quantas vezes, mas acredito que o número tenha sido o resultado da conta entre a vergonha de chegar na escola sem eles e a preguiça de fazê-los. Mas uma coisa tenho certeza: todas as vezes que falhei em minhas obrigações de aluna, inventei uma história para não ficar tão mal assim com a professora. A mais comum era a que tinha esquecido meus deveres em casa, mas, em caso de precisar mudar a desculpa, qualquer coisa valia, assim como para o menino protagonista de No he hecho los deberes porque, de Davide Cali, editada pela espanhola Pepa Montano. Ele é inquerido pela professora porque não fez os deveres e sai desfiando uma série de desculpas esfarrapadas e mirabolantes para justificar sua falta. Desculpas absurdas como, eu "tive que ajudar o meu tio a construir uma super máquina para fazer-os-deveres-por-mim. Mas, quando ao fim acabamos, ela não funcionava". A professora ouve com a maior paciência para o deleite do pequeno leitor, que pode acompanhar, em cada uma das desculpas, uma expressiva ilustração de Benjamin Chaud, mas, ao fim, diz que não acredita no pequeno. Ele, espantado, pergunta a razão dele não acreditar nele. "Porque eu li o mesmo livro", diz a professora, mostrando o livro que estamos lendo. Confesso que torci para que o menino pudesse usufruir do benefício da dúvida sobre se sua desculpa havia colado, o que me animou em todas as vezes que precisei inventar uma lorota para a professora. Meu castigo foi ter que, anos depois, conviver com meus filhos fazendo das suas para não cumprir com os deveres de casa. Sou dura na cobrança, como a professora do menino, mas confesso que não consigo esquecer que toda, ou quase toda criança, quer mesmo é arrumar um jeito de não fazer o dever de casa. Assim, ao mesmo tempo que os puno, lá no fundo do meu coração, perdoo meus meninos, quando não lhes sobra tempo para fazer o dever de casa.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Enquanto Rui não cresce e toma juízo

 
Em uma coisa as crianças têm razão: mãe é uma figura chata. Está sempre reclamando, mandando o filho fazer o que não quer, chamando a atenção, enfim, educando. Mas eles, com a experiência que têm, é claro, não são capazes de perceber que toda aquela chatice, no fundo, no fundo, é para o bem deles. Então, vamos combinar que o que sobra é a chatice. E é isso que a mãe de Rui, protagonista de Enquanto isso, de Jules Feiffer, editado pela Companhia das Letrinhas, é: uma mala. A mãe interrompe, com seus gritos, os momentos de prazer do menino, irritando-o, até que um dia, tem uma brilhante ideia: imitar as histórias em quadrinhos e dar um corte temporal na narrativa para livrar-se dela. Enquanto a mãe grita, ele transporta-se para aventuras radicais e, para salvar-se desses novos perigos, usa novamente o recurso do "enquanto isso" aprendido nas tirinhas. Feiffer joga esse jogo como um craque - ele é um reconhecido quadrinista americano - e nos dá, assim, a oportunidade de curtir muitas maluquices, enquanto Rui não cresce e toma juízo. As aventuras narradas por Feiffer bem que poderiam ter saído da cabeça de um dos meus filhos, que ouviram atentos à história, para as redações da escola. Os personagens que cruzam com Rui são os tops do imaginário infantil: piratas, tubarões e outras feras que fazem Rui correr de uma história para outra, até aterrizar novamente em seu quarto para enfrentar a maior delas: sua mãe. Um livro bacana que nos faz lembrar que as melhores histórias para crianças são aquelas escritas por quem não se esqueceu de como era ser criança. Assim, Feiffer cria um Rui cheio de moral, mesmo que, do ponto de vista das mães, ele não tenha qualquer razão.

terça-feira, 2 de junho de 2015

A poesia e os desafios impostos pela língua

Percebo no Antônio um prazer enorme em descobrir os segredos da escrita e a da leitura. Um prazer que faz com que ele, desde pequenino, se divida entre ouvir uma história e acompanhar com os olhos ou mesmo os dedinhos as palavras e frases impressas nos livros. Não raro ele se surpreende no meio da leitura com a grafia de uma palavra ou a pontuação de uma frase. Essa curiosidade, que para mim soa surpreendente, faz com que a leitura noturna seja mais do que ouvir uma boa história, Seja também um momento de investigação da língua. E nada melhor do que os poetas para nos apresentar os mistérios desse português tão cheio de artimanhas. O Antônio não é muito simpático a eles, mas aceitou na boa o livro Um gato chamado Gatinho, de Ferreira Gullar. Acima do preconceito com a poesia, estava a curiosidade acerca do poeta, homenageado na festa literária de sua escola, e de ele conviver com a Isolda, uma linda gatinha negra que teve como companheiro o Tristão, que se foi antes dele nascer, e com a Gueen, que nos deixou depois de 20 anos de vida. Tudo isto fez o Antônio encontrar rapidamente sentido nos versos de Gullar, explorados por ele com a maior sem cerimônia. "Se o gato sobreviveu/por ser muito cauteloso,/tem no entanto um ponto fraco:/ é por demais curioso", leu, fazendo uma pausa para saber o sentido de cauteloso. Foram três noites curtindo os poemas do livro editado pela Salamandra, com belas aquarelas de Angela Lago. Três noites de esforço e prazer de estar conseguindo, passo a passo e dentro de seus limites, vencer os desafios impostos pela língua. Acho que é mesmo assim, brincando e desafiando a língua, que aprendemos a amá-la.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Guernica e a saudade do século XX

Ver Guernica cercada por uma pequena multidão de turistas, como eu, impressionados com o painel em preto e branco que contou ao mundo o espanto de Picasso diante da barbárie que foi o bombardeio da pequena cidade basca, em 1937, durante a Guerra Civil Espanhola, me fez sentir uma baita saudade do século XX. Tive saudades da intensidade com que os homens, de direita ou esquerda, viveram as ideologias na virada do XIX para o XX, o que fez deste tempo um dos mais tumultuados e profícuos da humanidade. Todos sabemos que não foram tempos fáceis. Guernica não foi a única vítima do século XX. Depois dela ainda morreram judeus nos campos de concentração nazistas, japoneses pela bomba atômica e vietnamitas pela bomba de napalm, só para citar algumas das barbaridades que se viu neste tempo. Anos loucos que passaram rápido, com a velocidade que o progresso da ciência oferecia naqueles primeiros dias. O século XX foi marcado por sonhos e pelo fim deles, mas, sobretudo, por homens que acreditavam no porvir. Uma crença em dias melhores, que, com certeza, fez Picasso impedir a exposição de sua tela na Espanha, enquanto o Regime Franquista governasse seu país natal. A esperança de Picasso de que aquela enorme noite encontrasse o dia, era a de todos os seus contemporâneos de boa vontade. O dia enfim raiou na Espanha. O generalíssimo Franco, líder da ofensiva contra os republicanos, morreu, o poder se democratizou e a tela, conhecida pelos espanhóis como o último exilado, pode viajar, em 1981, de Nova Iorque para Madri. Hoje, está no Museo Reina Sofia junto com os estudos de Picasso para a enorme tela, de 351 x 782 cm. Por tudo isso, é uma emoção chegar no salão em que está exposta, guardada apenas por um cordão de isolamento e dois monitores do museu, pompa suficiente para o Pedro entender tratar-se mesmo de uma obra especial. Tão especial que mereceu um livro ilustrado, da historiadora Heliane Bernard, com ilustrações de Olivier Chapentier, para contar a história de Guernica, a tela e a cidade. Um belo livro editado pela espanhola Kalandraka, que reconta a tragédia da cidade e expressa nas dramáticas ilustrações o sofrimento do povo espanhol e do artista. Um livro ilustrado para jovens e adultos que merecia tradução no Brasil, afinal, Guernica diz respeito a todos nós, como costumavam ser os grandes fatos do século XX. O bombardeio da cidade foi o mais dramático ato de uma guerra que mobilizou gente de todos os cantos para defender a resistência ao fascismo. Uma guerra que emocionou o mundo com o romance "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway. O americano, radicado em Paris, recorreu ao poeta inglês John Donne e ao sofrimento do espanhol para falar de sua imensa identidade com o humano. "Nenhum homem é uma ilha, um ser inteiro, em si mesmo; todo homem é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um pequeno torrão carregado pelo o mar deixa menor a Europa, como todo um promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de único homem me diminui, porque eu pertenço à humanidade. Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti." A citação que abre o romance de Hemingway fica ainda mais clara diante de Guernica. Uma clareza que nos faz mais tristes ao desconfiar de que, fora daquela sala, pouca gente lembra-se de Donne, Hemingway e Picasso. Um esquecimento que nos faz calar diante das tragédias do século XXI e nos enche de nostalgia do século XX, apesar de todo o sofrimento que ele impôs ao homem.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

De médico e de monstro todo mundo tem um pouco

A primeira vez que li O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, eu devia ter uns 15 anos. Peguei o livro da Biblioteca de Tebas, um lugarejo no interior de Minas onde nasceu meu avô e eu passei bons dias de meus primeiros anos, e o devorei. Isso faz tanto tempo que não lembrava mais da história da transformação de Dr. Jakell em Mr. Hyde. Lembrava apenas de que havia sido uma história que, naqueles dias da adolescência, havia prendido minha atenção e me levado até o fim da narrativa. O livro que li foi o original, mas meu reencontro com a história de Stevenson me fez conhecer a adaptação da coleção Clássicos Infantis, da Cia das Letrinhas. Ele chegou aqui em casa pelas mãos do Pedro, que o trouxe como tarefa da aula de Português, e  resolvi relê-lo para podermos conversar sobre ele. Além de fazer eu me reencontrar com a história, perdida em um canto inacessível de minha memória, a leitura me fez pensar em como as narrativas nos parecem diferentes, dependendo do momento da vida em que tomamos contato com elas. O médico e o monstro da minha memória era um livro fantástico e impactante, que teve o poder de me fazer trocar meus amigos algumas horas por ele. Agora, em uma nova leitura, pude ver que sua riqueza vai além disso. Stevenson foi capaz de falar de sua época em um conto de terror, inscrevendo, assim, a obra no rol dos clássicos da literatura. Dr. Jekill e Mr. Hyde falam de uma Inglaterra pós-Revolução Industrial marcada pelo abismo provocado pela divisão de classes da sociedade burguesa e do esforço humano de romper fronteiras do conhecimento. Dr. Jekill é uma vítima de si mesmo e de seus desejos, que representavam uma subversão à rígida moral vitoriana de seu tempo. Ao nos mostrar que de médico e de monstro todo mundo tem um pouco, Dr. Jekill subverte não só a moral que ditava o comportamento na época, mas também à ética que determinava os limites do avanço da ciência, que, no século XIX, conquistara corações e mentes. A fé de Dr. Jekill na ciência é semelhante a de Dr. Frankenstein, de Mary Shellei, e leva os dois, por razões distintas, a desafiar a natureza e os limites da sociedade em que vivem. Como Prometeu, o titã grego que rouba do fogo do Olimpo para entregá-lo aos homens, os dois são punidos por sua ousadia. É este pano de fundo que dá grandeza ao conto. Um pano de fundo que não pôde ser percebido pela menina que um dia eu fui e, hoje, pelo meu filho, mas que, como toda grande questão, está latente em cada um de nós. A caprichada edição da Coleção Clássicos Infantis, talvez por saber dessa dificuldade, dá uma mão ao jovem leitor, apresentando a história e o autor no contexto de seu tempo histórico. Com belíssimas ilustrações de Ian Andrew e infográficos, o leitor iniciante vai se inteirando das sutilezas do texto para montar, ele próprio, sua versão de O médico e o monstro. Uma versão que poderá ser mudada, a qualquer momento da vida. Assim são os clássicos, livros que nunca acabam de ser lidos. 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Há amor lá e aqui

A separação dos pais não passa despercebida a nenhuma criança. A dor de ver a família separar-se também não é só dos pais. O sofrimento é de todos, mas a certeza de que haverá felicidade adiante também deve ser compartilhada entre pais e filhos. É preciso seguir em frente e construir novas famílias para as crianças. Uma família em que haja apenas mãe e outra em que haja apenas pai. É sobre este momento que Carolina Moreyra fala em Lá e aqui, editado pela Pequena Zahar e ilustrado por Odilon Moraes. Um pequeno e lindo livro, que fala poeticamente de um momento delicado para pais e filhos, com a esperança que as crianças merecem. Encará-lo com coragem e verdade, não tenho dúvidas, é o melhor para adultos e crianças superarem a dor da separação. A leitura de Lá e aqui pode ser uma grande ajuda para abrir um diálogo franco entre adultos e crianças pequenas, nestes dias de tantas dúvidas.

sábado, 14 de março de 2015

A vida e a morte, segundo Helme Heine

A morte é sempre um assunto difícil para qualquer idade. Quando eu era criança, a temia muito, assim como, de maneiras diferentes, meus filhos a temem. O Pedro sempre se emocionou com a morte. Não podia-se falar da chegada dela na vida de ninguém, uma pessoa real ou um personagem de livro, que deixava vazar toda a tristeza que pressentia sentir quando a morte chegasse para um de seus queridos. O Antônio, ainda hoje, se assusta muito com a existência dela. Tem medo que chegue em seu quarto à noite para o levar, como eu também tinha, ou que assombre seus pais ou seu irmão. Enfim, que mude sua vida. Sentimentos que, ao longo da vida, com tudo o que ela nos guarda de bom e de ruim, vamos começando a entender. Só a maturidade pode nos fazer conviver com a morte, por perceber que, um dia, ela vai chegar e que não, necessariamente, será ruim. Há as boas mortes. Aquelas que levam pessoas que viveram vidas felizes e foram capazes de construir laços afetivos, sentir o mundo que as rodeia, realizar muito e, porque não dizer, se frustrar um bocado. Lembro até hoje de uma amiga me contando a morte do pai, prestes a fazer 100 anos, que permitiu que ele se despedisse dos filhos, falasse que ai em paz, das coisas boas que a vida lhe deu, do amor que o uniu à mulher de sua vida, enfim, do que fez a vida valer ser vivida. Afinal, a morte, depois de muita vida, faz sentido e parece mais leve. Compreender isso, no entanto, não nos impede sofrer com a iminência dela ou com o fato consumado. Perder um amor, alguém da família ou um amigo querido é sempre uma dor. Não há como evitar a tristeza pela perda e o assombro pela lembrança de que ela está por aí e um dia pode nos encontrar. Este é momento pelo qual está passando meu pai, que, com 79 anos, viu o ano passado levar seu irmão mais velho e sua cunhada. Ao que parece a morte não lhe dará trégua. Esse ano, começou com a doença de seu outro irmão, que, aos poucos, se despede da vida, e a senilidade de seu melhor amigo, um  pouco mais novo, mas mais frágil de saúde. Eu e a minha mãe, preocupadas com o abatimento dele, chegamos a uma óbvia conclusão. A velhice não nos dá alternativa: ou a gente morre ou nos preparamos para a morte dos outros. Naturalizar a morte, sem que, com isso, precisemos reprimir nossa tristeza diante dela, talvez seja a maneira mais fácil de encará-la. E é assim que Helme Haine a apresenta para as crianças, em A turma, editada pela Martins Fontes. Como não podia deixar de ser, ele começa a falar da morte pela vida e por tudo que ela pode nos apresentar. E conta esta história por intermédio de três amigos inseparáveis dos seres humanos: Professor Cérebro, Rose Coração e Barrigão. Os três ficam com seus amigos até para além da morte. O Professor Cérebro se encarrega de manter cada um na memória de seus pares, Rose Coração cultiva os amores que cada um conquistou em vida e Barrigão não o abandona nem na morte, seguindo com ele. Tudo isso falado com tamanha naturalidade e poesia, que não há criança que não se apaixone por essa turma. Afinal, eles também são seus amigos. Para sempre!

segunda-feira, 2 de março de 2015

A adolescência e o desafio de gostar de ler

O Pedro tem 13 anos é um adolescente cheio de vida, amigos e programas. São muitos seus
interesses, nos últimos tempos, mas livros estão fora dessa lista. Ele não se manifesta a favor de nenhum livro e resume sua atividade literária a ouvir, de vez em quando, as histórias que conto para o Antônio. Algumas dessas histórias o encantam até mais do que ao irmão. São geralmente narrativas engenhosas, edificadas pela astúcia de alguma personagem ou mitos das mais diversas mitologias, que prendem a atenção do leitor, ansioso por saber o destino de seus protagonistas. Os três ratos de Chantilly, de Alexandre Camanho, editado pela Pulo do Gato, escolhido para o Antônio acabou agradando ao Pedro. Aos poucos, ele foi ouvindo a história de três ratinhos cegos que livram-se de uma coruja, que os quer para o jantar, pela astúcia. O Pedro gostou. Manifestou seu agrado com o final, em que o apego pela realidade não é compromisso do autor, também o ilustrador do belo livro, e se preparou para dormir. Seu interesse me fez mais uma vez pensar nas razões que fazem alguém parar para ler. Esse mistério que move professores, pais e promotores de leitura no estorço de fazer com que os jovens tomem gosto pelos livros. Eu ainda não estou bem certa sobre que razões são essas, mas uma coisa eu sei: não é pela coerção que formaremos leitores. Aqueles livros adotados pela escola, que a cada dois meses são cobrados em avaliações com nota, com certeza não contribuem para formar leitores. Podem até ensinar a ler, mas não a gostar de ler. Esse é o desafio que a adolescência nos coloca. Como fazer um adolescente abrir um espaço para a leitura em sua agenda lotada de programas no mundo real e virtual? Juro que não sei a resposta e, pelo que converso por aí, desconfio que ninguém saiba. Estamos todos tentando encontrá-la. Até agora, a única coisa que acredito é na necessidade de fazer com que eles continuem a gostar de ouvir histórias. O segundo e o último passo é gostar de lê-las. Esta distância pode parecer pequena, mas não é. Ele é o pulo do gato que viemos perseguindo nos últimos anos, em que nossas crianças e jovens passaram a se acostumar com as facilidades do áudio-visual  e, cada vez mais, abandonam a leitura. Meu Pedro veio me dizer que gosta muito das histórias de Sherlock Holmes, mas que acha chato ler. Me recuso a acreditar que ele não goste de ler por mera preguiça, como muita gente acredita. Quem tem preguiça de fazer uma coisa que lhe dê prazer? Nem mesmo os adolescentes. Então qual é a razão? Me arrisquei a responder que a leitura é chata porque ele está em uma idade em que a concentração é um desafio e não há leitura prazerosa sem concentração. Para se gostar do que se lê é preciso alhear-se do mundo para criar na imaginação o clima da história e a maioria dos adolescentes não tem concentração para isso, além de não ter ainda uma leitura fluente que os faça esquecer que estão lendo. Quando assistimos a um filme, não ficamos a perceber por todo o tempo a tela do cinema e o projetor.  Se isso acontecesse, não teríamos como mergulhar na história e nos sentirmos parte do filme. Foi que respondi. "Quando leio para você, te ajudo a criar esse clima, com a entonação da minha voz e meu ritmo de leitura. Por isso, você gosta", expliquei para ele. Ao continuar a ler em voz alta, não estou apenas o livrando do trabalho de ler, estou permitindo que continue a ver sentido na leitura. Quem sabe, no dia em que ele possa curtir estar alheio do mundo, goste de ler e possa ler um livro do Sherlock Holmes, para, sem intermediários, recriar a história que, hoje, conhece apenas na adaptação para as telas dos cinemas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Selvagem é o que toda criança devia ser,antes de crescer

Cada dia que passa fica mais difícil fazer o Antônio aceitar a leitura de um novo livro. Ele quer sempre os mesmos ou as histórias tradicionais, sejam os contos europeus ou os mitos de qualquer canto do mundo, e rejeita tudo o que é disso diferente. Ontem, me espantei quando ele, deitadinho na minha cama, aceitou de primeira o livro que lhe ofereci."Selvagem", de  Emily Hughes, talvez o tenha ganho pela capa, como fez comigo. Retangular e em tons de verde, invadida por uma ou outra cor intrusa, a capa é linda e exibe toda a vitalidade da menina selvagem. Ao deparar-se com ela, de olhos esbugalhados, o fitando, ele não teve dúvidas: abriu o livro, editado pela Pequena Zahar, o primeiro da autora havaiana no Brasil, e folheou cada página com bastante atenção. Depois, aceitou que eu lesse a história em voz alta. A expectativa criada pela capa não se frusta com a leitura. A menina selvagem é fofa e é uma espécie de Tarzan, criada na floresta, com a a ajuda dos bichos que por lá moram. Seu contato com os humanos é tão traumático, quanto foi para Tarzan, mas ela é uma criança e isso faz toda a diferença. Sua saga encantou o Antônio, que, desconfio, se identificou com a menina nos bons e maus momentos. Emily acertou em cheio em sua estreia no mundo dos livros ilustrados. Selvagem não fala de boas maneiras e não é um tratado antropológico. É apenas uma ode à infância. Uma infância feliz em oposição a de hoje, cada vez mais reprimida e limitada pelas expectativas que os adultos têm sobre o futuro de suas crianças, impedindo-as de viver com liberdade e descompromisso essa maravilhosa e importante fase da vida. Meninos e meninas vivem hoje a infância como se fossem pequenos adultos, preparando-se para um mundo competitivo, em que todos buscam o dinheiro e o sucesso, como se não houvesse alternativa para esse presente e esse futuro. Eu acho que há. E sabe do que mais. Selvagem é o que toda criança deveria ser, antes de crescer.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O dia em que Mogli deixou a alcateia onde foi criado

Confesso que, agora nas férias, a hora de dormir, aqui em casa, está cada vez mais tumultuada. Colocar um ponto final no dia do Pedro e do Antônio não tem sido tarefa fácil. Sempre há alguma coisa ainda a ser feita: terminar o filme que estão vendo, fazer o último gol no Fifa 15, comer a maçã noturna, mandar a última mensagem para o amigo ou qualquer outra razão que retarde o momento de escovar os dentes e dormir. Quando, enfim, consigo vencer todos esses desafios estou cansada, irritada e com muita pouca vontade de contar qualquer história para eles. É a hora da choradeira. O Antônio esperneia e chora pela história de todo dia e, quase sempre, eu cedo e procuro um livro para ler. A leitura também não tem sido fácil, já que vencer a dispersão dos dois é outro desafio digno de um herói grego. Como sou apenas mãe - e muitas vezes a pior mãe do mundo - faço o que posso. Nessa hora escolher a história certa é um trunfo contra a bagunça que se instala no quarto. Nem sempre dá certo, mas quando dá é uma alegria, ou melhor, um sossego. Foi assim com O livro da selva, de Rudyard Kipling, que calou os filhos e levou a mãe a lágrimas. O fim do primeiro conto - Os irmãos de Mogli, em que o menino lobo e seus amigos são apresentados ao leitor - se antecipou, em minha emoção, ao dia em que meus filhos, já grandes, vão sair de casa, Assim foi com Mogli e a mãe loba, quando ele, já homem, deixou a alcateia e a selva para ir ao encontro da aldeia dos homens. Inseguro, Mogli chorou. Seus irmãos menores prometeram nunca esquecerem-se dele, seu pai pediu que ele voltasse à floresta para vê-los e sua mãe lhe declarou todo o seu amor. A beleza da narrativa de Kliping, a princípio, apenas me embargou a voz, mas a medida em que prosseguia a leitura, não aguentei, e acabei chorando de verdade, o que deixou meus filhos espantados e preocupados comigo. Foi a oportunidade de conversamos brevemente sobre o poder que um bom texto tem sobre a emoção dos leitores. Kipling escreveu O livro da selva com apenas 29 anos e aos 42 anos ganhou o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. A beleza de sua narrativa faz com que o universo de Mogli, fantástico por si só, ganhe ainda mais força. Não foi sem razão que meus meninos se aquietaram diante de suas aventuras. Com certeza, leremos os outros contos que, por sua beleza, mantêm-se vivos, apesar de terem sido escritos há mais de 100 anos. Me arrisco a dizer que o livro de Kliping ainda vai valer a pena para muitas gerações de leitores.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal é tempo de acreditar...



Há uns dias fui com o Antônio em um shopping que tinha como decoração de Natal a casa do Papai Noel. A novidade o atraiu, o que me levou a esperar uns 10 minutos na fila, pelo privilégio de ver o bom velhinho. Este tempo não foi em vão. O Antônio aproveitou para escrever um objetivo bilhete, em que pedia com pouquíssimas palavras uma chuteira da Nike, de um pink metalizado, usada por nove entre 10 meninos de seu futsal.
Assim que entramos, tirou uma foto com o Papai Noel e entregou a cartinha, com seu pedido. Na saída, perguntei se tinha gostado do passeio e recebi uma resposta que me deu a certeza de que meu menino, com sete anos, ainda acredita na lenda de São Nicolau.
- O Pedro é muito mané de não ter querido vir com a gente! Eu até garanti meu presente de Natal – disse-me orgulhoso de ter levado vantagem em relação ao irmão de quase 13 anos, que, incrédulo, não viu o quanto havia perdido em negar-se a fazer o passeio.
Passados uns dias de procura da tal chuteira, fui ter novamente com ele.
- Sabe aquela chuteira que você pediu? Pois é, não a estou achando em loja nenhuma – disse.
- Tá vendo – gritou irado - Mais uma prova de que Papai Noel não existe! É você quem compra os presentes – me acusou de dedo em riste.
- Que nada, Antônio – me apressei a tentar consertar a gafe - Ele pediu para eu comprar a chuteira porque lá, no Polo Norte, é difícil achar Nike. E me disse também que vai te dar outro presente, uma surpresa – inventei, tentando salvar o Papai Noel no imaginário do meu pequeno.
Ele me olhou por alguns segundos sério e pensativo.
- E aí? Prefere que eu dê a chuteira e o Papai Noel dê a surpresa ou que ele dê a chuteira – perguntei, ansiosa pela resposta.
- Tudo bem! Você dá a chuteira.
Diante do tom resignado de sua voz, fiquei na dúvida se ele estava sendo mais uma vez ingênuo ou se, para ganhar dois presentes, estava aproveitando-se da boa-fé de uma velha, que insistia em fazer com que ele acreditasse em Papai Noel. Mas calei-me.
Dias depois, sem mais, nem porquê, me perguntou de pronto.
- Mãe, o Papai Noel sabe ler em letra cursiva?
A pergunta, de quem está se esforçando para transforar sua letra bastão em letra cursiva, me pegou de surpresa e me fez ter a certeza de que o Antônio está naquela fase da infância, em que a fantasia resiste bravamente às ofensivas da realidade.  Só não sei até quando ela vai continuar a vencer.

PS: Natal é tempo de acreditar. Acreditar em Papai Noel, em mais amor, em uma vida melhor, enfim, em renovação. Virginia acreditou, Antônio acredita e virão outros tantos, como eles, para nos encher de ternura nesta data. Um feliz Natal para todos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Uma âncora ao mar para viver um breve e enorme amor

Cuidar, como verbo transitivo indireto - cuidar de quem, está meio fora de moda. Ninguém quer perder tempo e dinheiro com os outros. Somar tempo e dinheiro, inclusive, é uma operação comum antes da decisão por filhos e fazê-la é uma atitude honesta, que pode evitar escolhas erradas. A honestidade, no entanto, não muda o fato de que, em um mundo individualista e marcado pelo narcisismo, hedonismo e consumismo, cuidar dos outros é como estar em um navio e lançar uma âncora ao mar. O que ninguém pensa, nessa hora, é que, as vezes, o navio ancora em belas paragens. Um prazer que pode ser fruído por quem, menos ansioso, consegue ver beleza onde está. É sobre esse prazer que Marina Colasanti trata em Breve história de um pequeno amor, editado pela FTD, que acabou de ganhar o prêmio Jabuti de melhor obra de ficção. Um prêmio que colocou, justa e tardiamente, a literatura para jovens leitores no andar de cima. Na história, Marina é a própria personagem principal: uma cuidadora de um pombinho que ficou sem a mãe e passa a depender dela para viver. O bichinho come por suas mãos e aprende a voar, com quem não tem asas. Uma narrativa delicada, como é a marca da prosa poética de Marina, que soma-se às expressivas ilustrações da argentina Rebeca Luciani. O livro foi editado para leitores mais experientes, mas encantou meu menino pequeno. Antônio, com seus sete anos, ouviu com interesse a história da escritora que descobriu um ninho no forro do teto de seu escritório e assumiu a responsabilidade pelos filhotes, abandonados pela mãe. Foram três dias de leitura para acabar o livro. Três noites de carinho com o meu pequeno, que aconchegou-se a mim, como se fosse o filhote de Marina. Ao fim, Antônio acompanhou com o coração apertado o voo final do pombo, já crescido e acasalado. "Mãe, ela ficou triste quando ele foi embora", perguntou. "Ficou, Antônio, mas ela sabia que um dia isso ia acontecer. O importante são os momentos que eles passaram juntos", respondi. O pequeno amor de Marina pelo pombinho é como o grande amor dos pais pelos filhos. Nós cuidamos deles, mesmo sabendo que, um dia, vão nos virar as costas para, crescidos, irem embora. E, nem por isso, deixamos de cuidar deles. É o amor do qual fala Marina que faz valer a pena cuidar de alguém, mesmo quando isso parece um péssimo negócio. Este amor é que transforma a velha operação tempo e dinheiro, que na frieza da matemática sempre dá negativa, em positiva, para fazer valer a pena ter filhos. Há 13 anos, lancei minha âncora ao mar para curtir um pouco e, sei disso, por pouco tempo, essa paragem que é a maternidade. Posso assegurar que ela é um ótimo lugar para viver um breve, mas enorme amor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Axterix, Obelix e as inevitáveis comparações entre irmãos

O Pedro e o Antônio, nos últimos 12 anos, têm me ensinado muita coisa. A principal delas é que o
melhor a se fazer é aceitar os filhos como eles são. Compará-los com outras crianças, sejam estranhas ou não, é a pior coisa que uma mãe ou um pai podem fazer. As comparações não são boas ferramentas de educação e só criam frustração, tanto para pais, quanto para filhos. Para controlar a tentação de fazê-las, recorro à memória, onde encontro ainda fresca a frase cunhada por meu amigo, Marcos Derizans, que, aos 20 e poucos anos, deitado de barriga para cima no pilotis da PUC, já sabia de tudo: "Coelho (ele me chama assim até hoje), para ser feliz a gente tem que baixar a expectativa". É verdade, só assim é possível encontrar o caminho do meio, fruir a vida e amar as pessoas como elas são e não como queremos que elas sejam. Mesmo sabendo disso tudo, é inevitável que as vezes a gente se esqueça disso e eu esqueço muitas vezes. "O Pedro nesta idade já fazia isso e aquilo", penso em relação ao Antônio. "O Antônio está fazendo isso e aquilo muito antes do que o Pedro", completo e sigo olhando meus meninos como se eles fossem as únicas crianças a crescerem no mundo. Estes pensamentos são reforçados e muito pelos livros que leio para os dois. As leituras para o Pedro ficaram no passado ou na carona do irmão - ele não admite, mas ainda adora ouvir uma boa história e, por isso, reclama pacas quando a escolhida não lhe agrada - e as para o Antônio continuam a ser diárias. Algumas delas, muito poucas, diga-se por justiça, escolhidas por mim ou vindas da ciranda da escola, e a grande maioria, por ele. Do acervo doméstico, ele escolhe sempre as mesmas, ficando as novidades por conta das retiradas semanais da biblioteca da escola. De lá, vem de tudo um pouco, até que veio Asterix, os quadrinhos de Uderzo e Goscinny que foram muito lidos na casa que compartilhei, até minha juventude, com meus pais e meus irmãos.  "Será que o Antônio vai entender essa história", perguntei a mim mesma. "Com quantos anos, eu comecei a ler Asterix", continuei, sem achar a resposta em minha memória. Mas ele queria ouvir a história da aldeia gaulesa que enfrenta os romanos com bravura e muita poção mágica do velho druida Panoramix e foi o que fiz. Foi então que começou a confusão na cabeça do Antônio, que se confundiu com os nomes dos personagens da aldeia. Asterix, Obelix, Panoramix, Abracourcix, Ideafix, Chatotorix, e todos outros foram se misturando na cabeça do pequeno, mas seguimos a história. O Pedro atentíssimo, prestando a maior atenção na história, e o Antônio parando com frequência para perguntar quem era quem. A leitura, como não podia deixar de ser, foi feita em etapas e durou uns três dias. Três dias de volta à velha aldeia gaulesa e às maluquices de Asterix e Obelix me deram ainda mais a certeza de que na vida não há regras. Cada um é cada um e a realidade e a vida é fruída por cada um de nós, como queremos e como podemos fruí-las. No resto, são expectativas dos outros, que, na maior parte das vezes, frustam quem as acalenta e machucam quem as vê cair sobre seus ombros. Por isso, todos os dias lembro que não devo sonhar com o futuro dos meus filhos. Repito esta lição como se fosse um mantra, mas, devo confessar, que eu, como as crianças, esqueço muitas vezes o que ouço.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Uma bruxa velha, feia e pronta para o amor

Babuxa veio discreto na mochila do Antônio, cumprindo a rotina de todas as sextas-feiras, dia em que ele traz uma novidade da ciranda da escola. Assim que iniciei a leitura, vi que Babuxa tinha futuro. A maior qualidade da história de Almir Correia, ilustrada por Gustavo Piqueira e editada pela Bituta, é brincar com a linguagem com bastante humor. A Babuxa de Almir Correia é, como se pode supor, uma bruxa velha e feia. Mas, acima de tudo, uma bruxa com sentimentos. Sentimentos que são tratados por Almir com a criatividade dos poetas e o humor que encanta as crianças. Eu sou daquelas que acha que o humor, associado a uma narrativa criativa, sempre produz uma bela história. Estou convencida de que as crianças leem ou ouvem histórias para, em primeiríssimo lugar, se divertir. A literatura é para as crianças uma possibilidade de viver no mundo de fantasia que nós, adultos, e a realidade lhes negamos permanência. Podemos até falar do mundo real para elas por meio da literatura, mas, para encantá-las, temos que falar dele de forma lúdica, sem compromisso com a verdade. Babuxa fala de como o amor é democrático e deve ser vivido por feios e bonitos, velhos e jovens, príncipes e sapos sem qualquer distinção. Babuxa é corajosa e surpreende as crianças. Ela não escolhe o caminho mais fácil, escolhe o caminho da fantasia e, por isso, fez do Antônio seu fã. Confesso que, assim que abri o livro, vi que seria um sucesso. A narrativa de Almir Correia é, sem forçação de barra, criativa, lúdica e, por isso, imprime seu ritmo ao leitor. É impossível ler Babuxa com a entonação normal, da vida cotidiana, sem surpresas ou com monotonia. A história é para ser lida com humor, interagindo com a criança e com a personagem, indo mais além, ao perceber que a viagem só está começando. Foi assim comigo e com o Antônio. Nós dois, lado a lado, acompanhamos a história, curiosos para saber o que Babuxa faria. O Antônio achou a bruxa burra por sua escolha. Eu, por minha vez, talvez por desconfiar que os homens, bruxos ou não, são imprevisíveis e, muitas vezes, escolhem caminhos inusitados para serem felizes, gostei da escolha de Babuxa. Uma escolha improvável para viver um antigo amor, mas a escolha de Babuxa. Ao final de tudo, a bruxa velha, feia e pronta para amar ensinou ao Antônio que qualquer forma de amor vale a pena.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um livro, uma parlenda, muitos afetos e algumas surpresas

Cadê, de Guto Lins, editado pela Editora Globo, é a mais nova mania do Antônio. Depois de reclamar muito da quantidade de livros que há na estante, o que, segundo ele, atrapalha o processo de escolha, Antônio, enfim, puxou um para ser lido. Puxou domingo, segunda, ontem, todos os últimos dias o mesmo. Cadê tem qualidades para estar entre os seus preferidos e traz uma particularidade que o encantou: ter duas edições com ilustrações diferentes (a outra, mais antiga, é da FTD). O livro imprime uma velha brincadeira de infância, que eu amava na minha e, adotado pela escola, ajudou a alfabetização do Pedro a ser mais divertida. A parlenda "Cadê o ratinho que estava aqui? O Gato comeu..." foi o texto escolhido por Guto Lins, um criativo ilustrador, para convidar a criança a brincar. Ou melhor, a tocar, a fazer cosquinha, a rir, a interagir com o que lê e com quem lê para ela. Antônio fez tudo isso, mas o que ele mais gostou foi do final da parlenda. "Cadê o ratinho que estava aqui? Foi por aqui, por aqui, por aqui..." Meus dedos seguiam o ritmo do texto, fazendo com que ele risse e se contorcesse todo. O prazer do Antônio foi tanto que reforçou minha crença de que a iniciação da criança na leitura é ancorada no afeto. O afeto é a única razão que nos leva a lermos para nossos filhos e, nos primeiros dias, a fazer com que eles nos escutem. É o calor gostoso de corpo encostado em corpo, são as mãozinhas curiosas no livro e a voz do adulto conduzindo a história que oferecem para a criança a ludicidade proposta pela literatura infantil. O afeto, vale lembrar, é o que mais conta na vida. Não tenho dúvidas de que foi ele quem me moveu nos últimos anos. Ele me deu casa e comida, norte na vida e um olhar para o futuro. Foi com ele que construí minha família, preenchi meus vazios e re-signifiquei minha história. É dele que me alimento, que supero minhas perdas e celebro meus ganhos. E é para ele que quero criar meus filhos. No mais, só me resta esperar pela vida. Ela, como a parlenda, tem sempre uma surpresa guardada a frente. E creio, cada dia mais, que boa.

domingo, 15 de junho de 2014

Toda criança tem medo do lobo mau

O medo é um bom tempero para a imaginação, não há quem duvide. Talvez seja isso que garanta sucesso para as histórias de lobo. Afinal, estou para conhecer criança que não tenha medo do lobo mau. Um lobo que come porquinhos e meninas ingênuas e que pode estar em qualquer lugar. É justamente dessa ameaça que Anna Flora fala em Quem tem medo do lobo mau?, editado pela Record e ilustrado por Walter Ono, prestigiado ilustrador da geração de 1970. O livro, de 1987, antecede a atual tendência de Hollywood de desconstruir os tradicionais contos de fadas. Ele foi lançado, no Brasil, um ano antes de, nos EUA, ser editada A verdadeira história dos três porquinhos, de Jon Scieszka, que, como Anna Flora, contou o embate do lobo com os porquinhos pela visão do algoz. Anna Flora e Scieszka falam de um lobo injustiçado, logrado pelos porquinhos e alçado à condição de vilão por obra do acaso. Mas falam de histórias diferentes. A de Sciesszka já foi comentada aqui no Gato de Sofá. A de Anna Flora foi uma surpresa para mim. Achei o livro em uma banquinha de usados, na Praça São Salvador, no Rio, e resolvi trazê-lo para casa para ler para meus dois meninos, apaixonados por histórias de lobo. O livro, pequenino, em formato de bolso, tem uma narrativa longa, em que o lobo conta para o delegado seu ponto de vista sobre a história dos três porquinhos. A ela se juntam expressivas ilustrações de Walter Ono, que nos ajudam a dar corpo aos fatos. A narrativa de Anna Flora nos prende a atenção até o desfecho de sua história, em que o lobo sai, com a mão no bolso, assobiando um sambinha. Isso mesmo, ela usa e abusa do nonsense para oferecer para as crianças uma narrativa saborosa. O único senão, segundo o Pedro, que acompanhou tudo com a maior atenção, foi o lobo não saborear os porquinhos. "Ele tinha que ter comido os porquinhos", protestou. Faz sentido. Na história original, de Joseph Jacobs, os porquinhos das casinhas de palha e de madeira vão parar na barriga do lobo, em uma narrativa sem qualquer pudor. Afinal, ao contrário das histórias que desconstroem o lobo, como a de Anna Flora e Sciesza, toda criança tem medo do lobo mau. Mesmo assim, sempre vale a pena ouvir o outro lado. Mesmo que, nesse lado, esteja um lobo.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Um livro, como a vida, sempre tem dois lados

Ninguém duvida de que os fatos da vida sempre têm mais de uma versão. Infinitas versões, dependendo da situação, mas, podemos garantir, que, no mínimo, duas. E nem sempre é fácil compatibilizá-las e harmonizá-las. A vida é como ela nos parece ser. Não há vacina contra a má interpretação dos fatos. Não há garantias de que o que vemos de fato existe. Não há, nem mesmo, certezas sobre como são as coisas. Pois é, a visão dupla, o ponto de vista, a interpretação é a matéria prima de Ter um patinho é útil, da autora e ilustradora Isol, a argentina que ganhou, em 2013, o Alma, um dos mais prestigiados prêmios da literatura para crianças e jovens do planeta. O patinho de Isol, editado por aqui pela Cosac Naify, é na verdade a maneira de a autora brincar com esta verdade ou com a constatação da ausência dela. De um lado o patinho é o objeto útil para o menino. Do outro, o menino é o objeto útil para o patinho. Eles se alternam graças a um artifício do projeto gráfico do livro, que é uma sanfona com dois lados. A criança desenrola a sanfona de um lado, para ler a história do menino e quando chega do outro lado, começa a história do patinho. Uma brincadeira que parece simples e destinada apenas a entreter o pequeno leitor, mas tem a capacidade de ludicamente traduzir literariamente um axioma da vida. Não há dúvidas de que, quando um autor consegue esta façanha, a alegria fica por conta do leitor. Aqui em casa foi assim. O Pedro, mesmo já quase um adolescente, com seus 12 anos, se divertiu ao desvendar a brincadeira proposta por Isol. Riu ao fim, com o riso de quem percebe a trapaça da autora. Um livro para ler, tocar, abrir e pensar. Pensar em como a vida tem sempre, pelo menos, dois lados. Feliz de quem logo percebe isso.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Um botão para soltar a imaginação

Temos passado dias frios no Rio. Um friozinho carioca, sei disso, mas um friozinho que nos permite uma blusa de manga comprida de dia e um cobertor de noite. Tempo que nos faz desejar aconchego, que nos lembra que nossa casa é um lugar de afeto e nos afasta da rua, tão querida nessa cidade. Uma hora em que o melhor é buscarmos aqueles que amamos e nos amam. Assim tem sido aqui em casa. Quando a noite chega, eu e os meninos nos aninhamos na cama, juntinhos, para ler histórias. Mas, antes disso, tem muita animação por aqui. Tem que tirar todo mundo da TV, do computador, do Ipod e do álbum de fugurinhas da Copa e colocar os dois para escovar os dentes e vestir o pijama para, enfim, deitarmos. Mas não sem antes o Antônio passar alguns longos minutos escolhendo a história da noite. São vários livros rejeitados, até chegar ao escolhido. Aperte aqui, de Hervé Tullet, editado pela Ática, faz parte dos poucos que merecem a atenção do Antônio. Ele tem razão em gostar do livro que chegou aqui em casa pela ciranda da escola e, diante de seu entusiasmo e do Pedro, com a brincadeira proposta por Hervé, mereceu ser comprado para nossa estante. O autor francês, já comentado aqui por Sem título, da Companhia das Letrinhas, parece ser, pelos dois livros publicados no Brasil, um mestre em brincar com a imaginação. Se, em Sem título, ele convida o pequeno leitor a viajar pela criação da narrativa, em Aperte aqui, ele brinca com a ideia de que o virtual não é um produto apenas das plataformas digitais e de sua capacidade de criar novos realidades, mas que é, sobretudo, um produto da imaginação humana. Ao convidar as crianças a apertarem, virarem, balançarem, chacoalharem o livro, Hervé reproduz nas duas dimensões possíveis da folha impressa os jogos virtuais de computadores e tablets que as crianças tanto gostam. E a viagem, posso garantir pela reação do Pedro e do Antônio, é a mesma. Ninguém deixa de se divertir porque não vê as bolinhas caindo, como nos joguinhos eletrônicos. Elas não caem, mas o livro nos faz imaginar que elas estão caindo e é isso o que importa. Hervé nos faz lembrar que antes do mundo virtual criado pelos computadores, havia imaginação. E com ela, ninguém pode, nem mesmo a realidade.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A teia da vida é forjada nó a nó pelo feminino

Assisti a uma palestra do frei Betto que me restituiu a crença na humanidade. Não que ele tenha falado de um mundo bom. Não, pelo contrário. Ele falou de um mundo dominado por valores materiais e exteriores ao indivíduo e sobre como a pós-modernidade está empobrecendo a subjetividade humana. Falou, sobretudo, do sofrimento que isso causa em todos nós. Mas havia esperança em seu discurso e ela estava em sua crença na existência e resistência de valores humanistas e na certeza de que cabe a nós, adultos, o esforço de transmiti-los aos mais novos, sejam nossos filhos ou não. Ele falou de amor, de doação e de altruísmo que fazem os incluídos neste mundo de consumo saírem de seus lugares de conforto e olharem para o outro. Lembrou que poucos estão dispostos a este olhar. Falou de como esta nova subjetividade impacta nossa vida, da dificuldade dos casais de se relacionarem, do esvaziamento dos projetos comuns, da desvalorização da família como espaço de afeto e conforto na aridez deste mundo, que promete prazeres fugazes e a quem não se compromete com o outro. Mas, sobretudo, falou de utopias. De como sonhar alimenta o humano que trazemos em nós. Sonhar com o amor pelo próximo, que pode levar para nossos jovens exemplos de pessoas que lutaram pelos outros. Um ato de amor que, mais uma vez, muito poucos estão dispostos a ter. Não é apenas no coletivo que está amor está sendo negado, disse Betto. Ele é negado todos os dias nas relações pessoais. São poucas as pessoas, hoje, que se dispõem a fazer pelo outro. Um pequeno gesto, como oferecer lugar para um mais velho, ou um grande gesto, como alimentar um projeto a dois, são improváveis neste mundo. Um fazer que me lembrou a beleza do conto A moça tecelãde Marina Colasanti, editado pela Global. Um fazer pelo outro ou pelo coletivo que está ligado à tecedura da vida, um poder, sem dúvida, feminino. Digo feminino e não da mulher por acreditar que, nestes tempos pós-modernos, em que não há lugares definidos, este papel social  pode ser vivido tanto por mulheres, quanto por homens e, até pior, por nenhum deles. O feminino, estou certa, ainda é essencial para a socialização. É ele que alimenta a vida em comum. É a moça tecelã, em seu mundo maravilhoso, proporcionado pelo feminino, que tem o poder de tecer sua própria vida e a de quem está a seu lado. Ela busca em seu tear o dia, a noite, o amor e a felicidade. Busca também um homem para, com ela, fazer a vida. É no confronto com a objetividade do masculino, também possível de ser vivida hoje por homens e mulheres, que a felicidade dura pouco. O homem, assim que percebe o poder mágico do tear da moça, a submete a seu mundo de pragmatismos. Pede luxo e riqueza, a moça o atende. Ela trabalha dia e noite para satisfazer os caprichos de seu homem, para agradá-lo e não recebe nada em troca. A aridez emocional em que vive faz com que, um dia, apoderando-se novamente do feminino, desfaça tudo. Luxo, riquezas e o homem. Ao ver-se diante do nada, volta a tecer a teia da vida. Desta vez, sozinha. Uma decisão difícil, que, quando tomada, a liberta do sofrimento que a negação daquele homem estava lhe impondo. Um conto que usa um mundo maravilhoso para falar dos prejuízos de se esquecer o potencial revolucionário que o feminino tem, diante deste mundo masculino e objetivo. Prejuízo compartilhado por mulheres e homens que, ao abrirem mão da possibilidade de tecer a vida, com a paciência daquelas moças que sabiam que o futuro era forjado a cada nó, perdem o mais bem maravilhoso que a vida pode nos dar, o amor.

domingo, 13 de abril de 2014

A vida e o barco que seguem adiante


A história li para o Antônio, mas era do Pedro que estávamos falando por meio de Orie, avó da escritora e ilustradora Lúcia Hiratsuda que inspirou o belo livro, editado pela Pequena Zahar. Pedro, o filho que veio primeiro, grandão, amarradinho no cueiro, para os meus braços. Menino lindo e nosso filho, que passou seus primeiros anos a meu lado e do pai. Acompanhamos cada dia de sua primeira infância, cada conquista, cada gracinha, cada palavra nova, cada carinho. Curtimos tudo o que pudemos, com gosto de tê-lo ao nosso lado. Até o dia em que o Pedro já era um garotinho e veio o Antônio, pequenino, amarradinho no cueiro, para os meus braços. Ele também era lindo e era nosso outro filho. Mais uma vez curtimos cada dia de sua primeira infância, de novo cada conquista, cada gracinha, cada palavra nova, cada carinho. Curtimos tudo o que pudemos, com gosto de ter mais um filho ao nosso lado. Antônio ainda nem andava, enquanto Pedro alargava, cada vez mais, seus passos. Passos em rumo a liberdade tão sonhada, mas que, nem por isso, deixava de ser doída. A dor da separação e de ver outro menino no lugar que fora seu, mesmo que o hoje ocupado seja muito mais desejado. Assim, como Orie, Pedro correu muitas vezes atrás do barco para nos ver partir com o Antônio. Seus olhos, como os de Orie, ficaram compridos, pensando nas coisas que perdera e olhando para aquelas que ainda não tinha. Um tempo difícil, com certeza, estes dias que se avizinham com a adolescência. Mas, como Orie, sei que o Pedro vai sempre olhar para frente e, um dia, espero possa se voltar para o passado, assim como Lúcia o fez, com o livro, para ver o quanto o amamos. Um amor que nem sempre tem a delicadeza dos traços de Lúcia, que nos presenteia com mais um belo livro ilustrado, em que imagens e textos se irmanam, mas que, com certeza, vai durar para sempre. Cuidaremos do Pedro e de seu irmão, Antônio, com todo o zelo, para que suas memórias sejam cheias de amor, como as de Orie. É tudo o que de melhor podemos fazer. No mais, vida e barco que sigam adiante.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Todos querem um irmãozinho

O desejo de ter irmãos não inquieta apenas as crianças que não os têm. Inquieta a quase todas,democraticamente, alimentando a fantasia de que um primeiro ou novo irmão vai lhes garantir um amigo inseparável e, quem sabe, até um fiel seguidor. Aqui em casa, este assunto já esteve em pauta várias vezes, antes e depois do nascimento do Antônio, irmão do Pedro. Ele foi muito esperado pelo maior, que pediu várias vezes um irmão, até ser surpreendido com minha barriga e depois com um neném em meus braços. Foram momentos ricos, repletos de muito amor, muito ciúme e algum ódio, que fizeram com que o maior, 11 anos depois, escrevesse em um trabalho de História que o nascimento do irmão havia sido a pior coisa que acontecera em sua vida. Parte mentira, parte verdade. O Antônio trouxe com ele o amor de irmão, maravilhoso, e uma nova e desconfortável realidade, em que tudo tinha que ser dividido, inclusive os pais. Apesar disso, o Pedro pediu muitas vezes um outro irmão. Pedido que ganha eco no desejo do Antônio, que passou a sonhar com a possibilidade de deixar de ser o mais novo dos filhos e ter alguém depois ele. Este depois é prenhe de significados e da esperança de exercer poder - no que isso tem de bom e de ruim - sobre alguém, assim como o Pedro exerce sobre ele. Talvez por isso, sem esquecer os inquestionáveis méritos da narrativa de Maria Menéndez-Ponte, que Quero um irmãozinho, editado pela SM, fez tanto sucesso com meu pequeno. Ele adorou. Começou a ouvir a história a contra-gosto, mas rapidamente foi se chegando para ver as ilustrações do argentino Gusti e, por fim, estava rindo das aventuras do menino criado pela escritora galega, que escolheu um tema comum, mas, nem por isso, fez uma história banal. Sua versão para este desejo tão comum em crianças é muito original e explora o que a literatura infantil tem de melhor: a ternura e o humor para os quais as ilustrações colaboram bastante. O menino de Maria é de tão cândido que, em sua ingenuidade, deixa rolar o que há de melhor na criança, a imaginação. É dela que Maria faz a riqueza de sua história. A narrativa é tão verdadeira que fez meu Antônio, que já sabe as primeiras lições sobre como nascem os bebês, embarcar com a maior alegria na solução dada pelo menino para que sua mãe engravide. Ele ficou tão animado, que, ao fim da história, falou alegremente: "Não é que deu certo", me deixando de queixo caído. Quem ler Quero um irmãozinho vai entender meu espanto e, ao mesmo tempo, orgulho por ver que meu Antônio ainda está cheio das possibilidades que a infância dá à vida.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A ira também ataca os poetas

A poesia foi a porta que me levou à literatura. Ela se abriu para mim nas aulas de Literatura, na escola, que, na minha época, mais afastavam da leitura do que aproximavam. Para minha sorte, esbarrei com Castro Alves, que me pegou pela mão e me convidou para a leitura. Como amei o estilo romântico e engajado do poeta baiano! Amei ainda mais a descoberta de que a língua poderia me apresentar tantas surpresas. Depois de Castro Alves vieram outros poetas, sempre brasileiros, que aprendi a amar. João Cabral de Melo Neto foi a maior de todas minhas surpresas. Uma poesia dura como a pedra, que soava estranha, mas falava direto para mim. Nem toda a poesia me agrada, nem todo o poeta é meu par, mas quando este encontro se dá, é o melhor, o mais forte. Por isso, minha felicidade em ver o prazer do Antônio explorando os poemas de A arca de Noé, do maravilhoso Vinícius de Moraes, editados pela Companhia das Letrinhas e ilustrado por Laurabeatriz. Mais de uma vez pegamos o livro e lemos os 32 poemas. Digo lemos, porque o Antônio leu alguns ou releu outros, com uma animação tão grande que contagiou o Pedro, na cama ao lado, fazendo ele se juntar a nós. É claro que temos alguns preferidos, na maior parte das vezes, os que exploram o humor, como O vento, O pato e a A casa. É lógico também que há um lugar especial para O leão e sua fúria poética, assim como para As borboletas, descobertas pelo Antônio em seu caderno de poesias preparado pela escola. Uma descoberta que levou a outra, desta vez, dada por uma amiga querida, Maria de Moraes, que herdou do pai o gosto pela palavra, em um depoimento sobre as agruras do poeta ao tentar escrever um poema para a borboleta amarela. Uma história deliciosa que encantou o Antônio e o fez saber que a ira também ataca os poetas. Vale conhecer o texto da Maria, que reproduzo a seguir. Como diz a pulga, de Vinícius, "Tchau/ Good bye/ Auf Wiedersehen".

“As pessoas adoram e pedem mais e mais histórias; então, lá vai uma bonitinha, de família, que minha amada mãe, Christina Gurjão, me contava sempre rindo. Papai queria porque queria fazer um poema para a Borboleta Amarela. Sentado na cadeira, em frente a sua escrivaninha, máquina de escrever, tec, tec, tec, não gostava, tirava o papel da máquina e amassava o papel em bolinha, jogado no chão, insatisfeito, na busca da poesia. Tarde da noite, mamãe fora dormir, sem ainda ele ter saído da cadeira, tec, tec, tec, silêncio, barulho de papel amassado. Deu-lhe um beijo e, ainda na cama, antes de ferrar no sono, os mesmos barulhinhos, tec, tec, tec, e de papel amassado. Diz que despertou, o dia amanhecendo, com papai indo dormir. Ainda ficou um tempo na cama, mas logo se levantou, já curiosa para ver que poema lindo haveria saído depois de tanto tec, tec, tec. Na sala, um mar de bolinhas amassadas, muitas no chão, e, na máquina de escrever, um papel, que ela foi ler, com o título A Borboleta Amarela, e abaixo escrito: A Borboleta Amarela – Merda pra ela!”

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma bela história, sem título e com muitas possibilidades

Tem um bom tempo que não passo por aqui. Um tempo de férias, que me serviu para descansar e reorganizar a vida. Um tempo também de ausência. Mas uma ausência vivida com a tranquilidade dada pela certeza de que eu sempre posso voltar. Este sofá é um lugar de afeto que construí na vida e que está sempre arrumadinho para mim e minhas histórias. É tão bom saber disso, tanto que estou aqui novamente, buscando seu aconchego. Um aconchego que não me cobra nada. Aqui não preciso ter certezas e posso me alimentar apenas de possibilidades, assim como Hervé Tullet fez com o seu Sem título, editado pela Companhia das Letrinhas. Pelo título ou ausência dele já é possível perceber que o francês não criou um livro comum. Ele nos propôs um livro aberto, em que o leitor é sujeito da narrativa e ele, autor, é surpreendido pelo olhar de cobrança de quem esperava uma história tradicional. Hervé não cede e nos dá apenas os personagens, premidos a se apresentar pela urgência do leitor, e muitas lacunas. Na falta do autor, a história vira uma grande confusão e os personagens vão se virando como podem para dar um significado ao caos. E nós, leitores, temos que encontrar um lugar nesta bagunça. Nada confortável para um pequeno leitor, sei disso. O Antônio reagiu logo, querendo deixar o livro de lado. Eu insisti certa de que a confusão e a insegurança não são confortáveis para ninguém, mas que nela podemos enxergar grandes possibilidades e construir belas histórias. Diante de minha insistência, o Antônio foi cedendo, se abrindo para esta nova possibilidade e interagindo com o livro. Uma interação que Hervé garante sem qualquer artifício. O livro não tem dobraduras, texturas ou sons, tem apenas provocação. A interação de Hervé com o pequeno leitor se dá pela imaginação. O Antônio, depois de ganho pela brincadeira, leu o livro várias vezes e conversou com os personagens, reclamou das soluções dadas por eles, cobrou mais histórias, enfim exerceu ativamente o seu papel de leitor. Um leitor exigente que soube, mesmo no caos, tirar prazer do diálogo travado com o livro. Uma bela história, sem título, com muitas possibilidades e a promessa de que, se quisermos, podemos construir um final feliz.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Papai Noel é para sempre

Há cerca de um ano o Antônio fez a pergunta que, cedo ou tarde, toda criança faz.
- Mãe, Papai Noel existe?
- Não, Antônio. Papai Noel é uma lenda - respondi, seguindo minha convicção de que não se mente para crianças.
- E o Coelhinho da Páscoa?
- Também não, meu filho.
A reação do Antônio me surpreendeu. Em vez de estar pronto para a decepção, como sua curiosidade sugeria, ele ficou muito revoltado com a realidade. Tão revoltado que o aconselhei a ignorar minha resposta.
- Antônio, você ainda quer acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa?
- Sim - disse ele, com os olhos vermelhos.
- Então, filho, Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa continuam a existir para você. É só você querer e acreditar que eles vão existir - disse, certa de que era o que ele precisava ouvir para se apaziguar com a vida e suas fantasias.
Seu desejo era tamanho que, imediatamente, se reconciliou com a fantasia. Voltou a tratar Papai Noel e o Coelhinho como personagens reais e, agora, às vésperas de mais um Natal, ele, já com quase sete anos, faz planos que incluem a generosidade do bom velinho. Planos que dão como certa sua existência, tão certa que pressupõem uma comunicação direta com o Polo Norte, que dispensa intermediários, como os correios ou, mesmo, os pais para fazer chegar a Papai Noel seu pedido de Natal.
Assim teria sido, não fosse a intervenção salvadora do Pedro, o irmão, que com quase 12 anos, enterneceu-se com a ingenuidade do pequeno. Ao saber do pedido, quase secreto, ao Papai Noel, resolveu me contar para, assim, garantir a chegada do presente do irmão.
- Mãe, o Antônio disse que pediu um presente para você e o papai e um para o Papai  Noel. Ele não sabe que são vocês que compram o presente do Papai Noel - disse, entre divertido e preocupado com o que aconteceria com os pedidos do irmão.
Avisada, orientei o Pedro a escrever com o Antônio uma cartinha para o Papai Noel e, depois, me entregá-la para que eu soubesse o que ele queria de presente. Assim que a carta me chegou, prometi colocá-la ao lado da árvore de Natal para que um duende pudesse pegá-la, durante a madrugada, e levá-la para o Polo Norte.
A estratégia deu tão certo que Papai Noel já entregou o presente dos dois, para que eu os esconda até a noite de Natal. E o que é melhor, garantiu a crença de meu pequeno na magia do Papai Noel.
Uma experiência tão encantadora para o Antônio, quanto a do menino criado por Chris van Allsburg, em O Expresso Polar, editado pela Editora Nova Fronteira. O personagem de Allsburg, que sonhava em ganhar um dos guizos de prata das renas de Papai Noel, quando tem seu pedido atendido, percebe que só ele e seus amigos eram capazes de ouvir o tilintar  do guizo. Tilintar que ressoa em seus ouvidos até hoje e "nos de todos aqueles que realmente acreditam". O Antônio, que ouviu atento a história, é um dos que pode ouvi-lo. Que possa fazer parte deste grupo privilegiado, até quando seu coração quiser.

sábado, 23 de novembro de 2013

Uma floresta com as cores do imaginário popular

Eu amo a delicadeza das aquarelas de Cárcamo. Amo tanto que não pensei duas vezes em levar para casa A contagem dos sacis, de Monteiro Lobato, editado pela Globinho, para ler para os meninos. Nós já tínhamos lido O Saci e a história foi um sucesso, deixando aquele gostinho de quero mais, comum quando terminamos um livro que amamos. O mesmo gostinho, tenho certeza, que as crianças que leram o livro na época de sua publicação, em 1921, experimentaram e que animou Monteiro Lobato a escrever uma continuação da história. As séries que dão continuidade a uma história de sucesso não são uma invenção da indústria do cinema. Os escritores, aqueles que viviam de escrever, antes mesmo de Hollywood, já haviam sacado esta possibilidade. Pois bem, Lobato que, além de escritor, era um editor em busca de boas possibilidades, fez a sua continuação com a história do encontro de Pedrinho e o Saci para uma coleção que seria publicada, em 1947, em Buenos Aires, onde seus livros eram um sucesso. A professora Marisa Lajolo, especialista em Lobato, nos explica no prefácio, que a história que faz parte desta coleção e que ela ficou de fora das obras completas do autor, publicada no Brasil. Uma história que narra o início da amizade entre Pedrinho e o Saci e - como bem gostava Lobato - nos incita a um debate sobre o que é mais eficaz para garantir a obediência: a violência ou os valores morais. O debate ganhou o Pedro. Na hora, ele retrucou zombando da conclusão de Lobato de que "as cordas morais amarram mais do que todas as cordas físicas", mas a dúvida se instalou em sua cabeça. No dia seguinte, perguntou ao pai, como que para reunir mais argumentos: "Pai, o que tem mais poder: o medo ou a lealdade?". O Cadoca explicou que a lealdade é mais forte, já que não busca brechas, como o medo, para derrotar o outro. "Quem conquista pela lealdade, conquista. Quem conquista pelo medo, subjuga. E esta pessoa espera a primeira oportunidade para trair seu opressor." Ficou uma lição para o Pedro, mas mais do que tudo ficou uma boa história para seu repertório. Uma história que se enriqueceu ainda mais com as belíssimas ilustrações de Cárcamo, que fez do universo de Pedrinho e do Saci um ambiente sombrio e ao mesmo tempo colorido. Uma floresta dúbia, como criou Lobato, que ao mesmo tempo que assusta, guarda as cores vivas do imaginário popular. Quem ganha com o encontro de Lobato com Cárcamo são nossos filhos, que podem ler e ver a magia do folclore brasileiro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O lobo não quer só comida e a gente quer diversão e arte

O Pedro sabe bem que não há nada melhor do que uma história bem resolvida. Não basta uma bela narrativa ou um bom personagem. É preciso, antes de tudo, um enredo engenhoso, que se desdobre com coerência e originalidade. É isso que garante que a peteca - que o leitor vai equilibrando desde o início da história  - não vai cair em seu final. Um bom final cria aquela sensação mágica que faz tudo parecer possível nesta vida, até mesmo o maravilhoso. Esse encantamento é, com certeza, uma das graças da literatura para crianças e, por isso, não é fácil de ser alcançado. Muitos livros tentam e não chegam lá. Não é o caso de A fome do lobo, de Cláudia Maria de Vasconcellos, editado pela Iluminuras. A história bebe na tradição da oralidade, com um enredo que se desenrola aos poucos, abusando das repetições e de pequenos avanços até que, de uma hora para outra, tudo se encaixa para um desfecho surpreendente. Uma fórmula que prendeu a atenção do Pedro, encantado também com as belíssimas ilustrações de Odilon Moraes que só fazem engrandecer a história de Cláudia. Ele ouviu atento a todas as tentativas do lobo de comer um dos animais que encontrava pelo caminho. As saídas das vítimas, criativas, levavam a história novamente para seu início, adiando o final e deixando o Pedro ainda mais curioso. Uma curiosidade que só foi saciada no fim da narrativa e que não  fez sofrer o Antônio, que, antes mesmo da leitura, folheou o livro e se divertiu fingindo adivinhar o resultado de cada embate do lobo com suas presas. No início, eu até acreditei que ele estava desvendando o desenrolar da história, mas, ao fim, percebi a artimanha de meu pequeno leitor que, com a cara mais lavada do mundo, antecipava as derrotas do lobo. Derrotas que só faziam a fome do lobo e a nossa curiosidade aumentar. Ao fim, de barriga cheia o lobo nos deixou com a certeza de que sua fome não era só de comida e que a nossa, sem dúvida, era de diversão e arte.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Os encantos e as encrencas de uma princesa unissex

A vida anda corrida e cheia de novidades tanto em casa, como na rua - com empregada e trabalho novos, o que me têm exigido muito jogo de cintura para dar conta de tudo. O dia começa cedo, por volta de 6h30, com o despertador me tirando da cama, e se faz cumprir com soluções nem sempre desejadas, como ficar sem almoço, faltar a hidroginástica ou deixar para lá coisas de que gosto, como ler e escrever. Ao fim, por volta das 22h, ele termina na cabeceira da cama dos meninos, onde leio diariamente histórias por eles ou por mim escolhidas. Confesso que nem sempre faço isso porque quero. Já pensei muitas vezes em deixá-los dormir sozinhos, mas, como filho não desiste da gente, sento-me à cabeceira da cama e começo a contar histórias. As vezes, faço isso sem prazer, mas quase sempre a magia das narrativas me leva para um mundo em que eles, só eles, podem me guiar. Um mundo de delicadeza, de humor, de imaginação, de amor e de crença na vida e em suas possibilidades. São livros como Encantos e encrencas com a Branca de Neve, de Glaucia Lewiki, editado pela Gryphus e ilustrado por Sandra Ronca, que me fazem ter a certeza de que, mesmo cansada, doida para dar fim ao dia, vale a pena contar, contar e contar histórias para meus filhos. Nesta, três fadinhas são desafiadas por seu professor de magia a dizer o que aconteceria com a Branca de Neve se uma das personagens do conto clássico fosse uma fada.  Clara, Alegra e Bela são cheias de ideias, como qualquer criança, e dotadas de poderes maravilhosos, que as levam para o bosque dos Sete Anões onde vão interferir na história da princesa de pele branca como a neve. A narrativa de Glaucia garante mais do que originalidade em seu reconto de um conto clássico, garante a possibilidade de a criança sentir-se protagonista de uma história em que nada está previamente arrumado. Uma história em que surpresas aguardam os leitores, acostumados com a previsibilidade dos contos clássicos. Por outro lado, as soluções dadas pelas fadinhas continuam no universo do maravilhoso e, assim, diferenciam-se de muitos recontos contemporâneos que pretendem desconstruir o original. A Branca de Neve de Glaucia Lewiki continua sendo uma princesa em busca de um bom príncipe, mesmo que este príncipe seja um sapo. O humor e a imaginação da narrativa garantiram que o Antônio se mantivesse atento à história, esperando para saber que fim as fadas iriam dar à princesa. Uma princesa, é bom dizer, unissex. Glaucia se mantém fiel ao universo maravilho dos contos clássicos e, assim, foge da tentação do mercado de transformar sua Branca de Neve em protagonista dos sonhos românticos das meninas. Afinal, a imaginação não tem sexo e tão pouco idade.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Liberdade é escolher sem a pressão do vendedor

Estou há muito tempo planejando escrever sobre minha adesão à campanha a favor do Projeto de Lei 5921, que visa regular a publicidade infantil no país, que está em tramitação na Câmara dos Deputados, e o combate ao consumismo infantil. Vocês já devem ter notado, aí ao lado, o selo da campanha Infância livre de consumismo e o link para o importante documentário Criança, a alma do negócio. Essa é uma questão que de fato me preocupa. Tenho dois filhos, um quase adolescente e outro ainda pequeno, que, como todas as crianças brasileiras, estão muito expostos aos apelos do consumo. Eu e meu marido lutamos diariamente contra esses apelos e nos questionamos sobre o que é de fato necessário para o bem estar deles. Este exercício nos leva a algumas regras, que vamos buscar na nossa infância. Sapatos têm um número limitado em nossa casa. Cada um deles têm apenas uma chuteira, um tênis e um chinelo que só são trocados quando acabam ou quando o pé cresce. O mesmo critério vale para a calça e a bermuda jeans. Já a soma das outras peças de roupa - do que ganham, do que compramos e do que as avós fazem para eles, confesso, acaba extrapolando o necessário. Mas também não há nenhuma extravagância, como peças de grifes ou inadequadas para a idade deles. Os brinquedos foram aos poucos sendo eliminados de nossas listas de compras. Os eletrônicos, sempre desejados, são os presentes especiais, ganhos nos aniversários ou no Natal, quando servem aos dois. Mas só cedemos a estes pedidos, depois de muito desejados - para evitar um pedido novo a cada lançamento da versão mais moderna, e se estiverem de acordo com a idade deles. As exceções ficam por conta daqueles que eles compram com o dinheiro deles, que economizam no dia a dia. Mesmo assim nem tudo lhes é permitido com esse dinheiro, afinal, eles devem entender que ele foi fruto de muito esforço e, portanto, não deve ser gasto com qualquer coisa. Os livros são um capítulo a parte. Ficam na conta do consumo da mãe e do pai. Todos os que eles desejam e pedem eu compro, com exceção daqueles livros-brinquedo produzidos apenas para acender o desejo das crianças. Nego sem culpa, já que acho que eles devem entender que nem tudo vale a pena ser comprado, mesmo que seja um consumo cultural. Sobre esses, eu os convenço a não levar, argumentando que são bacanas só de olhar e tocar e que, rapidamente, serão deixados de lado. As histórias não. Elas estão sempre lá, nos esperando para uma nova leitura ou um novo olhar. Histórias que, na maioria das vezes, são escolhidas por mim e apresentadas a eles em nossas leituras noturnas. Não é hábito aqui em casa sair com as crianças para compras. Sejam elas da natureza que for. Isso evita que eu e o Cadoca sejamos bombardeados com pedidos, que vão desde o chocolate no supermercado, à bola de futebol do torneio da hora, passando pelos livros com música e dobraduras, sempre os mais expostos nas seções infantis das livrarias. Estas restrições, estou certa, não  impedem que eles tenham liberdade para escolher suas leituras. Eles têm acesso a uma bela biblioteca na escola, onde podem pegar emprestado o livro que escolherem, além de muitos aqui em casa, o que é mais do que suficiente para apresentar a criança à literatura. Até porque não era diferente disso em um tempo que as pessoas que viviam em ambientes letrados, liam muito mais do que hoje, mesmo comprando menos. Eu, por exemplo, me tornei leitora, lendo apenas o que havia na minha casa, na casa dos meus avós ou nas bibliotecas a que tinha acesso. Quantos são os relatos de escritores que contam ter descoberto a magia da literatura no contato com o acervo de uma pessoa próxima. Não é preciso ter acesso a tudo para descobrir a porta a ser aberta pela literatura. É preciso apenas estar sempre tentando e as livrarias, como são hoje, pouco colaboram neste esforço. A maioria delas, vende livro para crianças como se fosse bala, apelando para cores e sabores artificiais que, poucas vezes, trazem histórias que valem ser contadas. Assim, mesmo contrariando o senso comum de que devemos levar nossos filhos a livrarias para eles próprios escolherem seus livros, continuo investindo em ter um acervo de qualidade em casa para que eles possam escolher suas leituras livres das estratégias de venda. Tenho certeza de que um dia, como aconteceu comigo, eles poderão frequentar livrarias e comprar seus livros, com seu próprio dinheiro e livres da pressão do vendedor. Até lá, continuamos a ler todas as noites aqui em casa, tentando, acertando e errando neste difícil desafio que é consumir sem consumismo.