quinta-feira, 23 de maio de 2013

Trocando de lugar com o filho

Cheguei em casa ontem à noite super cansada e nada a fim de ler para as crianças. Quando dei esta notícia, esperando o choro convulso do Antônio, tive uma surpresa. "Mãe, o meu dever de casa de hoje é ler para a família". "Oba!", pensei duas vezes. A primeira de preguiça e alívio de não ter que ler. A segunda, por um motivo mais nobre, o amor de mãe orgulhosa do filho, que está aprendendo a ler. Troquei de roupa, escovei os dentes e fui para minha cama para o Antônio ler para mim. O livro - Você troca, da Eva Furnari - já foi lido aqui em casa mil vezes. Por mim, pelo Pedro, mas nunca pelo Antônio. Ontem, era a vez do nosso caçula, que orgulhosamente iniciou a leitura. E foi a minha vez de curtir as perguntas da Eva e decidir por minhas escolhas. Amei mais uma vez este livro, que já foi comentado aqui mais de uma vez e merece todos os aplausos, e amei mais ainda a leitura do meu menino. Ainda claudicante, muito baseada na memória de quem já leu ou ouvir a história inúmeras vezes, mas, acima de tudo, brava. Admiro a coragem das crianças que, sem medo de errar, se expõem a tudo e a todos os julgamentos. Não sei se nós adultos teríamos esta coragem, haja visto o constrangimento comum de quem tenta se comunicar em uma língua estrangeira. Mas as crianças enfrentam esse desafio com a maior alegria e nós, do lado de quem já automatizou a leitura, rimos baixinho e com ternura de todos esses erros. Erros que não nos deixam esquecer que a vida é uma eterna luta para conquistar o novo. Novo para meu filho, velho para mim. Mas, com certeza, a emoção que isso me causou é nova e tem cheirinho de bumbum de bebê. Aninhada ao lado do meu filho, não pude deixar de pensar em dar vivas às trocas de lugar, que nos permitem, mesmo que por uma noite, ouvir uma história de quem sempre está atendo às nossas.
PS: Posto aqui meu agradecimento à Karina, à Beth e à Júlia, que estão ajudando o Antônio nesta aventura, e a foto da capa da nova edição do livro. Para quem quiser conhecer os outros comentários sobre o livro, basta clicar aqui ou aqui.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

De vilão a herói, o Curupira Pirapora

Alguns livros tem capas tão boas que é impossível ignorá-los nas livrarias. Assim é com Curupira Pirabora, o primeiro livro de Tatiana Salem Levy para crianças. Em uma primeira mirada, vemos logo o curupira, que, na versão de Tatiana, ganhou pelos verdes, cabelos vermelhos e olhos amarelos, escondido em uma densa floresta. É de lá que vem o curupira, ser mítico das florestas brasileiras, que usa de ardis para se vingar de caçadores que importunam os animais. Ele sempre foi  um terror para o homem branco, inseguro em suas incursões pela floresta, e por isso, estava inscrito no rol de quem flertava com o mal, como o Saci-Pererê. Mas, hoje, com a nova consciência ecológica, o curupira passou a ser visto como herói por proteger a fauna da floresta. E é como herói, mesmo que com pouco caráter, que Tatiana nos apresenta o seu curupira, filho de Pira com Pora e, por isso, Pirapora. Apesar de brasileiríssima, a história acabou sendo editada em Lisboa, cidade em que Tatiana nasceu, durante o exílio de seus pais brasileiros, e viveu poucos meses. Pois foi lá, com o selo da editora Tinta da China, que o Pirapora de Tatiana ganhou vida nas cores de Vera Tavares. O encontro luso-brasileiro, mais uma vez, produziu bons frutos. A ilustradora lisboeta  nunca tinha ouvido falar no ser que anda com os pés para trás, mas, como não podia deixar de ser, encantou-se com seu aspecto mágico. O resultado foi um belo trabalho de ilustração, super colorido como a fauna e flora da floresta, que lembra folhetos de cordel, e valoriza e muito a história do encontro do Pirapora com a mameluca Juliana. A história do curupira de Tatiana é encantadora. Nela, a floresta é apenas o cenário. O principal mesmo é a amizade de Pirapora com Janaína, que, neste encontro improvável, transforma os dois personagens e ensina a Pirapora uma nova e lusa emoção - a saudade. Uma história que encantou a todos aqui em casa e entrou para nossa coleção de folclore. Uma história que deu a Tatiana, jovem e já consagrada autora, o prêmio de escritora revelação, promovido pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, pela sua estreia na prosa para crianças. Confesso que gostei e, junto com o Pedro e o Antônio, torci pelo Curupira Pirapora. Que o livro possa apresentar nosso herói das matas aos quatro cantos do mundo! 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Uma conversa tête-à-tête com Clarice


A resistência do Antônio em aceitar novas histórias para seu repertório, já citada aqui algumas vezes, está sendo quebrada pelas visitas semanais de sua turma à biblioteca da escola. Até o ano passado, na educação infantil, ele frequentava uma aconchegante sala de leitura, em que livros dividem espaço com bonecos. Agora, no fundamental, sua turma frequenta uma biblioteca em uma torre, com estantes repletas de livros que cobrem as paredes da sala até o teto. Das janelas, vê-se uma bela vista. Mas o Antônio, ainda baixinho, só tem olhos para os livros. São tantos e com tantas histórias que ele faz planos de trazê-los para casa. Toda semana vem com um livro novo para lermos juntos. A leitura é sempre um prazer, que nas últimas semanas ganhou mais uma alegria, com a aventura da decodificação das primeiras letras. Uma graça sua leitura. Ela vem esbarrando em dois erres, dois esses, cês, agás, cedilhas e outras trapaças do nosso português, mas não desiste de tentar. O dia todo lê o que lhe passa pela frente e nos chama para comunicar sua mais nova conquista. Deitado na cama, ouvindo histórias, a vontade de ler cresce, mas vida de iniciante não é fácil. A letra cursiva, a opção editorial da maior parte dos livros, acrescenta um novo desafio às crianças em fase de alfabetização, que ainda estão lidando com a letra de forma, ou bastão. Mas o Antônio não desiste nunca e consegue ler algumas poucas palavras, em meio a leituras incompreensíveis. Assim foi com A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, editado pela Rocco Jovens Leitores, e ilustrado por Flor Opazo, que tiramos da nossa estante mesmo. Antônio adiantou-se para ler ele mesmo e, com a maior segurança, saiu falando uma série de fonemas desconexos. Em meio a uma língua estranha, emplacou algumas palavras  em português. Satisfeito com sua performance, entregou-me o livro e passou a acompanhar com interesse minha leitura. O Pedro, que já conhecia a história, juntou-se a nós para ouvi-la mais uma vez. Deitada ao lado do Antônio, comecei a ler: "A mulher que matou os peixes, infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer". Logo nas primeiras frases do conto, Clarice mostra que vai travar um diálogo franco com seus leitores. As crianças são as suas interlocutoras e é elas que Clarice quer convencer de que não é uma pessoa má e que matou os peixes sem querer. Para isso, vai buscar em suas memórias as histórias dos bichos que teve. São vários causos, contados com crueza, sem metáforas, para mostrar para seus pequenos leitores que ela sempre gostou de animais. Seu diálogo com as crianças é tão verdadeiro que o Antônio respondia a todas as perguntas que faz no texto, criticava suas atitudes e até lamentava pela sorte dos bichos sobre os quais Clarice escreve. A história que mais o tocou foi a de Max e Bruno, dois cães amigos que lutam até a morte por causa de um ser humano. Antônio ficou triste, como Clarice disse que ele ficaria, e não perdoou Bruno, apesar de ela pedir compreensão com o cão. Nesta altura, o Pedro que acorda com a alvorada, já tinha sucumbido ao sono. Eu e o Antônio seguimos, então, adiante para o fim da história, que não guarda mistério algum, a não ser aquele escondido atrás de um belo texto. Mistério que o Antônio decifra com sua alma de leitor-ouvinte, que anda fazendo um esforço sobre-humano para ler as palavras que lhe trazem tantas histórias. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Monstros malvados, noites insones e histórias verdadeiras

O assunto não é novo. Já falei aqui que sofro há anos com invasões bárbaras, na calada da noite, à minha cama. Primeiro era o Pedro, que chegava e,sem pedir, se aboletava entre mim e o Cadoca para fugir do escuro ou de sonhos ruins. Depois chegou a vez do Antônio, que chega pelo lado da cama, de mansinho, pedindo socorro para espantar seus medos. Sei que eu não sou a única mãe que passa por isso, mas, tenho certeza, que saber disso não me alivia a alma: cansada, insone e atormentada por monstros e bruxas que aparecem no quarto vizinho e eu nem os vejo. Por isso, entendo o mal humor dos pais de André, o herói amedrontado do livro Uma cama para três, de Yolanda Reyes, da Edições SM, belissimamente ilustrado por Ivar da Coll. O menino, como todos, resiste em dormir e faz  súbitas aparições no meio da noite. Nós pais sabemos o mal-estar do outro, mas sabemos também o nosso, no dia seguinte, em que palitinhos de fósforo não serão capazes de manter nossos olhos abertos. Mas vá lá, os monstros que assustam as crianças não têm piedade de nós. Yolanda Reyes sabe bem disso. Sabe também contar esta história sem paternalismos, expondo a dor de cada um e, digamos assim, a insensibilidade dos monstros. Não me interessa livros para espantar os medos das crianças, me interessa histórias que falem deles com verdade. Monstros, bruxas e fantasmas não assustam ninguém quando a luz está acessa e, a hora da leitura com os pais na cabeceira da cama, é um belo momento para as crianças encará-los com os olhos bem abertos. Assim fez o Antônio. Ele acompanhou a longa história calado e ao fim dela, assim ficou. Seus olhos de criança não se enganam com soluções fáceis e palavras encorajadoras. São olhos que estão dispostos a olhar para dentro, se alguém lhes convencer que este é o melhor caminho. Caminho que só é possível trilhar com verdade. E quem tem medo, não acredita em qualquer história. Muito menos naquelas que teimam em dizer que monstros não existem. Por isso, às vésperas do Dia das Mães, peço apenas um presente. Uma noite bem dormida.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Uma aventura em versos de cordel

O cordel sempre me encantou com seu ritmo, suas rimas e o caráter maravilhoso de seus relatos. São histórias que nos pegam pelo pé e nos fazem ficar quietinhos ouvindo e ouvindo, até chegar seu final. Um gênero que tem tudo a ver com crianças, como se fosse o similar nacional dos contos de fadas europeus, e que, aos poucos, está invadindo as estantes das seções infantis de nossas livrarias. O recém-chegado No Reino do Vai não Vem, uma viagem ao reino do cordel, de Fábio Sombra, editado pela Scipione, é um belo exemplo da riqueza do cordel e do encantamento que ele pode causar em crianças e em adultos. Fábio Sombra é ele mesmo o herói da história, que tem como desafio recuperar sua rabeca Veridiana, levada por Pedro Malazartes para o Reino do Vai não Vem, onde moram os personagens da literatura de cordel. Lá, Fábio Sombra tem que cumprir sete provas para recuperar sua Viridiana, que lhe dá inspiração para escrever. As aventuras do cordelista envolvem tanto o leitor que, quando a gente vê, já leu mais de 40 páginas e está no fim da história. O cordel encantou o Pedro, que ouviu com a maior atenção a leitura de cada uma das provação de Fábio Sombra em busca de sua amada Viridiana. Ouviu e viu as belíssimas ilustrações de Flavio Morais, que, sem trair o traço comum das xilogravuras dos folhetos de cordel, dá vida em cores a cada um dos personagens ou dos cenários descritos na história. Seu interesse era tanto, que me implorou para não interromper a leitura e ir até o fim naquela mesma noite. Assim fiz, deixando-o feliz para dormir. "Mãe, a história é muito legal", disse-me, coberto de razões e de seu edredom quentinho. Razões encontradas nas boas histórias populares. Muita ação, situações fantásticas e esperteza para vencer os desafios e os fortes. Para arrematar, uma linguagem poética que nos convida a brincar com a língua. E para melhorar, ao fim, Fábio Sombra nos dá um pequeno painel do mundo do cordel, com um glossário com os personagens citados na história. Uma pena que o Antônio ainda não está pronto para esta experiência. Mas o livro vai ficar guardadinho, esperando a sua vez para dar novamente vida aos personagens do cordel e à aventura de Fábio Sombra. Enquanto isso: "Fecha o pano o menestrel/ silencia o seu cantar./ O final foi fascinante/ mas preciso confessar:/ bem cansado de aventuras,/reis, princesas e criaturas./ afinal vou descansar..."

terça-feira, 7 de maio de 2013

Misturando experiências e criando o novo

A dica foi da Karina, uma das professoras do Antônio, e o livro é realmente um barato. Misturichos, de Beatriz Carvalho e Renata Bueno, é, segundo as próprias autoras, o resultado de um reencontro de amigas, que curtiram brincar de desenhar e misturar bichos. O resultado foi uma série de desenhos e textos super criativos e bem humorados, que divertem e, por que não dizer, incentivam nossos pequenos a arriscar suas misturas. O Antônio, em sala de aula, juntou-se ao Vinícius e à Lis e os três - mistura de cá, mistura de lá - fizeram nascer o Lecochorro, uma mistura de leão, cobra e cachorro. Eu e o Pedro, antes mesmo de ler o texto produzido pela trinca para explicar tamanha aberração, chegamos à conclusão de que um Lecochorro é feroz como um leão, venenoso como uma cobra e fofinho como um cachorro. Será que pode? Tenho certeza de que Beatriz e Renata iam aprovar uma mistura dessas. A mistura delas usou cola, tinta e papel picado para dar cara aos misturichos. O Lecochorro do meu filho e amigos foi parido com sucata e tinta e fez a alegria das famílias de seus criadores. Um sucesso! Mas sucesso maior ainda é encontrar, em meio a tantos lançamentos, um que nos inspire a criar, ou melhor, a misturar experiências para parir o novo. Que meu Antônio possa criar outros lecochorros pela vida.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Quando a Chapeuzinho Vermelho enfrenta o lobo


A Chapeuzinho Vermelho foi passear na manhã de segunda-feira na Creche Cantinho Feliz, do Instituto Marquês de Salamanca, em Santa Teresa. Em vez do malvado lobo, ela encontrou uma turminha de crianças curiosas e atentas às suas aventuras. E o que não faltaram foram aventuras. Em meio a caretas, muxoxos ou até mesmo gritos de medo, as crianças ouviram as versões de Perrault, em que o lobo come a menina e sua avó, dos irmãos Grimm, em que o caçador as salva da barriga do animal, e mais duas - Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, e Uma chapeuzinho vermelha, de Marjolaine Leray, em que ela enfrenta seu algoz. Entre mortos e feridos, a menina acabou a sessão de histórias sã e salva e ainda comeu uns bolinhos com a vovozinha. As crianças que, por sua vez, haviam reafirmado seu medo do lobo, descobriram que é possível enfrentá-lo cara a cara e, o melhor, que há maneiras de enganar a fera. As meninas de Chico e Marjolaine lhes deram belas ideias para se vingar do predador, desde perder o medo dele, até enganá-lo com uma bala para tirar mau-hálito. Mas, como há lobos em todos os lados e eles sempre dão bons causos, elas pediram mais histórias em que ele apareça. Ah, são várias. Só agora lembro de Os Três Porquinhos, O lobo e os sete cabritinhos e  Pedro e o Lobo. Mas elas ficam para próxima semana. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tim Maia, Pessoa, Andersen e as tristezas da vida

Mal dormi hoje por conta de uma crise de tosse que tirou o sono do Antônio às quatro da manhã. Ele foi me pedir socorro e implorar para que eu tirasse aquela doença dele, mas nem todo o meu carinho, xarope e spray de própolis foram capazes de acalmar sua tosse. Ficamos insones, ele e eu e, assim que amanheceu, seguimos para nossa rotina. No rádio do carro, ainda bem cedo, ouvi Tim Maia cantar Bom senso, de seu álbum místico, Racional, e fiquei pensando em como muita coisa mudou nestes 47 anos em que estou no mundo. Quem hoje falaria assim, de cara tão limpa - nesta época o Tim estava limpo, que fez muita coisa errada, dormiu na rua e pediu ajuda? Hoje, vivemos tempos em que todos nascem limpos, bem-sucedidos e felizes. Um tempo em que o Tim seria mais outsider do que foi em sua breve vida. Um tempo que, na verdade, apesar de todo o discurso da diversidade, há lugar para cada vez menos pessoas. Entendo por lugar, um lugar qualificado, que garanta as oportunidades e a mobilidade que a modernidade promete a todos e oferece a apenas alguns. O desabafo de Tim me fez pensar em como nós, da classe média, temos criado nossos filhos. Nas estratégias que adotamos para evitar que eles vivam a dor, a vergonha, a tristeza, a dureza, entre tantas agruras, e no resultado desta proteção. Pensei em Fernando Pessoa e seu Poema sujo, em que o poeta português diz nunca ter conhecido quem tivesse levado porrada e que todos os seus amigos têm sido campeões em tudo. Pensei na máxima das redes sociais de que ninguém é tão feito quanto na identidade, tão bonito como no Orkut, tão feliz como no Facebook, tão simpático quanto no Twitter, tão ausente como no Skype, tão ocupado quanto no MSM e tão bom como diz seu currículo. Talvez por falta de coisa melhor para fazer, estava pensando em tudo isso quando abri meu Facebook e me deparei com dois comentários que engrossaram o caldo de minhas reflexões. Um deles estava no perfil de um jornalista da minha idade, que questionava a supervalorização da juventude. O outro, era de uma jornalista já avó, na dúvida se deveria ler os contos de Hans Christian Andersen para seus netos. Nesta hora, tudo se encaixou. Tim Maia, Fernando Pessoa, redes sociais, Andersen e os jovens da classe média de hoje, que formam uma geração poupada das tristezas e durezas da vida e que ocupam cada vez um lugar maior no mundo. Um mundo, que, por outro lado, nega lugar a outros tantos jovens menos privilegiados. Uma geração que chegou ao poder cedo demais, sem antes ter experimentado privações. Os jovens, que hoje estão no poder, são bem nascidos e bem adaptados a um mundo individualista, marcado pelo consumo e pela busca de status. São filhos de uma camada da sociedade que, cada vez mais, tem garantido lugar nos postos de mando, posto que, cada vez menos, jovens pobres têm condições de ascender. Digo ascensão social de verdade, não esta inclusão que tira os pobres da faixa de miséria e os condena a serem trabalhadores sem instrução, em empregos e moradias precárias e uma realidade de consumo de segunda classe, garantida pelo amplo crédito e subsídios do governo. Aquelas histórias de meninos que começam como boys de bancos e décadas depois estão sentados nas cadeiras da diretoria serão cada vez mais raras, em um mercado que supervaloriza a formação profissional, em uma sociedade que não garante nem mesmo ensino básico de qualidade. Não estou dizendo que só o sofrimento construa, mas, com certeza, sem ele não podemos nos tornar humanos. A riqueza dos contos de Andersen, dizem os historiadores e seus críticos, está intimamente ligada à vida pobre de sua família em Odelsa, na Dinamarca. Andersen foi um menino pobre, que soube transformar sua dor em histórias verdadeiras que, há dois séculos, falam da condição humana com tanta clareza que encanta crianças e adultos de vários cantos do mundo. Seus contos são sofridos, assim como sua infância, mas nos permitem saídas. Saídas construídas pela imaginação, acalentada quando criança pelo seu pai, um humilde sapateiro, que lhe ensinou o prazer de se envolver com boas histórias. Saídas simbólicas, que permitem a seus personagens transformar sua condição no mundo. A pequena vendedora de fósforos, talvez a mais triste de todas as suas histórias, é uma menina pobre, que morre de frio e fome sendo ignorada por todas na véspera do Ano Novo. Sua morte, apesar de trágica, a liberta da tirania do pai, que a joga na rua para esmolar, do frio, da fome, da indiferença e a joga no colo da avó que lhe dá acolhida, em sua última alucinação de quase morte. Uma morte que mexe com sentimentos, que em doses homeopáticas, todo ser humano sente. Uma história que pode servir para as crianças elaborarem seus medos e ressentimentos. A tristeza da menina vendedora de fósforos faz parte da vida, por mais que não queiramos aceitar isso. Que bem poderá fazer a nossos filhos, ignorá-la? Saber que meninas como ela existem até hoje, só pode tornar nossos filhos mais humanos e generosos. Lidar com as provações, só pode torná-los mais fortes. As adaptações das obras de Andersen que escondem a carga dramática de seus personagens - como é o caso de A Sereiazinha e seu destino trágico diluído nas tintas coloridas dos estúdios Disney, na minha opinião, subestimam a capacidade das crianças de entender a vida. Isso não as impede de se revoltarem com o final, como foi o caso do meu filho Pedro, que aos 9 para 10 anos, assistiu a uma bela montagem do grupo Pequod, que preserva a história original. Ele saiu revoltado com a morte da menina, como ficaríamos todos se ela fosse real. Mas esta revolta não roubou dele a experiência de acompanhar a luta da menina para ter uma alma, conseguida mesmo que a custa da morte. Assim como as trágicas e muitas vezes violentas histórias da mitologia grega encantam nossas crianças. Claro que não defendo que estas histórias sejam contadas para crianças que mal saíram das fraldas. Mas, a medida que elas forem adquirindo maturidade para ouvir histórias mais longas, o que coincide com um tempo em que descobrem a existência da maior de todas as tristezas, a morte, acho, sim, que podem ser apresentadas ao universo de Andersen. Para nossa surpresa, na maior parte das vezes, as crianças se atêm mais no maravilhoso da história do que na morte dos personagens, como é o caso de O Soldadinho de Chumbo. Infantilizá-las no campo das emoções é um contra-senso, em uma sociedade que se gaba de ter filhos com cada vez mais habilidades precoces. Eles podem usar computadores aos três anos, mas não podem conhecer a morte aos seis. Eles podem aprender uma segunda língua antes mesmo de serem alfabetizados, mas não podem saber da miséria aos seis anos. Os fracassos da Sereiazinha, os obstáculos do Soldadinho de Chumbo e as privações da Pequena Vendedora de Fósforos só podem preparar melhor nossos filhos para as suas próprias dificuldades. Afinal, um dia todo mundo vai virar calçada maltratada, como o Tim já virou.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Isol é mais uma autora em nossa estante

Confesso que nunca tinha ouvido falar em Isol até a escritora/ilustradora argentina ganhar o Prêmio Astrid Lindgren Memorial (Alma), o mais valioso concedido à literatura infantil no mundo. Fiquei curiosa em conhecê-la menos por ela ter ganho o prêmio da Coroa Sueca do que pelas distinções feitas a ela pelos jurados, que destacaram sua capacidade de tomar "a visão clara da criança sobre o mundo como seu ponto de partida" e de expor os absurdos do mundo adulto para os pequenos leitores. O comentário pode até parecer óbvio, considerando-se que ela produz literatura infantil, mas não é. Muito pouca gente consegue escrever como criança, deixando de lado o vício de escrever para as crianças e, assim, trazer em seu universo narrativo lições sobre o mundo. Esta distinção me fez ir logo ver o que havia traduzido de Isol para o português. Achei dois livros - Intercâmbio cultural e Segredo de Família, ambos editados pelo Fondo de Cultura Economica - e resolvi comprá-los. No mesmo dia em que chegaram à minha casa, li para o Pedro e o Antônio, que ultimamente têm compartilhado as leituras e o horário de dormir. Eles escolheram primeiro o Intercâmbio cultural, talvez pelo fato de ele ter um elefante na capa, e avançamos em direção ao universo de Isol. A história de um menino viciado em TV e de um elefante africano que trocam de lugar não é surpreendente, mas é contada com humor e originalidade que impedem a autora de cair na armadilha do politicamente correto e falar para a criança o que é melhor para ela. O Antônio, que adora uma TV, se interessou pela história e fez graça com o final. Felizmente não lhe passou despercebido o olhar hipnotizado do elefante diante da TV. Mas foi  com Segredo de família que Isol ganhou meus filhos. A história da menina que se espanta ao descobrir que, ao acordar, a mãe é um porco-espinho é uma delícia que mostra com humor, como disse o juri do Prêmio Alma, os absurdos do mundo adulto para as crianças. A mãe da menina-protagonista não é nenhum porco-espinho, mas, como qualquer mortal, acorda descabelada e bem diferente da imagem que cada um produz para si mesmo. Isol brinca com esta dicotomia e nos faz pensar nos limites desta produção ao apresentar o espanto da menina. Meus filhos, dois cabeludos descabelados, adoraram as possibilidades apresentada por Isol para diversas famílias. Ao fim, ela convida o jovem leitor a expressar a imagem que tem de sua família. Em casa de cabeludo, ganhou o leão. E, nós, apenas com esta provinha de dois livros entre os 10 de Isol, ganhamos mais uma autora com boas histórias para animar nossas leituras noturnas.

sábado, 30 de março de 2013

A fantasia para burlar o não

Acho que não há pai e mãe que não se pergunte quais são os limites que devem impor a seus filhos. Dizer não quase sempre nos parece cruel e uma maneira de massacrar nossas crianças. Nos lembramos de nossas frustrações e de mães, pais e professores que, com seus nãos, nos impediram de viver milhões de coisas. Mas quase nunca nos lembramos de como encontramos na imaginação manhas e maneiras de lidarmos com esses nãos e de que, assim, eles não nos impediram de viver. É isso que a escritora colombiana Yolanda Reyes parece nos dizer em É terminantemente proibido!, editado pela FTD, com expressivas ilustrações de sua compatriota Olga Cuéllar. Uma menina da quinta série nos conta uma extraordinária história de uma árvore de chicletes que nasce nos fundos da escola, depois que os os alunos, proibidos de comê-los, jogam seus restos pela janela. As gomas mascadas frutificam e fazem crescer uma árvore frondosa e pesada de chicletes, que acabariam por cair sobre a escola como um pequeno dilúvio. Uma história engenhosa que divertiu o Pedro e o Antônio, também proibidos de chupar chicletes na escola, com a existência uma enorme árvore que transforme o não em um universo rico de possibilidades. A fantasia na história de Yolanda aparece como forma de a criança apoderar-se da realidade para, assim, elaborar o desejo negado. Fantasia que não nega a realidade, repleta de nãos e que se impõe no fim da história, mas que cria um mecanismo que transforma a frustração em novas possibilidades. A fantasia, nos ensina Yolanda, escritora que trouxe da sala de aula muitas de suas temáticas, é uma bela burla do interdito. Burla que nos permite reelaborar nos limites da realidade os nãos que ouvimos na vida. Yolanda fala para as crianças, mas faz com que nós adultos nos lembremos de como fazíamos isso e o quão divertido era burlar o não com a fantasia. A felicidade dos meus filhos diante da árvore de chicletes me fez ter certeza de que este mecanismo é essencial para nos impedir de cultivar rancores, diante de todos os nãos que, mesmo sem a gente perceber, nos ajudam a traçar nosso Norte e os limites em que nos movemos na vida. Ao fim do livro de Yolanda, só posso desejar que muitas árvores de chicletes floresceram no quintal dos meus filhos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Para gostar de ler

Lembro bem do primeiro livro que li sozinha. Eu devia ter uns oito anos e decidi ler a trilogia da Condessa de Ségur, que reúne As Férias, As meninas exemplares e Os Desastres de Sofia. Decidi não sei se é bem o verbo. Acho que minha mãe me ofereceu estes livros, da mesma forma que a  mãe dela havia feito cerca de 20 anos antes. Li os livros com o vagar dos recém-alfabetizados e com o compromisso de quem sabia que esperavam que eu os terminasse. O intervalo entre a primeira e a última página acho que foi maior do que um ano, mas eu cheguei lá. Até hoje lembro da minha animação com Sofia, que, apesar de ser a menos exemplar das três meninas, não devia ser nenhuma subversiva a se contar com a origem aristocrática da autora russa. Depois deles, já um pouco mais velha, li Pollyanna e Pollyanna Moça, da americana Eleanor H. Porter, com seu jogo do contente que faz a protagonista se resignar com todas as agruras da vida. Literatura para moças que mais tarde seriam boas esposas. boas mães e boas senhoras da sociedade. Parece velho isso, né? Mas foi  a literatura que me foi apresentada ainda criança. Minha mãe, filha de uma família da aristocracia carioca, que vinha perdendo posições com o aburguesamento do país e da cidade, me educava na virada dos anos 60 para o 70 com valores da elite do início do século. Mas era o raiar dos anos 70 e na minha casa, por razões outras, estes raios de sol também brilhavam. A mulher, dizia meu pai, mais no discurso do que na prática, tinha que ser independente, intelectualizada e livre. Apesar disso, minha educação seguia tradicional, com algumas brechas que me davam novas possibilidades e faziam com que meus pais tivessem certeza de que estavam educando uma mulher moderna. Eu me aproveitava dessas brechas e, sem saber direito a razão, me negava a usar as roupas comportadas, brincava como uma moleca e seguia adiante para uma adolescência mais do que conturbada. Foi a hora de me estranhar com aquele mundo. Esmalte colorido? Nem pensar. Pentear o cabelo? Pra quê? Sandália de salto? Muito desconfortável. Conversa de salão? O que eu falo? Foi então que caiu nas minhas mãos, quando a biblioteca do meu avô foi desmontada, uma coleção de livros do Érico Veríssimo. Eu os havia pedido para meu avó, talvez por eles serem os mais atraentes das estantes repletas de títulos em francês e coleções de autores clássicos que, naqueles dias, me lembravam a chatice dos livros adotados pela escola. A escola que frequentei é um capítulo a parte. O que havia de mais interessante nela era a coleção Para gostar de ler, da Editora Ática, que reunia deliciosas crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade. Eu adorava as histórias, que me repunham o ar na travessia de narrativas rococós de José de Alencar e companhia, adotadas nas aulas de Português. Quase 40 anos depois, fico feliz em ver o Pedro lendo, na escola, estas crônicas e encontrando encanto nelas. Mas voltando à estante do meu avô, Érico Veríssimo me deu, naqueles dias de sofrimento de adolescente, liga com o mundo. Comecei por Clarissa e li num só fôlego os seis romances em que o autor narra as aventuras e desventuras de um grupo de personagens que se cruzam nestas narrativas. Mas foi em Vasco, o primo por quem Clarissa se apaixona, que encontrei alguém que falasse a minha língua. Vasco, um gaúcho comunista, que vai lutar como voluntário na Guerra Civil Espanhola, animou minha imaginação romântica naqueles dias dos primeiros namorados. Eu queria um Vasco na minha vida, assim como Clarissa o tinha. O universo humanista de Veríssimo me mostrou um mundo maior e mais arriscado do que o das Meninas Exemplares, mas muito mais interessante. Cresci junto com Veríssimo, explorando as muitas possibilidades de sua literatura e de seus personagens. Cresci longe dos infanto-juvenis que encheram as livrarias naqueles anos 70 e formaram tantas gerações mais novas do que a minha, com uma literatura que falava a língua das crianças e dos adolescentes. Eu não tive isso, mas encontrei a minha língua em gente mais velha do que eu, como Vasco. Uma língua universal que não é indiferente a nada do que é humano, a literatura.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma história em círculos

Le petit Chaperon Rouge me impressionou no momento que o vi, ainda nas mãos da Sônia Monnerat, minha professora na especialização da UFF. Nunca tinha ouvido falar nele ou em sua autora, a suíça Warja Lavater, nascida em 1913 e falecida em 2007, três anos antes de eu conhecer sua mais popular obra. A obra é impressionante e mostra como é ilimitada a criatividade humana e sua capacidade de recriar a linguagem, além de ser um livro-objeto belíssimo.
Lavater conta a história de Charles Perrault, incorporando o caçador da versão dos irmãos Grimm,  com apenas 16 palavras, usadas nas legendas dos círculos coloridos que representam as personagens e o cenário da história. No mais, apenas grafismos. Grafismos que nos permitem acompanhar a trajetória de Chapeuzinho, seu encontro com o lobo e o desfecho da história em uma bela narrativa não verbal. Ele é o primeiro de uma série de cinco contos tradicionais recontados pela artista em livros de imagens. Além de Chapeuzinho, Lavater recontou com suas tintas A Branca de Neve, Cinderela, O Pequeno Polegar e A Bela Adormecida. Infelizmente só conheço o primeiro. Mesmo assim foi um encontro fortuito. O vi naquele dia e nunca mais. Mas foi um encontro que me marcou. Marcou tanto, que, hoje, quase três anos depois de vê-lo ainda sou capaz de descrever meu espanto ao ver aberto diante de mim uma tira de papel de 4,74 metros, plissada e gravada com litografias. Como uma menina apaixonada no primeiro encontro, procurei o objeto de meu desejo por muito tempo sem encontrá-lo.
Editado inicialmente pelo Moma, ganhou edição popular na francesa Galerie Maeght, e nunca chegou ao Brasil. Popular não é bem o termo. Cada um deles custa 45,00 €. Já sei o que vou pedir para a minha prima trazer de Paris. Au revoir les enfants.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O maravilhoso amor de irmão

A maravilhosa ponte do meu rimão/irmão, de Ana Maria Machado, editado pela Objetiva, é um velho conhecido meu e do Pedro. Ganhei o livro de uma amiga querida, a Leni, que não está mais entre nós, quando o Antônio ainda era um bebezinho e nenhuma ponte o cativava. O Pedro adorava a história, talvez antevendo o amor e admiração que o irmão teria por ele anos mais tarde. Lemos várias vezes até que um dia, sem razão aparente, o livro ficou de lado na estante enquanto meus filhos cresciam. Pedro, nestes anos, foi deixando de ser criança para começar a se arriscar em um mundo em que as pontes só o ligam a meninas, ao rock e ao futebol. Antônio também cresceu, mas não o suficiente para descrer no maravilhoso. Para ele o mundo ainda é maravilhoso e senhor de mistérios que alimentam sua imaginação. Foi então que, ontem, em busca de uma novidade para ler para ele, lembrei da história e a busquei na estante. A ponte que me levou até o livro de Ana Maria Machado sobre o amor encantado de um irmão mais novo pelo mais velho, que o ensina as manhas da vida, foi o amor e o ódio que meus dois meninos vivem diariamente. O companheirismo é o combustível do amor que os une e o ciúme alimenta sem pudores o ódio experimentado pelos dois. Tanto que outro dia, flagrei no caderno do Pedro uma linha do tempo que indicava 2002 como o ano de seu nascimento e 2007, como o pior ano de sua vida, por causa do nascimento do irmão. Não foi nenhum choque, apenas ri. Conviver com um irmão nem sempre é fácil. Mas tenho certeza é uma das experiências mais ricas na vida de uma criança. Aprender a dividir, a compartilhar, a disputar, a brigar, a se defender, a azucrinar, a lidar com o ciúme, a amar e, sobretudo, a amar um tão próximo. Nada fácil, sei bem, eu que sou a do meio em uma família de três filhos, mas, diria, quase fundamental para a formação de um adulto disposto a partilhar sua vida com alguém. Essa experiência, acredito, fica ainda melhor quando os pais atuam para evitar os abusos cometido pelos mais fortes ou mais manipuladores, mas não impedem os irmãos de viverem seus conflitos. Aqui em casa, recentemente, tivemos que intervir para fazer o Pedro parar de se divertir em falar para o irmão que eu sumiria ou morreria, deixando-os sozinhos. Um dia o Antônio teve um ataque histérico na casa da avó, com medo de eu não voltar, que revelou o mal que o irmão estava fazendo a ele. O Pedro, assim que soube do efeito de sua brincadeira de péssimo gosto, chorou, dizendo que amava o irmão e que não fizera por mal. Sabemos que foi inconsequentemente por mal. Que ele é inevitável na relação de dois irmãos e que nem mesmo os pais podem evitar estas agruras. Querer irmãos sempre amáveis é plantar conflitos para o futuro. Na vida é preciso poder amar e odiar ao mesmo tempo. É da vida amar o irmão mais velho, que é exemplo e protetor, e odiá-lo por sempre levar a pior. Assim com amar o irmão mais novo, seu companheiro fiel, e odiá-lo por roubar seu espaço é um enredo clássico. Ana Maria Machado construiu uma bela relação entre os irmãos de sua história, onde não cabe nem mesmo a mãe, sempre alheia às razões deste amor. O que é maravilhoso no livro não é a ponte, mas o poder do amor entre irmãos tornar tudo maravilhoso, até mesmo um pedaço de madeira. Os dois meninos de A maravilhosa ponte de meu rimão/ irmão, amam acima de tudo, como o Pedro e o Antônio amam. Que assim possa ser para sempre.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ri melhor quem ri por último

Não há como ficar indiferente a uma boa história de macaco. Eles são inteligentes como nós humanos, maliciosos como os piores de nós e engraçados como os melhores. Essa identificação quase que imediata que temos com os macacos faz com que sempre torçamos por eles. Estejam eles certos ou errados, como é o caso do macaco do conto O macaco e o bolo, que faz parte do livro Histórias da Onça e do Macaco, da premiada Vera do Val, editado pela Martins Fontes. O macaco é um tremendo 171 e, além disso, entrega para a morte sem dó, nem piedade cada um dos bichos que engambela. Enfim, um ser desprezível. Mas não há como não admirar sua inteligência, que o leva a vitória em todos os embates em que se mete. A onça é mais forte, mas, nas histórias brasileiras, ela nunca leva a melhor. O macaco sempre a vence para alegria do leitor. Vera do Val, a contista paulista que radicou-se na Amazônia, reuniu várias destas histórias, que têm origem no folclore africano ou indígena e que se tornaram brasileiríssimas. Ela, que dedica o livro aos netos, narra cada um dos contos como se estivesse frente a frente com seu leitor. Não há criança que não se encante com Histórias da Onça e do Macaco, mesmo que já conheça alguns dos contos reunidos por Vera. O livro não corre o risco de parecer dégà vu, já que cada um que conta um conto aumenta um ponto. O Pedro, mais velho, foi capaz de reconhecer as diferenças entre as várias versões que ele conhece do Bicho Folharal e do Macaco e a Velha e curti-las. O Antônio, que está descobrindo os contos tradicionais, gostou mesmo foi das macacadas em torno do bolo e dos bichos que comem uns aos outros. Eu, por minha vez, adorei, além dos contos é claro, as ilustrações de Geraldo Valério, um brasileiro radicado no Canadá que com suas colagens reproduziu o esplendor das cores da floresta. Floresta que nós brasileiros fomos invadindo aos poucos com nossas cidades. As onças, que estão ameaçadas até nas matas, se foram. Mas os macacos estão em toda a parte - andando pelos fios saídos dos postes, nas janelas mais próximas do verde e em nossos parques urbanos - tentando com poucos recursos tomar de volta o território que um dia foi deles.  Nós, com nossa força, estamos vencendo este embate, mas a vitória, tenho certeza, não nos será doce. Ri por último quem ri melhor. E o macaco sabe disso.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um mistério que passa de geração em geração

Hoje estou voltando das férias. Não das minhas, mas dos meus filhos. Férias que me sugaram, que me tiraram qualquer tempinho que pudesse ser só meu. Tempo livre para fazer o que eu quisesse, inclusive, passar por aqui, onde não venho há pouco mais de um mês. Um mês em que pensei várias vezes em falar de O gênio do crime, de João Carlos Marinho, um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, que está nas livrarias há quase 40 anos encantando as crianças de várias gerações que topam compartilhar das aventuras da Turma do Gordo. Já são 60 edições e, pela vitalidade da história, estes números não vão parar por aí. O mistério de tanta longevidade, com certeza, está em uma narrativa bem amarrada da investigação acerca da falsificação de figurinhas de um álbum de futebol. Logo nas primeiras linhas vi que o Pedro, um aficionado por futebol que recentemente descobriu-se um amante de livros de mistério, tinha sido ganho para a história, que o fez retardar por alguns dias a hora de dormir. Bolachão é um menino gordo dotado de uma fina inteligência, que o leva a ser contratado pelo dono de uma fábrica de figurinhas para descobrir um falsário responsável por uma derrama de figurinhas premiadas no mercado. A partir daí desenrola-se uma excitante investigação que coloca em risco o menino e seus amigos. A narrativa de Marinho não se amesquinha para conquistar leitores mais preguiçosos. Pelo contrário, é rica em detalhes para delinear os personagens e criar o ambiente onde a história se desenrola. Além disso, ela não tem pena das crianças e as provoca a experimentar os mais terríveis sentimentos, como o medo da tortura e da morte, com a passagem em que Bolachão está em poder dos bandidos. Meu filho suou frio em vários momentos da narrativa, aumentando ainda mais seu interesse pelo livro. Marinho vai até o limite, fazendo o leitor crer que tudo é possível em sua trama. A trama policial é bem construída, nos dando pistas do desvendar do mistério, e convive com traços de humor na narrativa para aliviar a tensão do leitor ainda criança. Com certeza, Marinho não escreve para agradar, mas sim para inquietar. Tanto que o Pedro já está no terceiro livro da série, o premiado Sangue Fresco, em que a turma do Bolachão enfrenta um sequestrador de crianças e traficante de sangue humano. Que venham os outros livros com as aventuras da Turma do Gordo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O mundo encantado de Monteiro Lobato

Ler para um filho é como plantar uma árvore na esperança de usufruir de sombra no futuro. Uma sombra que recairá sobre outro, mas que, mesmo assim, nos refrescará. Uma sombra formada pelos anos passados ao lado dos filhos. Anos em que curtimos cada dia como se fosse o único e em que sonhamos com o futuro, com nossos meninos crescidos, valorosos e felizes. Anos em que cada minuto dessa convivência deixa alguma coisa para ser vivida depois, memórias, valores e afetos. Os livros, acredito, nos ajudam neste caminho desbravado ano a ano e que não sabemos ao certo onde vai dar. Como as pedrinhas de João, irmão de Maria, os livros nos dão o norte e a sorte de olhar para o mundo por uma janela muito maior do que nossos olhos poderiam abrir. Ver nos olhos dos nossos filhos o espanto com a descoberta, a curiosidade que os leva adiante e o prazer com uma bela história é uma experiência que nos une ainda mais a eles. Participar destes momentos de desabrochar para o mundo é um privilégio dado apenas aqueles que se dedicam a falar com as crianças. Monteiro Lobato, com certeza, sabia disso. Tanto que em suas histórias, recheadas do fantástico, nunca esquece de falar sobre as coisas da vida. Em O saci, de 1921, Lobato aproveita o encontro de Pedrinho com o Saci para questionar a crença da superioridade do homem sobre os outros seres vivos e fazer um pequeno inventário dos seres mitológicos do interior do Brasil. Pedrinho e o Saci travam longos debates sobre o que é mais valoroso, a inteligência humana ou os instintos animais e vão explorando a floresta e conhecendo seus seres reais e mitológicos. Pedrinho fica embatucado com tanta informação, mas mantém-se firme em sua posição de homem-branco-sempre-no-comando. Saci, com sua irreverência, vai fincando claves nas convicções de Pedrinho e fazendo nossas crianças pensarem sobre como o ser humano é pequeno diante da natureza. "Mãe, o que o Saci disse é verdade", quis saber o meu Pedro. A história está encantando noite a noite meus dois filhos. Na verdade, a escolha de O saci foi uma forma de dar ao Antônio, com seus cinco anos, a oportunidade de ler um livro em capítulos, como tenho feito com o Pedro, prestes a completar 11. No fim, o que aconteceu é que o Pedro passou a acompanhar com uma enorme atenção o livro e a abrir mão de ler o seu para ouvir mais capítulos de O saci. O Antônio, um apaixonado pelo Saci e outros seres mitológicos, está acompanhando com a maior atenção a história e aguardando com paciência a hora de degustar uma das lindas e poucas ilustrações que há na edição da Brasiliense, que estou lendo para eles. "Mãe, estou ouvindo a história, tá?! Quando tiver uma figura, me avisa", me pede, se aninhando no travesseiro, temendo perder as ilustrações de Manoel Victor Filho que retratam o encontro de Pedrinho com o Saci, a onça, a Iara, etc. Apesar de haver nova edição no mercado, com projeto gráfico moderno, preferi usar no blog a antiga por gostar mais da cara dos habitantes do Sítio do Pica-Pau Amarelo idealizada por Victor Filho e por tê-la como referência da minha infância. Assim, vamos seguindo lendo O Saci para finalmente entrarmos no mundo encantado de Monteiro Lobato, rejeitado pelo Pedro quando pequeno por seus volumes não serem livros ilustrados. Nossa sorte é que o Antônio topou de cara ouvir a história do Saci apenas com a imaginação. Ganhamos todos. Meus filhos, que descobrem um Brasil encantado nas histórias de Lobato, e eu, que, adulta, reaprendo a olhar o mundo com o espanto das crianças.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma história para ler, brincar, experimentar e existir

A capa de Dia de pinguim, do autor e ilustrador ucraniano Valeri Gorbachev, é apenas um tira-gosto da delícia que nos espera no interior do livro, editado pela Companhia das Letrinhas. Delicadeza, lirismo e fantasia é o que nos dá Valeri com seu Tartaruguinha, protagonista da história, que se diverte experimentando novas possibilidades de existência. Mesmo que esta experimentação se dê apenas na fantasia, como em uma brincadeira. Tartaruguinha, que cisma ser um pinguim, é, na verdade, uma de nossas crianças travestida pelo recurso do antropomorfismo em um filhote de tartaruga. Aliás, o antropomorfismo que busca nos traços e características animais semelhanças com seres humanos é um recurso comum na obra de Valeri, que tem mais de 40 livros publicados, e mais ainda na história da literatura infantil. Não há como negar que um belo desenho de um animal vestido como gente nos invade de ternura, por mais que saibamos da nova tendência das ilustrações de bichos que fazem as vezes de homens, mulheres e crianças é apresentá-los em sua própria pele, apesar de eles continuarem agindo com a moral dos humanos. A ternura dos desenhos de Valeri está a serviço do elogio à imaginação e à fantasia que podem ser despertadas por uma boa história. Em Dia de Pinguim, o Tartaruguinha fica encantado com uma história de pinguins que seu pai lhe conta e resolve ser um deles, assim como o meu Antônio no processo de identificação com seus amigos quis até mudar de nome. Experimentar, isso que o personagem de Valeri e o meu filho quiseram com suas brincadeiras. Tartaruguinha ganhou toda a sua turma para sua brincadeira, já o Antônio arrumou a maior confusão ao decidir que se chamaria Lucas, assim como um de seus melhores amigos. Seus colegas embarcaram como puderam em sua fantasia e passaram a chamá-lo de Lucas Antônio, o que o desagradou sobremaneira. Teve choro, vela e muita reclamação até ele entender que é melhor vivermos sozinhos algumas fantasias para evitar o risco de confundir quem está de fora de nossa viagem. Já o Tartaruguinho, com a ajuda do livro de seu pai, conseguiu levar todos os seus amigos para sua viagem. Os amigos e os leitores de Valeri. Acho que vou sonhar que sou uma tartaruguinha. E você?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal é tempo de renascimento


Hoje é Natal! Queria ter escrito antes para desejar a todos um feliz dia, mas me enrolei e meus votos vão agora, quase na hora da ceia. Votos de quem não acredita mais em Papai Noel, mas continua acreditando que a vida pode ser bem melhor e será. A menina de Andersen também! Apesar de todo o sofrimento, ele aposta no futuro. Ela nos ensina a estender a mão a quem sofre e, mesmo se não chegar ajuda, a superar nossas próprias dores. Afinal, Natal é tempo de nascimento e, por que não, de renascimento. Assim espero que seja para todos nós.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um leão feito de medo e de coragem

Millôr Fernandes e Flavia Maria Lobo se encontraram muitas vezes em vida. Eram amigos e tornaram-se  parceiros com o livro Maurício, o leão de menino, editado pela primeira vez em 1969. Quarenta anos depois, a história do menino assustado com o leão que dormia em seu armário ganhou nova e caprichada edição, com o selo da Cosac Naify. O formato do livro, como diz o catálogo da editora, faz jus a grandeza de um leão e, eu diria, da história. A nova edição, exibida como biscoito fino nas prateleiras das melhores livrarias, deu às novas gerações a oportunidade de conhecer Maurício e a amizade da autora e do ilustrador. Amizade que foi marcada por uma final coincidência, que fez a morte bater na porta dos dois com um intervalo menor do que uma semana, entre o fim de março e o início de abril deste ano. A morte, no entanto, não foi capaz de levar o que eles produziram juntos. Maurício é um pouco do frescor do Rio do início do desbunde e de suas improváveis e deliciosas histórias. Flavia Maria e Millôr são gente que fala de medo, com o humor dos transgressores e sem as delicadezas do politicamente correto, que, infelizmente, infectou muitos livros destinados às crianças nesta virada de século. Maurício é mais um dos fantasmas que as crianças criam para expressar o mal estar com a descoberta de que o mundo é um lugar imprevisível e inseguro para se viver. Um mundo que pode ser escuro, como a noite e o papel usado na impressão do livro,e, ao mesmo tempo, ser aos poucos desvendado pelo surgir do amarelo e do amadurecimento do menino que, à medida que vai crescendo, aprende a enfrentar seus fantasmas. Fantasmas que incluem seus pais quando ficam bravos. Afinal, que menino não tem medo dos berros dos pais. Os meus, Pedro e Antônio, se tremem quando percebem que nossos gritos são de verdade. Talvez por isso tenham adorado a hora em que o leão do menino enfrenta seus pais. A vingança é um prato que se come frio ou, na pior das hipóteses, se saboreia com a imaginação. Flavia sabe disso e teve a coragem de cutucar pais e filhos em uma narrativa que fala com verdade e de verdades para as crianças. O traço de Millôr, que todos nós conhecemos, engrandece a história de Maurício ao nos dar a possibilidade de viver esta catarse com humor. Afinal, não temos saída fora do humor ou da ternura para falar das verdades da vida para as crianças. O mundo é de fato imprevisível e inseguro, mas, se explorado com humor e ternura, pode ser uma experiência deliciosa.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Glória às crianças, aos loucos e aos artistas!

Meu pai sempre foi um aficionado por tirinhas e histórias em quadrinhos. Até hoje ele tem uma coleção delas em sua mesa de cabeceira para a noite. Ele lê quietinho, pitando um cigarro, o único do dia, antes de dormir. Ri das graças de personagens para crianças, como Tio Patinhas e Peninha, e de tirinhas para adultos, como as do nosso Henfil e de Calvin e Haroldo, do americano Bill Watterson. Desta paixão, herdei apenas o gosto pelas tirinhas, que falam das coisas da vida com o humor típico dos cartunistas. Um talento que invejo. O talento de falar pouco e falar tudo. O talento de desenhar em tão poucos traços a alegria, a tristeza, a indiferença, a surpresa, o ódio, o amor, enfim, as emoções que animam a vida. Não fosse isso o bastante,  Watterson conseguiu falar do mundo dos adultos, em Calvin e Haroldo, com a lógica das crianças, como se não tivesse crescido. Este é o talento que mais invejo. Quem lembra de si, quando criança, ou convive muito com elas sabe que Calvin é um menino de verdade. Sua amizade com o tigre de pelúcia Haroldo é ainda mais. Aqui em casa, o Antônio tem o Otto, um cachorro amarelo, de orelhas compridas, feito de pano, que o acompanha e compartilha alguns de seus bons momentos na vida. Sua lógica também é muito parecida com a do Calvin e algumas de suas conclusões poderiam ser muito bem, se eu tivesse o talento de Watterson, transformadas em tirinhas de sucesso. Outro dia ele me apareceu vestido com uma camiseta do Calvin e Haroldo, presente do Cadoca, outro aficionado pela dupla, e um short floral de tons terrosos, dizendo orgulhoso que as peças estavam combinando. Eu, que ultimamente o tenho pressionado a combinar as roupas que escolhe para vestir, olhando a harmonia das cores, disse que sim. Foi então que ele me surpreendeu. "Olha só, mãe! O short é de flor, o menino gosta de flor e o tigre também. Por isso, está combinando, né?" Só me restou rir, como rio do Calvin e Haroldo. Com esta lógica ele agora explica todas as suas combinações, que deixaram de ser por cores e passaram a ser temáticas, como se suas vestimentas fizessem parte de uma narrativa ambulante. Uma delícia de visão de mundo que vamos perdendo à medida que crescemos. Na boca dos adultos, discursos como o do Antônio ou o da tirinha acima sobre o potencial literário da matemática, descolados da ordem das coisas, são imediatamente taxados de arte ou loucura. Mas podem também ser a razão oculta de daltônicos em sua tentativa de combinar roupas ou de alguém, como eu, ter se dado mal toda a vida nas provas de matemática. Uma pena que já não possamos mais proferi-los! Por isso, não nos restam alternativas a não ser dar vivas às crianças, aos loucos e aos artistas!

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma esperança para Azzi

Confesso que não sou uma fã de histórias contadas em quadrinhos. Os quadrinhos para mim só são atraentes no caso das tirinhas. Aí poderia lembrar de vários personagens que me fizeram rir e pensar sobre a vida. Histórias em quadrinhos só lembro de ter gostado as de Asterix, de Albert Uderzo e René Goscinny, leitura frequente na casa dos meus pais. Mas, como para tudo na vida há exceções, me deparei outro dia com Um outro país para Azzi, da inglesa Sarah Garland, editado pela Pulo do Gato. A história de Azzi, nascida em um país qualquer conflagrado por uma guerra, é um drama contado de maneira a não colorir a realidade, mas, como não poderia deixar de ser, com o tom de esperança que devemos usar com as crianças. A menina vê a guerra se aproximar de sua casa e mudar a vida de sua família, que é obrigada a deixar seu país em busca de um lugar mais seguro. De casa, eles levam apenas um saco com feijões e uma manta tecida por sua avó amada que não partiu com eles. A viagem é dura e tensa e o lugar seguro não é sua casa. As pessoas deste lugar não falam sua língua, não têm seus costumes, não dão emprego a seu pai, médico. A família passa por momentos ruins, Azzi sofre a falta de casa, representada pela ausência da avó e por seu prato favorito - feijões picantes. A esperança de uma nova vida vem com a chegada da avó e uma pequena plantação de feijões na horta da escola, que lhe rende sementes para plantar em casa. O refúgio de Azzi não pode se transformar em sua casa, esse sofrimento ela não pode driblar, mas pode ser uma boa morada para sua família, mais uma vítima das tantas guerras que fazem sofrer milhões de pessoas em todo o mundo. A história é triste, sem dúvida, mas deve ser conhecida por nossas crianças, felizmente, tão distantes desses conflitos e tirá-las da ignorância que minha geração viveu na infância. Quando nasci, em 1965, os europeus ainda sofriam os efeitos das duas grandes guerras e conflitos localizados flagelavam populações do Oriente Médio, da África e da Ásia. Longe do palco de horrores, os meninos brasileiros, assim como os americanos, colecionavam soldadinhos de plástico, que vinham ensacados junto com seus companheiros de regimento, aviões de montar com modelos das duas grandes guerras e livros sobre as principais batalhas e máquinas de matar.  As crianças se divertiam jogando longas partidas de War, em que o objetivo era ocupar territórios e dominar exércitos inimigos, e viam nos filmes americanos as  aventuras de guerra, sem a fome, o medo e o sofrimento reais. Os conflitos seguiam na telona como mais uma brincadeira viril, uma batalha de vídeo-game, assim como a Guerra do Golfo foi apresentada, em 1990. Vozes dissonantes começaram a aparecer em filmes e fotografias que mostravam que os horrores da guerra não se resumiam à barbárie nazi-fascista. A guerra, por si só, era uma barbárie. Este despertar para a realidade fez começar a sumir dos quartos de crianças os soldadinhos e as máquinas de guerra, mas foi incapaz de frear a intolerância nacionalista, racial, étnica e religiosa que alimentam tantos conflitos e os poderes e interesses econômicos da indústria bélica. Todos os dias, em algum canto conflagrado do mundo, alguém, como Azzi, é violado em seus direitos mais básicos. Gerações crescem convivendo com a barbárie e milhões de pessoas são obrigadas a deixar seus países de origem para se refugiar dos horrores da guerra. Horrores que devem ser conhecidos por todos, inclusive por crianças mais crescidas que podem encontrar em histórias destas vítimas  razões para viver em paz. Sei que a vida não é assim tão simples, que as mudanças sociais são muito mais complexas e dependem de muito mais do que apenas a vontade de cada um. Mas acredito que o primeiro passo para se viver em paz é odiar a guerra e militar pela paz. Odiar de verdade, de perto ou de longe, e conhecer o sofrimento de quem a vive é uma motivação para se dar este primeiro passo. Azzi pode servir de alerta ao revelar a vida de uma menina vítima da guerra que nos acostumamos a ver de longe, congelada no sofrimento patente em uma foto. Ao nos revelar que por trás da imagem de sofrimento há uma menina como as nossas crianças, apostando que a vida pode ser boa, sentimos um pouco a sua dor. Se identificar com a dor alheia é um bom começo para a fraternidade. Essa identificação, Sarah Garland, que escreveu o livro depois do contato com refugiados da Birmânia e Butão, em uma pequena cidade da Nova Zelândia, consegue provocar em sua narrativa. Quando chegamos ao fim da história só temos um desejo: que a vida de Azzi, como a de milhares de crianças refugiadas, possa ser boa apesar de tudo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ser mãe e as coisas da vida

Os desenhos animados, desde que o Pedro nasceu, passaram a ser para mim um tormento repetido à exaustão. Mas, é claro, há exceções. Uma delas,  o Irmão Urso, um filme da Disney, de 2003, sobre três irmãos diante de seus destinos, representados por totens. Kenai, o mais novo, recebe o totem do amor e, revoltado com o que considera um rebaixamento de sua condição masculina, o nega. Como nas tragédias, ele passa toda a história se aproximando, sem perceber, de seu destino, até que o compreende e o aceita. Bela história, que me fez perceber que o meu totem também é o amor, apesar de meu destino não ter sido traçado por forças sobrenaturais e poderosas, como o de Kenai. Meu totem não passa de uma escolha feita quando eu ainda era uma criança e sonhava em ter filhos e uma bela família. Sonho que me pareceu na adolescência menor do que o desejo de ter uma profissão, de me realizar no trabalho, enfim, de ser uma mulher emancipada e independente. Este desejo sobrepujou o outro e passei parte de minha vida adulta investindo no trabalho e nos prazeres de ser independente. Até que conheci o Cadoca, me apaixonei e um dia, sem planejar, me vi formando uma família com ele. Primeiro veio o Pedro e, cinco anos depois, o Antônio. Desde então, vivo, como muitas mães, dividida entre a vida profissional e os filhos. Não quero e nem posso deixar de trabalhar, afinal, o trabalho nos ajuda a compor nossa identidade. Mas quero poder viver estes dois papéis, o de mãe e o de profissional. Por isso, nestes últimos anos, tenho de tempos em tempos me reinventado para me manter no mercado e na vida deles. Agora vivo mais um momento de reinvenção. De início de novo caminho. De desafios por vir. De confiança no porvir. Confiança de que todo este esforço está valendo a pena. Um esforço para abrir em minha vida de mulher emancipada e independente espaço para duas criaturas que me ancoram no mundo, me projetando para o futuro e me levando a revisitar constantemente o passado. Mãe do jeito que sou hoje, serei por mais poucos anos. Depois meus filhos vão buscar seus caminhos e me deixar com o ninho vazio e, assim, terei cumprido com o meu destino de honrar o totem do amor. Nestes tempos de incerteza que vivemos, o amor é a única certeza. A certeza de uma sobrevida na memória de quem nos amou e de um lugar em um mundo cada vez mais fragmentado e descontinuado. Não sei onde vai dar minha história. Mas sei que o amor não se esvai. Sei que um dia meus filhos vão se lembrar de mim, mesmo depois de minha partida, e reconhecer um valor no esforço que faço hoje para tê-los ao meu lado. O valor do amor e a aposta em uma nova vida. Assim, como fizeram minha mãe, a mãe dela, minha avó querida, que já partiu, e gerações e gerações de mulheres que, apesar de sua importância social, foram massacradas por séculos e séculos. O meu desafio, como é o de muitas mulheres deste mundo afora, é viver assim entre a casa e a rua. Entre os filhos e o trabalho para deixar para eles a maior e melhor herança que alguém pode ter na vida: o amor. Amor herdado que me fez ficar com os olhos marejados ao ler Mari e as coisas da vida, da belga Tine Mortier, editado pela Pulo do Gato. O livro tem texto corajoso que fala, sob o ponto de vista de uma criança, de velhice, de doença e de morte como é raro ver na literatura para crianças e jovens, tão comumente temerosa com assuntos difíceis. A narrativa é uma emocionante história de amor de uma neta com sua avó, que me fez lembrar do meu amor pela minha avó Branca. A delicadeza da história é realçada pelas belíssimas ilustrações da também belga Kaatje Vermeire, que não temeu nem mesmo desenhar a cena do velório do avô da menina. A morte, no contexto da relação de Mari com a avó, é mais um momento da vida, com certeza, triste. É o fim esperado desde o começo, mas preenchido de sentido por uma vida vivida com amor. Este sentido minha avó Branca, que morreu serenamente em sua cama, cercada pelos objetos de toda uma vida e de sua filha, me ensinou com o amor que dispensou a seus filhos e seus netos. Mari me fez lembrar os momentos finais da vida da minha avó, que tanta tristeza me impuseram, e que só hoje, anos e dois filhos depois, consigo compreender e ressignificar. Este ressignificado eu encontrei na história de amor que vivi com ela. A única coisa sólida que ela me deixou. A única coisa sólida que deixarei para os meus. O mais, não tenho dúvidas, se desmancha no ar.

domingo, 18 de novembro de 2012

Amigos, para sempre amigos!

Eu queria ser o galo Juvenal para ficar com a cara assim exposta ao vento e seguir surfando no guidão de uma bicicleta, movida pelos meus dois melhores amigos - o rato Frederico e o porco Valdemar. Mas calei-me quando o Antônio me perguntou qual dos Amigos, do livro do alemão Helme Heine, editado pela Ática, eu queria ser. Afinal era uma história para amigos e não para família. Mãe quando se mete em história de amigos arruma uma terrível confusão. Antônio conformou-se com minha omissão e decidiu ser o rato Frederico. Investido no personagem de Heine, Antônio correu pelos campos com seus melhores amigos, explorou lagoas em navios piratas, pescou, dividiu o melhor e o pior de um jantar e, por fim, foi catar um lugar para dormir. Dormir junto com os amigos, como é o desejo de toda criança. Mas não deu. Não tinha nenhuma mãe para dizer não, mas a noite dos três amigos juntos não foi possível. Cada um foi para sua casa dormir e, que gostoso, sonhou estar de novo junto com seus companheiros. Perguntei ao Antônio se ele sonhava com seus amigos. A resposta foi surpreendente e uma delícia. "Mãe, sabe aquele dia em que troquei de nome? Sonhei que estava dando um soco no Vinícius porque ele me chamou de Lucas Antônio", contou. Dando um soco?! Logo o Antônio, que é o maior boa paz?! Logo no Vinícius, seu melhor amigo?! Pois é, um dia explico melhor. Mas o caso foi que o Antônio quis mudar seu nome para Lucas e os amigos na escola não toparam a história e passaram a lhe chamar pelo novo e pelo antigo nome. Magoado como o nome composto, resolveu sua parada no sonho. Liberou sua raiva, deu um soco no Vinícius e não perdeu o amigo! Tudo resolvido! Afinal, como diz Heine, amigos de verdade, ninguém pode separar.
PS: Não posso deixar de falar das ilustrações, do próprio autor, que reforçam a atmosfera delicada da história, com seus tons suaves e traços ternos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Uma história para ser contada ou cantada

Um dos meus maiores prazeres é ver meus dois filhos se divertindo juntos e sabendo dividir. Dividir o amor dos pais, em primeiro lugar, os momentos da vida, em segundo, e os prazeres, por fim. Isso nem sempre é possível quando se é criança e se vive 24 horas lado a lado, mas quando acontece é um momento especial. Um momento que, aqui em casa, tem-se repetido nos últimos tempos na hora de dormir e ouvir uma história. O Pedro cede para o Antônio ouvir sua história e o Antônio, finalmente, aprendeu a ceder para o Pedro ouvir a sua. As do Antônio, em sua maioria, têm divertido muito o Pedro, que resolveu narrá-las de forma teatral e criar noites  divertidas para todos nós. Sua primeira incursão no gênero foi com Pé de cobra, e asa de sapo e a performance continuou com Cadê o pintinho?, de Márcia Leite, editado pela Pulo do Gato e ilustrado por Anita Prades. O livro é uma delícia e tem ilustrações e projeto gráfico que colaboram para a graça do reconto da canção popular do Pintinho Piu. A cada página, Márcia traz um novo bicho da fazenda para procurar o pintinho e, aqui em casa, a farra se instala. O Antônio cata o pintinho no amontoado de bichos que Anita Prades, uma estudante de apenas 20 anos, novata na arte de ilustrar, dá divertida vida em suas belas ilustrações e o Pedro me chama a atenção para o fato de a cada novo personagem, o tipo das letras diminui para dar ideia de que algo se acrescenta na história. As páginas se sucedem em cores quentes e o branco do coletivo, até que, na última,  todos os bichos estão a catar o pintinho, que aparece espantado no alto do amontoado deles. Para quem tem talento musical, tudo pode ser ainda mais divertido se for cantado em vez de contado. Mas eu, com certeza, não posso me arriscar na voz. Uma pena!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Lendo para os pais

O título parece de manual de auto-ajuda, mas não é! Pelo contrário! Com ensinar seus pais a gostarem de livros para crianças, do francês Alain Serres, ilustrado por Bruno Heitz, é uma divertida história sobre como os livros infantis falam com as crianças. História de verdade, que fala com a criança e a coloca como seujeito, neste caso, de sua leitura. Não são os pais quem determinam o que a criança deve ler, mas ela própria. Por isso o título. A criança é a protagonista e ao mesmo tempo a leitora de Com ensinar seus pais a gostarem de livros para crianças, ao contrário do que pode parecer o título. Um livro para ser lido por pais para seus filhos. Crianças que se divertem e se emocionam com a fantasia, os fatos da vida - como miséria, morte e sexo - e as possibilidades de afeto que as boas histórias lhes dão. Ninguém pode negar que eles adoram ouvir histórias de seus pais e que estes são seus melhores leitores. O que Serres, com a ajuda de divertidas ilustrações, quer é mostrar aos pais que eles também podem curtir este momento. Faz isso sem os didatismos comuns nos últimos tempos, em que a ameaça da internet e de sua linguagem virtual sobre o mundo dos impressos fez entrar na moda as histórias para crianças que falam de livros e da importância da palavra escrita. A causa é justa, o esforço é louvável, mas quase nunca causas politicamente corretas rendem boas histórias. Mas com certeza o livro de Serres, publicado no Brasil pela nova Editora Pulo do Gato, foge a esta regra. Com ensinar seus pais a gostarem de livros para crianças é um belo livro para quem, como eu, gosta de histórias e gosta ainda mais de ver as caras e bocas que elas provocam nos pequenos leitores-ouvintes. É ainda mais um belo livro para quem, como meus filhos, ama ouvir seus pais lendo aventuras que falem sem medo das coisas da vida. É esta magia, alimentada pelo afeto e pela fantasia, que faz valer a pena o esforço de quem se dedica a mediar a leitura de uma criança, seja ela seu filho ou não. Pela delicadeza e humor com que Serres trata esta relação entre pais e filhos leitores, faço de sua história minha homenagem ao Dia Nacional do Livro, comemorado dia 29 de outubro. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Todos os dias ele lê tudo sempre igual

É isso aí que você está vendo, mesmo! Vou falar mais uma vez de Pé de Cabra, Asa de Sapo, de Rafael Soares de Oliveira. A razão é simples: há  mais de um mês, sem exageros, leio todos os dias o livro para o Antônio. A escolha, apesar da qualidade do livro, não é minha. É dele. Não há dia em que o Antônio não peça para ler as quadrinhas sobre seres mitológicos e para apreciar as ilustrações. A repetição é tanta que ele já sabe de cor as 38 quadrinhas. A sua preferida é sobre o Dobarchu, um ser da mitologia irlandesa, meio lontra e meio cachorro, que o encantou não apenas pelos versos de sua quadrinha, mas por ser conterrâneo do David, um amigão do Pedro que mora em Dublin. O fato de ele, todas as noites e algumas vezes durante o dia, declamar as quadrinhas do livro, no entanto, não estraga a graça da leitura. Muito pelo contrário! Graças à sua memória de criança, está podendo brincar de ler sozinho. Brincar, isso mesmo, já que ainda não sabe ler! A graça tem sido, todos os dias, antes da minha leitura que ganhou ares dramáticos com a colaboração teatral do Pedro, o Antônio pegar o livro e "ler" sozinho em voz alta. Uma graça! Depois, me pede para ler. Mas sua ansiedade é tamanha, que, se adianta, e "lê" sozinho algumas das quadrinhas. Mesmo sabendo que tudo não passa de uma gostosa brincadeira de faz de conta, fico orgulhosa do meu menino "lendo" sua história favorita. Por essas e por outras, que ficam por conta do talento do escritor e do ilustrador Jean Galvão, só tenho a agradecer a existência de Pé de Cabra, Asa de Sapo. Lamento apenas as falhas da distribuição do livro, que fazem com que o interessado em tê-lo ou comprá-lo para presentear um amigo, como o Antônio já sugeriu, tenha que esperar 10 dias para recebê-lo em compras pelos sites das principais livrarias do Rio. Alô, Ática! Faz isso com a gente, não! Enche as livrarias de Pé de cobra, asa de sapo para divertirmos nossas crianças, com os seres de Rafael e Galvão.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A porta aberta pela literatura

A Ana, do blog Abrindo Clareiras, me provocou a tomar partido sobre um debate, que travava com uma amiga, sobre o incentivo, dado por alguns  pais a seus filhos, de ler mediante recompensa em dinheiro. Fui lá responder e me posicionar contra esta estratégia de garantir a leitura com estímulo financeiro e decidi falar um pouco disso também aqui no blog, por saber que o desafio de formar leitores inquieta muitos pais e professores, como inquieta a mim. Discordo dessa estratégia, como discordo de qualquer método coercitivo. Quantos brasileiros não se desgostaram da leitura, em suas aulas de português em que eram obrigados a ler clássicos e a responder a questões de maçantes provas? Nem sei quantos. Não tenho dúvidas de que a leitura deve ser, antes de tudo, um prazer, uma porta aberta para novas sensações e experiências. Mostrar a nossos filhos esta porta, é nosso grande desafio. Mas temos que reconhecer ainda, sem ares de derrota, que muitas pessoas passam a vida sem achar este caminho e, mesmo assim, vivem felizes. Não podemos ser arrogantes ao ponto de pensar que só seremos homens e  mulheres plenos se lermos. A diferença é que, quem encontra esta porta, ganha novos horizontes em um universo onde tudo é possível, um universo de liberdade e possibilidades. O caminho para esta porta, no entanto, não é fácil. Acredito que ela não esteja sempre e, em cada um de nós, no mesmo lugar. Em cada um, ela se esconde em um canto diferente. Cada um de nós será um leitor particular. Não há quem possa dizer a nossos filhos onde eles encontrarão a sua porta, Quem tem dois filhos como eu, ou lida com muitas crianças, como os professores, percebe que os livros falam de forma diferente a cada um deles. O dinheiro, tenho certeza, será mais útil se usado para facilitar o acesso das crianças e dos jovens leitores ao maior número de livros possível. Estes livros podem ser achados em bibliotecas, nas escolas, nos acervos de família ou mesmo comprados nas livrarias e nos sebos. Quanto mais livros pudermos apresentar a nossos filhos, mais possibilidade teremos de eles encontrem em si o lugar onde a porta da leitura está escondida. Uma vez aberta, não há quem não queira atravessá-la. Assim, foi com Maksim Górki (1868-1936), o escritor russo comprometido com a Revolução Soviética de 17, que conta no primeiro livro de sua trilogia autobiográfica a relação de afeto que mantinha com a avó, em ambiente marcado pela violência, e o primeiro contato com os livros em um navio, onde trabalhava como lavador de pratos. Os livros emprestados pelo cozinheiro abriram a porta por onde Górki atravessou até achar seu novo lugar no mundo. Assim, também foi com Graciliano Ramos (1892-1953), escritor nordestino também comprometido com o comunismo de meados do século XX, que superou a aridez e a violência de sua infância ao  encontrar na biblioteca do tabelião Jerônimo Barreto a sua porta para vencer a realidade que o oprimia. Górki e Graciliano nos mostram, nos belos romances em que visitam sua infância, que encontrar a porta da leitura é um grande desafio, mas que, uma vez vencido, nos abre caminhos nunca dantes imaginados. O que nos resta é paciência para ajudar nossos filhos a conseguirem encontrar, em si, a porta a ser aberta pela literatura.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Gente boa do Brasil e da América Latina


Vale a pena colocar na agenda o colóquio que o Programa de Alfabetização e Leitura (Proale), da Faculdade de Educação da UFF, está promovendo em Niterói. No dia 4 e 5 de outubro, escritores e ilustradores brasileiros e latino americanos vão conversar sobre literatura para crianças e jovens leitores. Uma bela oportunidade de ouvir gente que faz boa literatura. Para quem se interessar, o Proale oferece também um curso de extensão para professores, Mais informações no site do programa.

sábado, 22 de setembro de 2012

Um tangolomando para falar da macacada

Os macacos sempre foram os meus bichos preferidos. Macaco pequeno, médio ou grande sempre me faz rir e sonhar com uma vida mais livre, em que eu possa pular de galho em galho, comendo para não morrer e me divertindo com o meu bando. Uma de minhas lembranças de criança envolve um mico danado, amarrado em uma coleira e vivendo em um poleiro de bar de estrada, que avançou nos meus cabelos em vez de pegar a batata frita que eu lhe oferecia. O susto foi grande, chorei como toda criança faria, mas guardei esta aventura em uma das gavetinhas de bons momentos do arquivo de minha memória. Essa afeição pelos primatas faz com que eu olhe com simpatia para todas as histórias que falam de macacos. Macacos contra jacarés, onças e jabutis garantem diversão e aulas de malandragem para toda a família. Imagina eles em um bando de dez, como quis a escritora Anna Flora em Cada macaco no seu galho? A história, que ganhou delicadas e bem humoradas ilustrações de Cláudio Martins e foi editada pela Formato, fica ainda mais divertida por ser um tangolomango. Eu também adoro tangolomangos, aquela brincadeira cantada que começa com 10 pessoas, bichos ou objetos e que, após tirar um a um, acaba com nenhum. Há muitas versões populares de tangolomangos, que outrora garantiram divertidas brincadeiras de criança, e autorais, que hoje dão belos livros ilustrados. São tantas que perco a conta. Aqui no GATO DE SOFÁ comentei pelo menos duas destas versões: a da Tatiana Belink, Os 10 sacizinhos, e da  Graça Lima, Os 10 patinhos. Mas é sempre legal descobrir mais uma versão bacana, ainda mais quando se tem em casa um menino pré-escolar que se diverte contando dedos, batatas fritas e outras cositas até chegar ao infinito. E Cada macaco no seu galho, além de nos permitir os prazeres da matemática, traz ao fim da história um glossário com diversas espécies de primatas e um livro de brincadeiras para curtir ainda mais as divertidas ilustrações de Cláudio Martins e fazer a festa da criançada que gosta de uma tesoura. Na verdade, nem precisava. A história já garante festa boa, festa de macacada!