quinta-feira, 26 de maio de 2011

O sim de João Cabral de Melo Neto

"Só vive quem se debate". Por traz da força desse verso está um dos maiores poetas da língua portuguesa. A poesia de João Cabral de Melo Neto, mesmo após a morte do poeta há 12 anos, ainda é capaz de surpreender a quem, como eu, a admira. Ilustrações para fotografias de Dandara, obra de onde tirei este verso, foi guardada até agora como relíquia de família e chegou às livrarias este mês, como um presente para quem ama poesia. Editado pela Objetiva, o livro é uma preciosidade. Idealizado por João Cabral para uma neta querida e distante, ele ganhou ainda mais beleza com o projeto gráfico elegante de Mariana Newlands. Os versos de Cabral vêm de longe, do Senegal, de onde o poeta diplomata servia naqueles dias de 1975. Dandara, uma garotinha de dois anos, filha de sua Inez " nascida para dizer não", fez a mãe, segundo o poeta, reencontrar "um sim a que condicionou a vida".  Esse sim perpassa todos os versos que ilustram as fotografias de Dandara. A cada verso do livro a gente reencontra um poeta inspirado, se é que podemos usar este adjetivo com Cabral, dono de uma escrita poética que não faz pouco da vida. Cabral engrandece os sentimentos, as paixões e as possibilidades do ser humano com a beleza de seus versos. Talvez o que mais me encante nele - sem dúvida meu poeta preferido - é que ele nos faz lembrar que "o mundo não é uma folha/ de papel, receptiva:/ o mundo tem alma autônoma,/ é de alma inquieta e explosiva.", como ele mesmo define no poema Auto do Frade. Este novo encontro com o poeta me emocionou. Não esperava isso. Não sabia da existência do livro, não sabia de seu lançamento, quando dei de cara com ele em uma seção infantil de uma bela livraria, na porta de um cinema do Rio. Eu fazia hora, esperando meus filhos, quando comecei a ler os versos de Cabral para Dandara. Fiquei emocionada. Cheguei a chorar. Não sei bem dizer a razão de tanta emoção. Talvez tentar explicá-la aqui seja uma forma de perdê-la. Mas posso dizer que fiquei emocionada por reencontrar Cabral - que foi tão importante na minha formação - na carinha alegre/triste de Dandara. Emocionada por lembrar que Morte e vida severina foi um dos primeiros livros de poesia que minha mãe me deu e que Ilustrações para fotografias de Dandara, editada para um jovem leitor, será o primeiro livro de Cabral na estante dos meus filhos. Pela certeza de que ele tem muito a falar para os jovens de hoje, fecho este texto com mais uns versos do poeta para Dandara. " Tua mão tirando a pipoca/ do pacote que tua mãe te compra/ tem o mesmo gesto de quem/ dele tiraria uma bomba". Que nossos filhos possam viver com este ímpeto transformador presente na poesia de Cabral.

sábado, 7 de maio de 2011

A gente se encontra na Flist!

Maio é o mês da Festa Literária de Santa Teresa (Flist) que nós dá mais uma boa razão para ir ao bucólico bairro, de onde se têm, entre outras atrações, a melhor vista do Rio. A Flist está em sua terceira edição e é promovida pelo Ceat, um tradicional colégio de Santa Teresa. Este ano o homenageado da festa é Bartolomeu Campos de Queirós, o mineiro querido por todos que amam a boa literatura para crianças e jovens. A programação da Flist, nos dias 14 e 15, tem boas opções para todas as idades e transforma o bairro no destino de quem ama a literatura e a música. São dois dias de bate-papos com autores e ilustradores, inclusive Bartolomeu, lançamentos de livros, debate com especialistas em literatura, contações de histórias, shows de música e atrações para criança. Quem quiser saber um pouco mais pode dar uma passeada no blog Gato de Sofá Deita e Rola na Flist. Um programa para repetir todo o mês de maio. A gente se encontra em Santa Teresa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O tempo e a prosa de Bartolomeu

Bartolomeu Campos de Queirós mais uma vez recorre à memória para compor uma bela história sobre o passar da vida. Desta vez, seu protagonista é o próprio tempo, que traz em si a vida e a morte.  Em Tempo de voo, editado pela Comboio de Corda, das Edições SM, o autor mineiro usa sua prosa poética para criar um belo diálogo entre um homem e uma criança. As inquietações dos dois, como o infinito, unem o início e o fim na mesma perplexidade diante da passagem do tempo. 
As perguntas do menino se sucedem às explicações do homem, que aos poucos revela os mistérios do tempo em uma linguagem que expressa a generosidade do velho diante do novo.  “O que é tolerância?”, pergunta o menino, que ouve do homem que é “gostar das coisas mesmo sabendo que elas não são como eu quero”. E conclui, paciente: “Aprendi com o tempo”. 
A delicadeza do diálogo do homem com o menino traz em si uma preciosidade. A serenidade do homem diante da consciência de que o tempo não pára e que está caminhando para seu fim. “Hoje, ele é curto e demanda cuidados”, diz o narrador, diante da infância de seu interlocutor. Esta serenidade empresta uma grandeza ao personagem, que, desta forma, se aproxima dos anciões das sociedades tradicionais em que valores eram transmitidos no diálogo entre jovens e velhos.
A história do diálogo do homem com o menino ainda tem como mérito o fato de trazer em sua narativa as marcas do tempo na prosa de Bartolomeu. Marcas que se equivalem aos risquinhos no rosto do narrador e dão legitimidade a um discurso quase que filosófico sobre o tempo. A riqueza desta prosa valeu dois importantes prêmios para Tempo de voo: o Glória Pondé, concedido pela Biblioteca Nacional a obras infantis e juvenis, e  Jovem Hors-Concours da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil.
Toda esta riqueza se potencializa no encontro com as ilustrações do espanhol Alfonso Ruano. O ilustrador busca inspiração em seus compatriotas surrealistas, da vanguarda do início do século XX, para compor as ilustrações que, prenhes de significados, traduzem com inspiração as inquietações do homem de Bartolomeu diante do tempo. Belas ilustrações para valorizar uma leitura que vale a pena ser feita por jovens ou não tão jovens que queiram abrir um diálogo interior com suas memórias ou com as possibilidades de seu porvir.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A tradição na literatura de Ana Maria Machado

Há muito tempo estou para falar aqui das narrativas da tradição oral que ganharam registros de diversos autores. Contos de fadas, fábulas, aventuras fantásticas do tempo que os animais falavam, histórias de nossa floresta, enfim, as narrativas que passam de geração em geração e ganham um ponto a cada nova versão e encantam a todos nós, adultos ou crianças. Muitas vezes essas narrativas são vistas como literatura menor e desprezadas na hora de se escolher um livro. Mas, vamos combinar, não há coisa melhor do que ouvir uma bela história de macaco ou de onça; de leão e ratinho; de jacaré; e de bruxas, princesas e seres fantásticos. Por isso, toda vez que posso compro um novo exemplar de histórias tradicionais. Mais legal ainda é que estas histórias ganham roupa nova dependendo do autor que as conte. Ana Maria Machado nos presenteou com várias delas na coleção Histórias à Brasileira, editada pela Companhia das Letrinhas e delicadamente ilustradas por Odilon Moraes. Ela nos apresenta um cardápio variado de histórias nos quatro volumes da coleção que vão desde as do folclore caboclo até as de tradição européia. Eu e o Pedro não nos cansamos de ler e o Antônio começa a ser iniciado. O primeiro volume então, o preferido do meu filho mais velho, nos fez companhia em várias noites em que lemos com prazer as histórias O veado e a onça e Bicho folhagem. Eu adoro outras, como Dona Baratinha, A Festa no Céu e o Boneco de Piche, algumas das histórias que entraram na minha vida pelos disquinhos coloridos de Braguinha. Nada melhor do que os sapinhos da Festa no Céu cantando "Quatro com quatro, quatro, com mais quatro, quatro" e o mestre sapo corrigindo: "Tá errado!". A prosa de Ana Maria e o respeito que ela tem por estas histórias, na maioria recolhidas por Câmara Cascudo de nossa tradição oral, já valem os livros que, por todas estas qualidades, ganharam o selo de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. "Que as crianças de hoje descubram o fascínio de voltar muitas e muitas vezes a estas histórias incomparáveis, fruto da sabedoria popular acumulada em geração de narradores anônimos que coletivamente foram criando esse fastástico patrimônio que nos coube de herança e não tem preço", diz a premiada autora, dona da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras devido à sua dedicação à literatura infantil e juvenil. Que nos venham outras.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para vencer os medos e angústias do mundo real

A noite de ontem foi longa aqui em casa. Depois que o Antônio dormiu, vencido pelo sono e aninhado em seu travesseiro, o Pedro me pediu para ler Ozzy, o quadrinho maravilhoso do Angeli, publicado na Folhinha, da Folha de São, que ganhou quatro títulos da Companhia das Letrinhas. O Ozzy foi uma escolha do próprio Pedro que o catou na biblioteca da escola e o trouxe feliz da vida para casa. Realmente é um personagem cativante, que retrata com humor os meninos de sua idade, e que fez o meu exclamar maravilhado que eles eram igualzinhos. O humor de Angeli, no entanto, não foi capaz de fazer o Pedro relaxar para dormir. Assim que apaguei a luz, ele falou que estava com medo do que poderia sonhar. Me contou que sonha muito com tubarões o atacando, que não consegue se defender dos perigos de seus terríveis sonhos e que não tem medo quando está acordado. Eu falei de meus sonhos de criança, em que ondas enormes me ameaçavam, explicando que estes perigos muitas vezes representam nossos medos e impotências. "Quando entendi isso, nunca mais sonhei com as ondas", expliquei. Mas não bastou. O medo dele era muito mais concreto. Na verdade, estava angustiado com a descoberta de que há muita maldade no mundo. A primeira delas foi um vídeo em inglês achado na internet sobre a notícia da prisão de um pedófilo que se travestia de Justin Bieber para atrair suas vítimas. "Mãe me leva ao médico para ele tirar isso da minha cabeça", pediu angustiado, sem entender direito a notícia. A outra foi a crueldade do massacre na Escola Municipal Tasso de Oliveira, em Realengo, que chocou a todos nós. Ele soube da tragédia sem muitos detalhes, por um colega da escola, que assistia a um programa de esportes quando foi surpreendido por notícias da barbárie. "O que você soube disso, Pedro?", perguntei para um menino, que estava até nauseado de tanto medo e angústia. "Quase nada, mãe. Não me lembro nem mais do nome dele", falou. Mas, em sua angústia, deixou transparecer que sabia muito mais do que poderia suportar. Sabia que Wellington havia estudado na escola que invadira armado, que matara vários alunos e que se suicidara. "Como alguém pode entrar armado em uma escola?", indagou. Eu, diante de tantas perguntas e angústia, me perguntei como falar de tanta dor, maldade e loucura para uma criança de apenas nove anos. Me perguntei ainda como podia proteger meus filhos de tanta informação, que vem de tantos lados, sem qualquer filtro ou limite ético para salvaguardar nossas crianças. Não podia subestimar a inteligência dele e negar o que era óbvio, mas também não queria aumentar ainda mais sua perplexidade diante da descoberta de que a vida pode ser cruel. Só podia dar colo para meu filho, que chorava toda a sua tristeza e me falava sem parar de seus medos. A medida que ele foi se acalmando, pediu que eu não o deixasse aquela noite e que lesse para ele mais uma história. "Mãe, sabe por que eu gosto que você leia histórias para mim? Primeiro porque tenho preguiça de ler, segundo porque ouvindo histórias imagino um mundo só meu. Um mundo que ninguém pode mudar". E foi ouvindo mais uma história que o Pedro driblou seus medos e recobrou as rédeas de sua vida, podendo dormir tranquilo para mais um dia. Que os livros possam sempre lhe dar alento!

domingo, 3 de abril de 2011

Vivas para Maria Clara Machado!

Acabo de ver um anúncio no jornal em homenagem à dramaturga Maria Clara Machado, que, se viva, estaria completando hoje 90 anos. A notícia me trouxe boas lembranças. Lembranças de minha infância, tempo em que muitas vezes fui ao Tablado para assistir a algumas das 27 peças que ela escreveu para crianças. A que mais me marcou, acredito que a todos que a viram, foi Pluft, o fantasminha. Lindo fantasminha que tinha medo de gente e acaba envolvido em uma perigosa aventura com a menina Maribel, que tinha os cabelos cor de mel, e três covardes marinheiros que tentam livrá-la da perseguição do malvado Pirata Perna de Pau, interessado no tesouro do avô da criança, o Capitão Bonança. Tudo na peça é ternura. "Mamãe, a menina está botando o mar todo pelos olhos", diz um espantado Pluft ao ver Maribel chorar. Imagens como essa fizeram com que os personagens de Maria Clara Machado ficassem no imaginário de gerações e gerações de brasileiros. Quem não pôde ver Pluft no  palco do Tablado, teatro amador que ela criou em 1951, pode vê-lo na TV, em 1975, com a interpretação de Dirce Migliaccio e Norma Blum. Eu o vi no palco do Tablado e na TV e, na adolescência, interpretei-o em uma montagem amadora que eu e meus amigos fizemos no Grupo Escolar de Tebas, em Leopoldina (MG). A direção da peça foi da minha mãe e nós nos divertimos muito com o teatro, que lotou o pátio da escola de um pequeno vilarejo mineiro. A experiência me encantou tanto, que decidi naquele dia estudar teatro. Este desejo me fez assistir a muitas boas montagens de textos maravilhosos, que levavam filas à porta dos teatros do Rio, nos anos 80. Ao chegar na época do vestibular, meu desejo mudou de foco e decidi concorrer a vagas de História e Jornalismo. O tempo passou, eu abandonei a História e o Jornalismo, mudei-me para Sociologia e voltei ao Jornalismo, carreira que exerço hoje. Mas Maria Clara Machado não saiu da minha vida. Tenho até hoje o texto da peça e uma adaptação para literatura, editada nos anos 80 pelo finado Círculo do Livro. Quem for procurar hoje nas livrarias vai achar uma adaptação recente de Pluft, editada pela Nova Fronteira e ilustrada por Graça Lima. Agora, já quarentona, acompanho com atenção os letreiros do Teatro O Tablado, no Jardim Botânico, para ver as trocas de peça e levar meus filhos para ver mais uma da autora que fez o teatro infantil ter a cara do Brasil. Esta conquista, no entanto, parece ter ido para o ralo diante de uma infinidade de peças infantis que transpõem da TV para o palco personagens rasos de imaginação e sem identidade com nossas crianças. Mas não. Todas as vezes que sentamos naquela platéia, vejo que Maria Clara Machado ainda fala para a imaginação dos pequenos, mesmo que eles sejam muito diferentes do que fui. As montagens do Tablado podem ser mais pobres do que as sofisticadas peças dos teatros de shoppings, mas são imperdíveis. Por isso, levo meus filhos em todas as peças lá encenadas e continuo esperando uma nova montagem de Pluft, meu personagem preferido entre tantos desta autora brasileira, que foi traduzida para vários idiomas e montadas diversas vezes fora do Brasil. Com justiça, Maria Clara Machado recebeu mais de uma vez os prêmios Molière, Mambembe e Coca-Cola, entre muitos outros. Que se prepare uma grande homanagem a ela em seus 100 anos, que já estão por chegar.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O encanto das histórias de Eva Furnai

Érico Veríssimo foi o primeiro autor que me cativou. Digo autor porque me encantei não com um único livro, mas com o universo de sua literatura. Eu era adolescente e estava descobrindo os prazeres da leitura. Amei tanto Clarissa e seu primo Vasco - comunista e libertário, como eu achava que deviam ser todos os homens e mulheres -, que fui buscar outros de seus personagens. Em pouco tempo tinha lido toda a sua obra e achei na saga dos Terra Cambará, de O tempo e o vento, um livro para ficar para sempre entre os meus preferidos. Este movimento se repetiu com outros autores das minhas leituras e dos filhos. Para isso, basta que eu encontre em seu universo alguma coisa que me fascine. O humor, um dos traços da inteligência humana que mais encanta as crianças, foi o responsável por eu estabelecer um laço especial com a literatura de Eva Furnai e reservar para ela um lugar privilegiado na estante dos meus filhos. Este laço se reforça a cada livro de Eva que leio para o Pedro ou o Antônio. Cada um curte o seu. O Antônio acende sua imaginação todas as vezes que abre Zuza e Arquimedes, livro de imagem editado pela Paulinas, e se diverte dando nomes e texto para os personagens. Já eu e o Pedro começamos a ler Eva Furnari pela trilogia Você Troca, Assim Assado e Não Confunda, editada pela Moderna, em que a autora brinca com a língua. Ele ainda era uma criança pré-escolar, o que não o impedia de perceber as estrepulias das rimas de Eva. O tempo passou, o Pedro cresceu e hoje ele quer histórias maiores e bem-humoradas, o que temos encontrado com prazer em vários livros dessa escritora/ilustradora ítalo-brasileira. Felpo Filva, já comentado aqui no Gato de Sofá, foi o primeiro desta nova safra e deixou o Pedro encantado. Depois veio Abaixo das canelas, editado pela Moderna, que o fez sentenciar assim que soube que era a mesma autora de Felpo Filva": "Essa escritora é muito boa, mesmo." O humor fez o Pedro, um apaixonado por matemática, ouvir desafiado Os problemas da Família Gorgonzola, também pela Moderna. Agora está em nossa fila o premiado A Bruxa Zelda e os 80 docinhos, pela Ática. Já o Antônio está sendo iniciado na trilogia do Você Troca, Não Confunda e Assim Assado. Ele, que não é bobo nem nada, já percebeu a alegria de brincar com as imagens e as palavras propostas por Eva. Enquanto isso, vou me deliciando com o humor dessa autora, que tem o incomum dom de escrever como se fosse criança e, para nossa alegria, tem uma vasta obra a ser explorada. Quem quiser conhecer um pouco mais deste universo literário e sua autora, vale ler Eva Furnari e seus encantamentos, da professora de Literatura Márcia Lígia Guidin, editado pela Moderna em uma justa homenagem à autora em seus 30 anos de carreira literária.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Biblioteca de Santa Teresa continua em risco

Oi, amigos,
Tenho notícias novas da Biblioteca de Santa Teresa. Participei no sábado (19) de uma reunião com a senhora Lêda Fonseca, da Secretaria de Cultura, onde esclarecemos todas as dúvidas sobre o Decreto Municipal 33.444, de 28/02/2011 , assinado pelo prefeito Eduardo Paes, que transfere muitas das bibliotecas da  Cultura para a Educação. O texto do decreto é claro em relação à extinção da Bibliteoca de Santa Teresa, mas paradoxalmente, garantiu a senhora Lêda, ela vai permanecer aberta, agora como parte do Centro Cultural Laurinda Santos Lobo.  Isso quer dizer que oficialmente nossa biblioteca não existe mais e, por isso, o esforço de quem quer vê-la com as portas abertas para o público é, agora, mudar o decreto para formalizar sua transferência para o Laurinda Santos Lobo. Do jeito que as coisas estão, sob a vigência do decreto, a biblioteca não existe mais e a informalidade de seu vínculo com a Cultura não garante a permanência de seu acervo e de servidores. Mudar o decreto é, desta forma, garantir que haja funcionários e que o acervo irá permanecer aonde está e não será mais, como o texto do decreto deixa claro, transferido para a Biblioteca do Dique, no Jardim América. Além disso, temos que garantir que ela permaneça aberta como biblioteca e não como sala de leitura – o que são duas coisas bem diferentes. A mobilização de todos foi fundamental para garantir a sua reabertura, mas esta conquista precisa ser formalizada. Vale o que está escrito e está escrito que ela foi extinta. Por isso, volto a pedir a todos que apoiem o abaixo-assinado da AMAST contra a extinção da biblioteca de Santa Teresa.
Abraços, Paloma
Infelizmente ainda não podemos ficar tranquilos em relação à Biblioteca de Santa Teresa. Por isso, reforço o pedido da Paloma. Apoiem o abaixo-assinado da Amast, que tem mais de 700 assinaturas, entre elas, a da nossa escritora Lygia Bojunga, moradora e amante do bairro.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Viva a Biblioteca de Santa Teresa!

Queridos amigos,
   Ontem, por e-mail, a  Sra. Leda Fonseca, da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, disse que a  informação do fechamento da Biblioteca Popular de Santa Teresa era um mal entendido, que mandaria hoje uma pessoa da Secretaria de Cultura para a biblioteca a fim de esclarecer a situação.
    Acabei de chegar da biblioteca. A Sra. Josefa Antônia Padrão Coutinho, gerente das Bibliotecas Populares da Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro, esclareceu que o 2º artigo do Decreto Municipal 33444, do dia 28 de fevereiro de 2011, que diz “A Biblioteca Popular Municipal de Santa Teresa passa a denominar-se, Biblioteca Escolar Municipal do Dique – José Lins do Rego”, é para ser interpretado como a transferência de cargo da Diretora da Biblioteca Popular de Santa Teresa para a Biblioteca Escolar Municipal do Dique, que fica no Jardim América.
    Esclareceu ainda que a Biblioteca de Santa Teresa continua integrando o quadro da Secretaria de Cultura. Ela vai entrar em reformas, e durante as obras o acervo vai ser transferido para o Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, que fica ao lado, e os serviços não irão ser interrompidos, inclusive as aulas de inglês. Houve uma falha na comunicação dada aos funcionários, mal entendidos, mas que em nenhum momento foi dada a ordem para eles recolherem o acervo.
   Essas são as notícias oficias que recebi pessoalmente de uma represente legal da Secretaria de Cultura e transmito a vocês.
  A comunicação humana não é feita só de palavras explícitas, é também feita através dos olhares, palavras não ditas ou soltas no ar, gestos e entonações. Não sei o que fez o Sr. Eduardo Paes assinar um decreto tão mal redigido, e  gerar tantos “maus entendidos”, mas meu sentimento me diz que nossa biblioteca esteve na beira do abismo, e temos que vigiar para que ela se afaste bem dele.
  Agradeço a Sra Leda Fonseca e a Sra. Josefa Antônia Padrão Coutinho pela gentileza e presteza com que trataram o caso, a Leonor Werneck por ter feito o contato e a todos os moradores e amigos de Santa Teresa e dos livros por terem se manifestado diante da ameaça de extinção da Biblioteca de Santa Teresa.
    Abraços,
    Paloma
PS: Dúvidas respondidas, que assim seja. Vida longa para a Biblioteca de Santa Teresa!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Em defesa da Biblioteca Municipal de Santa Teresa

     Queridos vizinhos,
Não sei se vocês já têm ciência do Decreto Municipal 33.444, de 28 de fevereiro de 2011, que extingue nossa querida biblioteca de Santa Teresa e transfere todo o acervo para uma biblioteca já existente no Jardim América. Trata-se presumivelmente de um ato de contenção de custos, que traz em seu bojo um indício do total descaso pelo nosso bairro e seus moradores.
Há anos sou leitora assídua da Biblioteca de Santa Teresa, ela faz parte da minha história, como faz parte também da história de muitos de vocês.
Tenho dois filhos, com cinco anos de diferença entre eles. Outro dia fui com a minha filha pegar um livro e passeando entre as prateleiras, dei de cara com Fábulas Italianas, de Ítalo Calvino.
- Vamos pegar esse livro - disse a ela, lhe mostrando a capa.
- Esse não tem figuras – ela me respondeu, fazendo uma carinha de desagrado.
- Mas é maravilhoso! Você vai ver!
Quando fui preencher a ficha de empréstimo, vi nela minha assinatura, de cinco anos atrás, e disse.
- Olha filha, eu peguei esse livro para o seu irmão, quando ele tinha a sua idade, e ele adorou.
De noite, contei uma fábula italiana para minha filha e contei outras nas noites seguintes. Quando acabou, voltamos na biblioteca, devolvemos o livro e fomos escolher outro, e ela me disse:
- Ah, mãe, vamos pegar outras fábulas italianas.
- Mas você não quer um livro com gravuras dessa vez?
- Não. Sem gravuras eu posso usar a imaginação.
Essa foi uma das minhas histórias vividas na biblioteca, foi com um livro de lá que minha filha aprendeu a abrir sua mente para a imaginação, como meu filho já havia aprendido um dia,com o mesmo livro, que fica lá na prateleira da biblioteca, disponível, contendo todo um mundo dentro de suas páginas, esperando que mais alguém compartilhe da maravilhosa experiência de ser leitor.
        Amigos, a nossa biblioteca foi a única a ser extinta e seu acervo vai integrar uma biblioteca já existente. Neste momento o acervo está sendo catalogado, mas ainda não foi transferido. Temos apenas alguns dias para tentar de algum modo reverter essa situação, impedir que nos tirem nosso espaço de imaginação – também somos carentes de cultura.
         Acabei de ver no site que a AMAST (Associação de Moradores de Amigos de Santa Teresa) assumiu as rédeas do protesto contra o fechamento da Biblioteca Popular de Santa Teresa., com a divulgação de um abaixo-assinado. Por favor, assinem aqui o abaixo-assinado em defesa de nossa biblioteca.
Beijos,
Paloma Rocha Lima Medina

Acabo de receber este apelo em defesa da Biblioteca Popular de Municipal de Santa Teresa José de Alencar. O decreto não fala de fechamento de portas, mas de transferência de sua gestão para a Secretaria de Educação e da mudança de seu nome para Biblioteca Escolar Minicipal do Dique José Lins do Rego. Só esta mundança já é de se estranhar. Literatura é cultura e as bibliotecas de portas abertas para comunidades devem ter um papel importantíssimo na promoção da leitura. O decreto deixa no ar outras dúvidas que devem ser respondidas. A principal delas é aonde a Biblioteca Escolar do Dique José Lins do Rego vai funcionar, já que existe uma Biblioteca Municipal Popular do Dique José Lins do Rego, no Jardim América. No Dique ou em Santa Teresa? Os moradores de Santa Teresa têm tido informações pelos próprios funcionários da biblioteca que suas portas serão cerradas e seu acervo transferido para o Jardim América. Diante de tantas lacunas, vale a pena ficar atento para evitar a morte da biblioteca fundada em 1971, no bairro onde moraram Manoel Bandeira, Paschoal Carlos Magno e Laurinda Santos Lobo.
PS: A ilustração é de nossa querida e talentosa Mariana Massarani, que, com seu humor, retratou com maestria a riqueza que há dentro de uma biblioteca. 

sábado, 12 de março de 2011

Uma bruxinha para chamar de sua

Faz tempo que não escrevo no blog, eu sei. Mas é que aqui em casa fevereiro é um tempo animado. Além da rotina de sempre - trabalho e filhos -, ainda temos o carnaval. Eu e o Cadoca adoramos a folia, que no Rio começa duas semanas antes do carnaval oficial. Por isso, não tenho escrito no blog. Mas nossas leituras noturnas continuaram. O Pedro hoje é um leitor mais exigente. Gosta de novelas e romances, onde pode acompanhar por mais tempo as aventuras e desventuras de seus personagens prediletos. Estamos lendo o quarto livro da série do Pequeno Nicolau, de Sempé e Goscinny. O da vez é A volta às aulas do pequeno Nicolau, editado pela Rocco Jovens Leitores. Ele não se cansa de saber da gulodice do Alceu e das trapalhadas da turminha do Nicolau. Ri que faz gosto. Já o Antônio, meu menino que está prestes a completar quatro anos, adora variar. Cada dia quer um livro diferente. Mas ele tem suas predileções que variam de tempos em tempos. As atuais são O bem com o bem se paga, recontado por Edgard Romanelli e editado pela Moderna, e já comentado aqui, e A Casa assombrada, de Kazuno Kohara, editado pela Cosac Naify. A história da menina que não era apenas uma menina, era também uma bruxa, é realmente encantadora. Tão encantadora que dá frescor às velhas histórias de casas assombradas por fantasmas. Isso explica a razão de o Antônio ter me feito lê-la todos os dias da semana que passou. Como sempre ele resolveu renomear os personagens com nomes de seus amigos queridos. A bruxinha virou Marina e o gatinho, Lucas. Mas no meio da semana o Lucas perdeu o posto para o próprio Antônio, que passou a ser o companheiro das caçadas de fantasmas da Marina. A história é daquelas que permitem às crianças suas próprias fantasias. O texto e a imagem têm a sintonia necessária aos bons livros de imagens, fazendo com que a história seja lida e vista ao mesmo tempo. A japonesa Kazuno Kohara, radicada em Londres, é autora do texto e das ilustrações. Ele teve uma bela sacada para dar leveza à bruxinha e seu companheiro gatinho e aos fantasmas. Suas ilustrações foram todas criadas nas três cores do Halloween - laranja, preto e branco - e impressas em papel Alta Alvura, 150g/m, o que dá elegância ao livro. A leveza e o humor da história são um convite para as crianças, assim como a bruxinha, fazer os fantasmas de gatos e sapatos e rir um bocado do medo que mora em cada um. Pelo menos é isso eu e o Antônio temos feito antes de dormir, com a ajuda da bruxinha de Kazuno Kohara.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os caminhos da literatura

“2010 foi nosso ano leitor.” Estas palavras vindas de meu filho de nove anos me espantaram pela formalidade. Mas no conteúdo ele tem razão. 2010 foi o ano em que nos aventuramos por histórias de maior fôlego e criamos o hábito de ler em capítulos. Digo aventuramos e criamos por a literatura ser ainda uma experiência compartilhada na vida do Pedro. Literatura, vale ressaltar, e não leitura. Meu filho foi alfabetizado, como a maioria dos garotos, aos seis anos. Aos sete, também como a maioria, ainda lia com bastante esforço. Aos oito, sua leitura era cada vez mais fácil, mas ainda insuficiente para grandes voos literários. Mesmo hoje, com seus nove anos recém-completos, a literatura ainda é, com certeza, um caminho de inseguranças a ser percorrido. Talvez por isso, talvez pelo desejo de compartilhar estes momentos com ele, que eu ainda leia para meu filho. O Pedro é grande, eu sei. Mas sei também que minha voz, minha ternura e minha ajuda nos caminhos tortuosos das narrativas são essenciais para que ele tenha o que há de melhor na literatura - a fantasia. É ela quem lhe dá a liberdade de, ao fim da maravilhosa trilogia de Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren, editada pela Companhia das Letrinhas e ilustrada por Michael Chesworth, deitar-se com os pés no travesseiro, como a menina criada na Suécia da década de 1940, e sentenciar: “A Pippi tem razão. Assim é muito melhor”. Em seu rostinho emoldurado por cabelos encaracolados, o mesmo ar sonhador com que a menina de sardas e tranças ruivas se despede de seu leitor.  Proporcionar esta delícia a uma criança é o que há de melhor em contar histórias. Por isso, não tenho pressa em fazer com que ele leia sozinho. Sonho com o dia que o Pedro possa construir suas próprias pontes por onde a narrativa vai correr de encontro a sua emoção. Enquanto isso, vamos eu e ele trilhando os caminhos da literatura. Digo sem vergonha que, neste momento, meu orgulho não está em ver meu filho cumprir rapidamente suas fases, mas vê-lo amadurecer aos poucos como leitor, com a segurança e paciência que um dia serão essenciais para que ele possa vencer sozinho os desafios da literatura. Literatura se frui com esforço. Por enquanto, que o Pedro receba em uma bandeja de prata o prazer de uma boa história. Para mostrar que há muito prazer neste momento de esforço é que existem as mães e os mediadores de leitura. Que eu possa também cumprir este papel com o Antônio, meu caçula, que com seus quase quatro anos ainda está longe de ter seu ano leitor.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O prazer de ler histórias de terror

Sempre evitei escrever aqui sobre histórias que eu não tenha lido para os meus filhos. Mas hoje vou quebrar esta regra, que eu mesmo impus para o blog, para falar de um livro destinado a um leitor mais velho e mais maduro do que meus filhos, que têm apenas 3 e 9 anos. Sete ossos e uma maldição, de Rosa Amanda Strausz, editado pela Rocco Jovens Leitores, foi uma bela descoberta que me chegou pela Flist (Festa Literária de Santa Teresa), onde conheci a autora, Aliás, vale lembrar, ela é uma simpatia com seus leitores. Eu ainda não o li para o Pedro por temer sua reação, já que o livro traz dois temas difíceis para meu filho: a morte e o sobrenatural. Outra razão é que Sete ossos e uma maldição é um livro para cada um vencer com suas próprias pernas. Digo vencer porque a narrativa de Rosa Amanda cria uma tensão que mobiliza até a nós, adultos, e alimenta nossa vontade de seguir em frente, como os personagens dos contos do livro. O universo do livro, segundo a própria autora disse na Flist, são os contos populares e os mitos passados de geração em geração, que tanto assustaram crianças de outros tempos. Acho que isso explica a escolha de Rosa Amanda em ambientar suas histórias em pequenas cidades ou lugarejos rurais, em que crianças e jovens podem experimentar a liberdade e seguir adiante na busca de saciar a curiosidade. Este ímpeto é que faz com que as crianças, personagens de Rosa Amanda, se defrontem com o perigo e o sobrenatural. A única exceção é o conto O elevador que se passa na cidade grande e tem um prédio elegante e decadente como cenário da história. A prosa de Rosa Amanda cria um clima de mistério e tensão que tem seu clímax no momento em que o protagonista se defronta com o que tanto teme. A curiosidade é punida, assim como manda a cultura popular e os mais famosos contos de terror. Do outro lado, o leitor é impelido a continuar. Rosa vai construindo o medo aos poucos, com pequenos detalhes e muitas omissões, que ficam ainda mais claras no momento do desfecho dos contos. O momento em que o protagonista se defronta com o que tanto teme, a narrativa fica cheia de lacunas, de forma a criar ainda mais ansiedade no leitor. Mas em nosso caso, avançar na leitura é ter a garantia de uma boa história. Por isso, torço para que o Pedro consiga em breve conviver com seus medos para descobrir o prazer de ler uma boa história de terror.  

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Números, fantasia, afeto e talentos

Ler para dois filhos é um desastre. Pelo menos aqui em casa, com os universos do Pedro e do Antônio separados por cinco anos e dois meses. A confusão já começa na hora de escolher o livro. É lógico que o Antônio, com três anos e 10 meses, não consegue acompanhar as histórias do Pedro. Mas é tão certo, quanto ilógico que o Antônio não aceite que o irmão, de 9 anos, abrindo mão de seu desejo de escolher uma história, decida entre seus livros qual irei ler. Ele abre a boca, chora de escorrer lágrimas e bate o pé teimando ser seu direito escolher. Tento explicar ser justo que o Pedro, que vai ouvir uma história de pequenos, decida qual delas irei ler. Mas nada... Outro dia esta confusão durou alguns minutos até que o Pedro tentasse conquistar o irmão com a leitura de um dos livros que mais curtia nesta idade. Na verdade não é uma história. É uma brincadeira com os números e as mais básicas noções de matemática, como quantidade, tamanho, forma e semelhança. Os números, da coleção Os grandes livros da pequena ratinha, editado pela Editora Agir, proporcionaram ao Pedro vários momentos de prazer, com ele sendo desafiado a contar, a agrupar, a escolher entre grandes e pequenos, etc... Este sempre foi um interesse do Pedro, que é um excelente aluno de matemática e cumpre estes exercícios como quem completa um livrinho de passatempo. A matemática realmente o encanta. Sua felicidade entre as gravuras e instalações da exposição O mundo mágico de Escher, no CCBB, é um exemplo. Ele foi a primeira vez na sexta-feira, levado pelo pai de um amigo, e voltou ontem, dois dias depois, comigo, o pai e o irmão. Seu entusiasmo era flagrante. Ele corria pela exposição para mostrar ao Antônio o que mais o impressionara. Confesso que este interesse pela matemática, assim que foi ficando claro ainda no primeiro ano, me espantou. Eu, que fui uma aluna mediocre em todas as disciplinas de exatas, nunca acreditei poder ter um filho com estes pendores. Obra do pai, que é engenheiro e sempre explicou ao Pedro os mistérios da natureza. Por mais estranho que este mundo seja para mim, confesso sentir orgulho dos talentos do meu filho. Já o Antônio encanta-se mais pela fantasia e recusa, quase que sempre, os livros que não são de história. Ele não quer saber de bichos, nem de curiosidades, quer histórias. E não pode ser qualquer uma. Ele as escolhe. Mas, nesta noite, aninhado ao irmão, que tanto ama,  curtiu a brincadeira dos coelhinhos (isso mesmo, a ratinha quase não aparece na história) com os números. Na segunda página do livro, já não chorava mais e se divertia contando e dando aos coelhinhos os nomes de nossa família ou de seus amigos para dar alma de personagens aquelas figuras fofas e anônimas. Eu dormi feliz ao ver meus filhos viverem com amor suas diferenças.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mais uma vez, outra vez....

Há muitos prazerem em contar uma história para uma criança. Um deles, com certeza, é acompanhar o pequeno leitor/ouvinte no desvendar da narrativa. Este desvendar, vejo com meus filhos, é muitas vezes lento e cumprido em várias etapas. A criança pede a mesma história várias vezes, ouve a mesma coisa à exaustão de quem lê, mas em cada uma dessas vezes descobre um novo significado naquela narrativa. Só isso explica como pode uma criança, como, por exemplo, meus filhos, cada um a sua época, aguentar ouvir todos os dias Os três porquinhos sem se cansar. O Pedro cresceu, fez nove anos, já é capaz de perceber com clareza os desafios que uma narrativa lhe propõe, mas ainda ouve histórias contadas pela mãe. Assim foi com Perde quem fica zangado primeiro, um reconto de Italo Calvino para a história do embate de um camponês com um ganancioso padre, colhida na tradição popular italiana. Eu conheci o livro, editado pela Companhia das Letrinhas, nas mãos da Sônia Monnerat, minha professora na UFF, e vi logo que ele tinha tudo para encantar o Pedro. A narrativa de Calvino tem tudo que uma história precisa para cativar uma criança: uma boa dose de fantasia e de humor. Estes atrativos, no entanto, não tornam a história fácil. A narrativa de Calvino não tem nada de simplória, como a origem popular do conto poderia supor, e o enredo propõe tramas engenhosas para os duelos do camponês com o padre. Para acompanhá-la é preciso prestar uma bruta atenção para, ao fim, perceber que Perde quem fica zangado primeiro é, na verdade, ganha quem for mais paciente e inteligente. Foi isso que encantou o Pedro. Mas esta percepção, a princípio, foi apenas uma intuição. Ele recorreu a mim e às ilustrações de Susanne Janssen, reproduzidas da edição alemã, para entender as sutilezas da narrativa e traduzir os regionalismos de uma Itália agrária. Estas descobertas, no entanto, foram um prazer enorme para ele. Há muito não o via vibrar tanto com uma leitura, como com este livro que ele me fez ler três noites seguidas. Que Calvino nos conte outra!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quem é o lobo?

Nada é mais difícil para uma mãe de dois filhos do que encontrar o equilíbrio em meio a uma briga entre irmãos. Quando a gente chega na cena da briga é sempre a mesma coisa. Uma das crianças, senão as duas, está chorando e apontando o dedo para a outra e dizendo: "Foi ele quem começou". O que tento, sempre, é ignorar a exegese da briga e tentar fazer com o que os dois parem de se chutar, socar, puxar os cabelos ou até coisas piores, como cuspir um no outro. "Não quero saber quem começou, vamos parar agora", grito. Ou então, diante do choro intenso do Antônio e da queixa do Pedro de que o irmão pequeno começou a bater nele sem mais nem menos, faço um discurso de que as coisas não se resolvem na porrada. Minhas palavras entram em um ouvido e saem pelo outro. Mas ao fim da confusão, os dois, como quaisquer irmãos, voltam a ser os melhores amigos um do outro. Faz parte, é claro. Mas há sempre um que sai vitimizado dessa história, que todos conhecemos ou vivemos. O Antônio, ao que me parece, se coloca nesta posição. Todas as vezes que leio um livro de um menino sendo atormentado por um monstro ou um lobo, sua maior fixação, o Antônio diz ser a vítima e o Pedro o algoz. Mas decide estes papéis sem nenhuma angústia. Ele se vê cair na boca do monstro/lobo/ Pedro sem resistência ou medo. Assim foi durante a leitura de Olha o Lobo, de Tony Ross, editado pela Companhia das Letrinhas, em que ele decidiu, sem dúvidas, ser o menino e o Pedro, o lobo. Nada melhor do que esta história para representar a real relação dos dois. Inúmeras vezes gritos do Antônio me fazem interromper meu trabalho e levantar-me da cadeira para ir ver o que está acontecendo no quarto deles. Ao chegar lá, invariavelmente, o Antônio está chorando e acusando o Pedro de ter batido nele, o esganado, o sacaneado, etc e tal. Algumas vezes, a coisa está realmente acontecendo e outras tantas os gritos são sem razão. Nessas horas, sou dura com o Antônio e o alerto da desonestidade de acusar o outro sem razão e da possibilidade de um dia eu não acreditar em seus gritos de socorro e não o acudir, como aconteceu com o menino da história de Tony Ross. A minha sorte é que aqui em casa o lobo – seja ele quem for - não come ninguém.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Originalidade e inspiração a cargo de um autor

Uma noite de tempestade... é um daqueles livros que reafirmam nossa crença em boas histórias. Histórias que são tão originais e inspiradoras que, como os contos populares, parecem ter como autor o imaginário coletivo. Mas o encontro de um lobo com uma cabra narrado em Uma noite de tempestade... tem um autor. Yuichi Kimura é o seu nome. Ele é japonês e ganha a vida a compor livros e roteiros de programas de TV para crianças e jovens.
Uma noite na tempestade, editado no Brasil pela Martins Fontes Editora, em 2005, é seu best-seller. Já vendeu mais de um milhão de livros em todo o mundo e, por seu sucesso, ganhou uma versão cinematográfica e outros cinco volumes, em que o escritor dá continuidade à história do encontro do lobo e da cabra. Apenas o primeiro livro foi editado no Brasil. A tradução é da experiente Monica Stahel, que usou como fonte uma edição da obra em língua inglesa.
A nossa versão preserva a força dos diálogos criados por Kimura. A história narra o encontro de um lobo e uma cabra que, apesar de ocuparem diferentes lugares na vida e na cadeia alimentar, encontram muitas semelhanças um no outro. Lobo e cabra com a visão enevuada pela tempestade e o medo não percebem quem são na verdade, protegidos pela ignorância, curtem uma bela amizade.
Kimura já declarou em entrevista ter narrado a história quase que completamente por meio de diálogos por acreditar que, assim, a tarefa de descobrir as diferenças entre o lobo e a cabra ficaria a cargo do leitor. Foi uma boa estratégia, com certeza. Mas isso não diminui a força literária dos pequenos trechos descritivos criados pelo autor. 
A narrativa de Kimura é envolvente como uma tempestade e nos dá a possibilidade de recriar na imaginação os sons e as luzes de um temporal. “O vento uivava e rugia, e a cada lufada a chuva caía com mais força, como se fosse uma saraivada de bolinhas de chumbo”, descreve ele, logo no início da história. Esta sugestão tão clara no texto, com certeza, serviu de inspiração para o ilustrador, Hiroshi Abe, que, a pedido do próprio Kimura, deu traço e cor ao encontro da cabra e do lobo.
A escolha do autor não poderia ser melhor. Hiroshi Abe, que na época era tratador de animais no zoológico, expressa a dramaticidade deste encontro, em desenhos de traço simples, compostos sobre o preto. Na verdade, o que vemos é baseado em uma ilusão, como a amizada da cabra e do lobo. Abe riscou com uma caneta de feltro as ilustrações em um papel branco. Depois o fotografou e revelou o negativo. Sobre o negativo impresso, coloriu com canetas marcadoras as ilustrações,  criando um efeito que sugere que elas estão rompendo a noite de tempestade para serem vistas pelo leitor.
Esta conjugação de texto e ilustração garante uma bela história. Uma história a ser ouvida e vivida pelo leitor, que ao fim do livro descobre – para graça de alguns e desgraça de outros – que Kimura não conta como termina esta noite de tempestade. Quem quiser que pense em um fim para o encontro da cabra e do lobo. Ou então que cruze os dedidos na torcida para que traduzam no Brasil os outros cinco livros da série. 
PS: Este texto foge do padrão dos relatos postados neste blog por ter sido produzido para o curso de pós-graduação em Literatura Infanto-Juventil da UFF. Antes de escrevê-lo, li o livro para o Pedro, meu filho de oito anos, que estava adorando a história. Mas no finalzinho da narrativa, veio a decepção. Como a história não tem um fim? O que aconteceu com a cabra e o lobo? "Ah, não! Essa história é muito chata." Bradou meu filho, revoltado com o fato de o autor não ter resolvido o drama vivido pelos dois adversários ocultos. Ele tem razão em esbravejar, já que o final aberto o incomodou, mas isso não faz com que eu desista de apresentar para ele narrativas que o incomodem. Afinal, a literatura é assim: a dor e a delícia de ser o que é, como diria Caetano.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O bem com o bem se paga

Ateus, agnósticos e religiosos de variados credos, ninguém, ninguém mesmo consegue ficar indiferente ao clima de fim de ano.  Há, reconheço, aqueles que se incomodam com tudo isso. Olham com desprezo para a multidão que se acotovela nos mercados e ruas em busca de um detalhe para fazer a festa em família ou com os amigos melhor. Tirando os exageros movidos pelo consumismo, que reconheço existir nesta época do ano, estão todos buscando objetos de afeto para renovar seus laços de amizade e amor. Renovar é o verbo do fim do ano. Não há como negar que o fim do ano traz consigo um renovar de esperanças. Isso explica o por que de adultos e crianças aguardarem estas datas como se elas tivessem um poder mágico para mudar tudo para melhor. O Natal e o Revéillon são a dose reservada aos céticos do mundo maravilhoso que tanto encanta as crianças. Nestes dias a gente se encanta com as luzes natalinas, com as belas histórias e as promessas de dias melhores e se entristece com as misérias do mundo para as quais damos as costas nos outros onze meses do ano. Nestes dias nos lembramos de nossos natais de criança e nos esmeramos para dar a nossos filhos a oportunidade de levar do Natal mais que presentes, lembranças de um tempo em que todos acreditam ser possível uma vida mais ética e solidária. Por isso, deixo como dica de Natal o conto popular O bem com o bem se paga, que na edição da Editora Moderna é recontado por Edgard Romanelli e ilustrado por Alberto Naddeo. Na versão de Romanelli para a fábula de que o bem nunca deve dar acolhida ao mal, surgida na Índia do século V a.c., um caipira é ameaçado por uma onça que acabou de salvar. Ao perceber a traição da onça, o caipira implora por sua vida lembrando a ela que a salvou e que o bem com o bem se paga. A onça busca aliados para sua teoria de que nem sempre o bem com o bem se paga até que aparece um danado de um macaco esperto pra burro e cria uma armadilha para soltar o matuto. Boa mensagem para estes dias de Natal em uma sociedade em que se luta diariamente para evitar que o bem dê acolhida ao mal.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A hora de dormir é sempre igual

Confesso que detesto por meus filhos para dormir. Gosto de ler histórias, mas convencê-los a dormir é para mim um suplício. O Pedro já se rende ao sono. Aí não me importo. A gente deita, lê uma história e ele acaba dormindo, muitas vezes até antes de eu terminar a leitura. Já o Antônio, com seus três aninhos, luta com todas as suas forças contra o sono. Tem dias que eu passo mais de uma hora para fazê-lo dormir e só consigo que feche os olhos depois de perguntar a razão de ele não querer dormir. A razão, responde o Antônio, é sempre a mesma. Medo de sonhar com o LOBO, assim mesmo com maiúscula. Eu o acalmo sempre com a mesma conversa. "Quando o Lobo aparecer, fala que sua mãe não o quer em seu sonho. Os lobos têm medo das mães. Você vai ver que ele vai correndo embora. Já tentou falar isso com ele?" Invariavelmente ele diz que não e cai na minha conversa, se ajeitando na cama ou no chão - que ele adora - para dormir. Por esta razão eu vibrei ao achar outro dia nas estantes da Livraria Martins Fontes, no Centro,o livro Como os dinossauros dizem boa noite?, de Jane Yolen, com ilustrações de Mark Teague. A escritora americana usa o fascínio que os dinossauros exercem sobre as crianças para recriar a resistência dos pequenos ao sono. Os dinossauros, pergunta ela, berram, fazem manha, jogam os brinquedos na parede, pedem mais uma história? Não, conclui na narrativa, eles dão beijinhos gostosos na mamãe e no papai, apagam a luz, vão para a cama e se cobrem sozinhos para dormir uma noite tranquila de sono. Quem dera fosse assim, o Antônio pede mais uma história, chora, grita e quando se vê vencido, já com a luz apagada, implora por água, dizendo estar com muita sede. Meu único alento é que, com certeza, meu dinossauro é como todos os outros. Estranhos são estes do livro de Jane Yolen, que, brincando com a imagem refletida no espelho, diverte mães e crianças na hora de dormir.

domingo, 7 de novembro de 2010

Eram 10 sacizinhos?

De vez em quando dou uma passeada na loja da Paulinas, na Rua Sete de Setembro, para dar uma fuçada em busca de bons livros para os meninos. A editora tem um católogo enorme de infantis e juvenis que, garimpado, rende belas leituras só encontradas na loja própria. Bom também é quando chego lá em busca de alguma coisa específica, como na semana passada, quando catei em sua estante o livro Dez sacizinhos, de Tatina Belinky, com ilustrações de Roberto Weigand, que tinha visto nas mãos da Sônia Monnerat. A história é a versão de Tatiana para a brincadeira de tangolomango. Mas, como o que importa é a maneira de cada um contar uma história, a de Tatiana, como não poderia deixar de ser, é especial. Tão especial que ela ganhou o Selo de Altamente Recomendável para a Criança, em 1999. Tatiana coloca 10 sacis na brincadeira e vai tirando um a um da história até a Cuca devolver todos eles. O texto de Tatiana, uma de nossas maiores escritoras de infantis e juvenis, é uma delícia. "Sobrou um só sacizinho:/ Comeu urucum,/ Urucum não é comida,/ E não sobrou nenhum." Mas a história, como um bom tangolomango, conta a volta dos sacizinhos para deleite da criançada. O Antônio, muito ligado no Saci que conheceu na escola, adorou. Quando a Cuca devolve os sacizinhos, ele quer voltar ao início, fazendo com que a narrativa de Tatiana se realize ainda mais na circularidade de uma história sem fim. Vale dar destaque à ilustração que foi premiada em 1999, com o Jabuti. Mereceu. Ela contribui para a riqueza da leitura de Dez sacizinhos por abrir um belo diálogo com o texto e com a imaginação da criança. A começar pela sobrecapa do livro, que mostra os sacizinhos escondidos. Por baixo dela, na capa, encontramos os sacis atrás de árvores. A brincadeira de esconder continua na história. Um dos baratos da leitura é procurar a Cuca em seus vários disfarces em cada página do livro. Uma obra para ler e guardar.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quem não tem medo de escuro?

Pesadelos são o flajelo da infância. Foi assim comigo, está sendo com meus meninos. O Pedro, coitado, está há dias tendo o mesmo pesadelo em que um ladrão mata quem com ele está e o ameaça de morte. O Antônio, ainda tão pequeno e alheio às mazelas de nossa sociedade, sonha frequentemente com o lobo mau atrás dele e, eventualmente, com o Michael Jackson o esganando. Mas o resultado é o mesmo. Os meninos acordam assustados. O Antônio sem pestanejar corre para o meu quarto para pedir que eu o coloque de volta na cama. Com sorte ele dorme rápido. Mas ela nem sempre está comigo. Já o Pedro  pede socorro eventualmente. Fica deitado na cama, no escuro, remoendo seu pesadelo e com medo de voltar a dormir. O que estou contando acontece em qualquer lugar: aqui em casa, no Japão, na Europa e até na Argentina do cartunista Liniers. É lá para as bandas do Sul que o protagonista de O que existe antes que exista tudo, editado pela Girafinha, é colocado na cama pelo pai e pela mãe. Já deitadinho, seu pai e sua mãe lhe dão boa noite, com o click do interruptor de luz. Aí começa o drama do menino, que é obrigado a conviver com seres que descem ao seu quarto pela abertura que a escuridão faz no teto. Até que chega aquele que existe antes que exista tudo e o menino corre para o quarto dos pais. A história de Liniers, quadrinista da série Macanudo publicado no jornal portenho La Nacion e na Folha de São Paulo, tocou meus meninos, que como o protagonista têm que conviver com estes monstrinhos noturnos que o medo dá à vida. O Antônio amou e pede para eu contar a história todas as noites, antes de Os três porquinhos. "Adorei esta história que você trouxe para mim", me disse ele, ontem à noite. O Pedro também gostou. Pudera, até eu amei a forma como Liniers conta um drama tão comum e, por isso, tão explorado pela literatura infantil. Destaque para as ilustrações maravilhosas que nos dão um cartel de monstros inesquecíveis. Tem até um gatinho com cara de amigo que o Antônio escolheu para ser o seu monstrinho. O único senão do livro é a troca de uma letra que faz tudo virar “tude” já no finzinho da história. Mas não compromete o encanto do livro que está super bem editado.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A vida e a morte podem deixar frutos

A morte e o envelhecimento são temas difíceis. Tão difíceis que muitas vezes nos furtamos de encará-los. Mas eles estão lá, no fundo de nossas emoções, nos assombrando. A nós e a nossas crianças até que alguém, como o escritor austríaco Christian Duda, radicado na Alemanha, resolve trazê-lo à luz e, com coragem, encarar de frente o incômodo que eles nos causam. Duda assim o fez em Todos os Patinhos, seu livro de estreia na literatura infantil e juvenil, editado no Brasil pela Cosac Naify, em 2009.
A história do encontro da raposa Conrado e do patinho Lourenço e da formação de uma improvável família servem para o autor tratar sem temor do curso natural da vida que nos leva ao envelhecimento e à morte. Mas este caminho pode ser profícuo, como nos propõe o autor, se ele for pavimentado pela certeza de que, em vida, nos demos para alguém que vai continuar nossa história. Mesmo que para isso tenhamos que, como Conrado, abrir mão de prazeres mais imediatos e previsíveis e viver uma história nada convencional.
A narrativa de Duda é rica em humor, como gostam as crianças, e lirismo para falar da relação construída entre Conrado e Lourenço. Relação tão intensa e verdadeira que nem mesmo o envelhecimento e a morte a ameaçam. Quando eles chegam, chegam com a calma dada pelas coisas inevitáveis e assim são vividos pela raposa e pelos patinhos. Da mesma forma que chegam para aqueles anciões, que, calmamente, se desenlaçam da vida por ter a certeza de que a viveram plenamente.
Isso, no entanto, não elimina o mal estar que o tema provoca. Mas nos oferece uma rara oportunidade para tratar do destino de todos os seres vivos com as crianças, que, mesmo caladas, sofrem com esta predistinação ao imaginar a morte delas e de seus pais.  
O drama de Conrado e Lourenço, no entanto, é amenizado pela força da narrativa de Duda, que encontra no traço vibrante das ilustrações da alemã Julia Friese, radicada na Irlanda, uma excelente parceria que rendeu prêmios na Alemanha e o selo brasileiro de Altamente Recomendável, concedido este ano pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil). O encontro entre autor e ilustrador de Todos os patinhos deu tão certo, que eles lançaram em agosto deste ano, na Alemanha, um novo livro para crianças – Schnipselgestrüpp, ainda sem tradução para o português.  
As ilustrações de Julia misturam tons fortes, recortes e colagens para nos criar a impressão de estarmos vendo um desenho animado. Julia não abre mão nem mesmo dos rabiscos iniciais das cenas descritas por seu traço. A força de seu desenho justifica as páginas duplas, nas quais, sem texto, as ilustrações são o único recurso narrativo. O impacto poderia ser ainda maior se Julia tivesse ousado e impresso o livro em um papel mais grosseiro do que o couché fosco, o que daria mais vida ao efeito rústico que a ilustradora dá ao cenário.  
De qualquer forma, Todos os patinhos é um belo livro para jovens leitores preocupados com os mistérios da vida e da morte. O texto de Duda e as ilustrações de Julia não lhes darão respostas, mas, com certeza, provocarão um rico diálogo interior na busca de preencher um pedacinho do vazio que a morte provoca a todos – crianças e adultos.


PS: Este texto foge do padrão dos relatos postados neste blog por ter sido produzido para o curso de pós-graduação em Literatura Infanto-Juventil da UFF. Antes de escrevê-lo, li o livro para o Pedro, meu filho de oito anos, que estava se divertindo com a narrativa de Duda até perceber a morte na história. Ele, como já falei aqui outras vezes, lida muito mal com este tema. Por isso, ouviu o resto da história com o olhar enevoado e ao fim disse que era chata. Chata para ele, antes e acima de tudo, é a morte. Para mim também, mas, como Duda, percebi que uma vida bem vivida pode dar sentido a ela. Espero que o Pedro também consiga perceber isso um dia. Até lá, o que fazer? Só lhe resta conviver com este mal estar, que atravessou quase todos os dias de minha vida.  

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Crescer sem perder a ternura

Ter dois filhos com idades tão diferentes, como eu tenho, é uma experiência e tanto. Quando um está indo com a farinha o outro está voltando com o pirão. Mas nem sempre o pirão é mais saboroso que a farinha, quando o assunto é literatura. O Pedro, com seus oito para nove anos, está ingressando no mundo real e se estranhando com as liberdades da literatura. "Mãe, isso é um absurdo", diz ele, quando depara-se com uma situação surreal. É mesmo, ele tem razão. Mas que importância tem isso, quando estamos viajando nas histórias. Será que elas têm que ser verossímeis? Não, é o que sempre digo a ele, na esperança de que o princípio de realidade - tão exaltado pelo racionalismo - não o impeça de curtir uma bela história. Já o Antônio, com seus três aninhos, nem se preocupa com isso. Ainda está na fase de curtir a fantasia sem questioná-la. Quanto maior o absurdo, melhor. Agora não, Bernardo, de David McKee, editado pela Martins Fontes, é um belo exemplo do que a fantasia pode produzir. A indisponibilidade do pai e da mãe de Bernardo colocam o menino frente a frente com um monstro. O Antônio achou super normal a presença de um monstro na história e pediu para ser ora o Bernardo, ora o monstro para poder experimentar a sensação de ser devorado e devorador. Já o Pedro ouviu a história ora como menino, ora como ouvinte incrédulo. O sorrisinho dele ao ouvir os comentários do Antônio, era seu esforço para bandear-se para o lado do adulto, que generosamente deixa a criança viver a fantasia. Já quando ele é o único ouvinte, à vontade pela falta de testemunhas, a fantasia lhe cai melhor. Meu esforço tem sido para que, nestes anos que o separam da vida adulta, ele aprenda que é possível crescer sem perder a ternura.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Para brincar de livro



Caramba! Tem um mês que não atualizo o blog. Tempo à beça. Tempo que fiquei enrolada com o trabalho, mas que não deixer de ler para meus pequenos. Foram vários livros para o Antônio e nem tantos para o Pedro, que já ouve histórias de mais fôlego. Meu pequenino, com seus três aninhos e um pouco, está impossível. Todas as noites na hora de dormir, senta-se em frente de sua estante e sai tirando todos os livros do lugar, derrubando vários de uma só vez e separando quase uma dúzia para eu ler. É claro que me nego a ler tantas histórias. Não que ele não mereça, mas ler todas significa dormir quando o ponteiro do relógio está quase dobrando mais um dia. Por isso, faço valer a regra que estabeleci para o Pedro, ainda pequeno. São no máximo três histórias. O Antônio, no entanto, nem sempre se submete a ela e passamos para uma quarta. Entre as lidas estão sempre histórias de lobos. "Três Porquinhos" ou "Os sete cabritinhos" estão entre as preferidas. Mas, na tentativa de ampliar o repertório do pequeno, tenho remexido na estante e passeado por livrarias para trazer novidades para ele. A tradução da versão original dos "Três porquinhos", do inglês Joseph Jacobs, que compõe o livro Contos de fadas, da Zahar, foi um sucesso. Os porquinhos da casinha de palha e de madeira acabaram na barriga do lobo, que, ao fim, foi jantado pelo porquinho da casinha de tijolos. Apesar de toda a violência, a versão original do lobo-mau encantou o Antônio. Minhas escolhas, no entanto, nem sempre deram certo. Kipper, esconda-me, do autor inglês Mick Inkpen, editado pela Fudamento, é um belo livro, mas não prendeu a atenção do Antônio, que só pensa em porquinhos, cabritinhos e lobos. Mas a história é deliciosa e vale a pena. Os personagens interagem com o livro, fazendo da aventura de um cachorro, um gato e um rato um divertido e criativo exercício de metalinguagem para crianças pequenas. Apesar do Antônio ter se dispersado vários vezes, a leitura foi bastante divertida. O Pedro, que acompanha de perto todas as novidades que trago para o irmão, aprovou a brincadeira de Kipper e seus companheiros. Por isso, vou insistir com o Kipper. Este cachorrinho ainda vai conquistar o Antônio. Tenho certeza!

sábado, 11 de setembro de 2010

Advinhas para recusar marido

Há livros apaixonantes, que a gente ama só de olhar. Este foi o caso de Sua Alteza, a Divinha, de Angela Lago, editado pela RHJ. Apesar da primeira edição contar duas décadas, o vi pela primeira vez nas mãos da Sônia Monnerat, minha professora na UFF, e me encantei. Tudo no livro é instigante. A edição em papel offset bege e impressa em uma única cor, um cinza esmaecido, nos dá a impressão de termos em mãos um livreto vendido em feiras, com histórias de nosso folclore ou de contadores anônimos. Talvez isso explique a razão de a autora, já na capa, registrar que contou com a "amável colaboração de ilustradores anônimos e antigos". Assim que abrimos o livro, Angela nos revela que a história é um reconto de A Princesa Advinhona, conto popular recolhido por Câmara Cascudo. A história da princesa, que usa como artifício para recusar seus pretendentes jogos de advinhação, ganha na versão de Angela Lago uma narrativa tão inspirada, que a trama prendeu rapidamente a atenção do Pedro, que adorou o fato de na história o protagonista falar "merda". Ele quis checar com os próprios olhos se no livro estava grafado a palavra merda e se divertiu ao ver as cinco letrinhas (m-e-r-d-a), ali, para quem quisesse lê-las. Independente disso, ouviu com atenção os jogos de advinhação propostos pela princesa e seu adversário, pretendente de sua mão. Pedro não os desvendou de cara. Precisou de minha ajuda. Eu reli a história para ele, revelando os jogos de palavras e as brincadeiras propostas por Angela. Ele adorou tanto que, no dia seguinte, ouviu mais uma vez o conto, agora com a felicidade de estar entendendo todos os subentendidos da narrativa. Uma história divertida, inteligente e bonita de se ver. Vale a pena registrar que Angela mistura texto e ilustrações, fazendo da leitura uma divertida troca entre palavras e imagens.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A alegria de ser criança

Descobri O pequeno Nicolau com o maravilhoso filme de Laurent Tirard. Ri muito e saí do cinema de alma lavada e certa de que meu filho, Pedro, iria adorar a divertida turma do Nicolau. Minha mãe se encarregou de levá-lo para ver o filme, junto com o Antônio, que, com apenas três anos, está sempre mais interessado na pipoca, no mate e nas balas, com que se delicia nas duas horas de projeção, do que na história. Não raro, no meio do filme, pede para ir ao banheiro descarregar tanta informação. Já o Pedro, como eu previra, amou a história. Amou tanto que comecei a ler com ele o primeiro livro da série escrita por René Goscinny e ilustrada por Jean-Jacques Sempé. A gente está terminando o primeiro dos seis livros da série traduzidos e editados no Brasil pela Martins Fontes e pela Rocco Jovens Leitores. Nicolau é um daqueles personagens que encarnam um ideal de infância que o mundo moderno está soterrando com tantas e variadas informações e opções de consumo. É uma criança deliciosa em sua irresponsabilidade e ingenuidade e suas aventuras são pontuadas com os desenhos em bico de pena de Sempé, quem, na realidade, pariu o menino nos idos de 1950. Nicolau foi, em seus primeiros dias, um dos personagens do cartunista e só passou a protagonista depois que René Goscinny,  autor do delicioso Axterix, propôs uma parceria a Sempé. Assim surgiram Nicolau e seus amigos. Alceu, o comilão, que conquistou o Pedro por sua semelhança com o Antônio, Clotário, o pior aluno da classe, Agnaldo, o queridinho da professora, Godofredo, o filho do milionário, e outras crianças. O resultado da soma de todas, tirada uma média ponderada, se parece muito com os nossos filhos. Uma turminha que apronta e nos faz rir de chorar, nos impedindo de esquecer de vez a alegria de ser criança.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Na cama da mamãe e do papai também

Uma feliz coincidência fez com que o Antônio trouxesse da escola, na sexta-feira, o livro A cama da mamãe, de Joi Carlin, com ilustrações de Morella Fuenmayor. A história de três irmãos que se aboletam na cama da mãe para brincar, imaginar novos mundos ou mesmo conversar caiu como uma luva para ser lido depois de Posso dormir com você?, de Graziela Bozano Hetzel. O Antônio, grudadinho em mim, adorou ouvir as inúmeras possibilidades de vida que existem na cama da mamãe e, diga-se de passagem do papai também. Já o Pedro, mais velho e mais ranzinza, reclamou que eu não deixava ele montar cabanas com o Antônio na minha cama. Coitadinha de mim e do Cadoca, nossa cama, mais parece um mafuá. Tem criança, gato e bagunça quase todo o tempo sobre ela. Não raro aparece alguém, no meio da noite, querendo dormir conosco. Aí, sim, nos dá uma saudade de tempos antigos em que tínhamos uma cama com lençóis limpinhos e esticadinhos, que ficavam nos esperando o dia todo sem pressa. Mas com certeza, aquela cama não tinha o calor humano que a nossa tem hoje. Acho que, noves fora, acabamos no lucro. Enfim, A cama da mamãe é uma bela escolha da Salmandra, que apostou na tradução luxuosa de Ana Maria Machado para valorizar a história da canadense Join Carlin.
PS: Lendo este post quase dois anos depois, vi a injustiça que cometi ao não falar nada da cama do meu pai e da minha mãe. Aí sim é que a coisa era punk. Somos três irmãos, com uma diferença de um ano e dois meses de um para o outro, que fazíamos da cama dos nossos pais palco para nossa brincadeiras e maluquices, como fazê-la de ringue de Telecatch Montilla. Como na luta-livre que fazia sucesso no fim dos anos 60 não havia mulheres, eu passei a ser a Índia Paraguaia, uma adaptação do Tigre Paraguaio, e meus irmãos o mocinho Ted Boy Marino e o vilão  Rasputin Barba Vermelha. Tudo isso assistido e apitado pelo meu pai. Tinha dias que a brincadeira era o meu pai fazer cosquinha na gente, até quase fazermos xixi nas calças. Coitada da minha mãe! Não era raro fazermos xixi nas calças e, o que é pior, quebrarmos o estrado da cama. Quando isso acontecia, meu pai, com cara de santo, propunha trocar de lugar com ela na cama e, minha mãe, sempre incrédula, aceitava. Era o maior fuzuê quando ela constatava a razão da troca. havia também os dias mais calmos, em que nos empoleirávamos na cama para fazer cosquinha nas costas uns dos outros. Nessa hora, a briga era para saber quem tinha sido o mais beneficiado. Quase sempre era a minha mãe! Bons tempos em que pudia fazer tudo isso e, depois, voltar para meu quarto e deitar-me na minha cama, quentinha, limpinha e com os lençóis esticadinhos. Nada melhor do que a cama do papai e da mamãe!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma noite de sombras, medo e aconchego

Confesso que ultimamente tenho um prazer enorme em encontrar livros legais para a faixa etária do Antônio. Coisa que não é muito fácil, apesar da enorme oferta que encontramos de títulos nas livrarias que tratam de formas, cores, comidas, comportamento e outros didatismos. O que quero são boas histórias que gente pequena, como o Antônio, possa entender e se identificar ou mesmo livros que falem das coisas do mundo - como formas, cores e comidas - com ludismo e criatividade. A tarefa é difícil, por isso o prazer que sinto ao encontrar um livro como Posso dormir com você?, da Graziela Bozano Hetzel, editado com capricho pela Manati e ilustrado com inspiração por Mateus Rios. O ilustrador vale um comentário à parte. Mateus Rios tem apenas 29 anos e uns poucos na estrada da literatura infantil. Mas suas ilustrações são muito bacanas e criam um belo diálogo com o pequeno leitor. Ele recria o mundo, criado por Graziela, com áreas de sombra para a imaginação do leitor correr solta pelo quarto do menino. A história segue a tradição dos contos de acumulação, em que as ideias vão se somando às outras e sendo repetidas até o desfecho do enredo, para falar do medo de um menino, que, no meio da noite, pede à mãe para dormir com ela. Igual ao Antônio, ao Pedro e a milhões de crianças em todos os cantos do mundo, que pedem socorro à mãe para enfrentar seus fantasmas noturnos. O mérito maior de Grazilea não é, no entanto, falar de um fato comum às mães e às crianças, mas tratar dele com lirismo e doçura, que nos leva a abraçar nossos meninos no fim da história. E, mesmo sem toda esta certeza, lhes prometer que eles sempre poderão ir domir conosco na hora do aperto.