sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Gente boa do Brasil e da América Latina
Vale a pena colocar na agenda o colóquio que o Programa de Alfabetização e Leitura (Proale), da Faculdade de Educação da UFF, está promovendo em Niterói. No dia 4 e 5 de outubro, escritores e ilustradores brasileiros e latino americanos vão conversar sobre literatura para crianças e jovens leitores. Uma bela oportunidade de ouvir gente que faz boa literatura. Para quem se interessar, o Proale oferece também um curso de extensão para professores, Mais informações no site do programa.
sábado, 22 de setembro de 2012
Um tangolomando para falar da macacada
Os macacos sempre foram os meus bichos preferidos. Macaco pequeno, médio ou grande sempre me faz rir e sonhar com uma vida mais livre, em que eu possa pular de galho em galho, comendo para não morrer e me divertindo com o meu bando. Uma de minhas lembranças de criança envolve um mico danado, amarrado em uma coleira e vivendo em um poleiro de bar de estrada, que avançou nos meus cabelos em vez de pegar a batata frita que eu lhe oferecia. O susto foi grande, chorei como toda criança faria, mas guardei esta aventura em uma das gavetinhas de bons momentos do arquivo de minha memória. Essa afeição pelos primatas faz com que eu olhe com simpatia para todas as histórias que falam de macacos. Macacos contra jacarés, onças e jabutis garantem diversão e aulas de malandragem para toda a família. Imagina eles em um bando de dez, como quis a escritora Anna Flora em Cada macaco no seu galho? A história, que ganhou delicadas e bem humoradas ilustrações de Cláudio Martins e foi editada pela Formato, fica ainda mais divertida por ser um tangolomango. Eu também adoro tangolomangos, aquela brincadeira cantada que começa com 10 pessoas, bichos ou objetos e que, após tirar um a um, acaba com nenhum. Há muitas versões populares de tangolomangos, que outrora garantiram divertidas brincadeiras de criança, e autorais, que hoje dão belos livros ilustrados. São tantas que perco a conta. Aqui no GATO DE SOFÁ comentei pelo menos duas destas versões: a da Tatiana Belink, Os 10 sacizinhos, e da Graça Lima, Os 10 patinhos. Mas é sempre legal descobrir mais uma versão bacana, ainda mais quando se tem em casa um menino pré-escolar que se diverte contando dedos, batatas fritas e outras cositas até chegar ao infinito. E Cada macaco no seu galho, além de nos permitir os prazeres da matemática, traz ao fim da história um glossário com diversas espécies de primatas e um livro de brincadeiras para curtir ainda mais as divertidas ilustrações de Cláudio Martins e fazer a festa da criançada que gosta de uma tesoura. Na verdade, nem precisava. A história já garante festa boa, festa de macacada!
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Humor e fantasia na dose certa
A noite de ontem foi super divertida com a leitura de Pé de Cobra, Asa de Sapo, editado pela Ática. Sentamos eu, o Pedro e o Antônio para ler as quadrinhas monstruosas do estreante Rafael Soares de Oliveira, ilustradas pelo cartunista Jean Galvão, e acabamos perdendo a hora de dormir. Pudera! Cada uma das 40 páginas do livro traz uma quadrinha para apresentar seres fantásticos, colhidos do imaginário de várias culturas, e aguçar a curiosidade das crianças. "Alguns dizem que eu sou boi!/Lorota maior não há./Sou é uma cobra de fogo.../Quem eu sou?O Boitatá!" Os meninos logo entraram na brincadeira poética e toparam o desafio de desvendar os seres fantásticos. Muitos deles são nossos velhos conhecidos, como a Cuca e o Vampiro, mas nenhum de nós três soube dizer quem era, por exemplo, o Krakem. Rafael, contando com nossa ignorância, preparou um glossário no fim da edição para desvendar a identidade de todos os monstros citados no livro. O Pedro, grande admirador destes seres, também nos ajudou, tirando da estante seu velho O Grande Livro dos Seres Fantásticos, da Editora Leitura. Passamos quase uma hora entre a leitura de Pé de cobra, asa de sapo, que é uma delícia, e a pesquisa sobre estes seres. Até mesmo a apresentação do autor e do ilustrador, comum nos livros infantis, nos rendeu bons momentos. Quando o Antônio ouviu o Rafael contando que seu trabalho é dar aulas de literatura e escrever livros infantis, ele, que anda preocupado com que vai ser quando crescer, não titubeou: "Quando eu crescer, meu trabalho vai ser desenhar livros infantis." Ponto para Jean Galvão, que entrou no espírito da coisa e produziu cartuns super coloridos e bem humorados para as quadrinhas de Rafael, que ganham um fecho super bacana com uma homenagem aos poderes da imaginação. Uma boa parceria para valorizar o trabalho de estreia de Rafael, uma bela descoberta da agente literária Ana Maria Santeiro. Que ele nos brinde com novas histórias!
terça-feira, 11 de setembro de 2012
O Antônio e sua paixão pelos cachorros
É certo que
cada leitor tem lá suas idiossincrasias. Eu, confesso, tenho várias. Mas para
mim é um mistério como elas surgem e se consolidam. O Antônio, meu caçula de
cinco anos, desde muito pequeno escolhe suas leituras. Seus critérios nem
sempre são estéticos ou temáticos. Um deles, muito claro, é geográfico. Ele
rejeita todos os livros vindos da estante maior de seu quarto, que ele
convencionou ser a do Pedro. "Mãe, você não sabe que eu não gosto de nada
desta prateleira?", me inquire com convicção. Ele só aceita livros da
estante mais baixa do quarto, instalada na época em que ele, bebê, não
alcançava a mais alta. Nunca imaginei, com isso, estar estabelecendo limites
para sua curiosidade. Minha estratégia tem sido, sem que ele veja, mudar os
livros de andar para que ele os aceite. Mas nem sempre isso funciona. O Antônio
parece adulto em vitrine de livraria. Ele implica com a capa, com o tipo de
letra da impressão, com o formato do livro, enfim, com critérios de seleção totalmente aleatórios. Desta severa triagem sobram alguns
preciosos livros que
ele recorre de tempos em tempos. Há poucos dias, ele recuperou na primeira
prateleira de sua estante a coleção do Bolinha, de Eric Hill, editada pela
Martins Fontes. Os livros ilustrados contam as travessuras de um cachorrinho, com a ajuda de abas que escondem seus amigos, objetos ou seus pais. Nesta
segunda temporada de Bolinha, um de seus prediletos quando ainda era pequetito, Antônio se divertiu muito. Se divertiu ouvindo as histórias,
abrindo as abas e "lendo" sozinho cada linha guardada na memória. Depois do Bolinha,
ressuscitou o Otto. Lindo cachorrinho, criado pelo californiano Tod Parr e editado pela Panda Books. Otto foi nossa leitura insistente por muito tempo,
o que fez o Antônio batizar com seu nome um cachorro de pano que herdou do irmão. Suas memórias caninas podem ter a ver com seu desejo de ter um cão, ultimamente alimentada, em seu imaginário, pela existência da Nikita, a cachorra da mulher de seu padrinho,
prometida a ele em uma brincadeira levada muito a sério. Diante disso tudo, não tive dúvidas quando vi nas livrarias Rita e Treco na praia, de Jean-Philippe Arrou-Vignod, editada pela Rocco Jovens Leitores. Comprei-o, certa de que tinha as qualidades necessárias para agradar o Antônio: falava de cachorros e contava uma história. Quando mostrei o livro, ele foi peremptório. "Não quero ouvir essa história. Não gosto dessa história." Foi, então, que decidi ignorá-lo e lê-la alto, sem dar bola a suas intervenções. Lá pela quinta página, ele já estava disfarçando e ouvindo as aventuras da menina Rita e de seu cachorro Treco. Não passou muito tempo para que pegasse o livro para apreciar as ilustrações de Olivier Tallec, que dão vida a Rita e Treco, em traços de cartum que lembram clássicos franceses, como Sempé. Fiquei feliz de ter acertado e, assim, conseguir ampliar a coleção de livros do meu caçula.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Descobrindo a serventia da língua
Confesso que já tinha visto algumas vezes nas prateleiras da Paulinas o livro Girafa não serve para nada, de José Carlos Aragão, ilustrado por Graça Lima, e nunca me decidira por ele. Até que outro dia resolvi trazê-lo para casa. Que bom! Minha demora em lê-lo me preparou para apreciá-lo melhor. Aragão, um escritor mineiro que já me encantara em Trem chegou, trem já vai, faz um relato poético de como um menino - que suponho ser ele, o autor - tomou contato com a língua e foi desamarrando a camisa de força imposta por ela. Sua poesia, com certeza, vem desse embate com a língua, que lhe permitiu um novo e pessoal uso das palavras. Brincando de descobrir a serventia das coisas, Aragão experimenta novos significados para palavras prosaicas, como pedra, chuva, trem, relógio e ovo. Significados poéticos, como o dado para relógio - "caixa de guardar tempo perdido, casa para passarinho que perdeu o voo" - que vão ampliando seu olhar para o mundo e o libertando da tirania da língua, em sua busca do mais amplo uso das coisas. "Com o tempo, as respostas que me davam. além de incompletas, foram ficando vazias de importância. Descobrir por conta própria o uso de cada coisa foi ficando muito mais interessante que ganhar uma resposta já prontinha e embrulhada para presente", escreve Aragão, em Girafa não serve para nada. Ao ler o livro lembrei-me de minha estranheza, quando criança, diante das imposições da língua, que me fazia perguntar a meus pais o porque de cada coisa ter um determinado nome. Estranheza igual a de Marcelo, Marmelo, Martelo, clássico de Ruth Rocha, que encontra em Girafa não serve para nada nova e original tradução. Livros como este mostram como o prazer com a leitura deve ser construído à margem do processo de aquisição da língua, que, na maioria das vezes, é muito penoso para as crianças, como foi para mim. Ler não deve ter a ver com aprender português. A leitura literária tem a ver com a descoberta de que é possível encontrar na língua um universo maior do que nos propõem os gramáticos, capaz de nos fazer encarar o desafio de traduzir nossos sentimentos e impressões, apesar das limitações da palavra escrita. Aragão fez a sua parte. Que nós - pais, escola e Estado - sejamos capazes de fazer a nossa, para que nossos filhos percebam que o uso criativo da língua constrói um mundo de sutilezas e de liberdade e que, ao o atravessarmos, nos tornamos mais humanos.
sábado, 28 de julho de 2012
João e Maria em terceira dimensão
O que mais me encantou em João e Maria, na versão da inglesa Louise Rowe, pela Ciranda Cultural, foi a possibilidade de ver o conto enriquecido pelos recursos da engenharia de papel, sem a simplificação da narrativa que é comum nos livros pop-ups. Louise Rowe esbanjou seu talento nas dobraduras de papel para ambientar a história dos dois irmãos, abandonadas na floresta pelo pai e pela madrasta, mas não esqueceu-se de que sua inspiração veio da narrativa do conto Hansel and Gretel, dos irmãos Grimm. A história está toda lá, em caderninhos presos às páginas em que Louise montou os cenários para o desenrolar da história. As dobraduras de papel que representam a casa dos meninos, a floresta, a casa de doces, o cativeiro dos dois irmãos, a morte da bruxa e a libertação de João e Maria são lindas e sóbrias, como é o clima da história de abandono e superação. Nada de ilustrações em cores alegres, como nos acostumados a ver na casa de doces da bruxa, que constroem em nosso imaginário um casal de irmãos lindos e louros. Não, Louise sabe bem que eles fogem por toda a história da pobreza extrema, que ameaça suas vidas e a família deles, e que vivem em um mundo de poucos cores. Os marrons e os verdes, em tons fechados, dão o tom das dobraduras que recriam no papel a atmosfera sombria da história dos dois meninos. Estas qualidades fazem com que os pop-ups não sejam um recurso qualquer no livro de Louise e se fundam com a narrativa. As imagens de papel, em três dimensões, neste caso, não são como muitos acreditam um elemento que aproxime João e Maria, de Louise Rowe, dos livros-brinquedo. Pelo contrário, ele é um livro para ser lido, em suas palavras e imagens, e não para ser usado para brincar. A criança que experimentar sua narrativa visual aproveitará ainda mais o conto tradicional, registrado pelos irmãos Grimm. Assim foi com o Antônio, que ama João e Maria. Ele ouviu ao mesmo tempo que olhou, abriu e fechou o livro para ver a montagem das dobraduras e descobriu nas imagens os elementos que tanto o encantam na narrativa, como, por exemplo, ver a bruxa ser jogada para dentro do forno. As dobraduras chamaram sua atenção e é claro, ele quis tocá-las. Expliquei que aquele não era um livro para ser tocado, mas visto. Tocá-lo colocaria sua beleza em risco e João e Maria merece todos os cuidados. Antônio entendeu e curtiu o livro. Agora, que nos venham Chapeuzinho Vermelho e A Bela Adormecida, os outros títulos de Louise, disponíveis no Brasil.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Chiclete, uma boa razão para seguir lendo
Tenho passado pouco pelo blog. Sei disso. A vida está corrida, muitas coisas ao mesmo tempo, mudanças por vir. Mas nossa rotina leitora continua. O Antônio não dorme sem ouvir uma história. É seu momento mágico de aconchego, em que reclama seus direitos de filho e disputa meu amor com o irmão. Ele sempre me quer a seu lado, lendo para ele e depois o aguardando pegar no sono. Os dias que leio primeiro para ele para depois ler e fazer um cafuné no Pedro são um inferno em sua vida. Ele chora, pergunta mil vezes se eu não vou dormir em sua cama, tenta estragar a leitura do irmão, leva broncas, não raro é expulso do quarto, enfim, um tumulto. Mas o amor de irmão, quando verdadeiro, supera todos estes momentos. Tanto que outro dia, exausta, deitei cedo, avisando que não leria para ninguém. Os dois, maior e menor, entraram em meu quarto de mãozinhas dadas para tentar mais uma vez. Diante de minha negativa saíram e se ajeitaram como puderam. Foi quando eu vi, encantada, o Pedro lendo para o irmão. Os dois juntinhos, na mesma cama, lado a lado, como dois irmãos amados. Naquela hora, quem visse, não poderia imaginar as inúmeras brigas, as implicâncias, as chatices, os egoísmos, enfim tudo o que anima e desespera a vida de quem tem irmão. O Pedro, muitas vezes, se condói do Antônio e cede para ele. Já o contrário, é pouco comum. O Antônio, nos últimos tempos, tem apelado para garantir minha presença em sua cama ao lembrar dos momentos em que o irmão, irado comigo, diz que sou chata. "Mãe, o Pedro nem gosta de você!" Não posso deixar de lembrá-lo que ele também me renega em seus chiliques e que, apesar de raivas passageiras, os dois continuam a me amar, assim como eu não deixo de amá-los nos momentos em que quase me levam a loucura. Assim, nessa animação de casa com muitas crianças, vamos recebendo novos personagens em nossa vida. O último a chegar foi Chiclete, o irmão mais novo de Judy Moody. O personagem apareceu primeiro na série dedicada à sua irmã, um sucesso da Editora Salamandra no público formado por meninas pré-adolescentes, e acabou ganhando vida própria pelas mãos de Megan McDonald, com a ajuda das ilustrações de Peter H. Reynolds. Não é a leitura sonhada pelas mães, mas é leitura que agrada a nossos filhos, com uma narrativa que mistura humor e escatologia. Confesso que acho o universo de Chiclete pobre, mais pobre ainda do que muitos de seus concorrentes, como As Aventuras do Capitão Cueca e o Diário de um Banana, mas ele agradou ao Pedro e é isso que me importa, neste momento, para não deixar que se afaste dos livros à medida que a adolescência se aproxima. Pedro já leu três dos cinco livros do irmão de Judy Moody e só deixou o quarto de lado para ler o sexto da série do Banana, recém-lançado no Brasil. Assim, segue lendo. Bobagem ou não, é o livro que o encanta neste momento da vida. Que ele possa encontrar, sempre, em toda a sua vida, personagens que lhes deem razões para continuar a ler.
domingo, 8 de julho de 2012
Estela e Marcos e as delícias da infância
Para retomar meus escritos por aqui, nada melhor do que uma série de livros de Marie Louise Gay, editada pela Brinque-Book, que me encanta há anos. Ela conta a história dos irmãos Estela e Marcos, duas crianças encantadoras. Tão encantadoras que aqui em casa encantaram a mãe, o pai, o Pedro e o Antônio. Cada um a seu tempo. O Pedro foi o primeiro a sucumbir ao charme dos irmãos, quando nos chegou às mãos Bom Dia, Marcos, pela ciranda de livros de sua escola. Foi amor à primeira vista. O menino, com ares de bebê e seu cachorro Fred sendo ajudado pela irmãzinha maior a acordar e a se vestir nos conquistou e, com certeza, fez meu filho mais velho antever sua relação com o Antônio, então um menino recém-nascido. A paixão de Pedro pelos dois irmãos era tanta, que fomos aos poucos comprando os oito livros da série. Nesse tempo o Antônio cresceu e passou a ser mais um leitor de Marie-Louise. Foi ele quem me pediu, recentemente, para comprar Estela, rainha da neve. Comprei e vi o Antônio tomar o lugar do Pedro na hora de ler as aventuras dos dois irmãos. Marie-Louise tem uma qualidade rara nos autores para crianças. Ela fala sem qualquer constrangimento, como uma criança. Suas histórias não são sobre elas, nem para elas. São simplesmente delas. Marcos é bem pequenino e pergunta absurdos para a irmã, que, apesar de um pouco mais crescida, ainda pensa com a lógica do maravilhoso e dá respostas tão absurdas quanto as perguntas. Ao absurdo dos diálogos somam-se as delicadas ilustrações da autora, que, assim, cria um clima de fantasia que encanta até mesmo os adultos. O Pedro ria-se todo das bobagens de Marcos e o Antônio, mais crédulo e fantasioso, pergunta o tempo todo se as respostas de Estela estão corretas. Ele fica muito curioso para saber a idade dos irmãos e arrisca um palpite: Estela tem cinco anos e o Marcos, dois. No embalo, sonha o impossível que é ter mais um irmãozinho, desta vez, mais novo. Os dois, cada um a sua maneira, divertem-se a valer com as histórias de Marie-Louise que foram traduzidas para 15 idiomas e já venderam mais de um milhão de cópias. Este sucesso levou os dois irmãos para o Canal Disney do Canadá, que exibe semanalmente uma série de desenhos animados inspirados em Estela e Marcos, que por lá são Stella e Sam. Aqui em casa, os dois meninos vivem apenas nos livros de Marie-Louise e na nossa imaginação. Agora ainda mais. Sábado passado, durante a festa junina da escola dos meninos, tivemos a felicidade de completar nossa coleção. Quando vi, lá estava Bom Dia, Marcos no balcão de prendas, esperando ser escolhido por alguma criança. Sugeri ao Antônio pegar o livro e ele topou. Assim, completamos a série pelo primeiro livro que lemos. E o encontramos no mesmo lugar que o vimos pela primeira vez - na escola. De noite, depois da festa, foi hora da leitura. O Pedro, do alto de seus 10 anos protestou, dizendo que era livro de criancinha e, portanto, chato. Mas, a verdade, apareceu logo nas primeiras frases da narrativa. Pedro parou para ouvir a história e o Antônio amou. Mais uma noite feliz ao lado de Estela e Marcos.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Namoro também é assunto de criança

Hoje é Dia dos Namorados e, ao contrário do que muita gente acredita, este assunto não é apenas de adultos. É de criança também. De criança grande, que sonha em ser adolescente, mas ainda é criança. Foi assunto meu, quando eu ainda era um pingo de gente e sonhava platonicamente com um coleguinha de turma, e está sendo assunto do Pedro, aos 10 anos. Assim que percebi este interesse, fiquei tensa. Achei que ele ainda era muito novo para pensar nisso. Mas, não, disse-me o Cadoca! Lembrei de meus suspiros de infância e concluí - namoro de criança é namoro experimental. Quem nunca beijou um espelho que jogue a primeira pedra. Namoro de criança serve para ensinar os códigos dos apaixonados e fazer sonhar, mais uma vez, com uma adolescência que se avizinha. Uma delícia, que infelizmente, nós adultos não vamos mais viver. Por isso, resolvi fazer aqui no GATO DE SOFÁ uma pequena homenagem aos jovens enamorados, falando de dois livros deliciosos. O primeiro é Luana Adolescente Lua Crescente, de Sylvia Orthof, editado pela Nova Fronteira. O livro é de 1989 e comprova que namoro sempre foi assunto de criança. A personagem de Sylvia é Luana, uma pré-adolescente, que está apaixonada por Marcelo e sem saber o que fazer com este sentimento, que a expõe e envergonha, inventa um tal de Antônio para fazer frente a seu verdadeiro amor. Marcelo é um menino real, que, assim como ela, está descobrindo os primeiros passos do amor e vive tempos difíceis em família. Antônio é um super menino, rico e seguro, ideal para incomodar Marcelo e aliviar as angústias de Luana. O texto é gostoso como todos de Sylvia e, com certeza, ajuda as meninas a perceberem que todo mundo tem medo de pagar mico com o primeiro namorado, só a bailarina é que não tem. Mesmo nossa rival, por mais que meninas como Luana sempre achem que ela se parece muito com a bailarina. Inseguranças nessa hora não são coisas apenas de meninas. Os meninos também tremem diante de sua primeira paixão. Eu, que tenho dois irmãos, sei bem isso. Gregório, narrador de Todo mundo namora menos eu, do francês Alex Cousseau, pela Edições SM, não foge à regra. O menino, que passa toda a narrativa apaixonado por uma moça de 19 anos, é um bom exemplo de quem se enamora antes da hora. Ele curte cada suspiro, cada possibilidade e ao fim entende que o amor nem sempre nos sorri. Mas que o bom é poder vivê-lo. Até porque faz parte do aprendizado do amor dar umas cabeçadas. Quem não é mais criança, sabe bem disso. E só quem dá a volta por cima, como Gregório, é que pode, em um dia como hoje, ter alguém para dizer: Feliz Dia dos Namorados!
sábado, 9 de junho de 2012
Irmãos de verdade, no amor e no ódio
Livros para crianças são como livros para adultos. A cada dia que os abrimos, nos surpreendemos com uma nova leitura. É esse o grande barato de quem gosta de guardar seus livros. Poder revisitá-los e ter uma nova emoção, revivendo o que para muitos é um amontoado de papel velho. Assim, tem sido na minha vida e na dos meus meninos. A gente implica com um livro e depois faz as pazes com ele. A gente gosta de algum e um tempo depois, vê que gosta ainda mais. Não foi diferente com Por favor, Eleonor!, de Frieda Wishinsky, editado pela Brique-Book. Eu o comprei para o Pedro, logo depois que o Antônio nasceu, animada com as delicadas ilustrações da canadense Marie-Louise Gay - sou fã dela - e li algumas vezes para ele, que, como eu e o irmão, ama as histórias de Estela e Marcos. O livro foi mais um para o Pedro. Não causou nenhuma emoção maior e acabou rapidamente esquecido na estante. Até que há poucos dias o resgatei das prateleiras para lê-lo para o Antônio. Apresentei João e Eleonor como primos da Estela e do Marcos, parentesco garantido no traço de Marie-Louise Gay e na verdade da relação dos dois irmãos. Esses dados garantiram empatia imediata entre Antônio-leitor-ouvinte e os personagens. O resto ficou por conta da identificação com a história de João e Eleonor. O irmão mais velho passa grande parte da história desejando que a menina, sua imã, caia fora. Como a menina não cai fora, ele passa a desejar que ela seja um cachorro. É quando um estranho cão aparece na história e deixa João desesperado, com medo de seu desejo ter se transformado em realidade. Tenho certeza de que o Antônio sabe bem o que é isso. Sabe também o que é desejar estar perto do irmão mais velho e não ser desejado. Sabe também o que fazer para levar o outro à loucura. Sabe ainda o que é esquecer-se desse desejo quando um amigo aparece. Essa verdade, contida no livro, vale mais do que mil histórias de irmãos fraternos e amorosos para apaziguar os ódios passageiros que só acometem irmãos que se amam. O Pedro, no seu tempo de curtir o livro, ainda não tinha esta experiência com o Antônio, que não passava de um bebê. Agora, com os dois grandes, brigando como João e Eleonor, a história ganhou novo sentido, antes oculto no texto e nas ilustrações. Ganhou o Antônio, que pode ver que ele e o Pedro não são os únicos irmãos a amarem-se no amor e no ódio.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Olha a cara do meu Gato de Sofá!
Acabo de ganhar um presente que me deixou muito feliz! Uma barra e um perfil para meu Gato de Sofá! Veio de longe, lá de Braga, onde minha querida Amanda Nogueira está passando uma temporada acadêmica. Amanda é uma velha amiga, que acompanhou meus primeiros dias de maternidade. Eu a conheci ainda grávida do Pedro, quando pensava com o esmero das mães de primeira viagem o quarto do meu bebê. Eu não queria uma decoração rococó, como costumam ser a dos quartos de bebê, queria um quarto divertido que acendesse a imaginação do meu pequeno. Foi quando soube na redação do jornal O Globo, onde trabalhava, que três artistas plásticas de Niterói faziam bonecos, almofadas e enfeites para quartos de criança. E elas estavam lá para uma sessão de fotos. Fui olhar, curiosa, o que elas traziam e me encantei. Era tudo colorido e divertido, como eu queria. Logo depois, elas foram na minha casa para eu explicar o que pensava para o quarto. Não era nada grandioso, já que também não tinha dinheiro nem vontade para gastar os tubos na decoração. Sentamos as quatro - eu, Amanda, Fernanda Galindo e Carla Jardim - no quarto, que até então era um escritório, para conversarmos sobre meus desejos. Eu queria bichos - acho que os bichos esquentam o coração das crianças - e mais bichos. Assim foi. Almofadas, protetor de berço, quadrinhos, abajur, etc... O Pedro nasceu, fui perdendo o contato com as meninas, mas a Amanda ficou na minha vida, na medida em que fomos descobrindo interesses comuns. Essas afinidades nos fizeram amigas. Em nossas trocas de ideias, descobri, entre outras coisas, o curso de especialização em Literatura Infanto-Juvenil da UFF, que ela e a Vivi Fernandes de Lima me incentivaram a fazer. Agora, ela me vem com este presente, que curti muito. Meu gatinho, como eu imaginava, refestelado em um sofá gostoso para viajar nas histórias. Amei!
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Para não esquecer jamais!
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terça-feira, 15 de maio de 2012
Assim é se lhe parece!
A verdadeira história dos três porquinhos, da dupla de autor e ilustrador Jon Scieszka e Lane Smith, chegou aqui em casa pelas mãos do Antônio, que, sendo o primeiro na chamada, teve o privilégio de abrir a escolha dos livros da ciranda. Tem lobo, porquinhos... é esse mesmo! Escolheu sem qualquer sombra de dúvidas e chegou em casa todo orgulhoso, com o livro editado pela Companhia das Letrinhas. Eu já o conhecia, mas confesso implicava com ele, como com quase todos que tornam-se campeões de venda. Mas neste caso, se ele virou um best-seller, virou por seus méritos e não deméritos. A verdadeira história dos três porquinhos, lançado em 1989, é o primeiro livro da dupla de autor e ilustrador e, com certeza, um dos primeiros a desconstruir um conto de fadas. Mas Scieszka, um renomado autor para crianças, faz isso com o maior talento, o que livra a narrativa de ser mais uma história politicamente correta ou desmistificadora dos contos tradicionais, tão em voga nos últimos anos. Pelo contrário, o livro reforça o caráter maravilhoso das histórias tradicionais ao criar dúvidas sobre o papel do lobo na morte dos porquinhos, da casa de palha e de madeira, e na tentativa de invasão da casa de tijolos. O formato depoimento, proposto pelo autor, é a grande sacada. que dá uma dimensão maior à história contada pelo lobo mau. Ele pode estar falando a verdade ou não. Suas críticas aos meios de comunicação, que, segundo ele, o endemonizaram, podem ser justas ou apenas uma estratégia de sua defesa para livrá-lo da culpa. Pois é, guardando as devidas proporções. a história me lembrou livros reportagens produzidos por jornalistas americanos, com entrevistas de condenados por crimes de grande repercussão. Ao fecharmos o livro de Scieszka, fica a dúvida se o lobo é mais um psicopata ardiloso ou uma vítima de coincidências infelizes, exploradas com sensacionalismo pela mídia. Tudo isso com a sutileza que uma narrativa desta natureza exige, para que a história não resvale no didatismo. Bom ou mau, mais uma vez uma bela história de lobo!
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Minha homenagem a Maurice Sendak
Acabo de ler no jornal que o escritor e ilustrador americano Maurice Sendak morreu ontem, aos 83 anos, em decorrência de um derrame sofrido há dias. Fiquei triste, mesmo sem nunca tê-lo visto. Conheço de Sendak apenas o livro Onde vivem os monstros, editado aqui no Brasil pela Cosac Naify. Sei que não basta, mas para mim foi o suficiente para entender sua importância na cena da literatura infantil. Max, o menino protagonista do livro ilustrado, ganha no traço e texto de Sendak uma profundidade psicológica, digna de grandes personagens. Sua viagem à terra dos monstros, onde torna-se rei, dá ao pequeno leitor inúmeras possibilidades. Ele é a própria criança em diálogo com seus medos, desejos, fantasias e ansiedades. Sua mãe, a antagonista da história, está presente apenas no pensamento do menino, que desobedece, transgride, inventa e desafia, mas, como um bom filho, à casa torna. Max, podemos dizer sem medo, é a criança sadia. A criança que experimenta, sem, no entanto, cortar os laços com o mundo real. Ele vai e volta da terra dos monstros, com a certeza de que haverá um prato de comida quentinho o esperando. Para nós, convidados por Sendak para esta aventura, fica a certeza de que uma boa história é sempre uma rica viagem. Assim, que o Antônio a entende todas as vezes que a leio para ele. Já ouviu inúmeras vezes as aventuras de Max, na terra dos monstros, mas está sempre disposto a mais uma vez. Ele, mais que o Pedro, que conheceu a história com quase oito anos, assim que ela foi lançada no Brasil, curte as possibilidades da narrativa de Senadk. Curte tanto que, todas as vezes que a ouve, resolve assumir a identidade de um dos monstros - sempre o mesmo, que representam a subjetividade da criança em todas as suas possibilidades, do humor ao terror. Um belo livro, que, com certeza, justifica uma vida. Fica aqui minha homenagem a este grande autor, que ganhou os dois mais importantes prêmios mundiais da literatura infantil - o Hans Christian Anderson, em 1970, e o Astrid Lindgren, em 2003.
Quem quiser, ler outro comentário do Gato de Sofá sobre o livro, clique aqui.
Quem quiser, ler outro comentário do Gato de Sofá sobre o livro, clique aqui.
domingo, 6 de maio de 2012
Uma história que passa de geração em geração
Fiquei tão feliz quando, por acaso, achei na estante de uma livraria O grande rabanete, de Tatiana Belinky, editado pela Moderna, que resolvi ler a história ali mesmo para o Antônio. Tão logo iniciei a leitura, vi que Tatiana Belinky mais uma vez o conquistara. Ele foi, com a maior animação e atenção, até o fim da história do agricultor que tenta, sem sucesso, puxar um rabanete da terra. A razão de tanto interesse encontra-se no talento de Tatiana em contar ou recontar uma história, como é o caso de O grande rabanete, uma releitura do conto tradicional russo O nabo gigante, recolhido no século XIX pelo grande Leon Tolstoi. Tatiana, russa radicada no Brasil, conta no fim do livro que, como não gosta de nabo, escolheu o rabanete para recontar a história que ouvia na infância de seu avô. O resultado de seu talento, aliado a uma bem-humorada ilustração de Claudius, produz um belo livro para crianças. A animação do Antônio foi tanta que resolvi comprar o livro, que, diga-se de passagem, estava na minha lista de desejos há anos, desde que o conheci por meio de uma ciranda de livros da escola. Lemos na livraria de manhã e relemos à noite em casa, quando tive a grata surpresa de vê-lo decorar o texto para fingir que estava lendo sozinho. Fiquei encantada com o Antônio narrando, com a maior segurança, o esforço do agricultor em retirar o grande rabanete da terra e os reforços que conquistou no meio do caminho para, ao fim, rir-se todo do ratinho garboso, que resolve ficar com os louros do esforço de todos. Tatiana tem razão, esta é uma história para lembrar-se por toda a vida e passar de geração em geração. Não a toa, em 12 anos, o livro já ganhou duas edições e 34 reimpressões. Que Tatiana nos conte outra!
domingo, 29 de abril de 2012
A gente se encontra na Flist
O fim de semana promete em Santa Teresa, com a realização da quarta edição da FList (Festa Literária de Santa Teresa). O bairro, que vê o Rio de cima, vai receber, dias 5 e 6 de maio, escritores, ilustradores, contadores de histórias, músicos e atores para louvar a magia da literatura. Literatura para crianças e jovens. Literatura para todos, como faz o homenageado da vez, Joel Rufino dos Santos. Ele, que crê no poder transformador da palavra, vai estar na festa para receber homenagens de seus pares e afagos de seus leitores. Não será só Joel que vai receber loas. 2012 é um ano de muitas lembranças. Darcy Ribeiro faria 90 anos, Nelson Rodrigues e Luiz Gonzaga, 100. Datas a serem comemoradas pela Flist, que programou debates e homenagens a estes grandes de nossa cultura. No mais, é a alegria de sempre, que terá fecho de ouro com o show do Cordão do Boitatá. Dá uma olhada na programação. A gente se encontra no Parque das Ruínas.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
O leão que, como o Antônio, não sabia escrever
Há tempos eu paquerava A história do leão que não sabia escrever, de Martin Baltscheit, editado pela Martins Fontes, mas acabava fazendo outra escolha. Sabe como é, via outro livro que tinha mais a ver com o momento de meus filhos, ou mesmo o meu, e deixava ele de lado. Até que, outro dia fui à livraria trocar uns livros que o Antônio havia ganho repetido, e, quase uma hora depois de estar revirando tudo em busca de um que me encantasse, me deparei com o leão. Me deu aquele estalo de que o momento era aquele. Assim como o leão, o Antônio não sabe escrever e está encantado com uma menina da turma. Ela não é uma leoa, como a namorada do protagonista da história, mas nasceu sob o signo deste felino imponente e está fazendo o meu filhote ficar todo prosa. Mais prosa, ainda, ele está com as possibilidades que a intimidade com as letras e os números pode lhe dar. Os dedinhos, como já falei aqui, não param de trabalhar para construir a leitura ou o raciocínio matemático. Uma graça! E A história do leão que não sabia escrever só veio colaborar com este momento do Antônio. Ele amou o livro, com divertidas ilustrações do autor, acompanhou as tentativas do leão - bicho por bicho - de encontrar um escriba que falasse de seus sentimentos pela leoa, até que, cansado de tanto insucesso, bradou para toda a floresta o que se passava em seu coração. Como dizem as crianças, ele fez do seu jeito e deu certo. Conquistou a namorada e começou a aprender a escrever. O Antônio aprovou e vibrou quando ele escreveu o a. A de Antônio!
terça-feira, 10 de abril de 2012
Tecendo histórias, noite após noite
Em nova fase, dormindo cedo para acordar mais cedo ainda, o Pedro sempre chega à hora de deitar-se caindo de sono, o que o faz muitas vezes rejeitar as histórias que ofereço. Cada vez que diz não à minha intenção de ler para ele, lembro do enorme tempo que dedica à TV e à internet e penso que minha luta para trazê-lo para um mundo de leitores ainda não acabou. Chegamos, nós dois, a conversar sobre isso, sobre as possibilidades da leitura para vencer o tédio que toma conta das crianças às vésperas da adolescência e de como alguns personagens mexem com nosso imaginário e, assim, desvendam um mundo interior até, então, envolto em névoas. Ele ouviu atento, disse que gosta de histórias, mas que só gosta de ler, com suas próprias pernas, alguns poucos livros. Pensei que talvez esteja na hora de levá-lo a uma livraria para que escolha suas leituras. Mas enquanto este momento não vem, decidi prender a atenção de meu menino com As mil e uma noites, a coletânea de contos árabes iniciada pela fantástica história de Sherazade para livrar seu povo da fúria do Rei Shariar, que depois de traído resolve dormir cada dia com uma virgem e entregá-la, ao amanhecer, à morte. Sherazada buscou no fascínio dos contos um estratagema para manter-se viva e, noite após noite, poupar uma moça de seu povo. O rei, encantado com as histórias, a mantém viva por mil e uma noites, até que desiste de sua vingança para viver a seu lado. As histórias são realmente fascinantes pelo mundo exótico que apresentam e pela violência vivida com naturalidade, sem os floreios dos contos tradicionais europeus que ganharam, nos últimos séculos do segundo milênio, cores mais suaves do as originais. Li sem medo as histórias apresentadas por Sherazade ao despótico Rei Shariar para o Pedro, que espantou-se mais com as diferenças culturais da vida dos personagens do que com a violência por eles vivida. Interrompeu a leitura de Ali Babá e os 40 ladrões para entender como um homem casado promete casar-se com sua cunhada, que acaba de enviuvar de seu irmão. A violência, naturalizada por um contexto fantástico, não o chocou, como não choca a nós adultos. Ao fim de duas noites, Pedro, assim como Shariar, estava totalmente ganho para o universo fantástico prometido por uma boa história. Só não sei por quantas noites.
Em tempo: a edição que estou lendo para o Pedro é a da Cosac Naify, destinada a jovens leitores. As mais belas histórias das mil e uma noites, reunidas pela holandesa Arnica Esterl, ganham belíssimas ilustrações da russa Olga Dugina. As ilustrações de príncipes, princesas, ladrões e animais contribuem ainda mais para que o leitor embarque no universo oriental dos contos e faz do livro uma preciosidade para adultos e crianças. Mas como a edição só traz cinco contos, decidi comprar a tradução de Ferreira Gullar para As mil e uma noites, da Editora Revan. O livro, que ainda está sendo aguardado aqui em casa, não tem o mesmo apelo gráfico da edição da Cosac Naify, mas, em compensação, tem o texto de Gullar sobre a primeira coletânea publicada no Ocidente, em 1704, pelo francês Antoine Galland. São 18 histórias selecionadas e traduzidas por Gullar, que vão garantir mais algumas noites de boas histórias aqui em casa.
Em tempo: a edição que estou lendo para o Pedro é a da Cosac Naify, destinada a jovens leitores. As mais belas histórias das mil e uma noites, reunidas pela holandesa Arnica Esterl, ganham belíssimas ilustrações da russa Olga Dugina. As ilustrações de príncipes, princesas, ladrões e animais contribuem ainda mais para que o leitor embarque no universo oriental dos contos e faz do livro uma preciosidade para adultos e crianças. Mas como a edição só traz cinco contos, decidi comprar a tradução de Ferreira Gullar para As mil e uma noites, da Editora Revan. O livro, que ainda está sendo aguardado aqui em casa, não tem o mesmo apelo gráfico da edição da Cosac Naify, mas, em compensação, tem o texto de Gullar sobre a primeira coletânea publicada no Ocidente, em 1704, pelo francês Antoine Galland. São 18 histórias selecionadas e traduzidas por Gullar, que vão garantir mais algumas noites de boas histórias aqui em casa.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Uma nova chance para a história do Brasil
O Pedro está estudando na escola a colonização brasileira e, em decorrência disso, as violências cometidas pelo português contra os índios nativos e os negros africanos. Seu primeiro espanto com este mundo, perdido no passado, foi saber que havia mais de cinco milhões de indígenas em terras brasileiras, quando o português-branco-colonizador por aqui chegou, e que hoje, o resultado do extermínio desses povos é termos apenas 300 mil índios entre os brasileiros. Ele ficou chocado também com a violência da escravidão negra, que trouxe para nossas terras cerca de quatro milhões de negros da África para sofrer, aqui, como escravos. A luta desses povos pela liberdade o impressionou. Índios guerreando contra portugueses e morrendo de tristeza e em decorrência de doenças dos brancos e negros cometendo o suicídio, matando seus senhores, queimando lavouras e fugindo. A história do Quilombo de Palmares e seu líder guerreiro, Zumbi, prendeu sua atenção e o fez entender um pouco a luta do dominado diante da força do dominador. O fez entender também a razão de a Constituição brasileira reconhecer que a terra é um direito ancestral dos indígenas e que, portanto, o Governo deve garanti-la em forma de reservas. Entendeu também o porquê deste direito ter sido estendido aos remanescentes dos quilombos, como forma de reparação ao sofrimento imposto aos antepassados dos atuais quilombolas. Por fim, espantou-se que, em pleno século XXI, índios e negros ainda possam ser tungados pelos brancos, ao saber que uma maioria conservadora admitiu, quarta-feira, na Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados, proposta de emenda constitucional que tira do Executivo a prerrogativa de criar reservas indígenas e ambientais e reconhecer o direito dos quilombolas à terra. A PEC 215/2000 determina que o Congresso Nacional avalize os atos do Executivo de demarcação de terras para fins de reservas indígenas ou ambientais ou de reconhecimento de quilombos. Isso quer dizer, na prática, que a PEC 125, apoiada com fervor pela bancada ruralista, maioria no Congresso, retira de índios e negros direitos garantidos depois de muito sofrimento e luta. Estes senhores de terras, sempre ávidos por aumentar suas fronteiras agrícolas, estão negando a nós, brancos, negros, indígenas e mestiços brasileiros, a esperança de avançarmos, cada vez mais, para um país em que natureza e diversidade cultural sejam um bem de todos. Esta é a lição que Leonardo Boff nos dá no belíssimo livro O casamento entre o céu e a terra, editado pela Salamandra, que nos serve com um pequeno painel da riqueza da cultura indígena no Brasil e do desrespeito com que foi tratada pelo branco-português-colonizador. Sobre os negros, temos A história dos escravos, de Isabel Lustosa, pela Companhia das Letrinhas, para apresentar a nossos filhos. No mais, só espero que nós, brasileiros do século XXI, possamos enfim mudar esta história de expropriação e exploração! O primeiro passo é pressionarmos o Congresso Nacional a derrotar em plenário esta maldita PEC 215 e, assim, darmos uma nova chance à história do Brasil.
quarta-feira, 28 de março de 2012
O alfabeto, segundo Millôr Fernandes
Em homenagem a Millôr Fernandes e a Antônio, com sua fome de letras, posto aqui duas maravilhas da obra deste grande jornalista, escritor, cartunista e humorista, que acaba de nos deixar.
Alfabeto Concreto
ABCdário
Esta composição gestaltiana levou anos, literalmente, para ser feita. Foi melhorando na medida em que o tempo - os anos, Deus meu! - foram passando. Publicada a primeira vez em 1958, na revista O Cruzeiro, foi reescrita para várias publicações. Não se consegue fazer esse tipo de coisa, numa sentada só. Tem que ser um pouco chinês.
O A é uma letra com sótão. Chove sempre um pouco sobre o à craseado. O B é um l que se apaixonou pelo3. O b minúsculo é uma letra grávida. Ao C só lhe resta uma saída. O Ç cedilha, esse jamais tira a gravata. OD é um berimbau bíblico. O e minúsculo é uma letra esteatopigia (esteatopigia, ensino aos mais atrasadinhos, é uma pessoa que tem certa parte do corpo, que fica atrás e embaixo, muito feia). O E ri-se eternamente das outras letras. O F, com seu chapéu desabado sobre os olhos, é um gangster à espera de oportunidade. O f minúsculo é um poste antigo. A pontinha do G é que lhe dá esse ar desdenhoso. O gminúsculo é uma serpente de faquir. O H é uma letra duplex. A parte de cima é muda. Serve também como escada para as outras letras galgarem sentido. O h minúsculo é um dinossauro. O I maiúsculo guarda, em seu porte de letra, um pouco do número I romano. O i minúsculo é um bilboquê. O J, com seu gancho de pirata, rouba às vezes o lugar do g. O j minúsculo é uma foca brincando com sua bolinha. Vê-se nitidamente; o K é uma letra inacabada. Por enquanto só tem os andaimes. Parece que vão fazer um R. Junto com o k minúsculo o K maiúsculo treina passo-de-ganso. O L maiúsculo parece um l que extraíram com raiz e tudo. Mas o lminúsculo não consegue disfarçar que é um número (1) romano espionando o número arábico. O M maiúsculo é um gráfico de uma firma instável. O m minúsculo é uma cadeia de montanhas. O N é um M perneta. No nminúsculo pode-se jogar críquete com a bolinha do o. O O maiúsculo boceja largamente diante da chatice das outras letras. O o minúsculo é um buraquinho no alfabeto. O p é um d plantando bananeira. Ou o q, vindo de volta. O Q maiúsculo anda sempre com o laço do sapato solto. O q minúsculo é um p se olhando de costas ao espelho. O R ficou assim de tanto praticar halterofilismo. Sente-se que o s é um cifrão fracassado. O Smaiúsculo é um cisne orgulhoso. Na balança do T se faz jusTiça. O U é a ferradura do alfabeto, protegendo o galope das idéias. O u minúsculo é um n com as patinhas pro ar. O V é uma ponta de lança. O W são vês siameses. O X é uma encruzilhada. O Y é a taça onde bebem as outras letras. Desapareceu do alfabeto porque se entregou covardemente, de braços pra cima. O Z é o caminho mais curto entre dois bares. O zminúsculo é um s cubista.
segunda-feira, 26 de março de 2012
De letra em letra e de dedinhos em dedinhos
O mais novo objetivo de vida do Antônio é aprender a ler e a contar. Ele passa o dia todo contando os dedinhos das mãos, seja para quantificar o mundo, seja para registrar letras, ou melhor, sílabas. Distinguir letras de sílabas é o primeiro desafio que a língua lhe impõe e, ainda longe de vencê-lo, Antônio vai dividindo as palavras por seus sons e, de seu jeito, por suas sílabas. Em sua contagem, amigo, por exemplo, tem apenas três letras. E ai de quem tente o convencer do contrário. Convencer o Antônio de que ele está errado é um desafio maior do que aprender a ler e, por isso, o melhor que eu e o Cadoca temos a fazer neste momento é oferecer a eles brincadeiras com a língua para que, devagarzinho, vá distinguindo letras de sílabas, até que um dia, sei lá quando, ele possa ler sozinho. Por isso, fui remexer a estante a procura de livros que pudessem me ajudar a saciar a ânsia de letras e de números de meu caçula e descobri que perdi Palavras, muitas palavras, de Ruth Rocha, editada pela Melhoramentos, que serviu à curiosidade do Pedro na fase anterior à alfabetização. (Vale registrar que o Pedro nunca teve a ansiedade do Antônio em nada.) Voltando às letras, resolvi então procurar um novo livro e foi então que encontrei De letra em letra, de Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela Moderna. Comprei, certa de que a delicadeza da prosa de Bartolomeu daria a meu pequeno um biscoito fino das letras ou sílabas, como ele queira. Não errei, o livro é lindo no texto de Bartô e nas tintas suaves de Elisabeth Teixeira. A maior brincadeira que ele tem nos permitido é mudar um pouquinho os versos de Bartô. Só um pouquinho para poder lê-los com os nomes dos colegas de sala do Antônio e, assim, permitir que ele relacione mais facilmente as palavras com suas letras. Assim, Alice cedeu lugar a Antônio, Daniel a Danilo, Mario a Miguel, Valério a Vinícius... De todos os versos, o que mais gosto é o da letra B. "Com B/ Beatriz borda bosque, balão, borboleta./ Beatriz brinca em bonitos bosques/ com brilhos de balões/ e belas borboletas brancas." De letra em letra, o Antônio vai tecendo o seu bordado. Enquanto não o termina, continua a contar seus dedinhos.
segunda-feira, 19 de março de 2012
A vida vista de diversos ângulos
Cada dia é mais bacana ler para o Antônio. Ele está perdendo a mania de perguntar tudo o que acontece na narrativa e de se certificar de um em um segundo quem é do bem e quem é do mal, podendo, assim, curtir mais as brincadeiras e viagens propostas em cada história. Nesta nova fase, o divertido Pato Coelho, de Amy Krouse Rosenthal, com ilustrações de Tom Lichtenheld, editado pela Cosac e Naify, saiu da estante, onde estava esquecido, desde que ele o rejeitou, para ser uma divertida opção de leitura noturna. Lemos o livro várias vezes e, assim, pudemos explorá-lo em todas os seus ângulos. O Antônio se divertiu tentando vencer o velho desafio de desvendar uma imagem que se confunde com um pato e um coelho. Pato/coelho, na versão de Amy e Tom, é, antes de tudo, um bacana exercício de percepção visual. O bico do pato pode muito bem ser as orelhas do coelho e vice-versa, dependendo apenas com qual sugestão se esteja vendo a imagem. Ao fim, os autores embaralham as cartas, fazendo com que os dois personagens ocultos do livro - que debatem sobre o pato e o coelho - mudem de ideia e se vejam diante de uma nova imagem desafio. Afinal, perceber que a vida pode ser vista de diversos ângulos é o segredo dessa história.
quarta-feira, 7 de março de 2012
O lobo, a raposa e a lei do mais forte
Contos de
Grimm, com seleção e tradução de Ana Maria Machado, editado pela Salamandra,
estava há algum tempo na minha lista de desejos. O livro é caro, já que são
dois volumes, mas exerceu sobre mim imediata atração. Além da promessa de bom
texto, pela assinatura de Ana Maria Machado, e de boas histórias, pela fonte dos
Grimm, os livros são ideais para quem quer apresentar o mundo maravilhoso
dos contos de fadas para as crianças. A linguagem é adequada e as ilustrações
de Jean Claude R. Alphen, no primeiro volume, e Cris Eich, no segundo, são lindas e colaboram, cada um com seu estilo, para compor o clima mágico das histórias. Com todos estes atributos, resolvi comprar os livros e os apresentar
para meus filhos. Na verdade, minha intenção primeira era ler para o Antônio,
já este ano sua escola vai explorar a diversidade do universo dos
contos maravilhosos, mas o Pedro se inscreveu logo na fila, prestando uma
baita atenção na leitura de ontem à noite. Escolhi para a estreia o conto O lobo e a raposa, contando com
o carisma dos dois animais para prender de imediato a atenção do Antônio. Deu certo! Logo
no início do conto, Ana Maria, apresenta a raposa como explorada pelo lobo, que
a escraviza na ânsia de saciar sua insaciável fome. A ação que se segue mostra
a raposa explorada por um insensível lobo, até ela usar de um artifício para livrar-se dele, induzindo-o à morte. Foi quando vi o interesse do Pedro. "O
que aconteceu mesmo com o lobo?". Repeti o fim em que o lobo, algoz da
raposa, é enganado por sua vítima e morto a pauladas por um enraivecido
fazendeiro. O Pedro ficou revoltado com a atitude da raposa. Eu tentei explicar
que a raposa tinha enganado o lobo para se livrar de uma terrível exploração e
de nada adiantou. "Os dois estão errados", disse convicto.
Confesso que torci pela raposa. Os explorados sempre têm minha simpatia. Já o Pedro ainda não tem condições de entender que, quando vale a lei do mais forte, a única ética é a da sobrevivência. Fugir dessa
ética é possível apenas quando temos mecanismos de defesa contra a força
desproporcional de nossos exploradores. O lobo e a raposa das histórias
tradicionais são anteriores a uma ética pautada pelo bem e o mal, que, no
caso do conto em questão, reprovaria tanto a vítima, quanto o algoz. Acho que não fui capaz de explicar isso para ele. Mas da próxima vez, tento de novo. Então, que a Ana Maria nos conte
outra!quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Hugo Cabret, depois de Scorsese
Depois de muito brigar com o Pedro, que implorava para não ir, saímos todos rumo ao cinema para assistir A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese. Ingressos na mão e a lembrança do livro de Brian Selznick, que deu origem ao filme, na cabeça, eu tinha certeza de que teríamos um ótimo programa de fim de domingo. Não me enganei! O Pedro amou, o Antônio prestou atenção até quase o fim da exibição e eu e o Cadoca ficamos felizes de ver um filme com as crianças que agradasse a nós todos. A razão desse sucesso é unica e exclusivamente o lirismo da história de Selznick e a belíssima reconstituição do universo do livro pelas lentes de Scorsese. Selznick criou uma história onde o cinema está sempre presente, mesmo antes do desfecho do mistério que move Hugo Cabret por toda a narrativa. É justamente na narrativa que o livro inova e encanta. A história é contatada em prosa e imagens. Digo imagens e não ilustrações propositadamente. Os desenhos de Selznick em O mistério de Hugo Cabret não podem ser classificados como ilustrações. Eles fazem parte da história, substituindo o texto, como se fossem cenas de cinema, imaginadas por Selznick, muito antes de o livro ir parar na telona, em desenhos de produção, os storyboards. Esse recurso foi usado pela primeira vez pelo cineasta Georges Méliès, personagem central do mistério a ser desvendado por Hugo Cabret. Os desenhos feitos a grafite são tão realistas que o Antônio, depois de assistir ao filme, viu o livro na minha cama e ao abri-lo reconheceu a história que vira no cinema. Ele, para meu espanto, foi folheando o livro e recontando o filme. Diante da minha cara de espanto, Antônio me disse: "Eu não preciso saber ler para ler este livro". Ele tem razão. Mas lendo apenas o que viu na tela do cinema ou nos storyboards do livro, Antônio, é claro, ignorou as diferenças entre a narrativa de Selznick e a de Scorsese. Elas não são muitas e não mudam a história, devo admitir, mas mudam o clima em que ela se passa. A relação de Hugo Cabret e Isabelle não é tão doce quanto a mostrada por Scorsese. Selznick explora bem mais, que o cineasta nos deixa perceber, o fio da navalha sobre o qual menino Hugo anda e que separa o bem do mau. Isabelle também não é tão ingênua, como no filme que me encantou e fez chorar. O livro - ainda bem que o li depois de ver a versão de Scorsese - me deu a possibilidade de viver esta maravilhosa história novamente, com novas surpresas, alegrias e tristezas. Espero que o Pedro, assim como capitulou diante da beleza do filme, um dia se aventure nas páginas de Selznick. No dia seguinte da sessão de cinema, ele folheou o livro com interesse e ficou encantado com os belos desenhos de sua narrativa. Mas não o pegou para ler. Essa aventura vai ficar por conta de sua vontade. Não tenho dúvidas de que ela é uma narrativa para se vencer sozinho, sem a ajuda ou a interferência de ninguém. A única que vale é a de Scorsese, que transformou o sonho, que Selznick nos propõe, em cinema. Até o recurso do 3D valeu para tentar reconstruir a surpresa dos primeiros dias da sétima arte. O trem dos irmãos Lumière não nos atropelou, mas esteve lá, ameaçador no sonho de Hugo Cabret, como um aviso de que o cinema ainda tem muitas emoções a nos oferecer.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Um menino travesso apaixonado pelo Pequeno Nicolau
Aqui em casa muita coisa mudou com a chegada de fevereiro. O Pedro fez 10 anos, passou para o quinto ano e, por isso, para o turno da manhã da escola. Isso significa muito, apesar de parecer pouco. Significa que temos que acordar diariamente às 6h10 e dormir antes das 22h. Significa adiantar mais uma vez meu relógio biológico, que, por anos, acostumou-se a desligar altas madrugas e religar quase no meio do dia. O primeiro impacto da maternidade já me fez dormir por volta de meia noite para acordar entre 8h e 9h. Agora, mais uma vez, uma mudança. Uma mudança que, além de estar me matando de cansaço, está fazendo com que eu e os meus meninos não tenhamos mais nossas leituras noturnas. O Pedro quase nunca quer ouvir histórias quando deita na cama, exausto de um dia cheio, e dorme quase instantaneamente. O Antônio quer suas histórias, mas nem sempre dá tempo de lê-las. Isso me entristece, afinal, ler para eles sempre foi um prazer. Olho na estante, esquecidos, livros da série do Pequeno Nicolau, de Goscinny e Sempé, que voltaram a encantar o Pedro, e me pergunto quando vamos retomá-los. Sua alma de menino travesso ri ao ouvir as maluquices de Nicolau. Não a toa ele me pediu para comprar os livros que faltavam para que nós completássemos a série e me confessou que vai ficar muito triste quando lermos o último. Temos como alento o fato de ainda faltar ler dois dos cinco títulos editados pela Martins Fontes e cinco dos oito, da Rocco Jovens Leitores. E o Pedro continua curtindo a leitura e descobrindo que o Nicolau vai poder seguir com ele pela vida, assim como segue com o João Pimentel, um amigo nosso quarentão, que é mais um apaixonado pelo menino criado por Goscinny e Sempé. Na noite de sexta passada, eu e o Cadoca, já da porta, o vimos sentar-se na cama para ler sozinho Os vizinhos do Pequeno Nicolau, da Rocco Jovens Leitores. Ficamos felizes de ele ter tomado essa iniciativa. Mas sabemos que isso não se repete todos os dias e eu queria poder, por algum tempo mais, garantir o rico universo de histórias para meu filho mais velho. Pro Antônio, ainda pequetito, e começando a decifrar as primeiras letras, isso é um compromisso que volta a valer, assim que eu me habituar ao novo horário. Palavra de mãe!
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Um livro para educar o olhar
Nunca ouvira falar de A vassoura encantada, do americano Chris Van Allsburg, editado pela Ática, até há pouco, quando descobri o livro nas estantes da Livraria Luzes da Cidade, em Botafogo, onde me refugiei por alguns minutos em um desses dias quentes do verão carioca. Na hora em que o vi, enorme, de formato incomum - 21 cm por 34 cm -, com capa dura marrom, nem imaginava que se tratava de mais uma obra do autor de O Expresso Polar, que foi um sucesso nas telas de cinema. Nem podia. Uma falha do livro é não trazer o nome de seu autor na capa. A outra é não nos dar informações sobre o papel usado na edição e as técnicas de ilustração do autor/ilustrador. Sei que nem todas os livros têm essas informações, mas no caso de uma obra em que as ilustrações são tão belas e importantes em sua leitura, acho que valia o luxo. A vassoura encantada é, com certeza, um daqueles livros que contribuem para a educação do olhar de nossas crianças. Os livros ilustrados e bem ilustrados - acreditam muitos e eu também - não são apenas um atrativo da industria editorial, mas, sobretudo, uma oportunidade para as crianças descobrirem o prazer e as possibilidades simbólicas que uma bela imagem podem lhes proporcionar. Ainda mais em um país, como o nosso, em que museus e exposições de artes plásticas são raros eventos. Os meus meninos adoraram. A história de uma vassoura de bruxa que perde sua força encantou os dois - coisa rara esta unanimidade - por seu caráter fantástico e por seu texto envolvente, além de proporcionar o prazer de curtir tão belas ilustrações. No mais, a leitura de A vassoura encantada reforçou em nós a crença de que a vida pode nos surpreender, ainda mais quando ela corre no ritmo de uma bela história, como essa de Allsburg.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O leitor, segundo Macanudo
Já falei aqui em Macanudo, ou melhor em Liners, o cartunista argentino que assina esta série de tirinhas no jornal La Nacion, de Buenos Aires, e na Folha de São Paulo. Macanudo, que para os portenhos quer dizer supimpa ou bacana, tem um lirismo todo especial e fala da criança com uma delicadeza encantadora. Nestas tirinhas, Liniers lembra, por meio dos diálogos de Enriqueta com o urso Madariaga e o gato Fellini, do prazer da criança diante de uma boa história.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Eva Furnari, uma autora para estar sempre a mão
Sem medo de ser repetitiva, vou escrever novamente sobre Você troca?, de Eva Furnari, pela Editora Moderna, um delicioso livro que brinca com rimas e ilustrações na medida certa para cativar a criançada. Você troca? não acaba no final de brincadeira proposto pela autora em sua última página. Felizmente, ganha pares em Assim assado... e Não confunda, todos pela Moderna, que podem ser lidos como se formassem uma trilogia. Os três estão na estante do quarto dos meus filhos há quase seis anos, mas como toda boa obra são redescobertos e relidos de tempos em tempos. Primeiro fez graça com um Pedro ainda pequetito, depois foi para a escola na mochila do ano da alfabetização e agora o tempo é do Antônio. Meu filhote, que ainda nem fez cinco anos, começa a descobrir os prazeres da língua com as brincadeiras orais propostas por Eva. O seu preferido, com certeza, é Você troca?, confesso que também o meu. "Você troca um mamão bichado, por um bichão mimado?" A contar pela cara de fofo do bichão, é claro que sim. Mas com certeza não há quem queira trocar "um coelho de chinelo por um joelho de cogumelo". O Antônio percorre com uma animação quase exultante as brincadeiras propostas pelos livros, sem, ao menos, ter segurança sobre os conceitos trabalhados por Eva. Por isso, ele acaba confundindo o Você troca? com o Não confunda e o Assim Assado..., trocando o que não deve ser trocado. A leitura acaba virando uma barafunda, em que ele diz que troca o que quer e não troca o que não quer. Ao fim de tantas trocas, confusões, risos e pequenas subversões - em que, com um sorriso de canto de boca, diz preferir o ladão de salsichas a um espião com preguiça, a gente está feliz e eu certa de que Eva Furnari é uma autora para estar sempre a mão. Seja a do Pedro, seja a do Antônio. Viva o humor de Eva!
domingo, 1 de janeiro de 2012
Um mistério pra vida inteira
2012 chegou! Tim-tim para nossos sonhos e esperanças que se renovam com mais um ano novo e com os encontros e reencontros da vida - nestes dias tão comuns e desejados. É isso que nos faz olhar para trás e nos prepararmos para seguirmos em frente. Sempre em frente, sem romper com o passado jamais. Passado rico em subjetividades, em história e em afetos. Afetos que nos lembram, logo no primeiro dia de um ano novo, antigas personas. Eu, aos 20 e poucos anos, fui um coelho. Não um coelho qualquer, tão pouco um coelho de Páscoa. Fui o Coelho, da Sociologia da PUC, o Coelho amigo do Urso, da Lontra e do Peroba. Peroba, de mané, Peroba, de gente boa. Coelho que ao longo dos anos foi se disfarçando, até um dia em que ficou impossível perceber sua natureza e, assim, reconhecê-lo. Mas hoje, primeiro de janeiro de 2012, acordei e fui procurar por minha natureza de coelho. A primeira coisa que lembrei foi de ter visto ontem, em uma novela, um pai lendo para a filha O mistério do coelho pensante, de Clarice Lispector, editado pela Rocco. Belo livro, em que Clarice fala para seu filho Paulo sobre os seres, suas naturezas e os limites da realidade e as possibilidades da imaginação. Imaginação que faz a história do coelho pensante ser muito "mais extensa que o seu aparente número de páginas". História que "na verdade só acaba quando a criança descobre outros mistérios". Mistérios que vão afastá-la da infância, mas que, se observados, vão criar novas possibilidades para a realidade que, sem eles, parece tão sem graça. Essas possibilidades, ensina Clarice, ficam a cargo de cada um. Fazem parte dessa história tecida ano a ano, com os encontros e reencontros que preenchem as lacunas deixadas pela autora em O mistério do coelho pensante, texto enriquecido pelo ludismo do traço de Mariana Massarani. O coelho de Clarice é mais um sinal de que vale a pena viver. Por isso, repito: viva 2012! O ano do dragão, aquele que discretamente ultrapassou o coelho e nos promete grandeza na vida. Os outros mistérios, ficam a nosso encargo. Do jeito que quisermos e pudermos!
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Um livro lido em dois tempos
Bichos que existem e que não existem, de Arthur Nestrovski, ilustrado por Maria Eugênia e editado pela Cosac & Naify, está no segundo tempo aqui em casa. A primeira vez que o li foi para o Pedro, quando ele tinha cinco anos, e ficamos encantados com o jogo de fantasia/realidade proposto pelo autor. Lemos o livro muitas e incontáveis vezes, o Pedro cresceu e ele ficou esquecido na estante até que o Antônio começasse a me perguntar a toda hora se os seres de suas fantasias e filmes existem na realidade. Foram tantas perguntas como, "lobisomem não existe de verdade, né mãe?", que me lembrei do livro de Nestrovski. O resgatei da estante e propus a brincadeira para o Antônio, que está se encaminhando para os cinco anos. Pra quê? Agora ele pede o livro quase todos os dias e se diverte muito tentando adivinhar o que existe e o que não existe. Fiquei surpresa ao ver que ele acertou quase todos os bichos da fantasia e da realidade, apesar de não dar muita bola para o mundo animal. Isso é mais um sinal de que meu menino está saindo daquele mundo maravilhoso em que vivem as crianças pequenas e está começando a discernir realidade de fantasia. O Pedro, em sua vez, aproveitava o livro como mais uma forma de contato com os bichos, que tanto o fascinavam. A memória do livro era boa, tanto que acompanhou com prazer a primeira leitura feita para o Antônio. Essas descobertas e diferenças entre irmãos fazem parte da alegria de ter um segundo filho. A gente ganha uma chance de ver a história de um ângulo totalmente diferente. A dos livros e da vida. Vale cada noite mal dormida.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Uma princesa que não usa cor de rosa
A princesa sabichona, de Babette Cole, editada pela Martins Fontes, é muitas vezes minha opção de presente para meninas. Conheci o livro na escola do Pedro, que o adotou logo no primeiro ano, e adorei a história da princesa que faz tudo para que nenhum pretendente à sua mão consiga vencer a gincana, proposta pela própria, para fugir da exigência de sua mãe de arrumar um marido. Mas não pensem que a moça é uma Penélope, que resiste ao casamento por se guardar para seu marido, Ulisses, dado como morto. A princesa sabichona se guarda para si própria. Ela é independente e não quer se casar e, assim, Babette Cole, com seu humor característico, desconstrói o mito da princesa a espera do príncipe encantado tão caro, neste início de século, a nossas meninas. É bom que alguém vá na contra-mão desta tendência, já que as garotas são bombardeadas diariamente pelo esteriótipo princesa. Esse modelo, elaborado pelo marketing da indústria de roupas e brinquedos, usa e abusa do cor de rosa, como o sinal exterior da feminilidade. Não há quem não se espante com a monocromia em que se transformou a vida das pequenas na contemporaneidade. Da calcinha ao pregador de cabelo, da boneca ao aspirador de pó, tudo é rosa. A maior variação que encontramos é o lilás que, ao lado do rosa, faz a combinação mais comum da infância brasileira, seja ela rica ou pobre. Lembro, de quando era criança ao frequentar a quadra da Estação Primeira de Mangueira com meus pais, notar que quase todas as pessoas do morro iam para o samba com alguma peça de roupa verde ou rosa, ou mesmo das duas cores. Muitos anos depois, já repórter, subi o morro e percebi que Mangueira, vista de perto ou de longe, é verde e rosa em suas casas e em sua gente. Questão de identidade, não tenho dúvida! Mas o rosa que nossas meninas usam, não pode ser comparado ao verde e rosa que faz do morador de Mangueira único. Também nesse caso não tenho dúvida. Só que dessa vez identifico no rosa uma imposição da indústria cultural, que fez o lugar da mulher no mundo encolher. Onde fica aquela mulher que se bateu por liberdade e igualdade diante dos homens? Onde fica a princesa sabichona, de Babette Cole? Vestida de rosa e esperando seu príncipe encantado? Apesar de todo esse massacre cor de rosa, ainda há esperanças. Várias mulheres pelo mundo já se recusam a ver as filhas achando que nasceram para ser uma das princesas Disney. Disney, repito, já que este mundo cor de rosa é a leitura que a indústria cultural faz da feminilidade. Os contos de fadas, ao contrário do que pensam nossas pequenas, são histórias de sofrimento e superação, que nas versões dos irmãos Grimm, do século 19, ganham cores bem mais sombrias do que o rosa dos estúdios de animação. O massacre cor de rosa provocou a reação de duas mães inglesas, que organizaram o movimento Pink Stinks (rosa fede). Ele já conta com simpatizantes por todo o mundo, inclusive comigo. Não chego a achar que o rosa fede, mas concordo que não podemos permitir que as meninas cresçam achando que apenas o rosa as representa. Assim como não deixamos nossos filhos terem apenas roupas de super-heróis, temos que oferecer às garotas tudo o que a vida pode dar. O que nos faz ricos, como seres humanos, é viver a diversidade. E com certeza a diversidade é bem mais colorida do que o rosa.
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