"Eu sou o cara! Você é o mané!" Com esta provocação o Pedro, outro dia, torturou o Antônio que, a princípio, aceitou estar em desvantagem e depois ficou furioso ao perceber que o irmão não queria trocar de lugar com ele. "Eu não quero ser o mané! Eu sou o cara!" Não adiantou. O Pedro, aproveitando-se de ser o mais velho, insistia que ele era o cara e o outro o mané. A coisa ficou de tal forma, que os dois quase se embolaram para ver quem era o cara e quem era o mané. Com esta disputa fresca na memória, me chamou a atenção o livro Quem é o chefe?, de Jesse Goffin, no estande da WMF Martins Fontes, 12º Salão do Livro Infanto-Juvenil, realizado este mês, no Rio. O livro conta a disputa de dois homens - idênticos, por sinal - a bordo de um navio para saber quem é o chefe. Os dois vão desfiando suas qualidades até que o navio encalha e eles têm que fugir em um patinho de borracha. Quando estamos todos no mesmo barco, pouco importa quem é o chefe, não é? O Pedro assentiu e adorou. O Antônio não quis nem mesmo prestar a atenção. Tentei mais de uma vez, mas ele não queria saber quem era o chefe até que mandei o livro para a escola. A professora dele, contou a história para as crianças que adoraram. Elas encontraram uma saída diferente para o livro. Decretaram, sem titubear, que o chefe do Grupo 3 não estava entre elas. Era professora. Não deixa de fazer sentido... segunda-feira, 28 de junho de 2010
Quem é o cara?
"Eu sou o cara! Você é o mané!" Com esta provocação o Pedro, outro dia, torturou o Antônio que, a princípio, aceitou estar em desvantagem e depois ficou furioso ao perceber que o irmão não queria trocar de lugar com ele. "Eu não quero ser o mané! Eu sou o cara!" Não adiantou. O Pedro, aproveitando-se de ser o mais velho, insistia que ele era o cara e o outro o mané. A coisa ficou de tal forma, que os dois quase se embolaram para ver quem era o cara e quem era o mané. Com esta disputa fresca na memória, me chamou a atenção o livro Quem é o chefe?, de Jesse Goffin, no estande da WMF Martins Fontes, 12º Salão do Livro Infanto-Juvenil, realizado este mês, no Rio. O livro conta a disputa de dois homens - idênticos, por sinal - a bordo de um navio para saber quem é o chefe. Os dois vão desfiando suas qualidades até que o navio encalha e eles têm que fugir em um patinho de borracha. Quando estamos todos no mesmo barco, pouco importa quem é o chefe, não é? O Pedro assentiu e adorou. O Antônio não quis nem mesmo prestar a atenção. Tentei mais de uma vez, mas ele não queria saber quem era o chefe até que mandei o livro para a escola. A professora dele, contou a história para as crianças que adoraram. Elas encontraram uma saída diferente para o livro. Decretaram, sem titubear, que o chefe do Grupo 3 não estava entre elas. Era professora. Não deixa de fazer sentido... quinta-feira, 10 de junho de 2010
A magia da imaginação
Comprei o livro Obax, de André Neves, editado pela Brinque-Book, e fiquei muito impressionada com a beleza plástica de suas ilustrações. Sou fã do trabalho de André, o autor/ilustrador, mas Obax realmente me surpreendeu. Como um traço tão preciso, tão contido na perfeição, pode traduzir tanta emoção? Digo preciso e contido por não achar melhor adjetivo para o desenho de André. Tenho medo de falar que ele é racional e ofender o artista. Longe disso. Meu poeta preferido é o João Cabral de Melo Neto, conterrâneo do autor. A poesia de João Cabral, avessa ao sentimentalismo, é inspiradora pela beleza que produz. O desenho de André é assim. Avesso às facilidades da inspiração, mas rico de sentimento.Lamento não ter mais elementos para descrever a sensação que as ilustrações de Obax me causam. Uma bela história sobre a magia da imaginação, ambientada em um continente com muita coisa ainda a ser descoberta. Obax, como alerta o autor na última página do livro, não é um reconto de um conto africano. É fruto de sua curiosidade sobre a geografia e os costumes do Oeste Africano. Belo exercício de imaginação de André Neves que cria uma África à semelhança das histórias de Obax. Uma África que existe sem existir.
PS: Escrevi para o André Neves e ele me respondeu hoje (dia 16 de junho) assim. " Oi, Luciana, acabo de chegar de viagem, Além do Rio, fui para outra cidade no interior do Rio Grande do Sul. Estou muito feliz com resultado de Obax. Aprendi muito fazendo este livro e vou procurar exercitar esse aprendizado nos outros, em busca de uma qualidade total. Entendi todas suas palavras e sensações para o livro. E ter essa riqueza de sentimento de que você falou como resposta, já valeu a pena.Usei técnica mista para compor as imagens, isto é, vários materiais. Porém a tinta base é a acrílica. Pesquisei o Oeste Africano. Ainda existem aldeias assim, sabia? Onde as mulheres são responsáveis pela decoração das casa, pintando com tintas coloridas.A história é ficção, toda questão africana está na composição gráfica para o livro."
PS: Escrevi para o André Neves e ele me respondeu hoje (dia 16 de junho) assim. " Oi, Luciana, acabo de chegar de viagem, Além do Rio, fui para outra cidade no interior do Rio Grande do Sul. Estou muito feliz com resultado de Obax. Aprendi muito fazendo este livro e vou procurar exercitar esse aprendizado nos outros, em busca de uma qualidade total. Entendi todas suas palavras e sensações para o livro. E ter essa riqueza de sentimento de que você falou como resposta, já valeu a pena.Usei técnica mista para compor as imagens, isto é, vários materiais. Porém a tinta base é a acrílica. Pesquisei o Oeste Africano. Ainda existem aldeias assim, sabia? Onde as mulheres são responsáveis pela decoração das casa, pintando com tintas coloridas.A história é ficção, toda questão africana está na composição gráfica para o livro."
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Toda criança quer ser Píppi
Píppi Meia Longa é a mais nova paixão do Pedro. Ele adorou a história da menina que vive sem pai, nem mãe em companhia de um cavalo e de macaquinho em uma casa que leva o estranho nome de Vila Vilekula. Píppi é o desejo de toda criança. Ela é destemida, forte, engraçada, inteligente e, o que é melhor, dona de seu nariz. Píppi faz o que quer. E o querer de Píppi é o querer de qualquer criança. Esta independência, aliada à total falta de noção de Píppi, garantem passagens hilariantes à história criada há 65 anos pela escritora sueca Astrid Lindgren, como um presente para a sua filha, então com 10 anos. A beleza do livro, no entanto, não está apenas no humor e na liberdade de uma menina que chocou a sociedade sueca em seu lançamento. Ele traz uma menina de verdade, que muitas vezes, diante do espanto do mundo dos adultos com seu seu comportamento, revela suas fragilidades. A força de Píppi está justamente em driblar suas fraquezas. A maior delas, com certeza, é a falta que o pai e a mãe lhe fazem. "Se você tem uma mãe que é um anjo e um pai que é o rei dos canibais, e se você passou a vida inteira navegando mar afora, acaba não sabendo direito como se comportar na escola, no meio de tanta maçã e de tanta iguana...", diz Píppi a uma irritada professora com a total inadaptação da menina à escola, uma das instituições mais repressoras da sociedade moderna. Tudo isso é dito sem pieguismo e contribui para a certeza que o leitor vai construindo ao longo da história de que Píppi é uma menina especial. Especial por lidar com suas inseguranças com o poder da imaginação. Imaginação que pode criar um menino chinês, chamado Pedro, isso mesmo, Pedro, que morre de fome por negar-se a comer de maio a outubro; ou uma empregada maravilhosa que, apesar disso, tem todos os defeitos que as mulheres conseguem encontrar em suas serviçais. Com todas estas qualidades, Píppi nasceu para fazer a felicidade de crianças e de adultos, que ainda sonham com as delícias de um pão com manteiga recheado de açucar, e tornar sua criadora uma revolucionária escritora de livros infanto-juvenis. Astrid, que até então era uma jornalista, tornou-se com Píppi uma autora de muito sucesso, que produziu em seus 94 anos de vida mais de 80 livros publicados. Depois de sua morte, o Governo Sueco criou o Prêmio Astrid Lindgren para a literatura para jovens e crianças. É o mais valioso prêmio existente no mundo para a LIJ, que a nossa Ligya Bojunga recebeu em sua segunda edição. Pena que, no Brasil, Astrid e Píppi sejam quase desconhecidas. Eu, por exemplo, soube da existência delas pela mãe da Marie, uma coleguinha do Pedro, que é belga e tem Píppi entre suas memórias de infância. Por aqui, apenas a trilogia de Píppi e Os irmãos coração de leão ganharam traduções, todas pela Companhia das Letrinhas. Mas eu e o Pedro, que, como todo mundo, adoramos Píppi, já estamos nos preparando para ler Píppi à bordo e de Píppi nos mares do sul.
domingo, 6 de junho de 2010
Cadê o patinho que estava aqui?
Dez patinhos, de Graça Lima, editado pela Companhia das Letrinhas, é um livro que vale a pena. O Antônio, que ainda se embola para contar até 10, se diverte com a história da caminhada dos 10 patinhos. A primeira coisa que ele quis ver ao abrir o livro é onde estava a mãe dos patinhos. Achou apenas na página de rosto, onde a autora desenhou pequenos patinhos com sua mãe sobre a dedicatória para os verdadeiros 10 patinhos. Depois sua diversão foi dar seu nome e do irmão a um dos patinhos. É difícil passar a página com ele, a cada uma delas, se procurando entre os patinhos. "Esse é o Antônio". Feito isso, página virada, a gente se deleita com a criatividade de Graça no tangolomango que marca sua estreia como autora de texto e imagem. Ela cria belas ilustrações para narrar a aventura de 10 patinhos em uma caminhada em que a cada página um vai ficando para trás, até finalmente achar a mamãe pata. A capa já é uma mostra do que vai acontecer lá dentro. Aparecem só nove patinhos. O décimo está voando na falsa guarda do livro, onde ele aparece sozinho. Na contra-capa, grudado por dentro, tem uma surpresa para a criançada. Um jogo de tabuleiro em que os patinhos têm que vencer vários obstáculos para disputar com seus irmãozinhos quem vai chegar primeiro.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
A dor de cada um
A literatura para o Pedro ainda é uma experiência compartilhada com os adultos. Apesar de ele, com seus 8 anos, já ser capaz de ler, a gente lá em casa ainda tem a prática de levá-lo para a cama com a promessa de uma história. Histórias que ultimamente são escolhidas, na maioria das vezes, pelo próprio, que garante, desta forma, a repetição de seus livros preferidos. A apresentação de novidades fica, assim, bastante prejudicada. Conto com um cochilo do Pedro para sacar de uma nova história para experimentar a leitura com ele. Em muitos destes momentos cogito escolher uma história de Lygia Bojunga, escritora que a cada livro que leio gosto mais. Apesar disso, sempre a deixo de lado. São dois os motivos para esta hesitação. O primeiro é eu achar o Pedro ainda muito novo para a maioria das histórias de Lygia. O outro é eu sentir um desconforto ao pensar em ler para meu filho narrativas tão intimistas, que tratam de crianças em diálogo com seu mundo interior para superar seus conflitos com os adultos e com a realidade. Ler Lygia Bojunga para meu filho me soa como uma invasão de privacidade, como uma tentativa indevida de bisbilhotar os sentimentos mais íntimos dele. Me perguntam se não poderia ser diferente, se eu não poderia já apresentar-lhe algumas destas histórias sem fazer comentários. Talvez, mas acho que prefiro que o Pedro tenha esta experiência no momento que escolher e sozinho. Sozinho para pensar em como nós adultos lhe caímos na alma, no que lhe falta e no que lhe sobra na vida. Assim como o menino protagonista de Seis vezes Lucas, de 1995, teve que romper o silêncio interior para entender seu isolamento e aceitar que a história de seus pais - indiferentes a seus desejos e dores - não lhe pertencia para finalmente poder crescer. Acredito que o Pedro também vai crescer quando se deparar sozinho com suas questões. Uma solidão que pode estar assistida por mim e pelo pai dele para que, ao contrário dos pais de Lucas, nós possamos entender seu mal-estar e lhe estender a mão. domingo, 18 de abril de 2010
Todos nós temos um pouco de Bi e Bililico
A cara dessa mãe grande e acolhedora, que mais parece uma madona italiana se preparando para uma noite de sono bem gostosa, é o máximo. A história dela e de seu filho tão pequeninho não fica atrás. Bi e Bililico se amam e se perdem, como todas as mães e todos os filhos. O desencontro é marcado por aventuras, choro e a procura do outro. O encontro é cheio de alegrias. Assim, como é a relação de uma mãe e com o filho. As crianças percebem isso, em uma história onde o diálogo do texto com a ilustração compõem um criativo quadro, que oferece inúmeras possibilidades de leitura. Não à toa o Antônio, ao ouvir a história pela segunda vez, pediu-me que substituísse o nome de Bililico pelo dele. E a cada página que aparece a mãe - lindona, em sua avaliação - ele diz: "Você, mamãe!" Por tudo isso, a história de Denize Carvalho e Sonia Dreyfuss, ilustrada pela maravilhosa Eva Furnari e editada pela Formato Editorial, é uma bela leitura para aproximar mãe e filho, por falar do medo de ambos de se perderem um do outro. Encarar os medos é sempre a melhor receita para alimentar o amor.
Uma casa cheia de histórias
A vida anda tão corrida que não tenho atualizado o blog com a frequência que eu gostaria. Mas aqui em casa continuamos com a rotina de leituras para o Pedro e o Antônio. As sugestões de novas histórias vão chegando de vários lugares: da escola dos meninos, do meu curso de especialização de Literatura Infanto-Juvenil, na UFF, das visitas às livrarias e dos amigos. O mais novo sucesso com o Pedro é a coleção Casa Amarela, da Formato Editorial. Os 14 títulos da coleção têm sido a leitura do Pedro e de seus colegas na escola. As histórias de Lilian Sypriano, com ilustrações de Cláudio Martins, são realmente muito bacanas. As narrativas, em bom tamanho para uma criança de oito anos, lançam mão das rimas para prender a atenção do pequeno leitor nas histórias de suspense que tratam de fantasmas, de heranças, de casas mal assombradas e outras fantasias comuns na infância. As histórias de Lilian agradaram tanto, que ele veio me propor perder três vezes e meia a semanada para comprar mais um título da coleção. Diante de tanto interesse, resolvi comprar aos poucos os livros que tanto o encantaram. Por enquanto, só temos Acorda, Rubião! Tem fantasma no porão!, A galinha da vizinha chegou ao fim da linha, Morreu tio Eurico! Rubião Ficou rico! e Zé Murieta, o homem da capa preta. Ainda faltam 10 para completarmos a coleção. Quem sabe?
terça-feira, 13 de abril de 2010
Pelo direito de contar cascata
Assim que ouvi a história Balela (Igor Q.), de Jon Scieszka, editada pela Companhia das Letrinhas, tive a certeza de que o livro ia fazer sucesso com o Pedro. Nenhum mérito para mim, já que é uma delícia a história de Scieszka, ilustrada por Lane Smith. Os dois já fizeram outra parceria de sucesso, com o livro A verdadeira história dos três porquinhos, e acertaram em cheio com Igor Q. Balela, um menino extra-terrestre que todos os dias chega atrasado na aula e por isso resolve contar uma grande cascata para livrar-se da ameaça da professora de impor-lhe um "castigo perpétuo". Isso tudo contado com humor e criatividade, que faz o menino ET falar uma língua que é um mix de vários idiomas da Terra. A história de Igor encantou o Pedro, que chegou a sugerir até mesmo a troca do título para Pedro Q. Balela. Meu filhote, do alto de seus 8 anos, está descobrindo a malandragem e achando que é capaz de enganar a professora. Ele confessou durante a leitura que age como o Igor apenas quando é muito necessário. O mais bacana é que em sua inocência ele acredita que suas histórias colam. Mal sabe ele que todas as professoras são parecidas com Dona Moscapreta, agindo, ao mesmo tempo, com severidade e complacência diante das malandragens dos alunos.
terça-feira, 23 de março de 2010
Um livro é para sempre
Acho que sou uma pessoa bastante desprendida com os objetos. Não guardo as primeiras roupas dos meus filhos, o meu brinquedo da infância preferido, presentes que ganhei dos primeiros namorados, enfim, não tenho apego por coisas que não têm mais uso para mim e que podem significar alguma coisa para outras pessoas. Mas não me desfaço de livros. Se eles valem a pena, os guardo, mesmo sem lê-los. As vezes me sinto mesquinha por isso. Porque não doar os livros que já li? Mas não. Estão todos aqui em casa. O Pedro, ao que tudo indica, será como eu. Logo depois que o Antônio nasceu, ele me disse que daria tudo que era dele para o irmão. Roupas e brinquedos, mas os livros não. Eu argumentei que um dia ele iria crescer e não querer mais ler aquelas histórias de criança. "Aí você não vai se importar de dar seus livros para o Antônio." Ao que ele retrucou me perguntando se eu gostava mais dos meus filhos ou dos meus irmãos. Sem entender a pergunta, ele me explicou que não podia doar para o Antônio o que planejava guardar para seus filhos. Ri, com a certeza de que um dia ele deixaria o irmão ficar com seus livros. Alguns deles, aqueles para crianças menores, já estão na estante do Antônio. Ao que parece, essas pequenas doações não o fizeram esquecer de seus planos. Anteontem travamos mais um capítulo deste diálogo. Ao me ver encapando um livro recém-comprado, me perguntou porque eu sempre fazia aquilo. Expliquei que os livros de crianças ficam muito gastos com o uso e que ao encapá-los os estava protegendo.- Assim, eles duram mais para outras pessoas lerem.
Ao que ele perguntou.
- Mãe, o que o que vai acontecer com os livros quando eu morrer?
- Eles vão ficar com os seus filhos - disse, seguindo sua própria lógica.
- E e quando os meus filhos morrerem?
- Vão passar para os seus netos - continuei, explicando que até hoje tenho livros que foram do meu avô, da minha avó e até da minha bisavó.
Não satisfeito, insistiu.
- E quando morrer todo mundo da nossa família?
- Aí, eles vão ficar como uma marca de que nós passamos por este mundo.
PS: Depois desta conversa, me lembrei de O livro - um encontro, da sempre maravilhosa Lygia Bojunga: "Para mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros m e deram casa e comida." Vale a pena ler.
sábado, 20 de março de 2010
Quem faz parte de nossos sonhos?
Acho que todas as mães têm curiosidade sobre o que se passa nos sonhos de seus filhos, ainda mais quando eles acordam no meio da madrugada desesperados e correm para a nossa cama para pedir socorro. Aquela carinha de medo dá pena. Pena deles e de nós que, neste momento, antevemos mais um dia em que será difícil controlar o sono. Eu passo por isso há muito anos. Primeiro foi o Pedro, agora é o Antônio que de vez em quando acorda assustado, com medo de ficar no quarto dele. O medo sempre é da mesma coisa: bicho. Assim mesmo, genericamente. Não importa se é cachorro, leão, passarinho ou tubarão. É bicho. Como ele ainda está engatinhando na arte de falar, fica difícil entender o que acontece nestes pesadelos. Mas uma coisa é certa, os bichos -que ele tanto ama à luz do dia - se transformam em seres ameaçadores e assustadores em seus sonhos. Nesta hora é difícil convencê-lo de que tudo não passa de um sonho. Por isso, adorei quando descobri o livro Os bichos também sonham, de Andréa Daher, editado pela Martins Fontes. A autora, com a ajuda inspirada do ilustrador Zaven Paré, propõe um jogo de advinhação com o sonho dos bichos, que, garante ela, sonham com outros bichos. Zaven Paré entra na onda do texto e apenas sugere com suas ilustrações o que vem a seguir. A criança vai seguindo os bichos nos sonhos de outros bichos até perceber, ao fim, que a história não passa de uma divertida brincadeira. Sei não, mas acho que o livro caiu como uma luva para o Antônio. Afinal, com quem sonha o Antônio?
sábado, 13 de março de 2010
Manoel de Barros é o homenageado da 2ª Flist
Maio vem chegando e os professores do Ceat (Centro Educacional de Santa Teresa) já arregaçaram as mangas para produzir a segunda edição da Flist (Festa Literária de Santa Teresa). O sucesso da primeira Flist animou o pessoal da escola a dobrar a dose e realizar a festa em dois dias. Já estão reservados no calendário do Ceat os dias 15 e 16 de maio para os eventos da Flist, que, desta vez, serão realizados no belíssimo Paque das Ruínas. O homenageado da festa será o poeta matogrossense Manoel de Barros, de 94 anos. Bela escolha. Um poeta maior que fala para crianças e adultos, em 24 livros publicados, e é considerado um dos mais originais da língua portuguesa do século XX. Entre os vários prêmios que recebeu estão dois Jabutis - um pelo O guardador de águas e outro por O fazedor de amanhacer (foto). Mesmo assim, sua poesia ainda é uma surpresa para muitos, como mostra o documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, que será exibido na Flist. Quem quiser ver o trailer basta clicar aqui. Para relembrar a primeira festa você pode dar uma olhada no Gato de Sofá Deita e Rola na Flist ou no site da festa.
sexta-feira, 5 de março de 2010
A magia dos livros
Outro dia me dei conta de que o Pedro está crescendo e que daqui a pouco não vai mais me querer todas as noites lendo para ele. O sinal disso é o tamanho das histórias que ele ouve hoje. Livros muito pequenos já não fazem muito sucesso com o Pedro, que fica sempre com o gosto de quero mais. Ele já ouve contos e novelas inteiras, numa só noite sem pestanejar e sem cair no sono, e já não faz mais questão de que os livros tenham ilustrações. O que aumenta meu trabalho de catar nas livrarias boas histórias que sejam adequadas para sua idade. Eu acredito em unicórnio, do inglês Michael Morpurgo, editado pela Martins Fontes, é um bom exemplo de livro que vale a leitura para uma criança. A bela história de um menino de oito anos que descobre em meio à guerra o valor que os livros podem ter em sua vida é comovente. Esta descoberta não vem ao acaso. Ela é conduzida pela Dama do Unicórnio que conta histórias para as crianças da cidade no centro de uma biblioteca pública e as encanta com um mundo mágico em que os livros são peças de afeto e de magia. Confesso que o fim da história me emocionou. Não pude deixar de lembrar da importância que a Biblioteca Pública de Tebas teve na minha vida. O Pedro, que ainda não tem idade para ter memórias, como as do narrador, se espantou com minhas lágrimas, mas gostou da história. Minha única decepção foi ver que a história não era fruto de uma lembrança de Morpurgo, o autor que nasceu em 1943 e, portanto, não pode ter memórias da guerra. Mas de qualquer forma, vale a leitura de um livro que fala da magia das histórias para crianças com poucas, mas belíssimas ilustrações.PS: Qual não foi minha surpresa ao ver em um cartaz no 12º Salão do Livro Infanto-Juvenil, realizado em junho, no Rio, que o livro recebeu em 2010 o Prêmio Altamente Recomendável de Tradução de obras para crianças, da FNLIJ. Merecido!
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Para falar de Deus...
A criação, do belga Bart Moeyaert, editado pela Cosac Naify, foi um dos meus erros que, tempos depois, acabou em acerto. Eu comprei o livro há uns três anos e, claro, o Pedro não gostou. Ele, na época, com cerca de cinco anos e nenhuma cultura religiosa, boiou na história do homem apequenado diante de Deus criando o mundo e todos os seres. O humor fino do texto de Bart, com certeza, não disse nada para aquela criança alheia ao mundo cristão. O livro voltou à estante e ficou esquecido por lá até semana passada, quando resolvi tentar mais uma vez sua leitura. Agora deu. O Pedro prestou uma bruta atenção na história do homem diante da criação. O texto de Bart e as ilustrações do alemão Wolf Erlbruch têm um humor refinado para tirar o homem do lugar passivo que as religiões sempre lhe reservaram. O primeiro homem criado por Deus não deixa de ser perplexo, mas tem uma postura crítica diante daquele ser poderoso, que tudo pode e faz. "Deus (...) por que você criou primeiro a luz, e só depois o Sol? Não devia ser o contrário? Não devia ter sido ao mesmo tempo? Pensando bem, será que valeu a pena? Você não se arrepende?", pergunta o homem para um deus em fim de criação. Confesso que gostei deste homem abusado que não fica intimidado diante de nada e não se deslumbra com sua semelhança com Deus. "Confesse de uma vez: eu fui um erro!" Pois é, uma ótima leitura para mães agnósticas e em dúvida sobre a existência de Deus, como eu, apresentarem para os filhos à guisa de educação religiosa.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Um porquinho sortudo e um lobo azarado
Sei que tenho falado muito no Lobo Mau. Ele está presente por aqui desde o início, quando postei um comentário sobre o fascínio que a personagem exercia sobre o Pedro. O Pedro cresceu, nasceu o Antônio, que bastou crescer só um pouquinho para descobrir que o Lobo Mau lhe reservava muitas emoções. É o lobo dos Três Porquinhos, dos Sete Cabritinhos, da Chapeuzinho Vermelho e de muitas outras histórias recentes ou não. A verdade é que a gente aqui em casa nunca se cansa de apreciar um bom Lobo Mau. Foi assim com De repente!, de Colin McNaughton, garimpado em uma de minhas passagens pela Livraria Martins Fontes, no Centro. Um achado. Preston, o porquinho objeto do desejo do faminto e malévolo lobo, é um sortudo. Todas as vezes que o, por sua vez, azarado lobo se prepara para o golpe fatal acontece algum imprevisto que salva o porquinho. A brincadeira ganhou o Antônio, que faz caras e bocas todas as vezes que vê o lobo se dando mal. Ele amou a história e a ilustração super expressiva de McNaughton, um dos mais prestigiados ilustradores ingleses, que representa com cores fortes e personagens robustos a tensão da história. A sacação do autor garante lugar na estante dos meninos para mais um livro de lobo.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Viva a fantasia!
Outro dia li no blog dos Roedores de Livros a indicação do Coelho Mau, de Jeanne Willis, com ilustrações de Tony Ross, e me dei conta da minha falha em não tê-lo citado aqui. O livro, editado pela Ática, é uma delícia. O Pedro me pediu quase uma centena de vezes para lê-lo e tentou, ele próprio, ir sozinho até o fim da história mais de uma vez. A narrativa do Coelhinho Felpudinho que se transforma no Coelho Mau mexe com a imaginação das crianças por lançar mão de várias desejos comuns aos pequenos, como não tomar banho, pregar peças nos outros, fazer manobras radicais e dormir altas horas, entre outros, para traçar o perfil de um dos coelhos da Turma dos Sinistros. Tudo narrado sem moralismos e com muito humor. A história é uma delícia e seu desfecho é surpreendente, mostrando o que uma criança é capaz de fazer para driblar seus pais e esconder um boletim com notas ruins. Afinal, um boletim pintado de vermelho tira o sono de qualquer um, né? A história é ilustrada pelo craque Tony Ross, que dá ainda mais asas à imaginação do Coelho Mau com ilustrações em nanquim, aquarela e pastel oleoso. Um livro que vale a pena por contar uma história cheia de imaginação, humor e ternura. Que a gente possa ter a liberdade de deixar nossos meninos viajarem na fantasia para viverem por lá o lado mau de cada um deles.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Há sempre um mais forte
Olha a cara do lobo ali ao lado e vê se dá para ficar indiferente a este delicioso livro do escritor belga Mario Ramos, editado pela Martins Fontes. Nem eu nem o Antônio conseguimos. A história de Eu sou o mais forte é uma bela sacada, usando o mais do que conhecido lobo mau. Mau como um pica-pau e narcisista como um pavão. O que o lobo de Mario Ramos exibe é sua força e sua ferocidade, com um texto enxuto e ilustrações super expressivas. E é claro que o Antônio e os bichos do bosque onde ele anda todo garboso se curvaram imediatamente diante do Lobo Mau. A história muda de rumo apenas quando o fortão se depara com uma pequena espécie de sapo. O pequenino ousa desafiar o lobo e tudo muda. Muda com humor e inteligência. Com certeza mais um livro maravilhoso para lermos para nossos pequenos que tanto temem e tanto amam o Lobo Mau.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Para espantar o lobo mau
Tem tempos que estou para falar aqui do Tico e os lobos maus, de Valeri Gorbachev, editada pela Brinke-Book. A história e as ilustrações de Valeri são de uma delicadeza adorável e fazem o maior sucesso com o Antônio, meu menino assombrado, como o Tico, pelo lobo mau. Valeri cria uma atmosfera acolhedora para a casa de Tico, onde ele acorda de um pesadelo terrível com lobos maus. Ele conta seus medos para uma mãe protetora que faz tudo para mostrar para ele e seus irmãos, que acordam com o pedido de socorro de Tico e passam a viver seu pesadelo, que o medo deles é infundado. Sem sucesso, mamãe coelha resolve sair de casa para afastar os lobos maus. Na verdade, os lobos maus não existem e mamãe coelha finge tocá-los de lá com uma vassoura. Os coelhinhos ficam aliviados e dormem felizes com a mãe no meio deles. O mais engraçado é que o Antônio apesar de ver a história de um ângulo privilegiado, acredita como os coelhinhos que mamãe coelha afastou os lobos maus do quintal da casa deles. Em sua fantasia, tenho certeza, que ele não percebe que os lobos maus não existem. Mas felizmente dorme tranquilo, assim como o Tico.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
A viagem de Max para onde vivem os monstros
Uma bela história é o melhor que há na literatura infantil. Melhor ainda quando uma bela história é acompanhada de belas ilustrações. Este é o caso de Onde vivem os monstros, com texto e ilustração do premiado autor americano Maurice Sendak. O livro é uma beleza que consquista a gente no primeiro toque. Digo toque porque a edição da Cosac Naify é de um capricho que vai do papel importado à lombada de tecido. Mas o livro merece. A história de Max que, castigado pela mãe, embarca em uma viagem imaginária à terra em que vivem os monstros e, chegando lá, torna-se por sua esperteza o rei do lugar merece tanto esmero. As ilustrações de Sendak são tão expressivas que nos fazem sentir a textura do pelo dos monstros e a rudeza da vegetação do lugar, fazendo de sua história e de seus personagens uma peça mítica. Mas, engraçado, não foi isso que chamou a atenção do Pedro. O que lhe conquistou foi mesmo a história e a descoberta de Max de que nem todo amor é verdadeiro. "Ele percebe que os monstros só gostavam dele porque ele era o rei. Quem gostava dele era a mãe e o pai", resumiu meu menino, que colocou um pai na história, em que só aparece a mãe. Justo. O Cadoca merece. Agora a gente aguarda a estreia do filme de Spike Jonze que, pelo que vi no trailer, faz jus a beleza do livro.Quem quiser conhecer outro comentário do Gato de Sofá sobre o livro, clique aqui.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Quando as raposas vencem os fazendeiros
Em tempos de conformismo com o status quo O Fantástico Senhor Raposo, de Roald Dahl, é leitura mais do que divertida. É essencial para nossas crianças conhecerem uma história da época em que existia luta de classes e o inconformismo não era visto como infantilidade ou falta de educação, mas como uma transgressão necessária ao processo histórico. O embate do senhor Raposo com Boque, Bunco e Bino - três fazendeiros "incrivelmente maus e mesquinhos"- é rico em situações e soluções para a vida dos bichos que vivem entocados na terra. Toda a semelhança, neste caso, não é mera coincidência. Os bichos de Dahl são gente em sentimentos, fome e bravura. Bravura para enfrentar seus algozes e fugir da fome. Seu Raposo, um conhecido ladrão de galinhas, patos e gansos, defende seu crime com palavras simples para as crianças se solidarizarem com ele. "Meu velho e querido monte de pelos, por acaso você conhece alguém no mundo que não roubaria umas galinhas se seus filhos estivessem morrendo de fome?", pergunta ele para seu amigo, seu Texugo, cheio de dúvidas éticas sobre os seus métodos. Ao que Pedro responde: "Claro que eu roubaria umas galinha se meus filhos estivessem morrendo de fome." Ele adorou a vitória dos bichos contra os mesquinhos - "o que é mesquinho, mamãe?"- fazendeiros. Gostou tanto que me pediu para relê-la assim que acabamos de ler o livro de 84 páginas, editado pela Martins Fontes, e ilustrado com a delicadeza do bico de pena por Quentin Blake. Dahl, é bom a gente lembrar, é o autor de A Fantástica Fábrica de Chocolates, outra obra em que a visão de mundo de esquerda é protagonista da história. Viva Dahl que nos dá oportunidade de conversarmos sobre justiça social com nossos filhos.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Um conto de Natal
É quase Natal! Tem dias que não atualizo o blog por causa da correria de fim de ano. Todo dia tem uma confraternização, todo dia tem um afazer. Mas agora que está chegando a hora, a vida vai ficando mais tranquila e, com poucas pendências a resolver, começo a buscar calma em mim mesma. Uma calma que, nestes dias que antecedem o Natal, se confunde com a melancolia e uma sensação de impotência diante das dores do mundo. O Natal me evoca este sentimento desde a adolescência, quando comecei a conviver com as minhas primeiras perdas. Mas este sentimento está em mim desde a infância. Lembro bem da tristeza que sentia ao ouvir o conto A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen. Aquela menina abandonada à própria sorte, na neve, sonhando com o aconchego que a vida lhe negara. Ficava muito, muito triste. Na verdade, fico até hoje. Por isso, me surpreendi quando, há bem pouco tempo, o Pedro trouxe a história da escola. Li todo o livro, editado pela Editora Scipione (a imagem ao lado é de um lindo curta da Disney), com a voz travada para não chorar. O Pedro a ouviu com a maior serenidade e, ao fim, me disse que tinha achado o conto lindo. Me perguntei por que ele, como eu, não se sentiu mal ao ouvir uma história em que uma criança morre de frio na véspera de ano novo sem que ninguém a ajude? Talvez, como a menina, ele tenha embarcado na fantasia que a tira daquela existência de dor e de abandono e, com isso, nem tenha percebido que ela se liberta pela morte. De qualquer forma, a Pequena Vendedora de Fósforos continua sendo, para mim, uma história de dor e sofrimento com a qual não sei lidar.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Ana Paz é uma protagonista sem protagonismo
Não é fácil falar de Fazendo Ana Paz, de Lygia Bojunga, porque não é fácil falar de uma narrativa densa de emoção como a da escritora gaúcha. Ao sentar-me no computador para iniciar esta resenha, tive que vencer primeiro a tentação de centrar meu texto no depoimento de como a novela de Lygia me tocou para então enfrentar o desafio de escrever sobre a narrativa da autora e dos recursos que ela usou para se comunicar com o leitor.A Ana Paz não é uma protagonista comum. Lygia não centra seus esforços em criar uma trama para manter o interesse sobre Ana por toda a narrativa. Ela é o instrumento usado por Lygia para falar de outro protagonista: o processo de criação de um personagem. Este sim consome todos os esforços da autora. Ana Paz é uma personagem incompleta, sem passado claro e em busca de um futuro incerto. Mas é no diálogo com ela que Lygia fala de como seus personagens foram tomando corpo.
Ana Paz, destaca logo de início a autora, faz parte de uma estirpe de personagens que foge à regra de sua galeria de tipos que, segundo a própria, sempre hesitam em vir à tona. Ela, assim como Raquel, de A Bolsa Amarela, “chegou sem a mais leve hesitação e foi dizendo: ‘Eu me chamo Ana Paz; eu tenho oito anos; eu acho o meu nome bonito’.” Mas engana-se quem pensa que a desenvoltura da personagem garantiu tranquilidade à autora.
A pressa de Ana Paz em se apresentar traduziu-se em um turbilhão de emoções em que Lygia vê-se enredada em todo o livro. A angústia gerada pelo embate autora/ personagem é o fio condutor de toda a narrativa de Lygia na novela. Ana Paz não se importa com os questionamentos de sua criadora sobre a pertinência de sua personagem e obra. Ela quer existir, ela quer ganhar corpo com a publicação da obra.
Lygia hesita. E hesita não por causa de Ana Paz. Seu problema é com o pai da protagonista que, assim como os outros personagens da autora, hesita em existir. Lygia vai e volta na narrativa em busca de um sentido para um pai perseguido pela polícia que pede a filha que não se esqueça de uma carranca. Que pai é esse, de que ele foge, o que esta carranca simboliza na relação entre pai e filha? Sem estas respostas, Lygia não vê sentido para sua obra e para sua personagem, que, assim, fica incompleta.
Mas Ana Paz, convicta de sua existência, mesmo que seu passado não esteja claro, quer viver, quer ganhar as páginas, quer ganhar autonomia. Lygia resiste até que, cansada de brigar com sua personagem, a liberta de sua crítica e transforma Fazendo Ana Paz em uma obra sobre o processo de criação. Não à toa a autora encerra o livro com Pra Você que me Lê, em que fala de como garimpa em seu passado e em sua memória fatos que, em sua narrativa, ganham novas cores e emoções para dar vida a quem sustenta sua obra: seus personagens.
PS: Este texto foge do tom impressionista das outras postagens por ser uma resenha que fiz para o Grupo Letra Falante, cordenado pela professora Ninfa Parreiras, na Estação das Letras. O grupo está lendo a obra de Lygia Bojunga e, em breve, todas as resenhas dos livros de Lygia estarão publicadas no site Dobras da Leitura, que tem uma seção especial para o Letra Falante.
domingo, 6 de dezembro de 2009
O medo, companheiro de todas as noites
Caramba! Não tinha percebido que estava há tanto tempo sem escrever no Gato de Sofá. Mas a vida aqui em casa não pára. Com duas crianças não há quem tenha tempo livro. Mas a gente sempre encontra uma brecha do dia para ler para o Pedro e o Antônio. Se eu - a ledora oficial - estiver muito cansada, o Cadoca toma meu lugar e lê para os meninos. Um livro bom de pai ler para o filho é Todas as noites do mundo, de Dominique Demers e ilustrações de Nicolas Debon, editado pela Companhia Editora Nacional. A história de Simão que todas as noites vai dormir acompanhado do pai é um estímulo para a imaginação das crianças na tentativa de desmistificar o medo, companheiro de todas as noites. O pai coloca o menino na cama e começa a colocar todos os seres do mundo para dormir. Seres fantásticos ou seres prosaicos que na narrativa do pai tornam-se cheios de encanto. A medida que o pai vai cobrindo o filho e o ajeitando na cama ele vai varrendo o planeta e colocando os animais de todos os cantos para dormir. O último lugar visitado pelo pai é a o universo dos seres míticos, como fadas, dragões e duendes. Simão já está dormindo e o pai sai satisfeito do quarto prometendo para o filho que ele não tem mais do que se sentir medo. A história de Simão é a história de todos os nossos filhos, que ao dormir se defrontam com um mundo de incertezas que os faz temer pelos pesadelos tão comuns na infância. Nosso carinho, com certeza, lhes dá mais segurança, mas infelizmente não é o suficiente para lhes livrar de todos os medos. Mas que a gente possa sempre estar na cabeceira da cama de nossos filhos lhes dando serenidade para dormir.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
As histórias da Preguiça contadas para a Sorte
Meninos do mangue, de Roger Mello, editado pela Cia. das Letrinhas, foi um dos livros infantis que mais me impressionaram nos últimos tempos. A história da aposta feita pela Sorte e pela Preguiça e a prenda a ser paga pela perdedora é absolutamente envolvente. A gente começa e não quer parar. Mas, como a leitura era em voz alta para o Pedro, foi feita em capítulos. Assim, por algumas noites lemos as oito histórias em que a Preguiça, a perdedora - é claro, teve que contar para a Sorte. Nos dias de muito sono, o Pedro só aguentava ouvir uma. Mas, em alguns dias, o interesse vencia o sono e ele conseguia ouvir mais de uma. Todas elas são maravilhosas e criativas e têm a prosa de um autor original. Roger conta uma história única, que, claro, faz referências à tradição de nossa literatura popular e infantil. Mas, com certeza, ela tem a marca de Roger, no texto e nas ilustrações que criam um belíssimo jogo entre a Sorte e a Preguiça para contar para as crianças como é a vida no mangue. Um olhar quase antropológico, sem qualquer piedade pela pobreza de quem vive por lá. O Pedro aprendeu, com a Preguiça e a Sorte, que homens e crianças do mangue vivem de catar siri na lama e que separam o dia pelas quatro mudanças de maré. A história de como surgiram as marés alta e baixa, aliás, é genial e a minha preferida. Mais genial ainda é poder contar para meu filho uma história de um mundo tão diferente do nosso, um mundo feito de pobreza material e riqueza simbólica que, a prosa de Roger faz parecer natural, nos impedindo de sucumbir à piedade de quem não é como nós. Roger, com os meninos do mangue, deu a meu filho a primeira oportunidade de olhar o mundo de forma a relativizar as verdades sobre a felicidade. Por isso, viva Meninos do Mangue, que rendeu a Roger, em 2002, o Jabuti nas categorias infantil ou juvenil e ilustração de livro infantil ou juvenil, além de prêmios da FNLIJ e da Fondation Espace Enfants, da Suiça. Viva Roger, que, com justiça, empresta seu nome à biblioteca infantil do Ceat (Centro Educacional Anísio Teixeira) e concorre ao prêmio Alma (Astrid Lindgren Memorial Award).
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Cara a cara com a autora
Outro dia descobri que a Ninfa Parreiras, que coordena o grupo Letra Falante, do qual faço parte, iria à escola dos meus filhos para falar de sua obra. Resolvi fazer uma surpresa para o Pedro e trouxe para casa o livro Poemas do tempo, ilustrado pela Mariana Massarani e editado pela Paulinas. O Pedro ficou animadíssimo ao receber o presente. "A Estela (professora da biblioteca) está lendo este livro pra gente", contou. À noite, que, por azar, foi a do apagão, me fez ler o livro de novo. Sob a luz de uma lanterna, sentamos - eu, ele e o Antônio - para ler e ouvir os poemas da Ninfa que falam do tempo em suas várias versões. Tempo das descobertas, de sorvete, das despedidas, da escola, de fora, do infinito... No dia seguinte, o livro foi para escola nas mãos do Pedro, ávido por um autógrafo e para contar de quem era filho. Assim que cheguei em casa veio logo falar das novidades e mostrar os autógrafos que havia ganho. "Meus amigos me acharam muito sortudo de ter um autógrafo da Ninfa", disse. Não foi bem sorte. Foi insistência. A Ninfa me contou que o Pedro não se contentou com um autógrafo, quis logo três. Aí que entendi porque havia mais de uma dedicatória no mesmo livro. O resultado de tamanha aventura foi que ele ficou fã de carteirinha da Ninfa. Já me pediu para comprar o novo livro dela, que, segundo ele, sai no próximo ano e curte muito o Poemas do tempo. Com justiça... o livro é muito bacana e os poemas falam de vivências bem conhecidas das crianças. Tudo para sua leitura ser um sucesso.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Uma janela aberta para o mundo
A beleza e a dramaticidade de África, o livro de nosso fotógrafo maior Sebastião Salgado, editado pela Taschen, me obriga a abrir uma exceção e deixar entrar no Gato de Sofá uma obra que não é destinada a crianças. As fotos de Salgado mostram um continente grandioso, de belos animais e selvagem natureza, que dá abrigo a uma população castigada pelas guerras e pela fome que luta para manter sua dignidade e identidade. A lente de Salgado mira no ponto mais sensível de nosso planeta e nos sacode da letargia induzida pelas benesses do consumo. Aquela gente sofrida me fez voltar nos anos e reencontrar interlocutores com quem pudesse confessar minha dor ao ver com a crueza do preto e branco tamanha injustiça e desigualdade. A leitura de África, apresentada pela prosa do moçambicano Mia Couto, me fez acreditar que os valores humanistas que nortearam minha adolescência e juventude não foram totalmente soterrados pelo hedonismo do consumismo, que tenta fazer de todos nós seres alienados que se alimentam dos prazeres do materialismo. As fotos de Sebastião Salgado me deram a esperança de que meus filhos vão conseguir encontrar um lugar no mundo em que eles possam ser gente que se irmana com seus semelhantes - ricos ou pobres, iguais ou diferentes - e não apenas máquinas em busca do sucesso e do conforto que o dinheiro pode pagar. Aguardo o dia em que possa mostrar para eles as fotos de Sebastião Salgado e, com elas, abrir uma janela onde eles possam se debruçar para ver o mundo.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Um ratinho encantador
Tem dias que estou para falar aqui de um livro delicioso que dei para o Antônio. O Ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado, de Andrey Wood, com ilustrações de Don Wood, editado pela Brinque-Book. A história de um ratinho que encontra um morango e é surpreendido por uma voz que o alerta do perigo do grande urso esfomeado querer sua conquista é super bacana. O leitor passa todo o tempo acompanhando as emoções do ratinho e se perguntando de quem afinal é aquela voz. A ilustração de Don Wood, marido e parceiro de Andrey em outros livros, como A Casa Sonolenta, é fundamental para compor o clima de suspense criado pela história. O resultado é um livro para toda a família curtir junta - os pequenos, os maiores e os adultos. Aqui em casa todos nós adoramos o ratinho, que é encantador com suas caras e bocas.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
O Gato de Sofá fez um ano
Sábado, o Gato de Sofá fez um ano. Queria ter escrito alguma coisa em comemoração a esta data. Mas confesso que fiquei com preguiça. Um feriadão, que começou na feira de produtos orgânicos e terminou na praia com o maridão e as crianças, me deixou na lona, cansadona como ficam todas as mães de pequenos ao fim de um dia de folga. O resultado foi minha total omissão diante do aniversário do meu blog. Mas isso não quer dizer que eu não tenha comemorado a data. Minha comemoração foi a certeza de que encontrei no diálogo que eu e meus filhos travamos com os livros infantis uma enorme fonte de prazer. Prazer em ler as incríveis histórias que têm sido produzidas aqui no Brasil e no exterior, prazer em ver que estas leituras me colocam mais perto dos meus meninos, de seus sentimentos e convicções, prazer em transmitir a eles o amor pelos livros e apresentar-lhes toda a sua beleza e, por fim, prazer em constatar que, ao contar nossas impressões sobre estas leituras, me aproximo de tanta gente legal. Neste ano, conheci gente nova e descobri novos ângulos de quem já conhecia, como a Ângela Nogueira do Velejando nas Letras. Muitas vezes não respondo aos comentários por absoluta falta de tempo. Mas leio todos e visito os blogs de quem me convida. Anoto as sugestões, mas infelizmente não posso ter em mãos todos as histórias sugeridas. Os livros comentados aqui são comprados por mim ou emprestados pela escola dos meus filhos. Todas as vezes que chego em uma livraria me encanto com vários títulos, saio com menos livros do que queria e, mesmo assim, meu marido se espanta com a fatura de nosso cartão de crédito. Isso tudo para dizer que, apesar de minhas limitações financeiras, adoro receber as sugestões e os comentários de quem passa por aqui.PS: A dupla aí do lado - Calvin e Haroldo - é protagonista de um dos melhores quadrinhos que há. Calvin é tudo de bom para adultos que não se esqueceram de como é bom ser criança.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
O que há entre o bife e a pipoca?
Foi uma decepção a leitura de Ponto de Vista, de Ana Maria Machado, para o Pedro. Li página por página com a maior calma para que ele não se perdesse no ritmo da narrativa em versos todos rimados, mas não deu certo. Ao fim de tudo perguntei o que ele tinha gostado e sua resposta foi curta: do Ziraldo. Insisti e ele repetiu a resposta. Justa escolha. Realmente o Ziraldo é o máximo e seu traço geométrico valoriza o morro e os prédios da cidade partida descrita por Ana Maria. Mas desconfiei que a resposta era de alguém que, na verdade, não tinha entendido a narrativa e mudei a pergunta. O que você entendeu do livro? A resposta veio curta e direta: "Nada." Não me espantei. Afinal, a narrativa em versos rimados, que nem sempre seguem a ordem natural das orações para fechar as rimas, confunde um leitor iniciante como o Pedro. Parei e expliquei para ele a história dos meninos que nasceram um na favela e outro no asfalto, se encontraram na praia e se tornaram amigos de toda a vida. Bonita mensagem de alguém que sofre com a cidade partida. Mas, confesso, achei um pouco ingênua. Mas me perguntei se esta ingenuidade não seria necessária para apresentar este problema a um menino, como o meu, de apenas 7 anos? Talvez. Por isso, guardei para mais tarde o conto O bife e a pipoca, do livro Tchau, de Lygia Bojunga, editado pela Casa de Lygia Bojunga, que traz a realidade nua e crua do encontro de Rodrigo, menino de classe média, e Tuca, menino de favela que estuda de bolsa na escola de bacanas. O conto é preciso no sofrimento de Tuca e de Rodrigo, que ao se aproximar um do outro entendem as diferenças entre seus dois mundos. Doído, mas real. Leitura para quando o Pedro puder suportar o tranco. Por enquanto, vamos ficando com o sonho de vencer as desigualdades com nosso esforço de não descriminar os diferentes.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Tão perto, tão longe
Não é de hoje que percebo o Pedro com o olho comprido, triste e confuso quando se depara com uma pessoa na rua pedindo dinheiro ou comida. Se for uma criança, ele fica ainda mais confuso. Ele segue em frente, mas seu olhar continua acompanhando o pedinte e tentando entender esta realidade tão dura, que faz de uma criança como ele um ser tão diferente e incompreensível. Esta situação me dá dó. Dele e do menino da rua. Os dois, cada um a seu jeito, sofrem com a desigualdade que existe em nosso país. Mas não me permito ceder à tentação de mãe de tentar poupá-lo deste sofrimento. Muita gente me pergunta se não é cedo demais para explicar a ele a pobreza e a miséria que parte de nossa população sofre. Eu acho que não. Não quero que o Pedro e o Antônio cresçam indiferentes a esta realidade. Sei que vão sofrer, mas é inevitável. Só tento evitar que eles, em sua lógica infantil, achem que dinheiro compra felicidade e todos os pobres são infelizes. Isso não é verdade. A infelicidade está na miséria. Para dar mais elementos para o Pedro entender esta complicada equação social que coloca uns lá em cima e outros lá em baixo resolvi apresentar a ele Ponto de Vista, de Ana Maria Machado, com ilustrações de Ziraldo, editado pela Melhoramentos. Eu já vinha paquerando este livro há tempos, mas achava cedo para ele entender o que até hoje eu me pergunto a razão. Agora acho que está na hora. Vou ler para o Pedro hoje à noite e depois conto como foi que ele recebeu a história do encontro de um menino da favela e de um menino do asfalto.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Bartolomeu e Roger Mello concorrem ao Alma
A literatura infanto-juvenil brasileira está novamente concorrendo ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award), o maior prêmio internacional em prol da literatura para crianças e jovens do mundo, com as indicações do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, pela segunda vez, e do ilustrador Roger Mello, que assina o São Jorge ao lado, estreando entre os concorrentes de 61 países. Na categoria promotor de leitura, Maurício Leite concorre pela terceira vez. O mundo só vai conhecer o vencedor do prêmio em 24 de março de 2010. Quem sabe a gente não repete este ano o feito de Lygia Bojunga que, em 2004, recebeu a segunda edição do prêmio pelo conjunto de sua bela obra. Um orgulho para nossa literatura que já concorreu em outros anos com as candidaturas de Ana Maria Machado e Ângela Lago.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Uma família feita de amor
Lendo hoje o comentário de uma colega no Facebook sobre a adoção de seu filho, ainda um bebê, me lembrei de um livro lindo que o Cadoca comprou em um bazar e me trouxe para eu ler para o Pedro, na época um menininho de uns quatro anos. Assim que comecei a ler Conta de novo a história da noite em que nasci, de Jamie Lee Curtis, ilustrado por Laura Cornell, editado pela Salamandra, percebi logo que se tratava de uma menina adotada perguntando aos pais sobre o encontro deles. Um encontro cheio de emoção que vai, aos poucos, mostrando ao pequeno leitor como a chegada de uma criança faz com que um casal se transforme em uma família. E, neste caso, pouco importa se ela é filha biológica ou adotada, o que importa é que ela seja desejada. Tanto é que o Pedro nem percebeu este detalhe e, como a menina, me pediu para contar de novo. A história é singela, como deveria ser, e as ilustrações dão um tom divertido ao relato da noite em que os três se encontram. Uma curiosidade é que a autora é filha dos atores Tony Curtis e Janet Leigh. Vale ler para todas as crianças, adotadas ou não, porque o que fica é o desejo dos pais de tê-las.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
A turma da vida inteira
A turma, de Helme Heine, editado pela Martins Fontes, foi o primeiro livro em que a morte aparece que não fez o Pedro chorar. Pelo contrário. Ele se divertiu muito lendo a história dos três amigos - professor Cérebro, Rose Coração e Barrigão - que nos encontram no nascimento e vão conosco até o fim. Talvez pelo livro falar muito mais da vida do que da morte. Nem mesmo a ilustração de um caixão incomodou o Pedro. Ele foi atento até o fim da história, quando morremos e os três amigos tomam rumos diferentes. O professor vai ao encontro de seus colegas falar de nós, o Barrigão não nos abandona e Rose vai distribuir corações para que não nos esqueçam. Uma bela maneira de falar do nosso fim, sem que as crianças fiquem com medo ou angustiadas. A morte como continuidade da vida e um tempo em que não seremos totalmente esquecidos. Um alento que nos dá o autor/ilustrador alemão que encantou o Pedro com seus desenhos delicados e ao mesmo tempo expressivos. Além disso, se divertiu dizendo que ele era o professor e o Antônio, nosso comilão de plantão, o Barrigão. A turma nos fez lembrar ainda do Pedro dizendo, assim que o Antônio nasceu, que o irmão não tinha cérebro. Hoje, com certeza ele tem cérebro, barriga e um enorme coração.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Dom Pedro peralta nas tintas de Massarani
Olha aí o novo livro da Mariana Massarani, Quando Pedro tinha nove anos, editado pela Global. A história é uma bela sacada da autora/ilustradora para apresentar para nossos pequenos o Rio de Janeiro sede da Côroa Portuguesa, em 1808, quando Dom Pedro, nosso futuro primeiro imperador, tinha nove anos e chegou por aqui com sua família real. Cada trinca de páginas, já que as pares abrem em duas, traz uma cena do Rio pelo traço da Massarani inspirado nas pinturas de Debret. Lindo o livro e divertida a história de um menino peralta, que passa todo o tempo sendo procurado pela família e a criadagem. Mas para desmentir a autora, que diz que fez o livro para pequenos, pensando em seu sobrinho de quatro anos, a história agrada também aos mais velhos. Meu Pedro, com 7 anos, adorou procurar o xará nas páginas do livro e de ler em voz alta, já que o tamanho do texto está de acordo com suas possibilidade de leitura. O Antônio, com 2, gostou de abrir as páginas e de ver os desenhos. E eu e minha mãe adoramos curtir Debret no maravilhoso traço da Mariana, que visitou o quarto de bebê do monarca antes de escrever a história e desenhar as ilustrações, usando naquim, pincel e aquarelas líquidas. Enfim... é um livro para ler e apreciar.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Um cão para encantar toda a família
Já vinha paquerando há algum tempo o Dorminhoco, de Michael Rosen, com ilustrações de Jonathan Langley e editado pela Brinque-Book, qual não foi minha surpresa ao vê-lo na lista da ciranda de livros da turminha do Antônio? Bela surpresa! O livro é realmente é muito legal. As ilustrações de Langley são muito bacanas e super apropriadas para a faixa etária a que se destina (de 3 a 7 anos). A história de Cão, o dorminhoco do título, passa-se em uma fazenda, com todos os animais que fazem a festa da criançada pequena: gato, porco, galinha, carneiro e vaca. O cão incomoda a todos com o seu ronco alto e nada o acorda, até que o dia chega e ele sai serelepe da vida e deixa todos seus companheiros exaustos. O cão é tão encantador, que o Antônio apesar de sua pouca idade aguentou firme, com o maior interesse, esperar pelo fim da história. Para prender a atenção dele vale tudo, mugir como vaca, roncar como o cão, miar como o gato e cocoricar como o galo. Além disso, o Cão é encantador. Tão encantador que até o Pedro, com seus 7 para 8 anos, entrou na dança para curtir a história trazida sexta-feira pelo irmão pequeno. Viva a ciranda de livros da turminha do Antônio, que agora já é aguardada até pelo Pedro.quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Surpresas na noite escura
Na noite escura, do designer Bruno Munari, editado pela Cosac Naify, me chegou como um presente da professora de literatura e escritora Ninfa Parreiras, que coordena o grupo de estudos de livros infanto-juvenis da Estação das Letras, do qual faço parte, para eu ler para meu filho. Assim que cheguei em casa abri o livro para ele. Pedro sentou-se ao meu lado e se divertiu explorando página por página e cada uma das texturas de papel em que o livro foi publicado. Ele adorou a história do gato em busca de uma luzinha perdida na noite, que encontra o dia e, ao seguir uma formiga, reencontra a noite. Pedro entendeu melhor do que eu a obra, publicada pela primeira vez na Itália, em 1956, como parte da experiência dos livros-ilegíveis, que se trata, segundo o próprio Munari, de "livros sem palavras mas com imagens abstratas que se transformam virando as páginas, como fotogramas de um filme". Pedro se encantou com os vagalumes, que funcionam como uma saída para o absoluto da noite, e leu o livro com a imaginação. Eu talvez não tenha conseguido me desligar da minha condição de adulta, racional e excessivamente verbal para curtir mais o livro de Munari, um autor que, como as crianças, pensa com a imaginação.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Todos os ovos são fantásticos
O mais fantástico ovo do mundo foi a herança da primeira ciranda de livros da qual o Pedro participou na escola. Ele tinha cinco anos e tinha acabado de mudar de escola. Foi um ano de grandes novidades e a ciranda foi uma delas. O Pedro curtiu mais ainda quando, no fim de novembro, a professora colocou todos os livros na mesa e disse que as crianças poderiam ficar com um deles. Cada um escolheria o seu. Se mais de uma criança quisesse um mesmo livro haveria sorteio. O Pedro foi o único a querer O mais fantástico ovo do mundo, editado pela Global, e o trouxe para casa super feliz. Já se vão dois anos, mas o livro continua fazendo sucesso. Com razão, a história e as ilustrações do autor alemão Helme Heine são muito bacanas. A competição entre as galinhas Maricota, Vivi e Cris acaba de forma inusitada, mostrando a todos que o que importa são nossas qualidades e não se somos melhores do que os outros. Sendo assim, as três galinhas acabam amigas e coroadas princesas. Justo fim para quem quer ensinar às crianças que viver competindo é uma tolice.
sábado, 12 de setembro de 2009
Um au au bacana em busca do sono
O Antônio, como os meninos de sua idade, faz de tudo para não dormir. Rola pra cá, pra lá, pega brinquedo, fala com quem o está colocando para dormir, resmunga tanto até levar aquela bronca e fingir que está dormindo. Comigo ele sempre desiste de fingir. Com o pai ou a babá acaba vencido pelo sono, assim como Otto, o maneiríssimo cachorro criado por Todd Parr, o escritor/ilustrador californiano autor de vários livros legais editados pela Panda Books. Otto vai dormir fala de um cachorro bacana, como nossos pequenos, que não quer dormir. Coitado, ele faz todo o ritual para o sono vir e o sono não vem. O que vem é o desejo de brincar mais, de pular na cama, de comer muitos cachorros-quentes, de ser um super-herói, enfim... de ficar acordado. Até que uma hora o sono lhe vence e ele vê o quão gostoso é dormir. O livro, que fala da dificuldade das crianças pregarem os olhos, tem um apelo visual muito legal. Os desenhos de Todd Parr são grandes e simples como gosta uma criança desta idade, mas nem por isso são pobres. Pelo contrário, são super coloridos e expressivos. E a favor do livro conta ele ser apropriado para pequenos sem ser mais um daqueles cartunados, com belas imagens e texto sem sentido. Eu gostei, o Pedro gostou e, por fim, o Antônio, para quem era o presente, curtiu seu amigo au au. Aproveitou para engatinhar e latir como um cachorro. Bom.. dormir que é bom, nada.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Mais um lobo mau, ou melhor, faminto
As mães de crianças pequenas não têm como fugir da sina de falar de lobos. Se são meninos adoram o lobo mau de Os Três Porquinhos. Se são meninas, o lobo de A Chapeuzinho Vermelho. Mas na vida destas crianças têm sempre um lobo com a boca aberta para representar os medos que vão aparecendo em suas cabecinhas. Desta forma, estou aqui de novo vivendo todas as possibilidades de um lobo na vida do meu pequeno Antônio, que começa a colocar a cabeça para fora de casa e a descobrir os perigos do mundo. Mas haja paciência para falar sempre do mesmo lobo. Por isso, fui a campo procurar novas histórias e achei este divertido livro Que horas são, papai lobo?, de Annie Kubler, editado pela Ciranda Cultural. Annie conta, com a ajuda de um pequeno dedoche encaixado no livro, a história de um lobinho que pergunta todo o tempo ao pai que horas são. O detalhe percebido pelo Pedro, que andou lendo o livro, é que o relógio ganha em cada página uma forma diferente, mas sempre a de um animal que faz parte do cardápio dos lobos. O papai lobo responde sempre com algum acontecimento ligado à comida. Uma forma de desmistificar a fome imensa dos lobos maus que comem porquinhos, carneirinhos, vovózinhas e estão sempre a postos esperando por inocentes crianças. No caso do Antônio, uma feliz coincidência, já que ele está sempre com fome e concordando com o desejo do lobo de comer. Enfim... um bom livro para os pequenos.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Grandes aventuras em um pequeno livro
Conheci as histórias de Beatrix Potter por meio do DVD Peter Rabbit e seus amigos, que a Lúcia, minha cunhada escocesa, deu para o Pedro. As histórias do filme são de uma delicadeza encantadora. O Pedro viu muitas vezes o DVD até que cresceu um pouco - acostumou-se à linguagem frenética dos filmes e jogos infantis modernos - e começou a achar o ritmo da narrativa lento. Foi então que descobri na internet A história do Pedro Coelho, o primeiro livro da escritora e ilustradora inglesa editado em formato original no Brasil, pela Lótus do Saber. Encomendei o livro e qual foi a minha surpresa ao recebê-lo: a história que encantou gerações de ingleses e já vendeu 80 milhões de exemplares em todo o mundo é editada em um pequeno livrinho, de 14 cm por 10,5 cm. Mas quando a gente abre o livrinho e começa a lê-lo, encontra uma grande história, daquelas contadas de modo tradicional e ilustrada pela própria autora com delicadas aquarelas. O Pedro ficou vidrado na história do xará coelho, que se mete em uma bruta enrascada ao desobedecer a mãe. Ao fim da história, que ele não queria deixar eu ler por achar infantil demais, o meu Pedro vibrou: "Esta história é muito legal. Pena que é pequena. Mãe você podia comprar outras?". Perguntei o por que ele tinha gostando tanto, ao que respondeu de pronto: "Porque ele se mete em muitas aventuras." Bom... não são bem aventuras, mas tudo é uma questão de ponto de vista.
sábado, 22 de agosto de 2009
De volta à minha casa em Tebas
Minas é um belo capítulo da minha vida. Talvez por isso, eu goste tanto dos livros dos mineiros. Eles falam manso e de coisas que me dizem à alma, como chão, bichos e sentimentos grandes vividos em silêncio. O olhar longo dos mineiros por sobre as montanhas me encanta, desde sempre, me levando de volta para à minha infância e minha adolescência. Não sou mineira, mas poderia ter sido. Meu avô Jacy, nascido em Tebas, um arraial, como se diz lá, distrito de Leopoldina, me deixou de herança o amor por aquela terra. No meio do pomar de nossa chácara, havia uma pedra para lembrar dele e da ligação dos mineiros com sua terra. Todas as vezes que minhas lembranças correm por entre aquelas árvores, paro na frente da pedra para ler sua placa e reafirmar minha ligação com Tebas. "Este pedacinho de chão em que tu cresceste e que tanto amaste, sempre presente para aqueles que te amam". Hoje, Tebas é um lugar na minha memória. Um lugar privilegiado da minha vida. O lugar em que passei belos dias de criança e de adolescente. Talvez por isso, o choque que levei ao ler as duas primeitas frases do belo livro Até passarinho passa, do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela Moderna. "Nossa casa já não existia. Como tantas outras, ela passou." Nossa casa em Tebas ainda existe, mas não como antes. Para ela não passar em minha vida, nunca mais quis voltar lá. Bartolomeu continua falando da varanda da casa, com galhos de maracujá subindo para o telhado, e a porta da minha memória se abre ainda mais. Assim como eu, o menino do livro sabe a dor de ver o tempo passar. Mas sabe também que isso é inevitável e que ele nada pode fazer a não ser preservar este tempo em sua memória. Assim, eu faço para não perder Tebas da minha vida. Belo livro de Bartolomeu, ilustrado com a delicadeza pedida no texto por Elizateth Teixeira. Não a toa a obra ganhou, em 2003, os prêmios Altamente Recomendável, da FNLIJ, de Literatura Infantil da Academia Brasileira de Letras, e o Hours Concours do Melhor para Criança, da FNLIJ; e, finalmente, em 2004, uma menção honrosa do Prêmio Jabuti. Merecido reconhecimento para um livro que nos dá a oportunidade de falar sem dramas para as crianças sobre as perdas que a vida nos impõem.
domingo, 16 de agosto de 2009
Iguais nas diferenças
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
A dor de crescer
O título é de impacto. A ilustração também. A história é uma maravilhosa busca na infância de fatos que nos marcam para sempre. É assim que aprendemos a ser gente, não tem jeito. De uma forma seca e poética, Wander Piroli, o escritor mineiro falecido em 2006, nos põe diante do momento em que o menino começa a descobrir seus valores e a forjar sua individualidade, com as dores e a solidão que isso pode representar para uma criança. Pirolli nos leva a pensar ainda que não devemos ter pena de nossos filhos ao vê-los enfrentando suas encruzilhadas. É a superação destes conflitos que nos forjam como seres humanos dignos. Assim foi com o menino, personagem do livro O Matador, ilustrado com precisão cirúrgica por Odilon Moraes e editado com qualidade pela Editora Leitura, no ano passado. O menino percebe quem é ao descobrir o erro de querer ser como todos os outros. O menino percebe seus valores ao não respeitar seus limites e agir como os outros. A tomada de consciência do menino é um momento de dor que ele leva para toda a vida. Um momento que meninos do tamanho do meu Pedro, talvez, ainda não consigam entender sozinhos. Ele ouviu a história e sentiu pena do passarinho, com a justeza de uma criança de um tempo em que bodoque é peça de museu. Eu sofri com o menino por trazer na memória, como ele, as escolhas e os erros que me fizeram ser a mulher que hoje sou. Foi isso que tentei falar para o meu Pedro, que nós erramos ao não respeitarmos nossos limites e valores e os sentimentos dos outros. Mas que estes erros, todos cometemos um dia. O que nos resta é o arrependimento.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Minas: ô trem bão, sô!
Trem chegou, trem já vai, de José Carlos Aragão, ilustrado por Elma, da Editora Paulinas, me levou de volta a Minas Gerais, de onde acabei de chegar de uma breve viagem. Embarquei no ritmo do belo poema de José Carlos, inspirado em Manoel Bandeira, com seu maravilhoso Trem de ferro, e desembarquei na Estação de Mariana, onde me surpreendi com o projeto Trem da Vale. Ali, escondidas nas montanhas de Minas, a empresa mantém a praça lúdico-musical e uma bela biblioteca infantil aberta a quem quiser chegar. Eu cheguei pelo trem, vindo de Ouro Preto, onde também funcionam uma biblioteca infantil e o vagão sonoro-ambiental. Tudo em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto, que dá um charme todo especial à cidade mineira. Me fez lembrar da Biblioteca de Tebas, criada por iniciativa do Tio Knnaip, cunhado do meu avô Jacy, onde aprendi a gostar de ler junto com a meninada do pequeno lugarejo mineiro. Viva Minas Gerais, exaltada no poema de José Carlos e nas delicadas ilustrações da paraibana (ou será pernambucana?) Elma, resultado de um trabalho de linha e agulha e retalhos, finalizados por seu pincel. Ilustrações tão lindas que as páginas do livro até parecem um painel daqueles que as mães faziam antigamente para os filhos. Mas o melhor do livro é mesmo poder, a qualquer hora, voltar a Minas. É só deixar a imaginação ser embalada pelo ritmo do trem de José Carlos, que ganhou o selo Altamente recomendável pela FNLIJ 2003, na categoria poesia, e o Prêmio Adolfo Aizen de Literatura Infantil, em 2002, conferido pela União Brasileira de Escritores - UBE.segunda-feira, 27 de julho de 2009
Bicho-papão para tirar medo
Outro dia, vi pela primeira vez uma manifestação clara de medo por parte do Antônio. Ele que sempre dormiu super bem, com sono pesado, sem pesadelos, estava custando a adormecer. Só percebi o que estava acontecendo, quando ele deu um pulo, assim que ouviu um barulhinho. Naquele gesto vi o medo. Como tínhamos assistido à tardinha Mogli 2, o belo desenho do Walt Disney, perguntei se estava com medo. Com suas pouquíssimas palavras disse "é". Fui além e perguntei se era medo do tigre do Mogli, o terrível Sherikan. Ele disse novamente "é". O tranquilizei, dizendo que o tigre não viria à nossa casa e que eu e o pai dele o protegeríamos. Ouviu atento, arrumou o travesseiro e dormiu em seguida. Isso me fez lembrar o velho debate sobre histórias que metem medo. Quando era criança, meu pai não deixava ninguém contar histórias de bicho-papão para mim e meus irmãos. Ele dizia que eram histórias horrorosas, inventadas apenas para amedrontar as crianças e fazê-las obedientes e submissas à custa da insegurança. Posso até concordar com ele, mas em parte. Estas histórias foram por um longo tempo um meio de educar pelo medo crianças e adultos para os perigos do mundo. Mas eliminá-las do imaginário infantil não fará com que estes perigos desapareçam, nem com que elas não tenham medo. O medo está aí, no Antônio, de apenas dois anos, ou no Pedro, de 7 anos, e até em mim, burra velha, de 43 anos. Mas eles, aí que discordo do meu pai, têm a possibilidade de extravasar seus medos ao ouvirem histórias aterrorizadoras. Ainda mais, hoje, quando, nós adultos deixamos de acreditar nelas e, por isso, podemos contar a nossas crianças de forma lúdica e, assim, permitir que elas expressem seus medos. Por isso, o Pedro adora quando leio para ele Bicho-Papão pra gente pequena, bicho-papão pra gente grande, de Sônia Travassos, com ilustrações de Jean-Claude Alphen, editado pela Rocco Jovens Leitores. O livro é um divertido glossário sobre os mais horrorosos bichos-papões do imaginário popular e ainda traz uma coleção de bichos-papões criados pela autora para livrá-la da brabeza de sua mãe. Uma delícia. Mas acho que isso não vale para os filmes infantis que abusam da tensão para atrair a atenção da garotada. O realismo das cenas, animadas ou não, submetem as crianças a uma tensão que elas não estão preparadas para sofrer. Por isso, resolvi evitar alguns filmes para o Antônio. Mas as histórias sempre valem a pena.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Mais uma vez Manuel Bandeira
Este ano é de Manuel Bandeira. O grande homenageado da Flip vai ganhar, dia 18 de julho, mais uma homenagem. Desta vez, será na Biblioteca Popular de Santa Teresa, bairro carioca onde o poeta morou. Para falar da importância de sua obra, estará o também poeta e professor de Literatura da UFF Eucanaã Ferraz, que, na Flip, foi um dos palestrantes que falaram sobre o modernista. Tem tudo para ser bacana.
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